De CSI e Criminal Minds a Mindhunter e True Detective, a extensa lista de séries de investigações criminais desperta o fascínio do público ao redor do mundo e faz com que o espectador se sinta parte do universo da perícia. Acompanhando o trabalho de Vince Masuka, a chefe de perícias em Dexter, nos tornamos “especialistas” em análises de DNA, recuperação de impressões digitais e reconhecimentos de arcada dentária. Na vida real, o Instituto-Geral de Perícias (IGP-RS) é o órgão autônomo da segurança pública do Rio Grande do Sul responsável por realizar investigações a partir das perícias criminalísticas e médico-legais. Apesar do imaginário, romantizado há anos pelas séries, são poucas as semelhanças entre a ficção e a vida real no mundo das investigações criminais.
Quando Marguet Mittmann, aos 32 anos, entrou para a perícia, o contato com a realidade de extrema pobreza em que a grande parte dos crimes acontece foi o primeiro indicativo que a perita teve de que seu trabalho estava bem longe de ser igual a uma investigação em CSI Miami. Além disso, ao lidar constantemente com a violência extrema, Marguet teve a certeza de que sua rotina não seria, nem de longe, simples.
“Todos os dias da tua vida no IGP você trabalha com violência, com morte. Eu fiz uma perícia do caso Surianny, uma menina de sete ou oito anos que foi estuprada pelo padrasto e pelo amigo do padrasto, foi amarrada e foi colocada dentro de um sofá. […] São exemplos de que nenhuma perícia aqui dentro é fácil, é isenta de violência. Tudo aqui é pesado e tu vai trabalhar [com isso] todos os dias.” Durante a elaboração do laudo, que pode demorar dias, o perito precisa avaliar todos os vestígios, revendo e anexando fotos. “Eu revivo aquela cena do crime umas cinco vezes, no mínimo”, completa Marguet.
Durante nove anos, esse foi o dia a dia de Marguet. No plantão, a perita atendia a média de 100 locais de crime por ano, cerca de um por semana. Atualmente, após passar também por outros setores dentro do IGP, ela ocupa o cargo de diretora do instituto.
“A perícia é ciência. Se alguém faz achismo, está fazendo errado”
MARGARET MITTMAN, perita criminal e diretora do Instituto-Geral de Perícias (IGP-RS)



Em campo, os atendimentos são realizados em conjunto por uma equipe de peritos criminais e fotógrafos criminalísticos. O trabalho do profissional, que requer uma série de conhecimentos – gerais e específicos – , além de técnicas, ajudará na busca por respostas. “A perícia é ciência. Se alguém faz achismo, está fazendo errado”, garante Marguet. “O perito quando chega no local de crime e está bem treinado, tem todo o conhecimento científico, ele encontra um vestígio, já faz uma interpretação daquele vestígio e já imagina o próximo vestígio a encontrar na cena.”
Apesar disso, cada profissional pode adotar uma técnica diferente na análise da cena. A de Marguet é examinar o local e, depois, o corpo, como relembra em um dos casos que mais a marcaram.
O chamado era para um homicídio. No local, a marca de um pé na porta indicava que havia sido arrombada. No quarto, os móveis, assim como as paredes e o chão, repletos de manchas de sangue, apontavam elevado grau de violência. No chão, a vítima, que era uma jovem, duramente machucada, corroborava as suposições da perita. Do lado externo, projetando a rota de fuga do agressor, um caminho sinuoso entre o terreno que separava as casas indicava que alguém, há pouco tempo, havia passado. Em outro pátio, ela encontrou o último vestígio: um preservativo. Os resultados obtidos pela análise do DNA encontrado no preservativo confirmaram que ele teria sido usado na vítima.
Ouça a perita contando o caso:
O caso chega a parecer roteiro de série: todos os elementos para desvendá-lo estavam na cena do crime. No entanto, nem sempre todas as peças do quebra-cabeça estão presentes. Quanto menor o contato da vítima com o agressor, menor a quantidade de vestígios. Diferente do retratado nas telas, nem sempre os casos possuem solução, tampouco acabam quando desligamos a TV.

DNA: um procedimento caro e demorado, mas certeiro
O preservativo encontrado na perícia de Marguet, e muitos outros objetos, só são utilizados – ou não – como provas depois de passar pela análise do Departamento de Perícias Laborais (DPL). Mas, diferente do que vemos nas telas da TV, uma análise de DNA não é feita em questão de poucos dias, quiçá horas. A perita Cecília Matte, administradora do banco de perfis genéticos do IGP-RS, explica que uma série de fatores, como a qualidade do vestígio ou contaminação dele com outro material, podem interferir nas análises, dificultando o estabelecimento de um prazo, já que o processo pode ter que ser repetido, caso o resultado seja inconclusivo.
Ainda que hoje as análises por meio de confronto direto (quando se compara o DNA obtido por meio de vestígios ou restos mortais com o fornecido por um suspeito) sejam utilizadas, elas já não são o único meio. Um banco com aproximadamente 2.230 vestígios permite o cruzamento com análises já existentes, mesmo que ainda não haja um suspeito. A coleta de material biológico de apenados também alimenta esse sistema. “A gente teve vários resultados positivos vinculando casos antigos onde a polícia não tinha conseguido chegar a um suspeito”, conta Cecília.


