Introdução/Editorial

Na sua terceira edição, a disciplina eletiva Seminário de Cultura e Comunicação, ofertada para os cursos de comunicação da Fabico/UFRGS, convidou as alunas e os alunos a refletirem nos textos que produziram, a respeito das formas como as materialidades da música colocam em movimento produções de subjetividade relacionados aos grupos minorizados socialmente. A construção cultural de gênero e raça, bem como outros marcadores sociais de diferença, ocorre através da música, assim como em outras instâncias da cultura. 

Para evidenciar isso, foi preciso se debruçar sobre diversos fenômenos musicais, atentando para os equipamentos envolvidos na sua produção e também para as maneiras como esses equipamentos estão envolvidos em processos históricos, sociais, culturais, econômicos e políticos. 

Ainda que essa proposta se mostrasse desafiadora, os textos desenvolvidos pelas/es/os estudantes, que podem ser conferidos nesta edição, demonstram algumas maneiras pelas quais podemos questionar e problematizar as formas como a música, em suas mais variadas materialidades, é capaz de produzir diferença nos corpos tanto dos sujeitos quanto dos próprios equipamentos. 

Algo que procuramos criticar ao longo do semestre foi um certo  imperativo cultural a respeito das formas que a música expressa marcadores sociais, como se essas significações pudessem ser feitas apenas em elementos “além-da-música”, como na sua letra, na identidade pública do cantor ou banda, no modo como estas/es artistas se vestem, se portam ou o que escrevem em suas redes sociais. As reflexões promovidas pelos textos que compõem esta edição da revista demonstram que é possível articular as materialidades da música com os estudos de gênero e sexualidade. 

O semestre também contou com duas oficinas cujo objetivo era fornecer um outro tipo de experiência pedagógica, que não passa pela sala de aula, mas convida alunas/es/os a exercitarem a sua escuta modulando ela numa espécie de “escuta atenta”. Na primeira delas, conduzida por Marcelo Bergamin Conter, professor da disciplina, e Taís Cardoso, doutoranda em artes visuais pelo PPGAV do Instituto de Artes da UFRGS, a turma experienciou uma performance de arte sonora a partir de slides inundados de obra de Maria Helena Bernardes. Os pesquisadores performaram, com uma guitarra preparada, a tradução sonora para os slides, empregando modos alternativos de se tocar o instrumento, com parafusos, réguas, escovas de dente, ganchos e captadores de contato, utilizando pedais de efeito para modular os sons produzidos. 

A segunda oficina foi conduzida pela artista, cantora, produtora e técnica de som porto alegrense Viridiana. Através de duas performances sonoras, utilizando a voz como instrumento e modulando ela através de loops, efeitos e alterando a sua altura. Esta oficina teve como objetivo fornecer, além de uma “escuta atenta”, um modo dos estudantes conseguirem compreender como as materialidades da música influem sobre o processo de construção de gênero e como elas fornecem capacidade de subverter com o que está estabelecido. Por exemplo, ao descolar frequências graves associadas à masculinidade e frequências médio-agudas e agudas à feminilidade, processo que Viridiana efetuou aplicando moduladores e auto-tune em sua voz.

Nesta edição temos oito textos redigidos por grupos de estudantes e um texto elaborado a partir da experiência da aluna responsável pela monitoria desta disciplina. Em homenagem à Timothy Leary, abrimos as portas da percepção com o texto Sem Título a Dois – Série de cartas-devaneio depressoras, estimulantes e perturbadoras, de Anna Victoria e Henrique. Através de uma série de relatos misturados com baforadas, tecos e tragadas de teoria, demonstra como a experiência musical é modulada por uma série de estimulantes que atravessam nossa experiência de escuta. “Turn On, Tune In, Drop Out”.

Seguimos com um bloco de textos que lida com tecnologias e suas modulações com os corpos humanos. Grave, Corpo e Dissidência, das alunas Giovanna, Isabela, Maria Eduarda e Sofia, investigando a relação da drum machine Roland TR-808 com comunidades dissidentes, e como elas se apropriaram do seu som. O próprio 808 foi um instrumento musical que, ao ser lançado, quase foi um fracasso de vendas, só mais tarde sendo apropriado por gêneros como o house e o funk, encontrando seu lugar inconteste na história da música pop. Continuando, o texto Samples como Tecnologia de Ressignificação e Reapropriação para a Voz Negra, de Carolina, Eliana e Emily, apresenta a forma como a prática de sampleamento foi central para a constituição de uma cultura negra, atentando como isso o sampleamento muitas vezes se configurou como uma prática de retomada cultural daquilo que os brancos haviam se apropriado sem creditar artistas negros. A partir de um estranhamento causado pelo Vocoder, equipamento de processamento vocal, Eduardo, Leon, Marina e Pedro, nos instigam a pensar no limiar entre o que é “orgânico” e o que é “maquínico” e como essas noções se atravessam quando prestamos atenção na voz no texto Vocoder e o limiar do corpo. A voz é pensada aqui como um elemento sonoro que serve como um dos principais signos do humano, e também do gênero. Estendendo o entendimento de equipamentos musicais para a cenografia de shows de música pop e hip hop, Por que elas constroem castelos e eles sobem montanhas? Cenografia e sentidos de gênero no pop e no hip hop, de Ana Luiza, Gabrieli, Julia e Lauany, propõe um questionamento a respeito de como os palcos nos quais os artistas de música pop e hip hop se apresentam constroem sentidos de gênero através de seus elementos.

O último bloco de textos trabalha com uma perspectiva voltada para pensar as modulações entre corpo e tecnologias musicais ao vivo, em shows e em festas, na relação entre público e música. A invisibilidade dos corpos queer na discotecagem em vinil, de Bruna, Dorian, Kerolyn e Manuela, demonstra como a discotecagem em vinil se configura como um espaço de exclusão de corpos não-masculinos. Trazendo essa questão para a percussão, Júlia, Lara e Manoela, oferecem uma investigação a respeito da exclusão produzida sobre os corpos femininos sob o pretexto da “fragilidade” no texto Mulheres Na Percussão: Tecnologia, Gênero e Ocupação de Espaços Musicais. A partir de uma experiência no grupo de percussão apenas para mulheres, As Batucas, o grupo demonstra como essa exclusão atravessa culturalmente a nossa sociedade, fazendo com que os instrumentos percussivos se tornem algo limitado a apenas corpos masculinos. Já em Roda Caçamba e o processo de resistência cultural na cena do samba na cidade de Porto Alegre, Laura, Mirela e Vivian, apresentam a Roda Caçamba, uma roda de samba porto alegrense formada apenas por mulheres, como um coletivo capaz de oferecer uma alternativa ao hábito cultural de perceber o samba como um espaço eminentemente masculino. Por fim, em TRÁ: o leque como instrumento percussivo e produtor de multidões queer em shows de música pop, Raquel, monitora da disciplina, propõe o leque como um objeto que compõe um arranjo sócio-técnico com a comunidade LGBTQ+. Através da sua percussividade, o adereço deixa de servir para refrescar e passa a agenciar uma multidão que se forma em torno de uma prática comum: bater leque. 

Agradecemos a Taís Cardoso e Viridiana por aceitarem participar das oficinas que propomos ao longo da cadeira. Esses encontros se mostraram transformadores tanto para os alunos quanto para os docentes.

Também agradecemos a Raquel Bruhn por todo o engajamento na monitoria desta disciplina, feita com muito cuidado, atenção e proatividade!

Boa Leitura!

Texto publicado na edição #3 da revista digital derivada da disciplina Seminário de Cultura e Comunicação. Título da edição: Latências: Tecnologias Sonoras como Territórios de Resistência, Identidade e Dissidência. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, julho de 2026. 

X JORNADA DE SEMIÓTICA E CULTURAS DA COMUNICAÇÃO – Chamada de trabalhos

X Jornada de Semiótica e Culturas da Comunicação vem ai!!!

Colegas, é com alegria que abrimos a chamada de trabalhos para a décima Jornada de Semiótica e Culturas da Comunicação. Desde 2017, nos encontramos anualmente para discutir o andamento das pesquisas vinculadas ao GPESC, com foco nos trabalhos em desenvolvimento de iniciação científica, de mestrado e de doutorado. Também contamos, ao longo dos anos, com palestras, mesas temáticas e assembleias para discutir o futuro do GPESC. O evento tem sido um espaço importante para a formação de tod@s nós.

Para nosso décimo encontro, planejamos a seguinte estrutura:

  • O Núcleo de Pesquisa Semiótica Crítica (NPESC) irá produzir uma mesa temática de abertura, além de organizar, em conjunto com a Associação de Pesquisas e Práticas em Humanidades (APPH), um evento de celebração do centenário de Gilles Deleuze, que acontecerá junto à Jornada;
  • Tod@s pesquisador@s de iniciação científica, de mestrado e de doutorado participantes dos núcleos Corporalidades, GPAGI, NPESC e SemSono podem se inscrever e terão reserva de vagas;
  • Egress@s desses núcleos do GPESC também poderão inscrever trabalhos. Para esta categoria, teremos vagas limitadas.

Cronograma:

20/4 – Prazo limite para envio de resumos

21/4 a 30/4 – Produção dos pareceres

3/5 – Envio dos aceites / pedidos de revisão

10/5 – Limite para receber resumos revisados

15/5 – Divulgação da programação do evento e caderno de resumos

1, 2 e 3/6 – Evento presencial

Para se inscrever, é preciso elaborar um resumo expandido e enviá-lo no formato .docx (clique aqui para acessar o modelo) por meio deste formulário de inscrição, que também deve ser preenchido.

Encontros e Desencontros de Bar em Bar

Z: Zonas, zumbidos e um Zzzzilhão de coisas #2

Por Bruna Bösing Minho, Ignácio Cordeiro, João Vítor Debiasi e Mariana Reyes 

O nosso relato será organizado por cores, para que o leitor identifique facilmente quem está falando. As experiências da Bruna aparecerão em rosa, as do Ignácio em verde, as do João Vítor em azul e as da Mariana em bordô. Optamos por essa paleta por preservar a legibilidade e, ao mesmo tempo, evidenciar quando nossos relatos se encontram, se afastam ou até mesmo se contradizem.

O Bar em Bar é aquele tipo de evento que, mesmo quando não é bom, continua sendo bom pela simbologia. Em um primeiro momento, o que chamou atenção foi a empolgação coletiva que se formou quando o retorno de um dos rolês mais adorados pelos universitários de Porto Alegre foi anunciado. Um porto-alegrense pode até torcer o nariz para o Bar em Bar, mas vai defender sua existência como quem defende um patrimônio emocional. Parte dessa excitação veio do hiato imposto pela prefeitura, uma prefeitura, digamos, nada simpática para qualquer pessoa munida de bom senso.

Eu, no entanto, não estava tão animada para comparecer, mas esse era especial: marcava não somente o renascimento da festa como também a vitória dos alunos em exercer o seu direito de ocupar a cidade. A empolgação inicial começou a evaporar conforme o evento se aproximava. E isso parecia geral. Todo mundo com quem eu falava ao longo da semana dizia que iria, mas sempre num tom desanimado, quase protocolar.

Essa vibe de “vou porque tem que ir” me chamou atenção. A semi-resposta que consegui elaborar é que essa sensação nasceu do próprio contexto e das mudanças impostas para que o evento acontecesse.

