No fim da tarde de todas as terças-feiras, quem passa pelo Viaduto Otávio Rocha, no Centro de Porto Alegre, nota uma movimentação peculiar. Aos poucos, uma das escadarias mais conhecidas da capital gaúcha vai se transformando em um grande samba a céu aberto. “Nós vamos cedo para lá. Montamos todo o cenário, preparamos o espaço para os músicos”, conta Vera Daisy Barcellos, de 74 anos, jornalista, integrante da produção do Terça do Samba e mãe de Juliano Barcellos, um dos fundadores e vocalista do grupo Puro Asthral. “Eu tenho uma tarefa, que gosto de fazer, que é varrer a escadaria, porque entendemos que o espaço tem que estar limpo para o público”, explica Vera.
Com o lema de levar o samba aonde o povo está, há mais de cinco anos, o Grupo Puro Asthral realiza semanalmente, a partir das 18h, a Terça do Samba na Escadaria da Borges. Juliano, professor de educação física e músico de 39 anos, conta que a ideia de levar o gênero musical para aquele local surgiu após o grupo perceber a necessidade de tocar e cantar semanalmente na rua, assim como ocorria em outras regiões do país. Primeiro, o grupo começou a tocar em um bar que fica junto à escadaria, e, então, o proprietário sugeriu que eles se apresentassem todas as terças do lado de fora. No início, Juliano não tinha muita fé que a ideia desse certo. Passaram-se alguns meses até finalmente o samba acontecer e, na última terça-feira de janeiro de 2017, o Puro Asthral estava na escadaria.

No começo não foi nada fácil, pois, na semana seguinte à estreia, ocorreu o Carnaval de Porto Alegre, e, por isso, não fazia sentido tocar na Borges. Juliano conta que, nas semanas seguintes após o Carnaval, a cidade ficou debaixo de chuva, o que impossibilitou novamente a realização do evento a céu aberto. “Nós ficamos com aquela dúvida, vamos seguir ou não vamos seguir? E foi meio na base da insistência até chegar a este formato”, afirma. O grupo, então, começou a convidar outros cantores para fazerem parte do evento. “Até que, no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, convidamos a mulherada para cantar, e foi um estouro lá na escadaria. Lotou, mesmo com chuva o povo não arredou o pé. E foi a partir desse momento que aconteceu a virada, que fez o samba continuar até hoje”, conta Juliano. Desde então, a escadaria fica lotada de gente para cantar e dançar ao som do Puro Asthral.
Onde tudo começou
O grupo de samba nasceu em um festival de pagode em 2010. “Eu coloquei uma música e essa música foi selecionada, mas tinha um detalhe: teríamos que fazer uma apresentação na final do festival no Bar Opinião”, relembra Juliano. Na época, ele fazia parte de outro grupo de samba, porém a sonoridade não se encaixava nos critérios do festival. Sendo assim, ele montou um time de músicos para se apresentar e, a partir disso, surgiu o Puro Asthral.
Com a filosofia de defender o samba mais tradicional – o samba raiz – o grupo criou, em 2011, o projeto Bebendo na Fonte, que tinha como objetivo levar o samba para a rua. A partir disso, a banda realizou uma série de movimentos levando o samba para as comunidades. Em 2012, os músicos começaram a fazer o pré-réveillon do Puro Asthral, na Travessa dos Venezianos, no bairro Cidade Baixa, um dos redutos do samba em Porto Alegre. Foi a partir desses acontecimentos que o grupo sentiu a necessidade de criar um evento semanal e gratuito.
Vem de família
O samba é uma arte que atravessa gerações. É um legado que perdura e se fortalece com o tempo. Vera Daisy mergulhou ainda mais profundamente nessa manifestação artística brasileira por meio do contato com seu irmão mais velho, Carlos Alberto Barcellos, já falecido. “A influência dele foi muito significativa em minha vida”, conta. Carlos, mais conhecido como Roxo, foi uma figura ilustre do Carnaval e do samba na capital gaúcha. Músico, radialista e jornalista, Roxo desempenhou um papel importante na disseminação do samba e da cultura popular negra.
