Sextante

A moda além do vestir

Quatro profissionais do ramo da moda e da beleza contam como o estilo é símbolo de resistência e autoafirmação

REPORTAGEM
Nicole Santos
nihsantos2@hotmail.com

Arte: Nicole Rodrigues

O estilo é, historicamente, um passaporte para a construção da identidade racial de mulheres negras. Mais do que uma forma de expressão, é também um aliado no processo de empoderamento. A indústria da moda, por sua vez, foi construída de modo a invalidar os corpos negros, encontrando respaldo no racismo estrutural que marginaliza e estereotipa tudo que engloba culturas não-brancas.

Nos anos 1960, os Panteras Negras popularizaram o movimento Black Is Beautiful (Negro É Lindo, em tradução livre), palavra de ordem cuja intenção era reafirmar a beleza e promover a autoestima dessa parcela da população dos Estados Unidos. Foi também um importante símbolo da luta antirracista, que reivindicava os direitos civis dessas pessoas.

No Brasil, essa manifestação chegaria a partir do Movimento Black Rio, coletivo musical que se organizava em torno dos bailes soul, nos subúrbios do Rio de Janeiro dos anos 1970, mobilizando jovens a perceberem sua beleza. A “cena black” foi muito importante no que diz respeito ao despertar da negritude. Não à toa, foi através do vestir que as mulheres passaram a manifestar sua identidade, ostentando signos estéticos da cultura negra, traços marginalizados desde o período da escravidão, que tem uma ligação direta à ancestralidade.


E a chamada “estética negra” revela a importância do estilo para essas pessoas. Para a jornalista e produtora de conteúdo na Steal The Look, Karen Merilyn, a moda para a população negra é, sobretudo, ancestral. Um elemento importante na construção da história. “O modo de vestir do continente africano, por exemplo, foi essencial. É dele que nasceram muitas das nossas tradições”, reflete.

Não há como falar dessa estética sem mencionar os acessórios e itens de vestuário que compõem o guarda-roupas dessas mulheres. Desde argolas, roupas oversized – peças de tamanho maior – até os turbantes. A jornalista ressalta que, apesar de grande parte da construção do estilo estar atrelada às referências norte-americanas e europeias, o turbante e as estampas africanas sempre estiveram presentes como símbolo de poder.
Outro exemplo é o streetwear, que nasceu nos anos 1970 no Brooklyn, em Nova York, a partir do movimento hip-hop. “E aí hoje em dia o streetwear é um movimento gigantesco. É uma estética gigantesca e foi criada por pessoas pretas, da periferia, e muitas delas só tiveram reconhecimento muitos anos depois”, diz Karen.

“As pessoas sempre esperam que a gente, enquanto mulher negra, acabe performando um padrão”

DESIRÉE DO VALE, bacharel em moda

Uma das características físicas mais marcantes é o cabelo: crespo ou alisado, volumoso ou não, ele sempre retorna como um tópico de debate. “As pessoas sempre esperam que a gente, enquanto mulher negra, acabe performando um padrão”, diz Desirée do Vale, bacharel em Moda, de 29 anos. Situações como essa fazem com que, sem perceber, essas pessoas deixem a insegurança dominar sua vida na hora de se expressar.

Mas a realidade de ter crescido com outros espelhos, cuja imagem de referência sempre sendo a de uma pessoa branca, é quase universal. Até hoje, aliás, o primeiro exemplo de beleza e elegância que está no imaginário das pessoas é o da mulher branca, magra, dentro de um padrão. Ideias eurocêntricas de beleza que seguem permeando a sociedade.

Desirée lembra também que muitas vezes ouvia, da própria família, “instruções” de como deveria se portar e vestir ao sair pra rua. “Algo que a gente ouvia muito quando era mais nova, eu pelo menos, era que devia estar sempre bem arrumada, bem apresentada, cuidar do cabelo, cuidar da aparência para transitar em alguns lugares.”
O receio de ser atacado e repreendido está inserido na vida de qualquer pessoa preta, mas a autoconfiança em relação à aparência é uma resposta direto aos olhares de desaprovação. “As mulheres pretas hoje em dia têm muito mais autonomia”, completa. 