Os boatos anunciavam um percurso controlado, delimitado pela Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC). Esse suposto controle chegou a despertar um sentimento de que o propósito de invasão e ocupação da rua seria invalidado. Como propõe Camila Proto (2019, P.109), em seu ensaio Territórios resistentes: Arte, som e sociedade – “Na pós-modernidade, o espaço, que antes era delimitado por sua função, tornou-se lugar múltiplo, que independe de qualquer finalidade ou codificação social prévia. É dizer, também, que em um mundo globalizado e pós-industrial, todos os lugares públicos acabaram, consequentemente, tornando-se lugares de consumo e, logo, lugares privados”. Isso explica alguns movimentos censuradores da vida boêmia na cidade, e consequentemente, desperta a vontade dos jovens de apoiar esse movimento de contracultura que o Bar Em Bar representa nesta edição. E foi assim que, às vésperas do rolê, o anúncio de que a Praça da Matriz estaria fora do percurso contribuiu para o receio sentido por amigos próximos. Foi dito, em uma publicação no Instagram, no perfil do evento, que estava proibida a aglomeração de pessoas na região e foi destacado o alerta de que não seria permitido escalar o monumento central da Praça. No post em questão, o Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura (DAFA) explica que incluir o espaço na rota reforçava ideias que não condizem com a ocupação e ressignificação da cidade e de seus espaços de forma “saudável e responsável”.

A retirada da parada na Praça da Matriz foi uma reclamação unânime. A Matriz sempre foi o ponto alto, a imagem mais representativa, a coroação do caos bonito que o evento traz. Ela nunca foi ponto final oficial, mas era tão querida que muitos participantes simplesmente abandonavam o estandarte e encerravam por lá.

O Bar em Bar estava virando um evento “liberado” pela prefeitura. Parecia que aquilo que antes era puro fluxo — um rizoma se espalhando pela cidade — estava virando uma rota institucionalizada. Um território capturado. A cidade, que deveria ser vivida como devir e não como mapa pronto, estava tentando organizar o imprevisível. E, no semestre, discutimos o quanto esse evento é profundamente político. Ocupar as ruas do Centro Histórico com milhares de jovens é um ato político em si, mesmo que a pessoa não vá com essa intenção. A ocupação acontece porque vivemos numa cidade que nos tira das ruas — seja pela insegurança, seja pela gentrificação. Um Bar em Bar liberado pela prefeitura deixa de ser ocupação. E isso parece ter afetado até quem nunca pensou politicamente sobre ele.

O caráter itinerante do evento, movendo uma grande massa de pessoas que procuram habitar a cidade, é uma manifestação exemplar daquilo que apontam os autores de Inimigos do fim: apontamentos sobre o circuito de “afters” no Recife, no que diz respeito ao ambiente comunicacional, à corporeidade, às ruas e aos entraves. O artigo trabalha os conceitos de cidades musicais: a articulação entre música e cidade, materializada em percursos, pressupõe corporeidades que surgem dos acoplamentos entre corpos humanos e não humanos, trânsitos, lugares, dispositivos técnicos e possibilidades que vivências musicais associadas ao imaginário de cidade possibilitam para os corpos que habitam o universo dos trajetos das cidades ditas musicais. Como bem sabemos, há todo um imaginário audiovisual ligado a corpos e ambientações que tocam, dançam e encenam diferentes categorizações, gêneros musicais e as cidades dentro da cidade.

Eu nunca tinha ido. Quer dizer, fui uma única vez, no ponto final do trajeto, na Praça da Matriz. Desta vez, porém, comecei do início. Cheguei por volta das 19h30 em frente à Faculdade de Arquitetura, no Campus da UFRGS. A cena já era de movimento. Grupos se formando, conversas cruzadas, latas abrindo, aquela energia de começo de noite. Encontrei a minha amiga, Gabriela, e ficamos bebendo e colocando a vida em dia. Só meia hora depois lembrei de ativar minha localização no Strava, gesto que já denunciava o desejo do nosso grupo de registrar aquela experiência de viver a cidade a pé, no fluxo.

A Gab contou que já tinha ido a três edições, embora sem muito entusiasmo pelas experiências anteriores. Eu, estreante, ouvia tudo com curiosidade. Logo ela reencontrou alguns amigos, e nos juntamos a eles. Foi ali que percebi algo que marcaria minha noite: naquele evento, especificamente, as pessoas parecem energeticamente dispostas a furar suas bolhas. Há uma abertura quase imediata para conversar, rir, seguir junto, como se, por algumas horas, a sociabilidade urbana ganhasse outra lógica.

A noite começou com Jazz no espaço onde trabalho. A saxofonista alemã Nicole Johänntgen tocou um jazz contemporâneo misturado com afrobeat, música latina e afro-cubana em um show complexo e coeso ao mesmo tempo, sons muito diferentes daquilo que eu ouviria mais tarde naquela noite. Foi por causa desta atividade que tive que trabalhar até as 20h30, o que atrasou a minha chegada ao Bar em Bar. Quinta-feira é um desafio para quem trabalha. Só chega no horário quem vai direto do serviço. 

Eu, como sempre, cheguei atrasado. Saí de casa às 20h20. Fui a pé, como costumo fazer, seguindo a Protásio e a Osvaldo. Dessa vez não estava sozinho. Meu grande amigo Rodrigo, que recentemente se mudou para minha rua e virou praticamente vizinho, foi junto. Caminhamos tomando uma ceva e batendo papo. A avenida estava meio vazia e tudo ressoava — os carros, os ônibus, até os passos. A academia do lado de casa exibia sua população de infelizes, foi o que pensei na hora. 

Quanto mais nos aproximávamos do Campus do Centro da UFRGS, mais gente aparecia. Quem estivesse na rua naquele horário provavelmente tinha o mesmo destino. Com o passo apertado alcançamos um grupo de amigos que encontramos por acaso. Antes mesmo de chegar no evento já tínhamos nosso primeiro encontro da noite. Quando finalmente chegamos, quase 21h, descobrimos que o estandarte ainda mal tinha saído, mesmo com a previsão das 20h. Tinha gente saindo de bueiro. Caixas de som por todos os lados, ambulantes, churrasquinho, motoristas buzinando estressados, uma onda de conversas que se misturava e virava apenas barulho. Parecia que tudo fazia parte de um mesmo som gigante. A largada finalmente foi dada. Saímos do prédio da faculdade de Arquitetura da UFRGS e o Bar em Bar oficialmente estava de volta.

Por volta das 20h30 começamos a caminhada até o segundo ponto, no Boulevard da Duque. Pelo caminho, cruzamos ainda mais conhecidos, e acabamos consolidando um grupinho. A verdade é que partimos aceitando um risco, se terminássemos a noite sem ninguém se perder, seria pura sorte.

No trajeto, uma cena se repetia e me chamou atenção. As pessoas se cumprimentavam, desejavam “bom rolê” e sempre finalizavam com um “a gente se encontra durante a noite”. Era um pacto tácito. Uma confiança no acaso.

Quando nos aproximamos da Faculdade de Direito da UFRGS, o “modo sobrevivência” foi acionado. Era gente demais e a cada passo parecia mais difícil manter o grupo unido. O início sempre é um aperto. Todo mundo caminhando como um amontoado de pinguins tentando descobrir onde dá para passar. Em certo momento, olhei para trás e não reconheci mais ninguém. Senti a ansiedade subir, aquela sensação breve e aguda de estar perdida no meio de uma multidão. E agora? Por sorte, cerca de dez minutos depois, eles me encontraram. Ser alta, nessas horas, vira ponto de referência involuntário.

Os encontros começam cedo, mas são tantos que se dissolvem rápido. Os desencontros também chegam cedo. No meio do caminho, encontrei minha melhor amiga da faculdade, a Giovana. Nós havíamos combinado de chegar juntas ao início do trajeto, mas no momento combinado ela me respondeu que estava lavando o box e ainda ia tomar banho. Aquilo me fez pensar no pré-rolê da vida adulta. Moramos sozinhas, temos outras rotinas, outros tempos. Não somos mais tão jovens.

Subimos a Duque e ali as coisas engrenam de verdade. O caos reinava, mas de um jeito curioso. Um caos que não incomodava tanto. Carros presos, motoristas perdidos, e frequentadores tentando, com boa vontade, indicar algum caminho possível. Na calçada, uma fileira de patinetes. Um deles jogado no chão, obrigando as pessoas a pular por cima. Era visível a irritação, tropeços e quase quedas. Até que uma “boa alma” interrompeu o fluxo para recolocá-lo no lugar. Esse gesto simples me fez pensar no quanto esses patinetes, símbolo de mobilidade urbana “futurista” do governo Melo, seguem representando riscos e atritos, especialmente quando somos pedestres em massa.

Outro aspecto que me surpreendeu foi a relação dos moradores com o evento. Os curiosos aparecem nas sacadas, observando a multidão como papas abençoando fiéis. Os cachorros ficam hipnotizados nas janelas, e já que não adianta reclamar do barulho, parece que resolvem aproveitar o espetáculo. Lembro de um cachorro imóvel na janela, acompanhando a multidão como quem assiste a um desfile. Em outra sacada, um casal de idosos, sorridente, virou atração quando a multidão começou a gritar “beija, beija”. Eles se beijaram e a rua inteira comemorou. Por alguns instantes, parecia réveillon, uma celebração coletiva, espontânea, de estar vivo e partilhar a cidade.

Foi nesse clima que me senti, pela primeira vez, verdadeiramente pertencente. Brinquei até que, finalmente, me senti porto-alegrense, justo eu, que sou de Uruguaiana, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Algo na mistura entre o caos, o encontro e a cidade em festa me deu essa sensação de que, naquela noite, eu habitava Porto Alegre de um jeito novo. E Porto Alegre, de algum modo, também me habitava.

Naquela noite, também tinha um recital de orquestra para comparecer com minhas amigas, o qual tínhamos comprado ingressos fazia algum tempo, muito antes do anúncio da data do Bar Em Bar, e por isso não podia desmarcar. Passado estas divergências de horário e compromissos, finalmente chamo meu Uber para o rolê. 

Primeiro passo: entrar no Instagram do DAFA para localizar o ponto da rota que estaria a multidão. Localizamos eles na rua Duque de Caxias, por volta das 22h, e o endereço referência colocado no aplicativo foi o colégio Bom Jesus Sevigne. O caminho até lá foi tranquilo, mas não esperávamos ter que descer 2 quadras antes do destino. As ruas estavam lotadas de jovens e carro nenhum estava conseguindo passar com facilidade ou agilidade, por isso a solução foi caminhar até a Duque. Durante a caminhada, já conseguimos notar os rastros deixados por uma festa característica de rua: algumas garrafas quebradas, pessoas indo comprar bebidas em mercados próximos, gritos de gente tentando se comunicar com seus amigos no meio da multidão, coisas normais de todos os Bar Em Bar que já presenciei. Quando finalmente chegamos onde estão a maioria das pessoas, noto que existe um membro dos organizadores do rolê com um megafone nas mãos, pedindo para as pessoas abrirem espaço nas ruas para que os carros pudessem passar. Penso na hora que esta é uma estratégia de organização que não era praticada nas edições anteriores, e algo que facilitou a mobilidade urbana naquela noite de festa. 

É nessa parte que as ruas paralelas se transformam em mictórios. Não há container, canteiro ou fachada que escape do “pipi amigo”, como minha mãe dizia quando eu era criança. E é sempre uma experiência curiosamente comunitária, sem julgamentos. A gente se ajuda, indica bons lugares, faz rodinha pras gurias terem seu alívio com um mínimo de dignidade improvisada. 

Por algum motivo, esse trecho da Duque parece ser o grande vórtice de encontros e desencontros. Todo tipo de conhecido aparece. Ex-colegas de colégio, gente da faculdade, ex e futuras namoradas. O Bar em Bar tem essa energia de abraços e sorrisos espontâneos acompanhados de um “quanto tempo”. É bonito. Nessas pequenas cenas dá pra sentir como o evento proporciona essas microafetividades espalhadas pelo caminho. Como se, por algumas horas, surgisse outra cidade por cima da Porto Alegre de sempre. Uma cidade que só existe nessa noite.

