O lugar que nos habita

(Vinheta anuncia programa de rádio. Locutora fala com música animada ao fundo.)

 

Locutora: Alô ouvinte! Seja muito bem-vindo a mais um quadro divertidíssimo, o programa “Você sabia?”. Vamos começar com uma homenagem aos nossos patrocinadores: a linha de produtos Hipólito. Você sabia que além de nomear a marca parceira aqui do nosso programa, Hipólito já nomeou muita coisa ao longo do tempo?

 

Você sabia que Hipólito é uma tragédia grega? Escrita por Eurípides, ela acompanha o jovem príncipe que desperta a ira de Afrodite.

 

Você sabia que Hipólito é o sobrenome de uma sobrevivente de tentativa de feminicídio? O caso ocorreu em 2021 e sensibilizou o país inteiro.

 

Você sabia que tem até uma peça de teatro de Porto Alegre chamada Hipólito – Tudo Vai Desmoronar com o Peso da Chuva? Você sabia que a história se passa na cidade fictícia de… “Hipólito”

 

(Programa de rádio é interrompido bruscamente.)

 

Não. Essa história não se passa em Hipólito. Está na fronteira, trincheira, marginal, lugar nenhum que vai se tornando lugar de todas. 

 

Nesse universo, a chegada da Lua Vermelha, madrugada mais longa do ano, intensifica violências e coloca toda a cidade em estado de alerta, sobretudo as mulheres. Momento em que algumas se afastam, seja buscando refúgio ou vingança. 

 

No esconderijo, todas encontram um espaço para compreender cicatrizes e entender o que podem fazer diante de tanta dor. Ainda fica um estado constante de alerta, presente em cada milímetro. Essa sensação se manifesta nas lembranças do que aconteceu na cidade, na mobilização, nos dilemas e até nos silêncios. 

 

Será que é possível deixar Hipólito para trás?

 

No palco, mulheres com histórias e estratégias distintas são representadas, refletindo como cada personagem enfrenta a revolta e a sobrevivência. De maneira sensível e direta, a obra retrata a desumanização sem deixar a pluralidade e complexidade de lado. 

 

Entre feridas do passado e temores do futuro, se evidencia a persistência da violência contra a mulher. A atmosfera de atemporalidade nos lembra de diferentes épocas simultaneamente, tanto pela mescla de elementos futuristas e nostálgicos, quanto pelas múltiplas referências trazidas logo no título. A tensão segue do começo ao fim, como um grito que ecoa mesmo em silêncio. Medo que não finda, não se dissolve, não se resolve, existe o tempo todo há tanto tempo.

 

Até mesmo o animadíssimo programa de rádio funciona como denúncia. Ele escancara os esforços para desviar o olhar do problema por meio de eufemismos, distrações e mecanismos de culpabilização da vítima. Enquanto a rádio parece atenuar o assunto, a peça cria um espaço além de Hipólito onde não é preciso fingir que nada está acontecendo. É urgente romper o silêncio e encarar o ódio e a violência contra as mulheres.

 

 

Ficha Técnica:
Elenco: Carol Martins, Hênrica, Juçara Gaspar, Maya Marqz, Negra Jaque, Raquel Zepka e Silvia Duarte
Direção: Carla Cassapo
Dramaturgia: Raquel Zepka
Concepção Cênica: Carla Cassapo e Raquel Zepka
Orientação Corporal: Daniella Visco
Preparação Trapézio e Técnico Responsável: Guilherme Gonçalves
Trilha Sonora Original: Gabriela Lery
Figurinos: Mari Falcão
Cenografia: Yara Balboni
Iluminação e Operação de Luz: Nara Maia
Operação de Som: Anne Plein e Negra Jaque
Locuções em Off: Fábio Rangel
Fotografias: Adriana Marchiori
Assessoria de Imprensa: Bebê Baumgarten
Redes Sociais: Paloma Sanchez
Artes Gráficas: André Varela
Direção de Produção: Rafaela Zwierzynski
Assistência de Produção: Carla Cassapo
Produção Executiva: Raquel Zepka

Qorpo Qritico – Vol. 8, n. 21 – abril a julho de 2026. ISSN 2675-4207