Make Fabico Weird Again #1
Por Pietro Scopel
O objeto de análise é um evento realizado por alunos da UFRGS. Grande parte do público também é aluno, a maioria estão nos semestres iniciais e dos mais variados cursos. Devido a sua fama de alguns anos, o evento, que acontece semestralmente, geralmente um no início e outro mais para o final do ano, atrai a atenção de outros jovens da cidade de Porto Alegre. Não se pode partir do princípio que o público ou o evento faz parte de uma cena musical, mas também é uma mistura, e talvez essa seja uma das primeiras definições sobre fenômenos musicais contemporâneos: uma grande mistura. Quando pensamos as articulações entre música, comunicação e cultura, nesse contexto, exploramos conceitos da cartografia musical. O sujeito que circula pelos diversos núcleos ao longo do percurso é atravessado por infinitas sensações, como em uma sobreposição de camadas de sons e signos, que vão moldando e criando novas experiências, ressignificando, mesmo que apenas por algumas horas, as ruas e praças da cidade.
O objeto a ser investigado é o evento Bar em Bar, realizado pelo diretório do curso de arquitetura da UFRGS em Porto Alegre em 22 de novembro de 2024. Esse objeto foi escolhido na intenção de documentar uma parte do momento presente, ou o quanto em uma simples noite diversas pessoas se reúnem como num ato de dominar a cidade. Pode-se notar a profundidade do objeto aqui estudado, devido sua análise que buscou referências no jornalismo gonzo. Onde o sujeito analisador se mistura ao evento e da mesma forma que o público, se permite vivenciar as conversas, cenários e atmosferas que só ali ganham vida, como uma corporeidade coletiva[1].
Como tudo na vida tem um início, aqui não seria diferente. Existem histórias que são contadas de geração em geração, ou simplesmente, você pode ter escutado a melhor história da sua vida no meio da madrugada, de uma pessoa que você acabou de conhecer, completamente bêbado, em uma área de fumantes lotada. Isso só reforça que certos fatos devem ser levados a sério. Bom, uma dessas fábulas nos diz que, quando temos uma festa que acontece na rua, de graça, que começa às oito horas da noite de uma sexta-feira e não tem hora para acabar, precisamos estar preparados fisicamente, mas principalmente, ter mantimentos que permitam altas doses de alegria por muitas horas (entende-se como mantimentos produtos a base de açúcares, gorduras, cafeína, taurina, nicotina, entre outros).
O ENCONTRO
O momento antes da festa, comumente chamado de aquece, costuma ser na casa de alguém que mora perto do local onde será a festa ou estabelecimentos também próximos ao local como, supermercados, tabacarias ou até mesmo postos de gasolina. É o abrir das cortinas que já dá os primeiros sinais do que virá pela frente. Vale ressaltar que essa festa, por ter a característica de, como já dito antes, acontecer na rua, abre a possibilidade de não haver limites para convidados ou participantes, isso faz a maior parte do público estar em grupos de cinco a dez pessoas, o que também gera uma falsa sensação de segurança e proteção contra furtos e assaltos.
O bairro Centro Histórico começa a ser tomado pelos jovens, mais especificamente em frente à Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Um detalhe muito crucial de toda essa festa é que o evento vende ingressos, chamado de passaporte, para quem quiser beber apenas cerveja. Sim, você leva seu copo e vai passando em bares selecionados, o que justifica o nome do evento, dentro de um trajeto, enchendo de cerveja quantas vezes quiser (esse trajeto deixou de ser divulgado). Muitas pessoas acham isso o maior diferencial dessa festa e levam copos especiais ou canecas dos seus cursos da faculdade com grandes tirantes, clássicos em cervejadas universitárias, e talvez essa seja uma das poucas semelhanças com outras festas universitárias. Mas isso não impede que muitas pessoas comprem suas próprias bebidas, geralmente vinho, whisky e vodka de marcas duvidosas, misturas com bebidas energéticas também de marcas duvidosas, acompanhada de um grande saco de gelo que mesmo dentro de várias sacolas, vai derretendo criando um rastro, em um ato político e até mesmo poético de demarcar os limites desse mapa se que cria, desaparece e se refaz pelas ruas e calçadas da cidade.
