“Yibambe!” Assim bradam os Panteras Negras. Ao contrário do que muitos possam imaginar, não estamos falando do filme, um dos grandes sucessos da Marvel. Com origem na língua xhosa, o grito de guerra, que significa “mantenham-se firmes”, ficou popular por conta da produção cinematográfica, mas em Porto Alegre trocou os campos de guerra da ficção pelas quadras de basquete. A expressão é utilizada pelo Panteras Negras, um time de basquete amador fundado em 2018, a partir da iniciativa de um grupo de amigos com um objetivo em comum: o protagonismo preto.
“O Panteras é uma mera iniciativa, é o que todo mundo desejava, deu coincidência. Não é algo meu ou de outra pessoa. A gente era disperso, a ideia era criar um time em que a gente tivesse protagonismo. Acho que na época era essa a palavra: protagonismo de gente preta. Sempre nos foi negado pioneirismo e protagonismo em várias áreas”
FABIANO CORRÊA, servidor público
O atual Panteras Negras é a continuidade de uma primeira iniciativa de time que começou em 2012. Na época, se chamava “Black Panthers” e, depois de ser desfeita por alguns anos, retornou com o nome em português, novos membros e novas ideias. “O Panteras é uma mera iniciativa, é o que todo mundo desejava, deu coincidência. Não é algo meu ou de outra pessoa. A gente era disperso, a ideia era criar um time em que a gente tivesse protagonismo. Acho que na época era essa a palavra: protagonismo de gente preta. Sempre nos foi negado pioneirismo e protagonismo em várias áreas”, explica o servidor público Fabiano Corrêa, de 41 anos, um dos remanescentes da primeira formação do time. Kalunga, como é conhecido pelos companheiros, também participou da iniciativa que trouxe o Panteras Negras de volta no segundo semestre de 2018.
Aos 35 anos, o engenheiro Lair Júnior é uma das caras desta nova fase. Assim como Kalunga, ele fez parte do grupo de atletas que fundou o Panteras. “A gente se reunia para jogar, acontecia de dar times com três ou quatro pessoas pretas e a gente acabava jogando junto, mas sem organização enquanto time. Então, foi surgindo a motivação para se organizar. A maioria havia jogado em clubes, mas, na época, sempre os únicos pretos. Isso foi um gatilho para a gente se juntar e ressurgir com o Panteras”, lembra ele.
O nome é uma referência ao Partido dos Panteras Negras, um grupo político que surgiu nos Estados Unidos, na década de 1960, em meio ao contexto de luta pela conquista de direitos civis da comunidade afro-americana. “Todo poder ao povo”, um dos lemas do partido, é também a mensagem estampada em uma das bandeiras que o time carrega pelos jogos.
Os uniformes ajudam a criar uma identidade própria. Com suas cores inspiradas no grupo político e estampas como o punho cerrado, símbolo muito utilizado pelo movimento negro, há uma mescla de estilos. Além do próprio grito de guerra, elementos do filme da Marvel também podem ser encontrados nos fardamentos.

Protagonismo de gente preta no Panteras Negras
Prestes a completar cinco anos de história, o Panteras é uma das equipes mais conhecidas do basquete amador porto-alegrense. Entre suas principais conquistas, está o título da 1ª edição da Liga de Basquete Amador de Porto Alegre (LBA-POA), a maior liga dessa modalidade no estado.
Os 19 atletas do time costumam treinar uma vez por semana nas quadras do Dunk Park, na zona norte da cidade. É o que dá para fazer em meio à rotina de cada um. Uns trabalham e estudam, outros trabalham e cuidam dos filhos. Alguns fazem as três coisas ao mesmo tempo. “A galera está tentando se estruturar melhor na vida, e isso complica a rotina de treinos e a organização financeira para pagar as mensalidades dos torneios, da quadra. Então, é engraçado, mesmo pessoas pretas se aglomerando para se fortalecer, ainda assim somos atravessados por um racismo estrutural, e a gente tenta navegar, se manter firme e resistir para realizar as coisas que a gente quer”, ressalta Lair.