Mais uns passos a frente, paramos para comprar bebida com um vendedor ambulante, e é nessa hora que um coro altíssimo de pessoas cantando “Vamos Para Gaiola”, do funkeiro Kevin O Chris, começa a repercutir pela rua inteira. Paro para ouvir, e a sensação é energizante, sinto a frequência em que todas aquelas pessoas estão vibrando, e é pela música que se conectam. O público parece ser bem maior em número desta vez, o que aumenta o tremor dos cantos e dos gritos de festejo durante a caminhada. Não demora muito para encontrarmos as primeiras pessoas conhecidas. Um grupo de meninas da faculdade de psicologia da UFCSPA, amigas de amigas. Logo mais adiante, vejo alguns colegas de curso, outro grupo de amigos, além de pessoas que não gostaria de ter esbarrado.

O trajeto oficial seguia direto para a Praça dos Açorianos. Quase ninguém acreditava que as pessoas realmente abririam mão de ir à Praça da Matriz. O fluxo até a praça é natural, pois o corpo dos frequentadores assíduos do Bar Em Bar já caminha sozinho pela rota dos bares, e a parada no monumento da Matriz era obrigatória, mas esse ano foi diferente. A curiosidade nos fez ir até lá, eu, Rodrigo e nossa amiga Carolina. Para nossa surpresa, a praça estava praticamente vazia. Meia dúzia de gatos pingados e policiamento. Uma visão estranha para um lugar que sempre foi pulsante no evento. Ali fui percebendo que o método cartográfico é isso mesmo: seguir pistas, mesmo quando elas não dão em nada. Ou melhor, dão em algo, nesse caso uma sensação de ausência. A Matriz vazia também era um dado. Um silêncio no meio do barulho todo.

A cartografia implica que o pesquisador adote uma postura de explorador, de descobridor, observando os caminhos desordenados dos processos e mantendo uma atenção sensível para a detecção de signos e forças circulantes. A pista metodológica é um guia no percurso da pesquisa, permitindo que o pesquisador cultive a atenção concentrada e aberta à experiência de problematização. Como apontado pela pesquisadora Nísia Martins do Rosário, a cartografia lida com a multiplicidade, transversalidade, processo e rizoma e não se opera sobre modelos prévios.

Diante da situação, resolvemos apenas regar as plantas e voltar para a rota. Quando chegamos próximo à Igreja, demos de cara com a Guarda Municipal, e pegamos uma rua alternativa para voltar a rota estabelecida pelo DAFA. Nesse caminho, vejo um grupo de meninas que encontram outra menina conhecida, “lembram de mim?” uma delas pergunta, e cenas como essas se repetem ao longo da noite. Os encontros, reencontros e desencontros são a marca registrada dessa reunião de universitários, que se aglomeram no centro da cidade para beber, se divertir e tomar posse das ruas por algumas horas. 

No fim, o “grupão” em que estávamos acabou naturalmente se reduzindo a um trio: eu, a Gab e a Gi. Seguimos juntas até o final. Depois da segunda parada, rompemos com o roteiro oficial, nos desprendemos do restante da galera e fomos parar no Brechó do Futebol. Eu e a Gi somos amigas dos atendentes, então aproveitamos para colocar o papo em dia e, claro, usar o banheiro, um privilégio raríssimo em noites assim.

Na sequência, retomamos a caminhada e cruzamos com um casal vendendo Melz, o famoso mel com cachaça. A Gab me perguntou se eu já tinha provado; respondi que não. Ela fez questão absoluta de comprar um para mim, e eu adorei. Mais uma primeira vez registrada naquela noite cheia de estreias. Seguimos nós três pelas ruas, conversando sobre tudo: ficantes e ex-ficantes, dilemas familiares, histórias de vida. Era como se o Bar em Bar nos oferecesse não apenas deslocamentos, mas uma espécie de suspensão do cotidiano, um espaço para que certas conversas acontecessem.

Em meio ao trajeto, encontramos um dos organizadores, megafone em mãos, orientando a multidão a seguir para o último ponto, a Ponte de Pedra. 

A caminho da ponte, a Gab resolveu comprar uma ceva em um bar que nem fazia parte da rota oficial. Ficou um bom tempo conversando com o atendente, como se aquele encontro improvisado fosse parte da própria noite. Ali me dei conta de que o Bar em Bar não se limita à linha que liga um ponto ao outro. Ele vaza, transborda. O evento ativa a cidade inteira, seus bares, suas esquinas, seus trabalhadores e, de algum modo, faz com que tudo isso passe a compor a experiência. A rota é só um pretexto, o essencial acontece no meio.

Deleuze e Guattari (1995, Vol. 1) afirmam que o rizoma “não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo”. O rizoma é composto por linhas de segmentaridade, estratos e territorialidades, mas também por linhas de fuga e movimentos de desterritorialização, fazendo dele um mapa móvel que se constitui em suas múltiplas conexões. O evento, ao vazar e transbordar, exemplifica perfeitamente essa dinâmica do rizoma.

Chegamos na Praça dos Açorianos perto da meia-noite. O lugar histórico e lindíssimo, estava tomado de gente em cima e ao redor da ponte de pedra. Música para todos os lados, uma multidão vibrante. Penso quanto esse lugar é mal aproveitado. 

A noite foi marcada por vários públicos diferentes, com caixas de som tocando de funk à Chali XCX. O que chamou a atenção nesta edição foi a presença de um DJ com uma CDJ e caixas grandes de som esperando a multidão chegar na ponte de pedra. E todos chegaram, curtiram a música, dançaram. Quando a rota finalmente teve seu destino alcançado, olhei em volta e vi pessoas em cima das paradas de ônibus, ocupando.

O som se impunha o tempo inteiro. Vinha das conversas entrelaçadas, das risadas, das JBLs disputando espaço com as vozes, dos ambulantes anunciando seus produtos, da multidão que aplaudia, cantava, vibrava. E também das buzinas dos carros, presos no trânsito humano que tomava as ruas. O cheiro, igualmente presente, compunha sua própria camada, com churrasquinho, cachorro-quente, cerveja derramada, perfumes dos mais variados tipos das mais variadas pessoas, lixo acumulado, xixi nos cantos. Caminhar por Porto Alegre naquela noite era atravessar uma explosão sensorial.

O áudio a seguir reúne trechos que sintetizam a vivência do grupo no Bar em Bar, evidenciando as diferentes experiências sonoras sobre o percurso. Dê o play!

 

Esses estímulos agradáveis e incômodos moldam nossas trajetórias diárias. Da casa à faculdade, da faculdade ao trabalho, do trabalho ao retorno para casa, ou, naquela noite, da Arquitetura até a Ponte de Pedra. No fundo, estamos sempre expostos a tudo. Aos sons, aos cheiros, aos espaços e às pessoas que compõem essa cidade que transborda para muito além do que conseguimos processar. Mas ali, no Bar em Bar, essa exposição deixava de ser apenas pano de fundo e se tornava parte essencial da experiência de ocupar a rua. 

Algumas cervejas e muita caminhada depois, era hora de ir ao banheiro, algo que, para mulheres, significa ficar horas em uma fila. Fomos em dupla e deixamos o resto do grupo curtindo a música na praça, e 30 minutos depois nos reencontramos para ir embora, pois a noite já tinha sido cansativa e a ida ao banheiro sempre é desestimulante. Fomos embora por volta das 1h30, e fui refletindo na volta sobre o que tinha experienciado. No fim, os encontros e desencontros são algo não só vividos no Bar Em Bar , mas ao longo de toda vida acadêmica. Não esbarrei em tantos amigos como nas edições anteriores, pois hoje alguns estão no mestrado, outros foram estudar fora, outros mudaram de curso e a comunicação ficou falha. Isso evidencia o fim da trilha da graduação, que termina com um indivíduo modificado pelo espaço da cidade e por seus processos. Como contemplaria Foucault (2009, p.414),“Dito de outra forma, não vivemos em uma espécie de vazio, no interior do qual se poderiam situar os indivíduos e as coisas. Não vivemos no interior de um vazio que se encheria de cores com diferentes reflexos, vivemos no interior de um conjunto de relações que de nem posicionamentos irredutíveis uns aos outros e absolutamente impossíveis de ser sobrepostos”.

Na Açorianos encontrei uma gurizada, inclusive minha ex que não era exatamente ex e agora virou ex de fato. Com ela e vários amigos segui a noite até às duas da manhã. Já não conseguimos seguir até depois das 4h como antigamente.

Utilizamos o Strava para demarcar os passos e o trajeto de cada um do grupo. Ao final do rolê, o meu marcou 21,25 km percorridos em 3h57min, o da Mari 11,66 km em 2h17min e o do Ignácio 22,98 km em 2h25min . O aplicativo não se deu bem com a Bruna e o trajeto dela se perdeu, faz parte do processo. O registro, no fim, virou uma espécie de representação gráfica rizomática — aquela maluquice de linhas cruzando por todos os lados, sem hierarquia, sem centro, só um emaranhado que fazia sentido porque era exatamente assim que a noite tinha sido vivida. Como se o mapa tivesse ficado bêbado também.

Clique aqui para conferir o mapa em detalhes.

Uma verdadeira cartografia de encontros e desencontros, de seguir a rota e de se permitir dispersar, de sons sobrepostos em camadas, porque silêncio, de fato, não houve. Nem mesmo na volta para casa. No Uber, o motorista perguntou o que estava acontecendo na cidade, e acabamos conversando sobre o evento e sobre a energia que se espalhava pelas ruas.

O Bar em Bar, naquela noite, ultrapassou a simples lógica do deslocamento. Foi como se acordasse Porto Alegre, devolvendo-lhe um ritmo que há tempos parecia suspenso. A cidade pulsava e nós pulsávamos com ela. Essa pulsação e o ritmo são elementos que, segundo Deleuze e Guattari, são essenciais na constituição de um território existencial. A cartografia, ao buscar a identificação das linhas de fuga, acompanha os fluxos e movimentos de desterritorialização que definem esses mapas moventes.

Confesso que não senti o impacto de alguma restrição imposta pela EPTC, nem percebi se houve uma intervenção de fato. Ainda assim, a ronda de viaturas da Brigada Militar foi expressiva, mas isso é costume por aqui, principalmente em momentos festivos de grande fluxo de pessoas pelas ruas.

O rolê, no fim das contas, foi muito afudê, mesmo com todas as mudanças. E foi interessante vivenciar tudo com os olhos e ouvidos mais atentos, como quem oficialmente está estudando a própria cidade enquanto bebe e abraça conhecidos. 

Faz algum tempo que a juventude da capital busca ambientes para viver sua própria cultura e habitar a cidade com liberdade e segurança. Em um contexto de cerceamento e proibições, o corpo procura por espaços de lazer onde a aglomeração conduzida pela música seja permitida, para que seja possível o movimento dançante que tire dos músculos o cansaço da rotina, dando espaço a outro cansaço, um que deixa saudade e a gente procura de novo pelos bares, shows, feiras ou mesmo ao redor de uma caixa de som pirata por alguma esquina em mais um after.

Referências:

PROTO, Camila. Territórios resistentes: arte, som e sociedade. In: CASTANHEIRA, J. C. S; et al. (Orgs.). Poderes do som: políticas, escutas e identidades. Florianópolis: Insular, 2019. p. 107-126.

FOUCAULT, M. Outros espaços. In: MOTTA, M. B. (Org.) Estética: literatura e pintura, música e cinema/Michel Foucault. Rio de Janeiro: Forense, 2009.

MONTEIRO, Gabriel et al. Inimigos do fim: apontamentos sobre o circuito de “afters” no Recife. 33º Encontro Anual da Compós. Anais. UFF. Niterói – RJ. 23 a 26 de julho de 2024.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.