A identificação é o começo
A maior parte das identificações são feitas pelos papiloscopistas, profissionais que estudam as impressões digitais, do Departamento de Identificações (DI). Todos os corpos que acabam no Departamento Médico-Legal (DML) são oriundos de mortes violentas e as liberações só são permitidas após identificação. Quando coletadas, as digitais são submetidas a um banco de dados, e cabe ao profissional fazer o confronto final para ver qual “fecha” com a identidade do morto. Diferente do que estamos acostumados a ver em filmes e séries, a digital nunca dá um match instantâneo – nem aqui no Brasil, nem em nenhum lugar.
“Quando a gente submete [a digital] a uma ferramenta automatizada, vem prováveis candidatos que possuem uma semelhança de desenho de digital. Então a gente vai olhando uma por uma. Já aconteceu de ser o meu sexto candidato [a ser compatível]. O primeiro, que tinha um score mais alto de provável semelhança, na verdade não era. Então, quer dizer, não dá para pura e simplesmente deixar no automatizado”, detalha a papiloscopista Cintia Meyer.

O papiloscopista Marcelo Caffarate lembra o caso de uma mãe que assegurava que o corpo a ser identificado era de seu filho. No entanto, a digital encontrada, mesmo que parecida, não batia. “Se eu não tiver a certeza de que a pessoa é a pessoa, não adianta dar nome. Ajuda muito, mas eu trabalho com digital”, explica.
As identificações por meio das digitais são possíveis uma vez que o Brasil possui sistemas estaduais de coleta: usados nas carteiras de identidade. No aguardo da criação de um banco nacional, o Rio Grande do Sul já possui convênios com outros estados da região.
A coleta da digital pode ocorrer em dois momentos: no DML ou no laboratório. Neste último, são os casos de corpos em um estado avançado de decomposição, carbonizados ou afogados, quando a coleta é mais complexa. Nem sempre o resultado final é satisfatório. Em um dos casos que mais marcaram a papiloscopista Lizandreia Brombatti, duas crianças foram encontradas esquartejadas e, apesar das digitais terem sido recolhidas em perfeito estado, elas nunca foram identificadas, tampouco reclamadas. As imagens foram enviadas para outros estados, mas não houve nenhuma compatibilização. O caso permanece sem solução.
A perícia digital
Apesar das diferenças entre o ficcional e a vida real, há semelhanças a serem destacadas, principalmente no que tange a questão tecnológica. A perícia gaúcha, garante a diretora do IGP-RS, é tão bem equipada e avançada quanto a de países estrangeiros, sendo uma das melhores do Brasil. Um dos exemplos é a estação de informática forense e telefonia móvel, responsável pela análise de evidências digitais através da recuperação de informações armazenadas ou distribuídas em meios digitais.

O setor, hoje com 20 peritos, atua em diferentes casos, de extorsão a homicídios, entretanto, o maior volume trata de pornografia infato-juvenil. Cabe aos peritos a busca pelos conteúdos nos materiais recolhidos em investigações da polícia, a fim de verificar se possuem pornografia infantil, seja para produção, compartilhamento, venda e afins. Atualmente, programas desenvolvidos para esses fins ajudam na triagem extensa dos materiais, mas cabe ao perito grande parte da análise. “São situações bem perturbadoras”, pontua o perito Marcio Faccin. Na equipe do IGP-RS há pouco menos de um ano, ele conta que não foram raros os casos em que não conseguia esquecer as imagens vistas na tela do computador.
Mas não cabe ao setor a decisão de quando esses materiais serão ou não analisados. As demandas partem da Polícia Civil ou do Ministério Público, que encaminham um ofício requerendo prioridade a uma ou outra análise. Em função do grande volume de material, a perícia leva tempo, não só na análise, como na recuperação de eventuais materiais deletados, por exemplo. Márcio foi o perito responsável por ter encontrado as gravações apagadas na câmera de um supermercado que mostravam um homem sendo torturado por seguranças.
Ao fim, ainda há outra infeliz semelhança, essa ainda mais verídica, entre o mostrado nas séries de televisão e a realidade: a brutalidade dos crimes.
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