POLÍCIA-POLÍTICA ou O olhar que encerra e o olhar que multiplica, um manifesto Qorpo-Qrítico

 

 

Tomemos a apreciação da obra artística Como Cavalgar seu Dragão – e cuja sinopse expandida, assim como a temática central e origem do nome da peça você encontra aqui – e ensaiemos uma crítica do espetáculo em termos puramente especulativos. Digamos que a montagem, tanto a original do Teatro Inominável (2011), quanto a do Projeto TPE (Teatro, Pesquisa e Extensão) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), seja em formato presencial (2020), seja em formato audiovisual (2021), quando percebidos sobre o olhar do crítico fulminante, revelam defeitos e qualidades, expondo seus pontos fracos, apontando seus pontos fortes, e após algumas ponderações, concluímos que a peça nada mais é que um acachapante 3 estrelas de 5, quiçá 4 pelo esforço dos artistas em cena. Eis, portanto, a verdade sobre a peça, legitimada por um crítico teatral. Está revelado o caminho correto a ser seguido. Mas será mesmo?

A este formato de crítica, que alguns autores, dentre eles, Daniele Small, crítica e curadora teatral, chamam de crítica-polícia, em que importa mais analisar uma obra artística partindo de regras pré-estabelecidas e discursos específicos (sejam eles os critérios de encenação, figurino, iluminação, montagem, composição dramatúrgica, etc.), e cujas análises muitas vezes operam como valor de verdade e emitindo juízos de valor estético, moral ou técnico sobre a obra, dizendo se vale a pena ou não assistir tal obra, quantas estrelas ela merece, etc., para nós do Qorpo Qrítico, nada importa. Tal crítica seria inútil, inócua, sem valor. Deveria-se, portanto, inventar um novo formato, uma nova concepção de crítica, uma crítica-política. Deveria-se antes de mais nada perguntar: de qual crítica estamos falando?

 

 

“As perguntas levantadas anteriormente são exemplos da distinção entre duas noções de crítica: a crítica-polícia e a crítica-política.

A primeira é a que se pronuncia em nome de um regulamento estabelecido, que diz se algo está certo ou errado, resolve impasses, responde perguntas, desfaz os nós dos atravessamentos, explica e sistematiza, colocando cada coisa em seu lugar. De acordo com um determinado conhecimento, ela tem autoridade para validar ou não um objeto. É ela que abre o caminho (e um caminho apenas) entre o espectador e a obra: o caminho certo (…)

A crítica-política é aquela que – em vez de constatar as formas como a comunidade se constitui e contribuir para manter as coisas do jeito que elas estão – interfere na construção dos sentidos, exercita o discurso e, com isso, re-traça as linhas que contornam seus limites. Ela embaralha e redistribui as cartas no seu espaço de atuação. Essa crítica é aquela que faz perguntas, provoca deslizamentos, opera reconfigurações, aponta como abrir caminhos e não qual é o caminho. Enquanto a outra lida com adjetivos, ela articula conceitos. A dicotomia entre esses dois tipos de crítica é um exemplo de quanto conhecer é diferente de pensar.”

– Daniele Small, O que é, mais uma vez, a crítica?. Revista Questão de Crítica, 2008.

 

 

Se no primeiro formato, de crítica-polícia, pretende-se apenas encerrar questões e limitar as discussões que interfiram no olhar artístico sobre o espetáculo, com isso ignorando e apagando a particularidade dos processos de criação, e também camuflando as relações de poder e de mídia, escondendo os dispositivos de legitimação que permitem alguém constituir verdade sobre ela, por sua vez, uma crítica-política deve revelar, multiplicar todos eles. Extrapolar o espetáculo em si, transparecer os contextos adjacentes a obra, indicar as condições em que ela foi produzida, seu processo artístico de criação, dos artistas envolvidos, as reflexões sobre o devir artístico de tal obra, com quem e com o que ela pretende dialogar.

O Qorpo Qrítico, projeto de extensão da
UFRGS, disponibiliza em sua página
críticas de teatro e outras cenas, assim
como escritas sobre processos de criação.

Um lugar portanto, de um Qorpo Qrítico, cujo lugar é o do agenciamento. Da mobilização do leitor, do artista, do espectador. Que trabalha com um regime de sensibilidades. Tomado não como um aval final, como um carimbo que registra e valida o término de um processo artístico, mas como um diálogo, um convite aos atores, diretores, dramaturgos, espectadores, para construírem algo a partir dela, um ponto de partida para algo que a exceda. Um lugar colaborativo, ou seja, algo para o qual possa

compreender-se a complexidade do saber crítico, onde uma ou mais pessoas participam juntas dos mecanismos em jogo. Dito isso, fazemos um chamado a todos os artistas a compartilharem conosco insights sobre os processos de criação de suas obras, sobre como isso os afetam, os movem, agenciam seus sentimentos, além de informações técnicas sobre sua montagem (lembrando também que temos um espaço reservado no blog do Qorpo Qrítico somente a isso).