O MEIO
Com o passar das horas, é surpreendente a quantidade de pessoas que estão ali presentes. A passagem pelo final da Avenida João Pessoa em direção ao primeiro bar na Praça Conde de Porto Alegre, já é caótico, ninguém respeita as sinaleiras, irritando motoristas. Os jovens se instigam manifestando gritos políticos inundados pela euforia como – “a cidade é nossa” […] “fora Melo”, entre outros palavrões, xingamentos e ofensas trocadas com os motorista em meio a assobios, buzinas e entregadores de moto que passam acelerando, cortando de giro, que em seu tom e cadência dita o ritmo da orquestra.
A cidade acorda. Moradores de prédios, pois dificilmente você encontra casas nesse bairro central, olham pelas janelas com expressões de espanto e alguns que contagiados, abrem suas janelas e abanam, conversam, a energia sobe e todos ali têm uma certeza, a festa, ou rolê como é comumente chamado, estava acontecendo. Os vendedores ambulantes entram na dança e vão suprindo aqueles que, por motivos diversos, precisam de algum líquido. Ainda seria muito cedo para esse fato, mas, os primeiros sinais de altas quantidades de substâncias no corpo, sim, no corpo, pois entre tudo isso os flertes já estavam acontecendo desde o início, já eram evidentes.
Devido a motivos óbvios de orçamento do evento, não existe um paredão de som, ou estrutura que permita que todos ouçam a mesma música. É uma festa onde existem vários DJs com sua própria aparelhagem de som, normalmente caixas portáteis de médio a grande porte (como referência as caixas da marca JBL) que com playlists em seus aplicativos de música no celular, a todo volume, compartilham seu gosto pessoal que ali vai de encontro a outros gostos individuais de uma grande coletividade musical. Desde hits do pop internacional como Taylor Swift ao funk com Mc Rodrigo do CN, com o deslocamento da multidão, tudo se mistura. Todos querem ouvir algo animado para cantar alto junto com seus amigos, dançar ou chamar a atenção de flertes que já recebeu na noite. Isso se torna algo um tanto quanto complicado em ruas pequenas e apertadas do centro histórico de Porto Alegre, onde em determinados trechos da Rua Duque de Caxias era impossível sair do lugar e se mexer. Isso, de certa forma, facilitava a interação entre grupos que em geral eram carismáticos e compartilham afetos, mesmo que de cenas diferentes.
É também o encontro dos gêneros musicais como o rock, pop, rap e funk, em suas mais diversas diferenças, mas que ali se uniam, mesmo que normalmente estariam em lugares bem distantes. A música é um ponto central nesse texto, pois, existe festa sem música? A música com um pano de fundo, é o coadjuvante, na sua mais sutil expressão, molda o ambiente. Quando é o ator principal, ela toma conta, e assim não falamos mais apenas de sonoridades, mas sim de algo mais profundo, como a frequência. É notável que durante o dia, aquele trajeto que se estende pela Rua Duque de Caxias e Jerônimo Coelho, é pacífico e calmo, mas naquele momento, a frequência era a mais alta possível, e era até possível escutar o silêncio que existe entre corpos e a música.
O evento Bar em Bar é um grande encontro de diferentes jovens da cidade. Em determinados pontos do trajeto, era possível ver o quanto as pessoas estavam confortáveis de estarem ali. Deve ser por isso que é uma festa tão diversa e querida pelo público. Muitos daqueles jovens em maior parte são brancos de classe média, que normalmente frequentam bairros como a Cidade Baixa, Bom Fim e 4o Distrito, uma área mais central de Porto Alegre. Buscam rolês mais baratos e bares movimentos. Um público que para a Polícia Militar e Guarda Municipal, não oferecem risco, então mesmo que uma viatura seja vista pelas redondezas, não é um sinal para correria, gás de pimenta ou balas de efeito moral, como normalmente essas corporações tendem a atuar em outros cenários.