“Era um lugar que eu sempre via pessoas pretas em destaque. Isso formou muito a minha ideia de que parecia um lugar que eu poderia me dar bem”
LAIR JÚNIOR, engenheiro
Protagonismo preto é o que tem movido o engenheiro ao longo de sua vida. Foi durante os tempos de ouro do basquete de Santa Cruz do Sul, no interior do Rio Grande do Sul e sua cidade natal, que passou a infância acompanhando as grandes conquistas do União Corinthians, clube que chegou a ser uma das forças nacionais na década de 1990. “Era um lugar que eu sempre via pessoas pretas em destaque. Isso formou muito a minha ideia de que parecia um lugar que eu poderia me dar bem”, lembra Lair.
Depois de passar por todas as categorias de base e jogar por um tradicional clube de Porto Alegre, decidiu focar nos estudos para completar a graduação em 2010. Lair só foi voltar a jogar basquete após sua formatura, em 2016. Dois anos depois, encontrou o Panteras Negras. Para ele, um dos grandes diferenciais do time é a coletividade. “Por a gente ser um time onde pessoas pretas têm um protagonismo, eu acho que temos um senso de coletividade um pouco diferente. A gente se enxerga um no outro em relação à jornada de vida das pessoas. Temos um melhor entendimento e uma maior capacidade de empatizar com os nossos companheiros”, conclui.
Valores como a coletividade são considerados importantes dentro do time. Quem não chega com ou desenvolve isso, dificilmente fica. “O que não pode é a falta de diálogo, o conflito imperar, a violência ser um recurso. Tem caras que são individualistas e caras que são mais coletivos, cada um contribui de um jeito. O coletivo, às vezes, é o time entender como o cara pode contribuir individualmente”, destaca Kalunga.
Veterano do grupo, o servidor público é uma das lideranças do Panteras. Admirador de Malcolm X, grande ativista da luta racial nos EUA nas décadas de 1950 e 1960, se utiliza de um de seus discursos mais conhecidos – “lutar contra o racismo por todos os meios necessários” – para aplicá-lo também no basquete. Criou o que ele chama de “defesa Malcolm”. Neste caso, a “defesa por todos os meios necessários”. “A gente vai se atirar, morder a bola e dar tudo de si, porque eu entendo que defesa ganha campeonato. Consigo fazer essas associações e colocar essa motivação nos outros”, conta.

Esporte e negritude
Neilton Ferreira Junior, doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do tema de questões étnico-raciais no esporte, lembra que, ao longo da segunda metade do século 19, os elementos da corporeidade afro-brasileira começaram a ser incorporados ao esporte de forma marginalizada, sempre com uma diferença de raça entre os esportistas. “Brancos eram os mais racionais e frios, não-brancos os mais passionais e quentes. De modo que, mesmo na mistura da paisagem do esporte, as diferenças se afirmavam e eram reafirmadas pelo imaginário herdado da colônia e de uma interpretação culturalista das relações raciais”, conclui.
Diferenças que, infelizmente, parecem ainda estar presentes na história do Panteras. Elas podem ser materializadas nos olhares estranhos, nas marcações injustas e nas faltas violentas e desnecessárias não sinalizadas pela arbitragem. Segundo Kalunga, os sentimentos de injustiça e desigualdade são comuns durante as partidas. “O pior é quando a administração, tanto arbitragem como organização de campeonato, usa de recursos para nos tratar com discriminação, de forma diferente. Sempre tem uma desculpa. A régua de tolerância é sempre mais embaixo, sempre uma justificativa que ‘é nós’, a famosa culpabilização da vítima”, acrescenta.
Já Lair reflete sobre a limitação praticamente imposta de “fazer as coisas que pretos fazem” no basquete: “Se por um lado pode ser visto como uma coisa legal, por outro, se eu tivesse um pouco mais de entendimento do que estava acontecendo, eu lidaria com isso de uma maneira melhor. Aos poucos eu fui entendendo que não precisava ficar enterrando o tempo todo, por exemplo. Eu tenho que saber fazer uma bandeja, saber arremessar. Acredito que se eu tivesse desenvolvido essas coisas, poderia ter me transformado num jogador melhor.”
A ideia, no futuro, é abrir cada vez mais espaço para novos membros. Um dos objetivos é a criação de uma equipe de desenvolvimento para atletas que queiram jogar no Panteras. Por enquanto, o foco é se desenvolver internamente. “Sempre tivemos o intuito de ter referências e ser referências para as pessoas através do basquete e, por meio de uma rede de apoio, conseguir se desenvolver socialmente”, revela Kalunga.
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