Como Cavalgar um Dragão, nesse aspecto, é uma peça generosa, já que todo o processo de criação de sua montagem original, do Teatro Inominável, em 2011, está publicado no blog do grupo <http://atravessar.blogspot.com/> ao longo de múltiplas postagens, o que possibilita um olhar mais aprofundado das dificuldades e contextos adjacentes a produção da obra. Havendo também como olhar complementar, de recorte etnográfico, a dissertação de Gustavo Guimarães, “Inventar aumenta o mundo: Investigações sobre teatro e suas possibilidades de reverberação no mundo contemporâneo.”, um trabalho que revela questões importantes sobre o processo criativo e colaborativo de tal peça (do zero ao produto final), inclusive conflitos adjacentes que não são revelados em nenhum outro lugar. A crítica, desta forma, pode expandir-se, ultrapassar os limites do espetáculo fechado em si mesmo, incorporando em sua análise informações vitais também sobre seu processo de criação.

O TPE (Teatro, Pesquisa e Extensão), mostra de teatro universitário gratuito apresenta um espetáculo a cada mês, todas às quartas-feiras, em dois horários: 12h30 e 19h30. Seu edital, no entanto, não prevê a publicação de material sobre processos de criação, somente a apresentação do espetáculo.

Já nas versões do TPE, há pouco insight sobre os processos de criação, destacando-se somente o texto disponível em nosso blog da edição 2019 do TPE pela atriz Nairim Tomazini, “Como Cavalgar um Dragão: os (des)encontros dentro do processo de criação”; não havendo também nenhum material disponível sobre o processo criativo da versão audiovisual de 2021 (pela qual estamos de braços abertos a publicar). A crítica, por esse lado, é obrigada a encolher-se, limitar-se ao espetáculo, perdendo muita de sua potência, assim como sua capacidade de auxiliar os artistas, também por não entender as nuances do processo que deram origem a ele.

A Mostra DAD é uma mostra de teatro universitário que diz respeito aos trabalhos de estágio dos alunos formandos. Também aqui não são publicados as nuances do processo criativo, ficando reservado, facultativamente, aos alunos, sua publicação nos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC).

De qualquer forma, mas também como críticos em formação, como Qorpo Qrítico, salientamos junto aos artistas, sejam do TPE, da Mostra DAD (mostra teatral, responsável pelos estágios de conclusão dos alunos do Departamento de Arte Dramática da UFRGS), ou mesmo de trabalhos artísticos que extrapolam a universidade, da importância da publicação de elementos importantes ou da participação de um crítico em seus processos de criação como forma de contribuir com a obra. O projeto TRANSIT, do Instituto

O Projeto Transit, do Instituto Goethe, inova ao permitir a participação de críticos teatrais durante o processo de criação de suas peças. O portal Agora Crítica Teatral acompanha a estreia, escrevendo tanto sobre o processo de criação quanto sobre o espetáculo.

Goethe, de Porto Alegre, por exemplo, já se antecipou aqui no Estado, e considera agora em seu edital também a posição do crítico de teatro, agora participante do processo de construção da peça, publicando ao seu término, duas críticas separadas, uma sobre o processo, outra sobre o produto (espetáculo), trabalhando assim os dois braços adjacentes de uma obra. Assim, numa aliança entre artista e crítico, entre um lado e outro, entre pé e antepé, pode-se ir mais longe. Todos temos a ganhar.

 

 

 

~~ Esta é a parte dois (II) de um texto de quatro partes. Vejo vocês no próximo episódio.~~

 

 

Ficha Técnica do Espetáculo:

Elenco: Claudia Carvalho, Nairim Tomazini, Mariana Fernandes e Pedro Schilling

Direção: Henrique Strieder e Renata Lorenzi

Roteiro: Henrique Strieder, Mariana Fernandes, Nairim Tomazini e Grupo. Inspirado na obra homônima de Diogo Liberano.

Direção Audiovisual, Operação de Câmera e Edição: Renata Lorenzi

Assistência de Direção: Pedro Schilling

Preparação de Elenco: Renata Lorenzi

Criação e Operação de Luz para Teatro: Henrique Strieder

Operação de Som para Teatro: Renata Lorenzi

Trilha Sonora Pesquisada: O Grupo

Figurinos: O grupo

Cenografia: O grupo

Fotos do Espetáculo: Gabriel Viero

Produção: Cláudia Carvalho, Nairim Tomazini, Mariana Fernandes e Pedro Schilling

Contribuição Artística: Luciana Éboli

Duração: 20 minutos

Classificação indicativa: 14 anos

 

Sinopse:

É possível ultrapassar uma coisa que não tem resolução? Baseado na dramaturgia de Diogo Liberano, o espetáculo conta a história de cinco pessoas que se veem obrigadas a enfrentar e tentar superar a morte precoce de uma amiga. Como Cavalgar Um Dragão traz questões como a morte – vista como esse ser místico e incompreensível – a perda, e como as relações se estabelecem a partir dela. O que você faria em frente ao inevitável?

 

 

 

 

 

Qorpo Qrítico – Vol. 03, n. 08, outubro de 2021 a janeiro de 2022. ISSN 2675-4207.