Os bares que participam ou não do evento, contribuem com sua ambientação mais boêmia e simples, ou melhor, são engolidos pelo mar de pessoas, que buscam banheiros desesperadamente. Devido a grande quantidade de pessoas que vão em direção a ponte da Avenida Borges de Medeiros e a Praça da Matriz, containers de lixo, jardins de prédios, fachadas de lojas e até as portas dos carros estacionados se tornam o lugar perfeito para ser utilizado como um banheiro. São os rastros de dominação da cidade.
[…] não estamos tratando somente da existência de locais onde se partilha e se vive a música, como também da ideia de trajeto como possibilidades de deslocamento, de partida e de chegadas a certos lugares, assim como de impedimentos e confinamentos, apontando para questões que articulam, configuram e barram os entrelaçamentos entre tecido urbano e música (MONTEIRO, 2024, p. 2).
O FINAL
Quando o mar de pessoas encontra o Monumento Julio de Castilhos no centro da Praça da Matriz, a primeira reação é escalar o mais alto possível.


Fotos divulgadas pelo perfil no Instagram @barembardafa
Como um ato de buscar mais do que pertencer, se juntar de fato a cidade e se tornar um só, os jovens sobem no monumento, decretando, com a chegada do estandarte do Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura (DAFA) que guia a multidão desde o início, a vitória e a conquista, mesmo que apenas por algumas horas, daquele território. É o momento pós-caos, quando decisões já foram tomadas, pessoas se perderam e nunca mais voltaram, teve quem foi embora e teve quem ali curtiu as últimas horas desta peregrinação noturna.
Conforme Monteiro (2024,p. 2): “imaginar a música a partir dos aglomerados urbanos é um fazer que permite pensar as cercanias da cidade, a transformação de espaços em lugares significativos e a coexistência, nem sempre apaziguadora, de diferentes cidades em uma só. Essa perspectiva pressupõe tessituras que articulam corporeidades, trajetos, espacialidades e artefatos tecnológicos em práticas musicais que materializam a cidade através de ambiências comunicacionais”.
Ao vivenciar essa experiência se permitindo absorver pequenas nuances de cada olhar, sorriso ou conversas, percebe-se dinâmicas de novas gerações, levando em conta que a grande maioria tinha em torno de vinte e dois anos. Um público enérgico, ansioso, que com celulares nas mãos querem registrar tudo a todo momento.
Depois da Praça da Matriz, o público se dispersa como um rio que se desvia por caminhos imprevisíveis, sem regras, sem destino certo. Da Praça dos Açorianos ao vibrante bairro Cidade Baixa, o corpo se move ao ritmo de uma festa que pulsa pela cidade. Quando o relógio marca mais de uma da manhã, as ruas ao redor já se entregam ao silêncio, e a música, antes potente, se dissolve no ar como uma lembrança efêmera. Era o fim, mas também o começo de algo mais: a música foi apenas o convite, o corpo, a verdadeira celebração.
Referências
MONTEIRO, Gabriel; CARNEIRO, Giovanna; BARREIRO, Heloise; JANOTTI JR., Jeder. Inimigos do fim: apontamento sobre o circuito de “afters” no Recife. Artigo apresentado no 33º Encontro Anual da Compós, Niterói, Rio de Janeiro: UFF, 2024.
[1] A corporeidade é a consciência e a experiência do corpo humano, que envolve a relação entre o corpo e o ambiente, as sensações físicas, as emoções e o movimento. A corporeidade pode ser entendida como a relação entre um corpo e outro, ou entre um corpo e o meio em que vive. A partir dessa perspectiva, o corpo possui uma singularidade própria, que só se entende na convivência com outros corpos.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.