Como não ficar até o final de uma BatukBaile

Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilhão de Coisas #2

Por Daniel Machado, Fabiola Correa, Laura Bender e Milena Gomes

Na nenêtuk, os debutantes foram dormir cedo

No dia 18 de outubro, quatro cabeças pensantes saíram de suas casas para ir até o Esquenta Batuk Baile, festa criada, feita por e direcionada à pessoas negras. Os ânimos estavam meio baixos graças à rotina corrida da semana e ao cansaço do final do ano. Ninguém estava com muito saco para ir, porém as expectativas eram de que haveria ao menos um incentivo (nem que fosse só pelo álcool) e o trabalho a ser feito.

A metodologia do grupo era a de analisar o senso de coletividade presente na festa e como as sonoridades afetavam cada pessoa que estivesse no ambiente, inclusive nós. No entanto, isso logo caiu por terra porque até que as pessoas chegassem na festa…demorou um pouquinho.

Enfim, ao longo da noite, os objetivos mudaram e novos rumos foram traçados. Mesmo levemente desanimados, as quatro cabeças pensantes colocaram suas roupas e foram à luta.

Laura: uma astronauta sem lua

Nos encontramos todos na calçada em frente ao Workroom. Não havia nenhuma fila. O meu primeiro pensamento quando entramos no lugar foi: esse rolê vai flopar. Não me levem a mal. Porém, ainda eram apenas 23h da noite e o pessoal não tinha chegado. Normal. Me acalmei. Mas o lugar seguia vazio. As luzes escuras dançavam sem companhia e uma DJ (a DJ Karina) mexia na mesa de som, sozinha. As músicas ecoavam no ambiente, reverberando sem nenhum corpo para absorver o som na pista de dança. Meio triste. 

Sabe quando o Neil Armstrong e outros astronautas pisaram na lua? Pois. Na Lua, não tinha ninguém além deles e foi esse o sentimento que tive enquanto entrava na festa. Ok, existiam outras pessoas no espaço, mas tinha um vácuo tão grande no começo. E eu era uma astronauta sem lua para pousar. Fui filosófica demais? Talvez. Credo. Mas enfim. 

Superada essa primeira impressão cósmica, observei a arquitetura da festa. No canto esquerdo da casa, ficava o bar. No direito, uma área de convivência com uns sofázinhos meio insalubres. A pista era… todo o resto. O lugar não era um quadrado, mas um retângulo. Deu pra entender? Enfim, ficamos espremidos num cantinho, nervosos demais para se desprender no início da festa. O sentimento chato de vergonha e cansaço já estava em mim e nem tinha gente ainda para me julgar. Patético, honestamente. 

Até que a música foi ultrapassando as minhas barreiras. Aos poucos, meus ombros relaxaram. Na minha frente, vi um moço usando uma blusa regata branca com a frase “Se o Brasil não presta como você me explica” nas costas. Meu pensamento foi “que divo” assim que olhei para ele. 

Ah, outra coisa, aparentemente o dress code do rolê envolvia regatas brancas. Vi muita gente usando. Eu não estava de regata branca.

Os minutos foram passando. Fomos comprar bebida. Paguei uns 20 pila numa caipirinha que não estava boa e isso já piorou o meu humor. Deu para ver que eu não estava nas minhas melhores noites. Mas tá. Fomos andando pelo lugar, todos juntinhos. A DJ Karina seguia tocando e eventualmente uma música eu conhecia e murmurava quando largava o canudo da caipirinha da boca (não havia SABOR naquela bebida, só gelo. Mas se eu paguei, eu vou desfrutar de cada segundo com o copo na mão). Na minha frente, o Dan, a Fabs e a Milena pareciam saber mais músicas. Achei fofo ver os três cantando. Mas, de astronauta, passei a me sentir um ET.

Já com a bebida em mãos, a Fabs disse que viu os tios do bar cheirando (é. Cheirando. O quê? Só Deus sabe. Ou talvez nem Ele queira saber, coitado). Rimos do relato dela. As pessoas começaram a chegar.

E eu esqueci de dizer, até agora, onde a gente estava, né? Enfim: 

Estávamos na festa Batuk Baile, criada para valorizar pessoas negras, ritmos e encontros negros. Proposta massa. Foda mesmo. Mas confesso que, sei lá, me cruzou o pensamento de que me podiam me barrar da festa porque eu sou branca KKKKKKK, idiota, eu sei. Não me barraram.  

Quando o quórum de pessoas já aumentou, a DJ Karina foi embora e uma pessoa (a organizadora do evento?) apareceu. Discursou. Deu as boas-vindas e tal. Foi querida. Perguntou “quais são os protagonistas da noite?” e todo mundo respondeu “negros!”. Aí entrou o DJ Kevin que, logo na primeira música, tocou algo em uma língua que ninguém entendeu e cortou o clima. Olhei para o meu grupo e todos estávamos com cara confusa. Rimos. 

Lembrei que um dos textos que separamos tinha palavras complicadas que traduziam o sentimento daquele instante:  “[um regime de escuta] não é onipotente e monolítico, mas sim aberto a idiossincrasias, transgressões, usos desviados, improvisos e imprevistos.” (ESTIVALET, 2019) (obviamente pesquisei isso depois da festa, né). Mas o ponto é que me senti muito idiossincrática (falei certo?) porque nada fazia muito sentido, igual essa palavra não faz sentido nenhum (brincadeira, rs).

A vibe foi mais para umas músicas afrobeat, latinoamerica. Ui, caliente. Finalmente terminei a caipirinha. Sequei a mão na calça, jogando a água gelada que suava do copo pra longe. De repente, notei que não estávamos mais na Lua. Já existia povoamento! Estávamos no meio das pessoas e o som já chegava de uma maneira diferente. Menos cru. Ele carregava risadas e flertes (e sons inteligíveis) junto com o ritmo e a letra de cada música. Fiquei quase surda, tenho ouvidos sensíveis.

Mas tá, ficamos ali. Dançando mesmo sem entender as músicas do DJ Kevin. Ai, eu, uma pessoa muito velha de alma, já comecei a cansar nessa hora. Por algum motivo, segui dobrando os joelhos de leve e pensei em comprar outra caipirinha, mas não comprei porque era ruim e o dinheiro tava curto (qual é a do meu hiperfoco na caipira?). Enfim, tá. Dançamos. Pessoal se amontoou ao nosso redor. Gente de tudo o que era jeito e tipo: vi um guri de blusa de time e outro que parecia ter saído de um escritório, com camisa social. Na minha frente, duas meninas dançavam juntas e, adivinha, uma delas estava de regata branca.

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Materiais amontoados no fundo do palco

O Dan foi embora primeiro por motivos de: ônibus. Quando ficamos só eu, a Milena e a Fabs, fomos para longe da mesa do DJ, do outro lado do rolê. Eu disse que a mesa ficava no meio do espaço? Não? É. Ficava. Fomos para trás da mesa. Olhei para o teto, já sentindo os pés darem aquela falhada. O som pulsava nos meus ouvidos e fazia o meu corpo retumbar, mesmo fracamente. Era difícil resistir à melodia, mesmo que eu não estivesse entendendo nada. Atrás de mim tinha um palco, melancolicamente abandonado no escuro, com algumas coisas jogadas por cima.

Tudo isso, e era a recém 1h e pouca da manhã. A festa ia até 6h? 5h? Não lembro.

Eu e as meninas ficamos naquele canto até que desistimos e fomos nos sentar nos sofás insalubres. Botei as pernas pra cima. Mudou o DJ, já era o 3°, mas não prestei atenção no nome. As músicas estavam mais frenéticas e já eram meio conhecidas porque mais gente cantava. Mesmo assim, nós três nos olhamos. Sabíamos que precisávamos fazer o trabalho. Mas…

“E se a gente fosse…”

“Embora?”

“É.”

“Sim. Vamos. Por favor.”

“Mas e o trabalho?”

“Ai.”

“Pois é.”

“Mas, gente, os meus pés estão doendo.”

“É. E tá uma bosta isso aqui.”

“Vambora?”

“Vamos. Vou ver quanto tão os Ubers, pera.”

Não lembro quem falou o quê nesse diálogo, mas foi mais ou menos assim. Resultado? Fomos embora. No Uber, sozinha, encostei a cabeça no vidro do carro e senti meu corpo todo brigar comigo para que eu ficasse acordada. O som ainda me perseguia e meu coração não estava conseguindo deixar para trás o tum tum tum tum de dentro da festa. Aquela batida infernal da caixa de som que faz o quadril mexer e o ouvido doer. Tenho uma relação de amor e ódio com ela.

Chegando em casa, com a chave na mão, fiz uma mediação da noite. Foi bom? Meh. Mas tá, nem toda noite precisa ser gloriosa. Tínhamos material para o trabalho? Sim, talvez. Eu tava cansada? Aham. Eu precisava dormir. Vamos parar de pensar, tomar um banho, tirar a maquiagem e ir deitar? Por favor. Foi isso o que eu fiz.

No silêncio do quarto escuro, o som da Batuk não me pegou mais. Porém, lá no meio do meu coração, entre o átrio direito e o esquerdo, um tum tum tum tum ainda ressoava.

Voltei a me sentir astronauta. O silêncio era a minha gravidade, que me ancorava ao chão do conhecido. Ai, como ela é metafóricah.


Fabs: esquentatuk, afrobeats e afins

No início não era como se eu não soubesse que essa era apenas um esquenta pra BatukBaile, mas essa era uma batukinha, nenêtuk.

Tava bem animada com a festa mas muito, muito cansada da rotina e tava nos meus planos levar minha câmera pequena pra fazer uns registros mais diferentes, sabe. Aquela qualidade duvidosa que só uma cybershot sabe trazer. Eu realmente tinha uma lista de coisas pra fazer antes da festa pra entrar no clima, tipo o ritual de ouvir músicas do gênero da festa pra ir aquecendo. 

Mas estamos aqui na frente da Workroom metade do grupo ansioso e outra metade tentando não parecer nervoso. Já tinha passado nessa rua uma centena de vezes mas nunca de noite e é legal como tem uma atmosfera diferente. Do outro lado da rua tem um centro cultural que fiz uma oficina de Abayomis e bonecas negras quando mais nova, dessa vez, na mesma rua, eu aos meus 20 e poucos anos me encontro numa reunião entre iguais de novo. Só que dessa vez com álcool e musica alta. Eu e a Milena rachamos o Uber, chegando na esquina da rua vi o Dan e comentei com ela.

“Ah, não vi.”

Mas pela minha perspectiva de 1,58 era um pouco difícil não ver alguém com 1,80. Nos reunimos na calçada assim como outros dois pequenos grupos de amigos, entre um papo furado e outro pra descontrair eu e o Dan começamos a lembrar de trends que o pessoal faz em uma pré-festa, obviamente tentamos puxar a ideia de gravar junto com a Milena e a Laura, as duas com cara de quem não faziam ideia do que estávamos falando aceitaram.

“Oi meu nome é Milena, tenho 26 anos e essa é a minha primeira BatukBaile” (eeeeeeeeee)

“Meu nome é Fabiola, tenho 21 anos e essa é a minha primeira BatukBaile” (eeeeeeeeee)

“Meu nome é Laura, tenho 21 anos e essa é a minha primeira BatukBaile” (eeeeeeeeee)

“Oi meu nome é Daniel e essa é a minha primeira BatukBaile” (eeeeeeeeee)

Comicamente, não sabemos o porquê o Dan não falou a idade. E a Laura tem 20 anos, não 21.

Percebi que o pessoal da volta tava olhando “de rabo de olho” pra gente como se fosse proibido achar graça das coisas, mas relevei porque tava tentando fazer os meus colegas descontraírem dessa tensão no ar.

