Sextante

Próximos e distantes

Colados no mapa, os bairros Bom Jesus e Três Figueiras convivem em um encontro geográfico inusitado

REPORTAGEM
Eduarda Stefenon
dudastefenon@gmail.com

Ilustração de duas mulheres que andam na rua em lados opostos. Há uma separação visual da rua com o cinza do asfalto. Do lado direito, a mulher é loira e anda com uma bolsa no ombro e se veem casas e árvores mais separadas. Do lado esquerdo, uma mulher negra carrega sacolas de supermercado e se veem casas mais próximas umas das outras.
Arte: Jeniru

A divisão espacial demarcada pela Av. Protásio Alves ganha força e se torna um muro que separa os bairros Bom Jesus e Três Figueiras em Porto Alegre. Apesar de próximos na geografia urbana, os dois bairros podem ser bastantes distantes em suas condições sociais, políticas e econômicas.

O Bom Jesus é considerado um bairro periférico da Zona Leste, também chamado de “Vila Bom Jesus”. A criminalidade e a desassistência social costumam ser a marca do lugar, que não raro sobrevive em momentos difíceis a partir da mobilização dos próprios moradores. A guerra do tráfico e os índices de criminalidade também fazem do local um dos mais violentos da cidade. Assim como outras periferias da Capital, são comuns os toques de recolher e a indisponibilidade dos aplicativos de transporte em algumas ruas da comunidade após certo horário.

A menos de três quilômetros dali, o bairro Três Figueiras é formado por casarões entre praças arborizadas que se multiplicam por diversos quarteirões. Não à toa também é chamado de “Bairro Jardim”. Considerado um dos mais nobres e seguros da cidade e localizado na Zona Norte, abriga uma população de classes média e alta, e a renda dos moradores é quatro vezes maior que a média de Porto Alegre. 

O Bom Jesus, na eleição presidencial de 2022, teve o maior número de votos da Capital para o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) –  66,3% dos moradores do bairro votaram no atual presidente. O Três Figueiras teve o maior percentual de votos para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) – 65%. As diferenças, que não se limitam às opções políticas, expõem uma desigualdade capaz de retratar muito mais do próprio país. Os bairros que se tocam convivem em uma dicotomia que revela injustiças gritantes.

Fronteiras visíveis

Arte: Mariana Lemmertz

É na praça La Hire Guerra, no coração do Três Figueiras, que Raquel Quadros, de 37 anos, vira ajudante do sogro na feira ecológica todos os sábados há uma década. Raquel é pedagoga e foi moradora do bairro Bom Jesus por 15 anos. Como feirante, percebe discrepâncias entre os dois bairros. Na do Três Figueiras, os preços são altos e o público fiel, despreocupado com os custos. Enquanto informa a uma consumidora que o quilo da berinjela sai por R$ 7, Raquel relembra que a vida no bairro ao lado é diferente. Ela já trabalhou na Organização Não Governamental  Movimento Por Uma Infância Melhor (ONG MIM), no Bom Jesus, e revela que presenciou cenas muito distintas das que vê na feira em que atende hoje. “Ali perto [da ONG] tem uma feira ao lado também de uma praça, e as crianças que eu atendia iam para a feira pedir comida.” Na do Três Figueiras, ninguém reclama dos preços salgados. 

A percepção é compartilhada por outros feirantes. Uma delas, que atende na banca ao lado, mas que prefere não se identificar, comenta o valor dos produtos. “Eu acho as coisas aqui caras, e tem gente que compra vários pacotes.” Quatorze reais é o preço de um pacote de biscoitos de nozes de cerca de 150 gramas que ela vende. A feirante diz que não compraria por esse preço os biscoitos que ela mesma comercializa. E atender compradores de um bairro nobre acaba tendo suas vantagens. Alguns comerciantes já ganharam de presente vinhos chilenos ou envelopes com notas de R$ 50 dentro.

Raquel nasceu no Bom Jesus e, aos finais de semana, trabalha na Feira Ecológica do bairro Três Figueiras | Foto: Anna Ortega

Lírio Spier, de 78 anos, é morador do Três Figueiras há 30 anos, com “a sorte de [ter] uma aposentadoria gorda”, diz. Com residência nos fundos do Colégio Farroupilha, uma das escolas particulares mais tradicionais da cidade, Lírio tem sua lista de reclamações. Começando pelo o aumento de imposto predial implementado ainda pelo ex-prefeito Nelson Marchezan (PSDB) e pelos latidos do cachorro da vizinha. 

É na “comparação esdrúxula”, como define, com o bairro em frente, que se mostra inconformado mesmo. O aposentado se preocupa em ter moradores do bairro Bom Jesus como guardas da sua rua. “No Bom Jesus foram criadas as quatro quadrilhas de Porto Alegre, e eles trabalham aqui há 30 anos”, comenta, sem ter nenhuma prova do que diz. Lírio não tem queixas dos guardas habituais, mas sim dos que trabalham eventualmente nos dias de folga dos efetivos. “Se deixar por eles, temos visita todo dia”, diz, em referência aos possíveis assaltantes. Os estereótipos que carrega do bairro vizinho são, infelizmente, mais do que meras simplificações de quem é de lá.