A paixão de Roxo também foi herdada pelo filho de Vera, Juliano. Segundo ele, sua relação com o gênero começou quando ainda era criança, em casa, com o tio e os pais. “Eu explorava os armários com os discos de vinil dos meus pais e colocava para tocar João Nogueira, Roberto Ribeiro, entre outros músicos”, relembra. O aspecto familiar se reflete de maneira notável no Puro Asthral, um grupo que é formado por familiares e une famílias por meio do samba.
“Nossa ideia continua sendo levar música para aqueles que não têm acesso, que não têm dinheiro para pagar pelos espaços tradicionais”
VERA DAISY BARCELLOS, jornalista e produtora da Terça do Samba
De acordo com Vera, levar o samba para a rua foi a melhor escolha que o grupo fez. “Nossa ideia continua sendo levar música para aqueles que não têm acesso, que não têm dinheiro para pagar pelos espaços tradicionais”, afirma. Segundo Juliano, a continuidade do projeto é uma forma de resistência, tanto para o samba quanto para a cultura afro-brasileira. “Sempre procuramos realizar eventos de forma que todos possam ter acesso, tentando oferecer algo que a cidade não oferece, visto que estamos vivendo um momento de privatização de todos os espaços da cidade”, diz.
Com a revitalização do Viaduto Otávio Rocha, iniciada no final de 2022, o espaço para a realização do evento Terça do Samba diminuiu. Entretanto, as dificuldades impostas pela obra e a falta de apoio dos órgãos públicos não impediram que o samba continuasse. “O Puro Asthral é uma resistência… é uma defesa de um patrimônio cultural nacional”, afirma Vera.

De onde veio o samba
Acredita-se que o samba tenha surgido no final do século 19, na Bahia. No entanto, foi no Rio de Janeiro, com a chegada dos escravizados à então capital do Brasil, que o estilo musical ganhou forma e força. Segundo o jornalista e escritor Renato Dornelles, de 59 anos, o samba é descendente de outros ritmos africanos e afro-brasileiros, como o batuque e o maxixe. “Esses ritmos foram as influências mais fortes nos primeiros sambas compostos”, afirma.
Em Porto Alegre, o estilo musical começou a aparecer a partir do surgimento de sociedades e clubes de negros, no século 19, com o desejo de incluir a comunidade negra na vida social da capital. Tudo isso em um contexto onde a descriminação racial e a exclusão social eram muito fortes. Atualmente, apesar do cenário ser um pouco mais favorável, o ritmo ainda enfrenta adversidades por conta do preconceito. “Este preconceito é frequente, visto que o Brasil é um país racista e o samba é um ritmo majoritariamente negro”, afirma Renato.
“As pessoas fazem o que podem para evitar concentração de negros”
RENATO DORNELLES, jornalista e escritor
De acordo com o jornalista, na capital gaúcha se reflete a discriminação sofrida pelo ritmo. “As pessoas fazem o que podem para evitar a concentração de negros, tanto que o carnaval de rua e o de escola de samba de Porto Alegre foi retirado da área central e empurrado lá para o extremo norte da capital”, diz. O Complexo Cultural do Porto Seco, onde ocorrem os desfiles, foi inaugurado em 2004 e fica longe dos espaços tradicionais do samba porto-alegrense.
Renato destaca ainda que os sambistas em Porto Alegre são muito perseguidos, e os espaços nos quais o samba acontece também são rechaçados. Como resultado disso, bares que tinham rodas de samba tiveram que fechar ou mudar o seu estilo em razão das reclamações. “As rodas de sambas tradicionais que até bem pouco tempo víamos em diversos bares pela cidade estão cada vez mais sendo proibidas na região central e empurradas para as periferias, onde já existia, mas agora estão ficando restritas a essas áreas”, afirma. O samba do Puro Asthral realizado na Escadaria da Borges, no entanto, continua sendo um movimento de alegria e resistência.
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