Entramos, a primeira coisa que vi quando entrei foi o banheiro sem gênero à minha direita e dentro dele um pôster das irmãs de pau, logo senti que tava em território amigo. Na cabine uma faixa daquelas de cena de crime escrito “cuidado masculinidade frágil” 

A pista? Vazia.

Os camarotes? Também.

E o pessoal do bar com aquele semblante de quem espera a festa ferver pra também entrar no ritmo.

Nos reunimos num cantinho, as gurias resolveram comprar bebidas e o Dan também. Bisbilhotando qualquer coisa que se mexesse vi dois senhores do bar cheirando algo de um objeto cilíndrico, pensei “ah, recém 23h né não vai ser droga” decidi compartilhar com o grupo porque não ia guardar pra mim ao mesmo tempo que fico encucada pensando que poderia ser algum remédio pra rinite tipo Sorinan. Fico analisando a fotógrafa tirar várias fotos do pequeno público. E fotos elaboradas tá?! Do tipo que mais um pouco virava um photoshot individual. Pensei: bah, acho que não to muito arrumada pra tirar foto. Ela nem se quer olhou na bolota do meu olho e cada vez que ela passava pelo nosso grupo eu tentava não transparecer que queria sim uma fotinha posada!

A primeira DJ tocava muito bem além de estar com um look baphonico e de novo, “bah, acho que não to muito arrumada” a régua era um pouco alta pra quem estava de casaco de crochê, uma blusa justa cinza e calça jeans. Sim, casaco de crochê porque prezei pelo conforto.  De set em set eu conhecia várias músicas e as que não conhecia o ritmo era do meu gosto. 

O segundo set (e maior acredito eu) era Savannah (Kobby b2b Jon Boss) e foi um dos melhores que eu vi, afrobeats em francês. O ritmo me agradava bastante e eu tava com Kulosa na cabeça que era do mesmo ritmo, de novo tô me sentindo em território amigo. Parei de dançar um pouco pra olhar como o pessoal tava, Milena e Laura com cara de deslocadas, já o Dan parecia se sentir bem só não conhecia a música porque não tinha costume de ouvir.

Ainda que a pista estivesse um pouco vazia já estava mais cheia que no início e instaurou-se o front! Duas divas dançando sincronizadamente, e a cereja em cima do bolo, elas não se conheciam. Com o front de duas pessoas já pensei que agora sim a festa ia melhorar pq o pessoal ia se juntar pra todo mundo dançar algum passinho. Engano meu, o front morreu quando as duas pararam de dançar e eu broxei na hora. Daí em diante decidi curtir as músicas e conversar com os meus colegas. 

Fomos para trás de onde o DJ estava, agora com a casa muito mais cheia. Tinha gente dançando de tudo quanto é jeito, mas todos com os seus grupinhos. Diferente do que eu achava, o batuk era algo mais coletivo em que todo mundo curtia em conjunto. Nós, meninas, já estávamos sozinhas. O Dan teve que ir embora cedo por morar longe e não ter como voltar para casa. A essa altura do campeonato as três já estavam muito cansadas. Com o fumódromo escaneando nossas almas, fomos embora no início do fervo.


Dan: estranho dentro do ninho

Fui o primeiro a chegar no local, com bons minutos de antecedência (20 minutos). Acostumado à rotina metropolitana, busco sempre estar adiantado para os eventos. Ao chegar na Av. Cristóvão Colombo, 772, tive o primeiro espanto: eu era a única pessoa no local, além do segurança que conversava com alguém que, muito provavelmente, também trabalhava na festa. No mais, uma rua vazia, com prédios de arquitetura simples, somados a outros possivelmente preservados de séculos passados, que destoavam do enorme prédio da MedSênior, com sua estrutura espelhada e letreiros incrivelmente iluminados. 

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Chegada na Av. Cristóvão Colombo pré-festa

Eu estava de fones de ouvido, mas os tirei para captar as sonoridades que o ambiente transmitia: apenas as vibrações do vento, os sons dos carros, um ruído abafado vindo da festa ao fundo e a conversa entre o segurança e a outra pessoa, que tentei ouvir, mas não parecia ter grande relevância para o trabalho. Voltei a colocar o fone e escolhi uma música dançante da Ludmilla (Bom) para entrar no clima da festa.

Minutos depois, finalmente começaram a chegar pessoas, assim como minhas colegas. Chegamos à primeira conclusão para iniciar as atividades: começamos a tirar algumas fotos para registro, mas eu ainda tentava assimilar que estava ali com um objetivo acadêmico. Fizemos alguns combinados, trocamos conversas, gravamos vídeos. Eu estava animado, até havia me esquecido que havia meia dúzia de gato pingado ali na frente.

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Fachada da festa

Decidimos entrar. A primeira cena foi um enorme espaço vazio, que ao fundo revelava a DJ dando a vida com seu setlist, enquanto duas moças andavam de um lado para o outro com equipamentos. Na hora, me veio o pensamento “vai flopar isso aqui”. Verbalizei, verbalizamos, mas continuamos com o caráter investigativo da coisa.

Algumas pessoas começaram a chegar. Algo que foi perceptível notar foi a diferença nos looks das pessoas: que parecíamos deslocados de fato. O que gerou algo curioso: mesmo com esse baixo número de pessoas, 10 no máximo, a fotógrafa passou por todos os grupos tirando fotos, mas não chegou perto de falar com a gente, que somávamos 4. Isso perdurou por um bom tempo, quase metade da festa. Era quase como se comunicasse que não estávamos esteticamente adequados ao ambiente. Ainda que fôssemos em maioria negros entre nós, existiam signos que não eram compatíveis.

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Primeiro contato

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Caixa de uma caipirinha aguada

Eu e a Fabs ficamos fazendo graça com isso. “Não somos negros o suficiente?”

Em meio à tensão do possível flop, com o som torando ao fundo, músicas até interessantes (funks, em sua maioria) e a DJ Karina, como depois descobrimos, tocando para raras pessoas, decidimos comprar algo. Por algum motivo pensei que, por ser uma festa voltada a um público negro, os preços estariam mais em conta, mas a realidade é que o capitalismo ainda é o sistema vigente. Então paguei 12 reais em uma lata de Amstel, enquanto a Laura pegou uma caipirinha e a Milena uma long neck. Tomei a minha em questão de minutos, enquanto as meninas pareciam degustar cada ml superfaturado das bebidas.

Voltei a prestar atenção no ambiente, ainda desconfortável. Continuávamos excluídos da dinâmica fotográfica, a Karina seguia tocando para quase ninguém, o corpo queria dançar, mas nada parecia convidativo. No máximo alguns balanços no ritmo da música, enquanto eu me questionava: “onde tão as pessoas, Jesus Cristo?”. Nervoso, fui comprar uma caipirinha, mais gelo do que qualquer outra coisa, mas parecia ser o caminho para me adequar mais ao ambiente e fluir. (Quando reli o que vivi nessa noite, lembrei do trecho de uma leitura da aula que descreve a escuta como uma “porta de entrada do mundo”, algo que não só registra sons, mas que também nos desloca por dentro. Percebi que muita coisa que me atravessou ali só ganhou sentido depois, quando pude pensar no modo como eu mesmo estava escutando aquele espaço. Na hora, era só estranhamento, desconforto, ruído, e até uma certa tensão (ESTIVALET, 2019, 225); mas com distância, entendi que tudo aquilo também fazia parte de um tipo de escuta que envolve não apenas o que chega de fora, mas o que a gente movimenta por dentro para tentar compreender a experiência). Depois de uma hora, as pessoas começaram a povoar aquele espaço, majoritariamente negras, mas com um número de pessoas brancas maior do que eu imaginava.

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Diversidade

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Bombou

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Primeiro tchau

Fiquei indignado, pois quando a festa começou a lotar, a Karina saiu para dar espaço a outro DJ, cujo nome não lembro, mas me recordo do moletom com o coelhinho da Playboy. Ele trouxe outra ambientação para a festa, com ritmos latinos que pareciam confluir melhor com o espaço. A festa tinha um mestre de cerimônias (?) que não deixava a vibe cair, chamava o pessoal para o front, exaltava a cultura preta. E acho que ali residia a coisa: era um rolê feito por pessoas pretas para pessoas pretas, com toda a interseccionalidade e respeito pelos corpos. Ali me senti em um ambiente acolhedor, com pessoas parecidas comigo, e isso foi legal. Quando a festa começou a bombar, precisei ir embora, pois, ainda que empoderado, eu continuava sendo um metropolitano, e meu último ônibus era às 1:40. Me despedi das meninas e fui embora com um sentimento de incompletude, mas com a sensação de ter vivido algo, minimamente, diferente. Tirei duas fotos antes de ir embora: uma réplica da primeira ao entrar e outra da entrada.


Milena: Jesus e os discípulos dançam

A noite não tinha grandes promessas. Eu e meu grupo já havíamos entrado em consenso que a nossa experiência seria estritamente analítica, pois o cansaço que acometia a todos não nos possibilitava muito além disso. De qualquer forma, eu tentava, com a última energia restante, me manter um pouco animada. Além disso, era a primeira vez saindo do ambiente acadêmico com o meu grupo, pois conheci os colegas na disciplina. Isso adicionou um grau de nervosismo a mais na experiência. 

Pra me deslocar até lá, eu e Fabs rachamos um Uber. Chegando no local, reconheci o lugar e ela reconheceu o Dan de longe. Assim, nos reunimos todos pois a Laura também já estava lá. Não haviam muitas pessoas além de nós e, a animação, que já era pouca, não foi muito alimentada nesses minutos aguardando o início da festa. Depois de algum tempo conversando, trocando ideias sobre o trabalho e rindo de algumas conversas, entramos no ambiente.

Minha primeira percepção foi relacionada ao formato do local, pois era uma pista longa em formato retangular, com os ambientes como bares e banheiros nas laterais e ao fim dela, um palco com luzes de LED rosa e estruturas metálicas ao fundo. No instante em que entramos, o clima era de enterro. A música era extremamente alta, o ambiente era bem escuro e a pista tomada pela ausência dos corpos. Éramos nós 4 naquela grande pista, tentando nos sentir menos deslocados entre nós e também no lugar.

Nos momentos onde a conversa cessava, tentava observar as coisas ao redor, notei bandeiras, uma delas com o escrito “St. Patricks Gay”, as luzes e as poucas pessoas que transitavam pelo espaço pareciam ansiosas pelos momentos empolgantes da festa. Numa dessas observações, encontrei uma foto que fazia referência ao quadro da santa ceia, no entanto, no lugar de Jesus e seus discípulos, estava um grupo de drags, cada uma em uma pose diferente. À nossa volta, uma fotógrafa andava pelo ambiente, com uma câmera e um bastão de LED super potente, coletando modelos super bem vestidos para suas fotos e eu lembro de pensar que tudo iria parar no Instagram mais tarde. 

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Bandeira do St. Patricks GAY

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Santa Ceia Drag

Durante o set da DJ que abria a pista, ia tentando identificar algumas músicas e lembrar do nome, algo que sou particularmente péssima. Íamos conversando um pouco sobre a música ou ficávamos em silêncio tentando analisar a experiência. Eu, que por vezes me sentia como uma novata no grupo, ia tentando achar um assunto pra quebrar o gelo e a tensão que em alguns momentos pairava no ar. Nessa hora, a ideia de comprar alguma bebida foi bem vinda. Observei o bar tentando entender como funcionava, e fui em direção ao caixa. Lá, era praticamente impossível se comunicar verbalmente com a pessoa que atendia, e ela, já habituada com a situação, me mostrou um pedaço de papel onde estavam escritas as formas de pagamento. Paguei, peguei minha bebida e voltei ao grupo.

Nos minutos seguintes, mais pessoas começaram a chegar e o segundo DJ iniciou seu set. 

