Teatro em estado de Travessia

 

Na peça Travessia, a atriz Nora Prado veste uma roupa cinza marcada por alguns círculos coloridos. Uma cadeira e uma mesa com livros, fotos e desenhos seguem a mesma paleta: preto, branco, cinza e pontos de cor vibrante. Pontos de vida, como ilhas onde a arte e identidade persistem. Ela encara o público com confiança, naturalidade e coragem, iniciando uma conversa franca sobre a própria concepção da peça e os obstáculos encontrados pelo caminho, entre eles comentários como: “Isso não é teatro, não tem conflito”.

 

Então, compartilha uma parte de sua história: o diagnóstico de câncer e os desdobramentos do tratamento na saúde, no trabalho e na família. Sim, o que está em cena é sua vida real, mas organizada por uma linguagem dramatúrgica e apresentada em um tipo de encontro que só o teatro pode proporcionar.

 

Documental, autoficcional, biodrama… muitos foram os termos que me vieram à mente ao perceber os recursos que Travessia mobiliza. Todos, sem dúvida, são teatro.

 

A força da montagem também está na forma como Nora constrói sua relação com a plateia. Seu olhar encontra o nosso sem barreiras, e a proximidade que estabelece transforma o espetáculo em uma partilha. Ao mostrar fotografias, desenhos e fragmentos de seu acervo pessoal, ela nos convida a atravessar aquelas memórias junto com ela. Aos poucos, deixamos de apenas observar uma história para nos sentirmos inseridos nela, como testemunhas de uma experiência que ganha novos sentidos ao existir no palco, naquele instante.

 

O conflito pulsa tanto na história contada quanto na forma de contá-la. Uma força que está na travessia de vida, de linguagem e de encontro. 

 

Afinal, o que é o teatro senão um espaço onde corpo, memória, imagem, história e presença se atravessam?

 

 

Ficha Técnica

Texto e Autoria: Nora Prado

Direção: Adriane Mottola

Elenco Principal: Nora Prado e Aramis Prado

Assistência de Direção e Cenografia: Duda Cardoso

Direção de Movimento: Angela Spiazzi

Iluminação: Ricardo Vivian

Música Original: Everton Rodrigues

Figurino: Coca Serpa

Identidade Visual: Leandro Selister

Fotografia: Fernanda Chemale

 

Qorpo Qritico – Vol. 8, n. 21 – abril a julho de 2026. ISSN 2675-4207