LEIA MAIS

  • O que deixamos pra trás: ao sair de casa, uma pessoa pode passar por inúmeras experiências. Perder ou esquecer um objeto é uma delas e, então, onde encontrá-los?
  • Barulhos, conflitos, vizinhos!: Como o fato de as pessoas ficarem mais tempo em casa durante a quarentena fez com que os barulhos aumentasse, afetando a vida de vizinhos que antes nem se conheciam

Para além das páginas policiais

Alunos do projeto Quilombonja realizam oficina de cartografia social na escola Nossa Senhora de Fátima | Foto: Projeto Quilombonja/Reprodução

No primeiro mês de aula na Escola Nossa Senhora de Fátima, no Bom Jesus, o professor de geografia Bruno Xavier Silveira, 39 anos, indagou aos alunos: o que tem no bairro onde vocês moram?

A pergunta, que ecoava também na sua cabeça, ganhou respostas como: pobreza, tráfico, violência. “A história do bairro se confunde com a questão da violência, mas a violência é insuficiente para explicar as questões do bairro”, observa Bruno. Ao chegar na escola, ele encontrou um ambiente completamente diferente da realidade que, distorcida, se instala na visão de muitos sobre a comunidade. A escola era cheia de vida e os alunos, muito falantes e divertidos.

Bruno Xavier Silveira é professor de geografia e criou, junto de seus alunos, o projeto Quilombonja. | Arte: Marina Brandão

O projeto Quilombonja surgiu da sua indagação. Após visitas com os alunos ao bairro que leciona, ocorreu o desafio em forma de trabalho escolar: entrevistar moradores negros antigos do bairro e contar a história do local a partir de suas perspectivas e subjetividades. A ideia era combater o racismo latente na escola, mas se tornou espaço de contação de suas histórias e construção de conhecimento sobre si de um jeito diferente daquele das páginas policiais dos jornais. 

Numa das caminhadas, os alunos conheceram a história da Marli Medeiros, vinda de Alegrete para o Bom Jesus com quatro filhos, na década de 1970. Com a necessidade de trabalhar, Marli se juntou com outras mulheres e criou uma creche, depois surgiu uma escola e, conforme as necessidades iam se impondo, surgiam lutas da comunidade para terem condições básicas de vida. 

A ideia de mulheres “barraqueiras” não é incomum para os alunos, conta Bruno, e a imagem remonta de muito tempo. Na década de 1980, um protesto protagonizado pelas mulheres foi descrito assim nas páginas dos jornais. Explicar para os alunos que como são vistas é, na verdade, sua potência de luta, não é fácil, mas fica menos difícil quando as histórias são contadas na voz de seus familiares e conhecidos mais antigos.

A oficina do projeto Quilombonja capta imagens da região | Foto: Éder Rodrigues/Arquivo Pessoal

 “Quando eu falei que era do Bom Jesus, percebi a mudança de olhar, eles acham que somos maloqueiros”

ANDRESSA PEREIRA, moradora do bairro Bom Jesus

Bom Jesus, Vila Bom Jesus, Bonja. A variedade de nomes dá vazão às diferenças dentro do próprio bairro. Formado por três diferentes vilas – Vila Pinto, Nossa Senhora de Fátima e Mato Sampaio – o bairro guarda em si suas próprias contradições. “Eu moro no Bom Jesus, mas eu moro na parte boa” e “eu moro na Bom Jesus, mas eu não moro lá dentro”, são frases comuns de alguns moradores que tentam se distinguir dos menos sortudos. Morar na “parte boa” significa ter a rua  asfaltada, carro de aplicativo à disposição e mais segurança. 

Andressa Pereira, 22 anos, é estoquista em uma loja de roupas de luxo no Shopping Iguatemi, onde muitos moradores do Bom Jesus também trabalham, e percebe o impacto dos estereótipos do bairro no dia a dia. Moradora da comunidade desde o nascimento, é cruzando a avenida Protásio Alves que ela encara as diferenças de tratamento dos moradores do bairro vizinho. Um dia, saindo do trabalho a pé, encontrou uma senhora que procurava pelo cachorro perdido e questionou se ela era dali. “Quando eu falei que era do Bom Jesus, percebi a mudança de olhar, eles acham que somos maloqueiros.”

Andressa ilustra o temor que às vezes sente por morar no Bom Jesus relembrando o dia em que seu primo estava em frente à casa dele, durante o isolamento da pandemia, e foi abordado por um policial de forma agressiva, mandando ele entrar. “Isso não aconteceria num bairro rico”, lamenta. Apesar de reclamar da violência e da discriminação policial, Andressa não pensa em se mudar. O fácil acesso a todos os cantos da cidade e a boa relação com os vizinhos espanta, até mesmo, a dor dos olhares mais preconceituosos que já recebeu.

“Todos os caminhos levam à Bom Jesus”, brinca o professor Bruno. Mas, para os moradores próximos do Três Figueiras, a frase não chega a ser vivida. A distância física, infelizmente, não é sinônimo da proximidade e igualdade desejadas.


LEIA MAIS


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.