A música era diferente da primeira, num ritmo afrobeat com um idioma que eu não reconheci. No entanto,as músicas tocadas me impactaram e me envolveram mais do que as da primeira DJ. A pista, agora com um número maior de pessoas, também parecia mais agitada. Em contraste aos passos tímidos do nosso grupo, algumas pessoas na pista se destacavam pelos passos bem elaborados em uma dança expressada pelo corpo todo. Era bonito observar a desenvoltura dos movimentos e ao mesmo tempo intimidador para uma pessoa, que como eu, tropeçaria nos próprios pés se tentasse algo parecido. Por isso, me mantive nos passos tímidos e contidos, mas aproveitando a música da minha forma. 

Mais tarde naquela noite, resolvemos nos deslocar para a área da pista que contornava a parte de trás do palco, tendo uma visão um pouco diferente da festa. Éramos uns dos únicos naquele espaço e conseguíamos observar as pessoas dançando do outro lado. De certa forma, a configuração do palco possibilitava uma integração maior do público, mesmo que as interações ainda fossem bastante segregadas pelos grupos já formados. 

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Pov: você está atrás do DJ

Nesse momento, o Daniel se despediu de nós três e em seguida acordamos de também voltar pra casa. Nos despedimos da Laura, e eu e a Fabs rachamos um Uber de novo na volta. No trajeto, desejei estar um pouco mais animada e menos cansada, mas pensei também que fiquei feliz por ter tido aquela experiência dentro da proposta da festa. 


Mas e aí? O que aprendemos da noite? Que é meio chato quando não entendemos a música que toca nas caixas de som? Que fotógrafos podem nos ignorar nas festas? O ambiente era acolhedor, mas não nos sentimos pertencentes dele. Isso não tira o mérito da Batuk e do que ela promove.

No pós-festa, chegamos a conclusão de que aquele espaço de pessoas negras, para pessoas negras, não era um ambiente incomum em Porto Alegre e Região. Na verdade, essas festas são muito comuns. Corpos pretos em maioria, musicalidades negras em maioria, são comuns, mas em zonas periféricas, nos morros, nas favelas, como dito usualmente, entre becos e vielas. Não no Centro de Porto Alegre. Como disse Gabriel Bernardo em “Marginália Metropolitana”: “Em Porto Alegre e na região metropolitana, existe uma cena consolidada e cada vez mais protagonizada por corpos não brancos e de origens periféricas, o que oferece para o cenário cultural local uma gama de possibilidades de acesso e um senso de resgate de narrativas
historicamente ofuscadas pelo processo de elitização da música eletrônica”, e a Batuk consolida essa cena cada vez mais.

A Batuk faz essa emigração. Ela ocupa novos espaços nos centros, zonas de aglomeração massiva. Isso pode estar associado ao desengajamento inicial que percebemos no evento: enquanto outras festas possuem filas enormes, a BatukBaile começou a angariar festantes somente após duas horas de festa, não existia uma cultura, um rito inicial. Éramos todos extraterrestres num planeta colorido e com a presença de algumas drogas ilícitas atrás do balcão do bar. Haviam barreiras simbólicas que iam além das barreiras do som. A música não estava musicando muito, mas talvez esse não fosse o principal ponto. Mesmo que os corpos não estivessem presentes naquele ambiente retangular, o som reverberava. A Batuk alinhava o som ao corpo. O som era política e entretenimento.

REFERÊNCIAS

ESTIVALET, Felipe. Virtuosismo da escuta e produção de introspecção. In: CASTANHEIRA, J. C. S; et al. (Orgs.). Poderes do som: políticas, escutas e identidades. Florianópolis: Insular, 2019. p. 213-229.

BERNARDO, Gabriel (org.). Marginália Metropolitana. Porto Alegre: Marginália Metropolitana, 2025.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.

Entre o rebolado e a coreografia

Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilhão de Coisas 

por Guilherme Vivan, Linda Schwarz, Luiza Weiler, Nicoly Ramão e Raquel Bruhn

O cenário musical nacional contemporâneo se expandiu muito além das músicas brasileiras e anglófonas, abrindo espaço para que sonoridades de diversos continentes circulem e criem novas comunidades de escuta. Nossa intenção inicial era observar esse fenômeno na festa de K-pop Black Cherry, mas, ao ampliar o olhar, percebemos que dinâmicas semelhantes acontecem também no funk, no reggaeton e em outras expressões musicais que ressoam territorialidades, afetos e disputas. Para Proto (2019):

A complexidade e discrepância sócio-cultural que se instaura no Brasil é  o que dita o caosmo destas polifonias territoriais, que organizam-se no  fluxo das linhas de escape, através da arte e da insurgência, em busca de estabelecer uma resistência política, cultural e emergencial. (PROTO, 2019. p. 122)

Dessa forma, decidimos analisar não apenas a festa de K-pop, mas também uma festa de reggaeton, a fim de compreender como se dá a relação de consumo e afeto dos fãs com esses gêneros musicais dentro do fenômeno da festa aqui em Porto Alegre. Queríamos compreender como o público interage com esses gêneros musicais estrangeiros, relativamente novos, e que tem feito bastante sucesso. Também tínhamos o desejo de observar a forma como a música se manifestava em cada um dos eventos: entender como o som, no lugar de instituição social, cultural e política, aproximava e distanciava cada um desses estilos e dessas comunidades.

Dia 24 de outubro, fomos em uma festa de música latina, a Caliente, edição Noche de Los Muertos, que aconteceu no bar Ocidente. A festa era dividida entre a pista “latina”, onde tocavam músicas majoritariamente em espanhol, enquanto a pista do segundo andar tocava música brasileira. E, no próximo dia, depois de não tanto sono, mas bastante café, fomos numa festa de K-pop, a Black Cherry. Também era uma edição de Halloween, desta vez na Workroom. 

Os locais das duas festas são bem diferentes. Fundado em 1980 no coração do Bom Fim, o bar Ocidente é uma das casas de festa mais antigas da cidade de Porto Alegre, com um público fiel frequentador do espaço. É tão tradicional que sequer precisa de um letreiro, se destacando apenas como um prédio amarelo na esquina da Osvaldo Aranha.

A fachada leva apenas um discreto símbolo gráfico do ocidente na grade da janela, o círculo preto com um ponto vermelho. Foto: Google Maps

Em contrapartida, o Workroom é um local de referência entre a comunidade alternativa de Porto Alegre. Bar de drag, o espaço é recheado de cores vibrantes por todos os lados, manifestos políticos que decoram as paredes e luzes multicoloridas que contribuem para criar uma ambientação intensa. Infelizmente, o bar estava se preparando para encerrar suas atividades só uma semana depois da Black Cherry de Halloween, no dia 1° de novembro. De acordo com a DJ da Black Cherry Ágatha Souza, “É um espaço que era muito necessário, principalmente para a comunidade drag. Foi meio inesperado, ainda mais nesse meio político atual de Porto Alegre. É um ponto de resistência a menos.”

Letreiro luminoso da Workrooom era um farol no meio da rua deserta e até na frente da boate enchia de gente, que saía para fumar e conversar. Foto: Guilherme Vivan

Apesar disso, Júlia Rocha, uma das organizadoras e também DJ da festa, destaca que a Black Cherry é uma festa itinerante, e deve continuar ocupando espaços de expressão alternativa na Capital e na região metropolitana. De acordo com ela, o desenvolvimento da festa acompanha as mudanças no mundo do K-pop há mais de uma década. “A Black Cherry existe desde 2011 e ela era lá em São Leopoldo na época. A gente alugava vanzinhas para fazer caravana pra ir juntos. Ela iniciou com uma festa de J-rock e K-pop, as duas coisas juntas, e depois evoluiu para uma festa só de K-pop”, conta ela.

O que a galera quer escutar 

Um dos melhores lugares para entender quem é o público de uma festa é na fila. Na Caliente, a primeira a chegar foi a Raquel, que pôde observar as pessoas chegando, bebendo, fumando, e entrando na casa. A idade do público chamava a atenção, a maioria com mais de 30 anos, mais velhos que a gente. Ainda do lado de fora, algumas pessoas um pouco mais jovens falavam em espanhol, as mesmas que horas depois dariam seus depoimentos em uma entrevista no fumódromo da festa.

Quanto à sexualidade, na Black Cherry, o público majoritariamente LGBTQIAP+ fortalecia o senso de comunidade. Na Caliente, a configuração heteronormativa era responsável pela criação de uma tensão entre os frequentadores dos dois gêneros. De acordo com Trotta (2023), todas as relações interpessoais, quando são permeadas pela música, abrem margem para a criação de incômodos e angústias:

Proponho aqui pensar o gosto musical no sentido inverso. Não apenas como um elemento que agrega sensibilidades convergentes ou divergentes (como os “haters”), mas como um contexto norteador de movimentos de rechaço a determinadas experiências musicais que funciona como potencializador de incômodos. (TROTTA, 2023, p. 26)

Nesse sentido, na festa no Ocidente, pudemos observar a manifestação desse incômodo na proximidade e frequência com a qual os homens abordam as mulheres, causando um ambiente por vezes desconfortável para as participantes do gênero feminino. Naquele ambiente, a música com letras e danças marcadas pela sensualidade parecia atuar como um potencializador para mais expressões do cunho do desejo.

Na Caliente, havia muitos casais em ambas as pistas, mas os da pista brasileira pareciam mais animados. Entre si, compartilhavam mais beijos, mais abraços, mais dança “agarradinha”. Christian, um colombiano de Bogotá que mora em Porto Alegre há oito meses, acredita que essa característica seja uma diferença cultural. “Em termos de festa, diria que o relacionamento com as pessoas é bem diferente aqui [no Brasil]”, conta, “Não quero ser explícito, mas aqui as questões interpessoais são de muito mais confiança do que como acontece em Bogotá. Esses relacionamentos não se dão em um primeiro encontro como acontece muitas vezes aqui no Brasil. Essa é uma grande diferença para mim”.

Festa Morta-Viva

Tô me preparando para festa latina e pensando na roupa. Será que vou com a camiseta de turista escrito Machu Picchu, alguma do brasil ou aquela que acabei de comprar da URSAL (União das Repúblicas Socialistas da América Latina). Não que eu tenha ido pro Peru ou conhecido a URSAL kkkkk, comprei todas no brechó mesmo. Decido ir com a da URSAL. Talvez alguém ache engraçado e queira falar com a gente. Chamo meu mototáxi e vou pro Ocidente sentindo o vento forte ao som de Tropicoqueta da Karol G no fone pra entrar no clima.

Chegamos lá, no Día de los Muertos do Ocidente. Uma sexta-feira à noite perfeita: clima ameno, ar propício e céu limpo. Aquele tipo de noite que parece feita pra coisas boas acontecerem. Em Porto Alegre, o Ocidente é quase um mito boêmio da cidade. Mas pra maioria de nós, era a primeira vez. 

Estávamos animados e, quando entramos mais ou menos às 23h30 esperávamos uma pista fervendo e encontramos meia dúzia de pessoas mais velhas, uns casais desanimados, uma galera perdidos. Será que chegamos cedo demais? A gente olhava uns pros outros com aquela cara de “é isso?”. Fazíamos anotações, não dançávamos. O corpo parado, o olhar analítico. E isso já era um sinal. Estávamos buscando por algo, sem ter nenhuma pista de energia, acontecimento ou frenesi. 

Resolvemos então fazer a maquiagem do dia de los muertos. Por que não? Era gratuito, chegar e fazer. Na fila, vemos algumas pessoas sentadas, que pareceriam ser do Chile ou Colômbia. Sentimos alguns olhares, especialmente de homens. Com um grupo majoritariamente de mulheres, estávamos nos sentindo desconfortáveis. Decidimos ver se a maquiagem nos animaria.

