O Rio Grande do Sul é o estado brasileiro com a maior porcentagem de indivíduos adeptos a religiões de matriz africana, conforme indica o Censo Demográfico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo os números, 1,47% da população total do estado reivindica o seu pertencimento religioso afro-brasileiro. O Censo também apontou a existência de mais de 60 mil terreiros no território gaúcho.
No estado, há a presença do Batuque, a vertente religiosa que abrange mais características da cultura africana; a Umbanda, que possui em seus fundamentos a influência cultural indígena; e a Quimbanda, conhecida como “Linha Cruzada”, unindo elementos das duas primeiras e diferenciado-se por cultuar as suas entidades conhecidas como exus e pombagiras.

Os terreiros da tríade de religiões afro-gaúchas desempenham um papel fundamental não apenas como locais de culto religioso, mas também como guardiões do legado da população negra, preservando suas tradições e oferecendo um ambiente de cuidado. Por meio do uso de ervas medicinais, preces e rituais, esses terreiros proporcionam um espaço terapêutico para aqueles que os frequentam, promovendo o cuidado da saúde do corpo e da alma.
Em Porto Alegre, Valmir Ferreira Martins, conhecido como Baba Diba de Yemonjá, é babalorixá da Comunidade Terreira Ilê Asé Iyemonjá Omi Olodô, situada no bairro São José. Com 60 anos, ele está há 40 à frente do espaço e afirma que a maioria das pessoas que procura o terreiro busca auxílio para problemas de saúde. “As pessoas vêm ver um problema da sua vida, às vezes é um problema físico. A gente teve casos de pessoas que o médico não achou a cura da doença e acabou se curando no terreiro. O cuidado espiritual contribui às vezes para sanar o problema ou, no mínimo, para melhorar”, diz.

O babalorixá relata que o atendimento realizado é amplo, pois a religião entende os problemas de saúde não só como uma alteração biológica, mas em um conceito mais vasto, que compreende também as patologias sociais e psicológicas dos indivíduos. Para buscar um amparo terapêutico no terreiro, não é necessário possuir um vínculo religioso. Segundo Valmir, muitas pessoas que procuram o auxílio devido a doenças não são iniciadas, mas simplesmente frequentam e se cuidam a partir do terreiro. “Não existe proselitismo na tradição africana. A pessoa não precisa ser vinculada, tem pessoas de diversas religiões que buscam atendimento aqui”, afirma.
“A gente acredita que nós somos frutos da terra. A gente veio da terra assim como para a terra a gente vai retornar. Então o que pode nos curar são os elementos que vem da terra”
BABA DIBA DE YEMONJÁ, babalorixá
A identificação do distúrbio de saúde e de qual tratamento deve ser realizado é constatado através do oráculo. O primeiro passo para quem busca o atendimento é a realização da consulta oracular, em que a pessoa apresenta um relato de sua situação e vê o que os orixás dizem sobre ela. A partir do oráculo, realiza-se o diagnóstico e é verificado o melhor recurso terapêutico para a cura da enfermidade, que pode ser um procedimento pontual ou um tratamento contínuo.

Valmir descreve os cuidados com a saúde por meio do sagrado como práticas terapêuticas, que se manifestam a partir dos conhecimentos ancestrais originados no continente africano e transmitidos de geração em geração até os terreiros contemporâneos no Brasil.
“A gente acredita que nós somos frutos da terra. A gente veio da terra assim como para a terra a gente vai retornar. Então o que pode nos curar são os elementos que vem da terra”, diz. Essa conexão com a natureza é a base para a utilização de ervas e folhas nas preparações de chás, aplicações, banhos e limpezas recomendadas no combate às doenças.
Além dessas práticas, o babalorixá destaca como os orixás muitas vezes recomendam realizar preces e ritos. “A gente trabalha com um ebó, que é um sacudimento, passar realmente um axé (força sagrada), um elemento, no corpo da pessoa, entendendo que isso vai estar fortalecendo o seu estado espiritual e físico.”
Conhecimento ancestral