Periferia em destaque

O mercado da moda, muitas vezes, transforma uma cultura em produto, mas não se preocupa em dar relevância para a história por trás daquela peça ou tendência. Desirée do Vale acredita que esse mecanismo é reflexo do capitalismo e herança direta da colonização: “Essas pessoas só conseguem roubar e se apropriar de causas e coisas que não tem nada a ver com a vivência delas”.

Questionada também sobre o limite entre a inspiração e a apropriação, ela destaca que existe uma oposição entre os dois conceitos: durante o processo criativo, as pessoas absorvem as tendências das passarelas e, a partir disso, transformam em um produto acessível para o fast-fashion. Já a apropriação é um comportamento que ultrapassa os limites. A resposta direta seria inserir pessoas pretas e periféricas nesses espaços de criação para contribuir com sua bagagem, trazendo um olhar descentralizado.

Já Karen Merilyn relembra a febre do brazilcore, que ganhou força maior em 2022 por conta da Copa do Mundo. Croppeds, acessórios em verde e amarelo e a camiseta da Seleção Brasileira se tornaram tendência nas redes sociais das blogueiras.

Diversas tendências que já eram utilizadas por pessoas negras só passaram a ser consumidas quando começaram a ser reproduzidas por pessoas brancas ou estampadas pelas grifes. “Quem era de fora não achava bonito até ver um europeu usando, aí começaram a achar bonito e viralizou”, ressalta Karen. Ela diz ainda que a estética não “rompeu barreiras” só por ter ganhado espaço internacionalmente, mas sim porque ela existe e segue em alta nas periferias há muito tempo. “Uma tendência rompe barreiras a partir do momento em que elas existem, ainda que não tenham sido viralizadas e amplamente reproduzidas”, completa.

O despertar da negritude

Antes de se tornar item de moda em 2022, a camiseta da seleção brasileira já era tendência nas favelas | Foto: Arquivo pessoal


Com o tempo, o acesso ao mundo digital permitiu que meninos e meninas que estavam descobrindo a própria autoestima pudessem, por exemplo, trocar referências e dicas de autocuidado. É aí que entram figuras como Mayra Souza, moradora do Capão Redondo, zona sul de São Paulo, e designer do portal Steal the Look.

Ela produz conteúdo de moda para a plataforma digital e, nas suas redes sociais pessoais, também é engajada em mostrar sua rotina. Os conteúdos “de cria”, como Mayra define suas produções, são reflexo direto do que é produzido nas comunidades: “Durante uma pesquisa frustrada por referências, comecei a criar as minhas próprias, fazendo vídeos mostrando os meus looks de trabalho e mostrando o meu bairro.”

Para ela, as peças de roupa e acessórios sempre funcionaram como uma das mais importantes linguagens não verbais, seja como forma de expressão ou símbolo de luta: “Como mulher preta de periferia eu mostro como podemos ser potentes e fazer com que outras mulheres consigam enxergar também”, afirma.

Ela relembra também que, nos últimos anos, houve um movimento significativo no mercado, especialmente com o surgimento de blogueiras e influencers negras, o que fez as marcas investirem nesse público. Contudo, ela lamenta que o comparativo ainda seja desigual: “Trabalho com moda e sinto que apesar dos avanços dos últimos anos, ainda existe uma lacuna principalmente para mulheres negras mais pobres e de periferia”.

Ana Carolina Pinheiro, jornalista e produtora de conteúdo da Glamour Brasil, reitera a máxima de que o estilo é um elemento crucial para se conectar com as origens, sendo uma das principais portas de entrada para o entendimento da questão racial. A moda é sim uma forma de empoderamento e, com a crescente dos debates acerca desse tema, as pessoas começaram a se sentir mais livres. Ela acredita que se cria um espaço de liberdade para usar o que faz sentido com a sua essência: “Não necessariamente usar um turbante por exemplo vai te fazer ser mais negro ou não”, reflete.

Sobre a viralização de tudo que é difundido nas favelas, ela ironiza: “é o Emicida que fala isso numa música, né, que ser preto virou legal”. Hoje, com as ferramentas digitais, vemos muitos conteúdos de inspiração, mas a realidade é que isso sempre esteve presente. Ana Carolina ressalta que as comunidades sempre pautaram o mundo, mas raramente esses indivíduos eram creditados.

Ela ainda complementa que estamos em um momento de validar o que temos, de fortalecimento interno e conhecimento dessa inteligência “por nós mesmos”. 

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