Maaaas, depois de um tempinho na fila o espaço começou a ficar um pouco mais recheado de gente e de dança e nos surpreendemos com o quanto deu pra aproveitar a pista de música latina. As músicas foram muito envolventes e o coração latino se rendeu. Os sons eram de tão longe geograficamente, e ao mesmo tempo tão perto culturalmente. Ficávamos procurando identificações.

Esse divo que esperava conosco na fila de maquiagem mais tarde iria distribuir uns shots de tequila direto da garrafa aompanhados de uma sacudida na cabeça de quem tomava. Foto: Linda Esperanza

Quando vimos que uma das integrantes do grupo chegou com uma blusa bem curta, falamos “¡Ui que latina!”. Cada peça de roupa, gesto e fala eram um sinal da nossa própria latinidade que nos orgulha. Mesmo assim, não foi uma festa tão boa. Sentimos que estávamos nos esforçando para curtir, trocamos de pista e de lugar constantemente, à procura de algo que não estava lá.

Fora do Brasil, ser latino é motivo de orgulho. Na Caliente, sentimos o que é ser latino no restante da América Latina. Dentro do Brasil, nem entendemos direito nossas diferenças, principalmente na palavra latino. Essa festa parecia mais nos diferenciar do que unir-nos. Os brasileiros para cá num andar, o resto para lá, noutro andar.

Parece que a festa não teve uma conexão identitária entre os participantes tão grande, como veríamos na Black Cherry, no dia seguinte. Faz sentido, afinal não era uma festa para um gênero, como reggaeton, era só uma festa “latina” – conceito bastante amplo. No público, não víamos uma riqueza de símbolos ou semelhanças indicando comunidade.

Na pista brasileira tocou bastante forró, e algumas coisas mais tradicionais, em vez de pop, funk e rap, gêneros brasileiros mais exportados para outros países. Era uma playlist com mais complexidade do que o estereótipo estrangeiro de música brasileira. Ao contrário da festa latina, que tocou apenas o reggaeton e salsa. Isso se confirmou a partir da nossa entrevista com César, um mexicano de 34 anos que mora há um pouco mais de um ano em Porto Alegre.

“Eu acho que o povo brasileiro acredita muito que o negócio da música hispana é muito reggaeton. Mas nem sempre. Tipo, reggaeton foi bem da Colômbia, do Caribe. Mas, no México, na real, a gente tem música muito diferente. Música que até certo ponto é muito mais parecida que sertanejo e forró, sabe? […] Então, é bem diferente, pelo menos aqui agora no ocidente, tá rolando um negócio de música latina hispânica ser reggaeton e salsa. Ok. Mas isso não envolve todos os países que falam espanhol, entendeu? […] Até certo ponto, eu consigo me identificar um pouco também com essa música, principalmente porque a letra é em espanhol.”

  • Foto: Linda Esperanza

 

Na festa de k-pop, qual o seu idol favorito? 

Antes mesmo da festa, já tínhamos expectativas positivas. Conversamos previamente com a Júlia Rocha e a Ágatha Souza, DJs envolvidas na Black Cherry. Ambas exalaram uma real paixão por música, por performance e por criar um espaço seguro e acolhedor para quem ama o K-pop. 

“Combinei de uma amiga minha de vir na minha casa para nos arrumarmos e irmos juntas para a festa. Tomei banho, me vesti e quando ela chegou fomos para o meu quarto. Mostrei para ela minha coleção de photocards. Começamos a nos maquiar enquanto conversávamos sobre o mundo do K-pop, sobre músicas novas, músicas velhas, fofocas de grupos e etc. Comentei com ela que eu passei algum tempo meio distante do K-pop e por isso estava escutando uma playlist com os lançamentos mais novos para me “inteirar” sobre o assunto. Ninguém quer parecer uma poser, certo? Conversamos tanto que saímos de casa às 23h30.”

Mesmo sem todos conhecermos muito sobre o K-pop, pudemos perceber como essa comunidade funciona como um grupo extremamente diverso e, ao mesmo tempo, unido. Nas entrevistas que fizemos durante a festa, chamou atenção a variedade demográfica do público, pessoas completamente diferentes convivendo num mesmo espaço sem estranheza, uma heterogeneidade que não é tão natural em outras festas e que costuma criar tensões.

Perguntamos sobre fantasias, músicas esperadas e percepções sobre a noite. As respostas mostraram uma expectativa forte típica da comunidade K-pop: animação, energia, coreografias e identificação estética. Percebemos o preparo dos fãs. Para eles, não era simplesmente uma balada, houve um planejamento prévio, gastando tempo preparando as fantasias e aprendendo coreografias. Entre o público leigo, percebemos curiosidade, um certo estranhamento positivo e admiração pela dedicação dos fãs.

O público vibrava em unidade, como uma onda que varria a pista de dança. Foto: Guilherme Vivan

Esse sentimento também foi compartilhado pelas organizadoras, que ainda ficam impressionadas com o engajamento dos frequentadores. “Para mim, o grande diferencial da Black Cherry é o público. O pessoal sempre fala que o nosso público dança muito, porque o K-pop tem essa coisa da coreografia, né? Ele é um estilo musical muito visual, na minha percepção. Porque não é um estilo que tu só escuta, o negócio é tu assistir enquanto tá escutando. Ele tem todo um negócio visual do conceito da roupa, da dança, de tudo”, comenta Júlia. “E a gente bota músicas que o pessoal sabe dançar, porque o negócio mesmo é que o pessoal vai pra festa pra dançar. Não é ‘vou ir pra pegar gente, pra ficar bêbado’, não. O pessoal vai dançar mesmo”. 

Uma festa de K-pop, que envolve uma performance muito mais coreografada, pensada e simbólica, contrastava com a Caliente que teve muito mais sensualidade, improviso, rebolado e interação. Na Black Cherry, tudo parecia ensaiado, mesmo quando não era. A animação surgia naturalmente, mas ao mesmo tempo havia um quê performático, algo que faz parte da cultura: dançar do jeito certo importa.

Esse objetivo, de participar e fazer danças coreografadas, expõe uma lógica na construção dos set radicalmente diferente entre as duas festas. Os DJs da Black Cherry precisam tocar músicas que sejam bastante conhecidas e amplamente consumidas pelo fandom a ponto de decorarem a coreografia. Na festa latina, o objetivo é muito mais de criar uma “vibe”. O público desconhecer a música tem um impacto menor porque não precisam ter preparado uma coreografia para serem afetados por ela do jeito desejado. As transições mais longas e intervenções dos DJs nas faixas também eram mais frequentes na Caliente do que na Black Cherry pelo mesmo motivo. Intervir demais nas músicas de K-pop podia atrapalhar a coreografia, algo que não era um problema na festa latina.

Quando subimos no palco para fotografar a DJ Ágatha, conseguimos ver a pista toda. Na frente, todos dançavam perfeitamente sincronizados. Sabiam cada passo, cada quebra e refrão. É assombroso ver algumas dezenas de pessoas se movimentando em sincronia sem qualquer ensaio conjunto prévio. Mais pra longe do palco a sincronia ia se diluindo em tentativas de acompanhar a coreografia.

A make verde da DJ (pintada de Elphaba de Wicked) derretia com o calor da casa cheia, mas ela seguia tocando com a energia contagiante e eventualmente se abanando com o leque. Às vezes uma ou duas pessoas subiam com ela no palco e dançavam coreografias perfeitas, mas não era algo invasivo, era natural e respeitoso.

A DJ Ágatha Souza ferveu e suou tanto que até retocamos a maquiagem verde na foto, que já tava derretendo. Foto: Guilherme Vivan

Isso também despertou reflexões sobre ambientação: enquanto muitas festas ocidentais (trocadilho intencional) seguem uma lógica mais hierárquica (seguranças rígidos, pouca interação, receio com câmeras), o clima da Workroom era completamente diferente, íntimo e participativo, quase familiar. Os seguranças se mostraram tranquilos e acostumados com a pista mais performática, fantasias, câmeras e gravações.

O público, então, amou as câmeras, algo que nem sempre acontece nas festas. Às vezes o ser registrado pode gerar incômodo. Na Black Cherry, ao contrário, muita gente pedia pra aparecer, queria registrar, queria mostrar sua fantasia. Fomos confundidos com fotógrafos oficiais e tiramos fotos de um monte de gente 

O público veio em sua maioria fantasiado e alguns traziam elementos da comunidade K-pop. Na calça de uma delas podemos ver um photocard, um pequeno cartão colecionável com a foto de um idol(artista de K-pop). Foto: Guilherme Vivan

E a pista realmente estava quente — MUITO quente. Quando fomos para o meio dela, a energia era ainda maior: mais apertado, mais calor, mais animação. Distribuíram pirulitos, todo mundo pegou, e isso virou outro símbolo da festa, pequenos elementos que fortalecem ainda mais o senso de comunidade.

“Em certos momentos eu senti vergonha de dançar, mas ao mesmo tempo me senti inspirada, então fui observando e replicando como dava. E tudo isso sendo mulher: algo que, em outras festas, sempre vem acompanhado de incômodos como olhares insistentes, cantadas ou falta de respeito. Aqui, ao contrário, me senti muito segura. As pessoas estavam focadas na música, na dança, nos grupos, e não em sexualizar corpos.”

  • Foto: Guilherme Vivan

Difícil caber a expressão musical de um país num set, né?

O som nas duas festas visitadas é o que transforma o local em território, o grupo em comunidade. E para nós, a maior diferença entre as festas foi justamente a relação do público com o gênero musical de outro país, fora do “mainstream”.

“Ao analisarmos estas manifestações artísticas e culturais, percebemos estar diante de processos performativos de ordem efêmera que, através de agentes sonoros expressivos capazes de produzir um território mutável, questionam o complexo arte-cultura legitimado institucional e socialmente.” (PROTO, 2019. p. 121)

Na festa latina, a música era um plano de fundo, era apenas o tema da festa, já na de K-pop, o gênero é algo celebrado, comemorado, compartilhado. Com isso, podemos pensar a festa latina como uma balbúrdia, pessoas conversando, flertando, bebendo enquanto uma música toca e poucos sabem a letra. Já na festa de K-pop, o que escutamos é o uníssono dos fãs cantando palavra por palavra, em inglês ou, mesmo, em coreano, e dos pés batendo chão de forma sincronizada enquanto a maioria dança.

Na Caliente, as músicas eram parecidas, bem animadas, com um ritmo rápido. Era impossível ficar parado, mesmo não conhecendo a música. Às vezes tinham remix de músicas com um toque de música eletrônica. O que faz sentido, considerando o ritmo e a velocidade das batidas do reggaeton. Enquanto isso, na pista das brasilidades estava tocando músicas de gêneros como o forró e mpb, com um ritmo mais embalado, mais romântico. Já na festa de K-pop, em meio às performances, existia uma troca de ritmos. O K-pop consegue misturar estilos diferentes em apenas uma música, com partes mais puxadas para o hip hop, outras partes mais pop e outras mais eletrônicas. A música é tão bem trabalhada e construída que essas mudanças podem nem ser percebidas por alguém de fora da comunidade. Na festa de K-pop também ouvimos remix, mas dessa vez era de K-pop com funk dos anos 2000, um momento muito esperado e especial tanto para os frequentadores como para a DJ. Quando o Brasil se conecta com a Coreia, quando dois gêneros se tornam um. 

Na Caliente também ouvimos funk. Isso chamou atenção porque foi um gênero musical brasileiro que apareceu nas duas festas com bastante destaque. E causou nos públicos de ambas um êxtase, acendendo uma explosão de rebolado pela pista e deixando a dança mais frenética ainda. É como se, para esses públicos, fosse uma necessidade dançar esse ritmo. Parece que o gênero é uma exigência para atingirmos um estado orgásmico de movimentos que buscamos quando vamos a uma balada, até dançar sem ter mais qualquer pensamento na cabeça.