Os terreiros contam com as suas figuras médicas, os orixás, e são eles que apresentam o melhor caminho para o combate do problema de saúde relatado.
Nenhuma ação é realizada sem a orientação dos mentores, como afirma a ialorixá Nilce Naira de Oxum, de 71 anos, coordenadora da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro), uma rede de conexões políticas voltada para as tradições dos espaços religiosos afro-brasileiros, visando valorizar e potencializar o saber dos terreiros em relação à saúde.
Mãe Nilce ressalta que os cuidados em saúde nas religiões afro-brasileiras manifestam-se primeiramente em forma de acolhimento e escuta, para, a partir daí, os orixás apontarem as orientações. Além da prática de acolher, ela também destaca os saberes presentes no terreiro, através do manuseio das ervas. “Quantos remédios foram feitos a partir de ervas? O povo de terreiro é preparado para conhecer as ervas, porque é com elas que nós nos curamos, e ela que nos traz a cura”, afirma.


Gisele Tertuliano, enfermeira em Cachoeirinha, na Região Metropolitana de Porto Alegre, com formação em Ciências Sociais e mestra e doutora em Saúde Coletiva, ressalta como os cuidados ancestrais manifestados nos terreiros existem há mais anos que a própria existência do Sistema Único de Saúde (SUS) e que não devem ser ignorados apenas por não possuírem evidências científicas. Ela lembra que, antes da criação de um sistema de saúde pública, quem prestava cuidados para a população negra em vulnerabilidade social eram os terreiros, através das mães e pais de santo que acolhiam, escutavam e orientavam.
A enfermeira também afirma que algumas práticas das religiões já são reconhecidas na medicina, como a utilização de plantas medicinais através da ciência da fitoterapia. “Dependendo do ponto de vista de determinados profissionais, eles desconsideram totalmente o conhecimento daquela senhora, daquele senhor, em relação ao uso das plantas medicinais. Nós, profissionais da saúde, não devemos menosprezar a questão do senso comum e dos saberes”, afirma Gisele.
Para além do terreiro
“Eu acabei de vir do hospital, meu irmão está internado lá, mas eu fui no horário de visita, se eu, como sacerdote, tivesse ido em outro horário, eu seria barrado, mas outras tradições eles deixam entrar. Isso a gente chama de racismo institucional”, relata o babalorixá Valmir, ao expor as dificuldades que as religiões afro-brasileiras enfrentam para serem reconhecidas e respeitadas no SUS. Ele destaca a importância da presença dos líderes afro-religiosos ao lado dos enfermos, relatando como a visita de uma mãe de santo pode auxiliar na melhora, ajudando inclusive no tratamento que está sendo aplicado no ambiente hospitalar.
A ausência da presença de manifestação afro-religiosa nos ambientes clínicos também é notada pela enfermeira Gisele. “Dentro dos territórios de saúde, dos equipamentos sociais, tem escola, tem a igreja evangélica, tem igreja católica e cadê os terreiros? Cadê as casas de Umbanda e de Candomblé?”, ela questiona.
“Nós precisamos ser ouvidas, ‘nós’ eu, mulher negra e as pessoas negras, porque somos nós que morremos por causas evitáveis”
MÃE NILCE NAIRA DE OXUM, coordenadora da Renafro
A enfermeira e cientista social descreve como o sistema de saúde possui um modelo de atuação heteronormativo, eurocentrado e branco, que tem em vista eliminar tudo que está relacionado à população negra e aos povos originários. Ela relata a necessidade de ser desenvolvido o cuidado afrocentrado, para os profissionais elaborarem uma dinâmica de cuidado em prol da saúde negra, considerando as questões de raça, classe, gênero e território. “O cuidado afrocentrado é uma forma de entender o que a filosofia africana tem a nos ensinar sobre acolhimento, escuta, respeito, valorização do outro e ancestralidade”, relata.
A Renafro desempenha um papel ativo na busca da interligação das práticas de saúde realizadas nos terreiros com as práticas de saúde do SUS. Para a coordenadora da rede, a luta que as lideranças religiosas e os profissionais da saúde traçam é para o SUS oferecer um atendimento com princípios idênticos ao do terreiro, com o acolhimento, escuta e cuidado. “Nós precisamos ser ouvidas, ‘nós’ eu, mulher negra e as pessoas negras, porque somos nós que morremos por causas evitáveis. O terreiro faz esse acolhimento e é esse atendimento que queremos no SUS, de qualidade e humanizado, principalmente humanizado”, diz Mãe Nilce.
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