No pós-festa, revisitando as fotos e lembrando da vibe, percebemos o quanto essa experiência foi marcante. A Black Cherry apresentou muitos de nós a uma cultura musical que não conhecíamos, mas que nos recebeu de braços abertos. A Caliente deveria ser uma orgia. E demorou, mas no final encontramos o frenesi que buscávamos. Mas existe maior orgia do que rever amigos antigos, conhecer novas pessoas, entrevistar pessoas com ideias, sentimentos e culturas diferentes, analisar festas, e se conectar com amigos da faculdade? Que tesão transformar uma festa flopada e uma festa desconhecida em um acontecimento marcante. E ainda dançar por entre linhas.

Lembra um verso da Marina Lima que ouvimos na primeira festa “A felicidade não está escondida nem no passado e nem no futuro”. Temos capacidade de criar momentos de alegria. Se fantasiando, comungando, aglomerando, dançando, cantando. Expressando nossos sentimentos e também pertencendo a uma identidade cultural ou a uma tribo, um fandom.

Entramos nas festas com o intuito de observar a relação do público brasileiro com dois  gêneros musicais não-anglófonos que foram submetidos a um processo de internacionalização nas últimas décadas. Saímos dos dois eventos, no entanto, com uma pilha de impressões e sensações que resultaram em uma análise bem mais complexa e íntima do que havíamos antecipado.

Apesar das diferenciações apontadas anteriormente sobre o ambiente e o público, há pontos de convergência entre as duas noites. As experiências vivenciadas na Caliente e na Black Cherry revelam um movimento singular sobre o envolvimento do público brasileiro com os gêneros escutados (reggaeton, salsa, K-pop): um fluxo de afastamentos e fricções que dialogam entre si e, eventualmente, produzem conflito.

Essa tensão e atrito que atravessam toda a cena se manifestam de maneiras distintas conforme as circunstâncias do ambiente e a subjetividade de cada um dos frequentadores. Ainda é possível, porém, apreender um senso de comunidade nos dois casos, que é construído sobre os princípios mais fundamentais de qualquer rolê – a música, a pista e as pessoas dançando. São essas características que permitem uma forma de “intervenção coletiva”, e que transformam a participação nas festas num ato de resistência por si só. De acordo com Fernandes:

“Podemos pensar como a ideia de contágio é negociada entre as pessoas: a transmissão, muito além do caráter físico, é um mecanismo social, que atua no controle do que é permitido, na manutenção dos tabus, diferenciando o que é sagrado do que é profano. O risco da contaminação é a desordem, o risco de uma ruptura do que está estabelecido. Mudança. Perigo.” (FERNANDES, 2025. p. 60)

Sob essa lógica, é possível perceber que, apesar das evidentes e marcantes diferenças entre os sons apresentados, a música cumpre um papel similar na Caliente e a Black Cherry: o do contágio. Na vivência de ambas as noites, passamos a entender o som e a sonoridade não como um elemento secundário que reside no plano de fundo das festas, mas como um mecanismo dominante que possibilita, em última instância, a criação de uma experiência comunitária e social do rolê, transmitida e propagada entre todos os envolvidos.

Acompanhamos de perto o esforço dos organizadores, a dedicação dos fãs, a diversidade da comunidade e como o Brasil responde ao K-pop e ao reggaeton: com intensidade, criatividade e uma pitada daquela energia brasileira que transforma qualquer evento em algo maior do que só uma festa. 

Acima de tudo, foi legal ver como esses ritmos não anglófonos produziram nos corpos dos participantes consequências distintas, que uma festa de rock, por exemplo, não conseguiria. Junto das letras e da identidade das festas, a Caliente instiga no público um sentimento de identificação regional intrínseco. Já na Black Cherry, motivava nos participantes um esforço ativo de pertencimento à tribo.

O grupo estava se divertindo na festa. Na bolsa da Raquel (esquerda), um photocard. Foto: Guilherme Vivan

Referências

TROTTA, Felipe da Costa. Gosto musical, moral e incômodos. MATRIZes, São Paulo, Brasil, v. 17, n. 2, p. 25–48, 2023. 

FERNANDES, Eduarda Heineck. Contágio: pista de dança e intervenção coletiva.   BERNARDO, Gabriel (org.). Marginália Metropolitana. Porto Alegre: Marginália Metropolitana, 2025.

PROTO, Camila. Territórios resistentes: arte, som e sociedade. In: CASTANHEIRA, J. C. S; et al. (Orgs.). Poderes do som: políticas, escutas e identidades. Florianópolis: Insular, 2019. p. 107-126.

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e mestrando Gabriel Guedes Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zilhão de Coisas.

Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.

Vem participar do nosso after acadêmico

oiiiiiiiiiiii (na intenção de convidar você pra participar do nosso after acadêmico ! )

😵‍💫deu de deleuze, né? tá na hora de curtir a semana acadêmica!!!

não tem aula mas a gente ainda te dá motivos pra pôr os pés na FABICO!!!🫣🫣
com propostas que têm tudo a ver com o SemSono (@semsonoufrgs), organizamos uma programação que promete agitar a comunidade fabicana!!!!!!!

O AFTER JÁ VAI COMEÇAR!!!!

🎶 seja pra tocar nas festas do campus do vale ou em festivais de música, sempre tem uma galera que pilha muito botar a música pro pessoal dançar. @artbymartins e @laragiu.mp3 vão compartilhar seus conhecimentos pra criar uma nova era de DJs fabicanos !!

✨essa galera não tem nada mas tá com tudo ! o rolê é a mensagem: como comunicar um rolê do zero? @coletivoplano, @cinevestigio, @wenderzanon e @estudiopesadelo vão falar um pouco sobre como organizar propostas de comunicação autônomas e alternativas.

📹o @noosmancia vai desafiar a galera a fazer um vídeo-ensaio !! mostrando que a prática com imagens vai além do convencional, queremos pensar em como é possível fazer cinema a partir de imagens de arquivo. todo cineasta começa em algum lugar. por que não na FABICO?

🎟️ traz a pipoca!!! de garotas japonesas que montam bandas à produtores de funk bruxaria, vai ter exibição de filmes também!!

*os @ citados podem ser acessados acessados no Instagram

acompanhe a programação no Instagram do núcleo de pesquisa SemSono (@semsonoufrgs)!

Novo artigo publicado: Desorganizando a noitada, organizando o after

O artigo “Desorganizando a noitada, organizando o after: Remixagem e significação no álbum After (2023), de Pabllo Vittar” compõe o livro de trabalhos destaques da 20ª Intercom Júnior. Escrito pelo atual mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM/UFRGS) Gabriel Guedes Gil e pelo coordenador do Núcleo de Pesquisa Semiótica e Sonoridades (SemSono) Marcelo Bergamin Conter, o texto analisa as práticas de mixagem empregadas no álbum After, de Pabllo Vittar, para entender como o processo de significação ocorre através do uso dessas técnicas e como os devires minoritários (Deleuze; Guattari, 2012) das comunidades LGBTQIA+ podem se expressar por meio das sonoridades. 

O livro “Comunicação, inteligência artificial e desigualdades sociais: debates desde o percurso formativo” está disponível em formato de e-book através do Portal de Livre Acesso à Produção em Ciências da Comunicação (PortCom). Ele reúne os melhores trabalhos das oito divisões temáticas, que compuseram a 20ª edição da Jornada de Iniciação Científica (Intercom Júnior), no 47º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Balneário Camboriú no ano passado.

Este trabalho é derivado do TCC escrito por Gil, que foi orientado por Marcelo, e discorre a partir do seguinte problema de pesquisa: como as práticas de mixagem são atualizadas no álbum After (2023), contribuindo para a expressão afetiva dos devires minoritário LGBTQIA+ em suas sonoridades?

Para acessar o e-book e o artigo, baixe o arquivo
https://www.portcom.intercom.org.br/ebooks/arquivos/livro_ijs_2025.pdf

 

Atual mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM), Gabriel Guedes Gil é membro do núcleo Corporalidades e do Núcleo de Pesquisa Semiótica e Sonoridades (SemSono) do Grupo de Pesquisa Semiótica e Culturas da Comunicação (GPESC).

Marcelo Bergamin Conter é professor na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, coordenador da SemSono, membro do GPESC e foi orientador de Gil em seu Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “Onde é o After?: sonoridades LGBTQIA+ no After (2023), de Pabllo Vittar”.

IX Jornada de Semiótica e Culturas da Comunicação – Inscrições para ouvintes aberta

A nona Jornada de Semiótica e Culturas da Comunicação, evento organizado pelo GPESC/UFRGS, será realizada nos dias de 7, 8 e 9 de maio.

Este ano teremos apresentações presenciais no Auditório 2 da Fabico. O evento todo será transmitido pela plataforma MConf, assim será possível assitir como ouvinte nas duas modalidades.

Para se inscrever como ouvinte, clique no link a seguir:https://forms.gle/x8ZcxBgwucM4tXq28

2025 também é o ano que o GPESC faz quinze anos de existência. Vamos contar com uma palestra de encerramento realizada pela Profa. Dra. Ione Bentz, que foi uma das fundadoras do grupo e um dos nomes mais importantes no país na disseminação da semiótica e da expansão da Pós-Graduação em Comunicação. Esta palestra também será transmitida pelo MConf.

Em casos de dúvidas, escreva para nós! Clique aqui.

A banda Semsono

Dia 8/11/19 rolou a estreia d’A Banda SemSono fora do IFRS Campus Alvorada, na Casa Obscura, a convite do querido Eduardo Normann, que também subiu ao palco com a Space Rave. A Banda SemSono foi formada no âmbito da Linha de Pesquisa Semiótica e Sonoridades do IFRS Campus Alvorada, em 2019. O grupo possui duas performances sonoras: Telephonic Youth, uma homenagem aos guitarristas Thurston Moore e Lee Ranaldo com um toque de indeterminação; e Pato/Bato, uma mistura de gêneros musicais como no wave, noise, pós-punk e shoegaze com vídeos do youtube e materiais do dia-a-dia como ventiladores, telefone celulares, fidget spinners, escovas de dentes e moedas.

O trio é composto por Marcelo Bergamin Conter (guitarra e apetrechos), Juliana Henriques Kolmar (baixo e apetrechos) e Eric Lima Pedott (teclados e vídeos do YouTube).Link para um excerto do show de sexta:

Clipe novo do The Gentrificators! THE NAME-DROP TURN

Deu um trabalhão fazer esse videoclipe, mas acho que ficou tri massa. Vale a pena ler, ver e ouvir, vale a pena se engajar nessa causa semiótica.

Às vezes a preguiça de não sair para enfrentar a opressão gentrificadora da urbe é maior, e aí nos sobra produzir agenciamentos coletivos de enunciação de dentro de nossos quartos. QUE SEJA ASSIM, mas que cause alguma diferença na nossa relação estética para com essa Porto Alegre que fecha as portas para a arte de rua, para as miçangas, que quer cercar a Redenção e simular o modelo foucaultiano de prisão ao contrário (voltado para os civis, para as ~pessoas de bem~). ESSE VÍDEO É O PANÓPTICO, VOCÊ NUNCA SABE QUANDO ELE ESTÁ OLHANDO UM VÍDEO QUE VOCÊ MESMO POSTOU NO YOUTUBE, OLHA ALI O REFLEXO DA CIBERSHOT APARECENDO NA TELA!

PÕE NA TELA, PÕE ESSES VAGABUNDOS NA TELA!!!!

Essa é a música que vocês aplaudem? Uma música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado? Vocês não estão entendendo nada!