Sextante

Criar para identificar

Como jovens negros têm impactado a moda a partir das suas criações

REPORTAGEM
Melany Pereira
melanypsmel@gmail.com

Arte: Rafael Curtinovi

Sonhar, criar e se expressar. Essas ações nem sempre andam lado a lado. Seja pela falta de possibilidade de se permitir sonhar, ou pelas dificuldades de externar uma criação. A moda, nesse lugar de criar, nem sempre foi um espaço acessível a todos. Para ingressar nessa área, jovens negros designers precisam enfrentar inseguranças e provar serem mil vezes melhores que os outros. Em 2020, com o movimento internacional Vidas Negras Importam, questionamentos sobre a diversidade da moda foram levantados. As dificuldades para pessoas não-brancas adentrarem nesse meio são tão complexas que muitos resolvem virar a chave e criar os seus próprios espaços. 

Talayer conta que os consumidores da marca se identificam com a ideia de buscar seus sonhos no meio da arte | Foto: Isabella Silva

Para o diretor criativo Leonardo Talayer, as criações ultrapassaram seus sonhos e se tornaram realidade. Foi através de uma experiência em uma alfaiataria que o jovem, de 22 anos, morador de Porto Alegre, se viu confiante e entendeu que estava na hora de lançar sua marca. A MESR, ou Mundo Entre Sonhos e a Realidade, é uma marca de streetwear – ou roupa de rua. O significado do nome é autoexplicativo: “A mensagem é universal, acredito que todo mundo vive nesse mundo entre sonhos e a realidade”, ressalta o criador da marca. Talayer sempre se viu como uma pessoa cheia de ideias, mas a frustração batia por não conseguir tirá-las do papel. Já foi fotógrafo, modelo e videomaker, porém não se via completo ao escolher um único caminho. “Para conduzir tudo isso numa marca, tem que ter uma bagagem muito grande, então eu assumi a minha marca e nela eu posso aplicar tudo isso”, completa. 

Bruna Padilha, designer de moda recém-formada, entende que o maior desafio ainda é o mercado de trabalho. Há uma dificuldade em acessar certas empresas e, quando isso acontece, nem sempre é de forma favorável. “Todo mundo faz propaganda sobre diversidade, mas, na hora de contratar, a história é bem diferente. São poucas pessoas negras que ocupam cargos de liderança na moda”, ressalta a designer de 25 anos. Bruna, de Porto Alegre, trabalhou durante um período com desenvolvimento de produto, percebendo que essa nova geração não fica esperando surgir uma oportunidade. “Eles mesmos vão lá e criam o próprio espaço para mostrar o talento e a criatividade”, pontua.  

Os desafios e a saúde mental

Nesse contexto de tomar as narrativas para si, é fundamental ter cautela e cuidado com a saúde mental. A questão financeira, o sentimento de solidão e a síndrome de impostor – que é não acreditar na sua competência e se autossabotar – são bem comuns na trajetória dos jovens negros. Para Leonardo Farias, de 30 anos, designer de imagem e artista audiovisual da moda, o embate iniciou em sua formação, em que era o único aluno negro. “Era só branco, as únicas pessoas negras que tinham lá sem ser eu eram as duas pessoas que limpavam.” Além de lidar com esse contexto, Farias reforça que fazer moda, sendo preto e sem os recursos que as grandes marcas possuem, é um desafio. Ele, que também nasceu em Porto Alegre, conta que foi preciso engavetar uma coleção, lançando apenas a cápsula – uma coleção com poucas peças –, pois os valores estavam ficando altos demais. “É muito difícil tu fazer roupa de qualidade, aos modos que tu quer, e ser acessível para quem tu quer ser acessível”, comenta. 

Despir os preconceitos e vestir histórias é o slogan do trabalho desenvolvido por Farias | Foto: Guilherme Fernandes

Os aspectos de nem sempre possuírem o dinheiro para investir em si ou de encarar as adversidades acabam resultando na insegurança dos jovens. Bruna cresceu em uma zona periférica da capital gaúcha. Na faculdade, as questões raciais e financeiras foram acentuadas, pois não se falava em desigualdade e racismo. Assim, sentiu a necessidade de buscar informações sozinha e cuidar da saúde mental. “Entender que não é sobre o nosso trabalho ou talento é muito difícil, porque acaba gerando uma certa frustração”, avalia. 

Talayer, dono da MESR, conta que no início do seu negócio não recebia atenção dos fornecedores. Ao tentar contatá-los, muitas vezes era ignorado, mas o tratamento mudava quando viam a quantidade mínima que ele estava disposto a pagar. Além de enfrentar essas situações, ele ressalta que empreender traz um sentimento de solidão. “Tu entra numa bolha meio que solitária, é teu trabalho, tua criação. Me cobro muito por ter essa bagagem, de ser um entre um milhão que consegue ter uma marca de roupas.” É preciso abdicar do tempo de estar com a família, amigos e namorada para investir em seu sonho. 

Além de criar, uma forma de se expressar

A coleção desenvolvida por Bruna retrata a feminilidade, a força e a beleza das mulheres negras | Foto: Amanda Klein

Apesar do meio ser um desafio diário, os jovens percebem que é possível alcançar a liberdade e contar histórias a partir das suas criações. “Eu sempre busco representar as coisas que eu acredito, meus ideais de vida e até mesmo as mudanças que eu quero ver no mundo”, compartilha Bruna. Em seu trabalho de conclusão de curso, a designer trata da valorização das mulheres negras na moda, tendo como inspiração a imagem da pombagira como um arquétipo de empoderamento para essas mulheres. “Esse tema fala sobre a minha realidade também. Ao mesmo tempo que falei sobre as dores e dificuldades de outras mulheres negras, eu precisei encarar minhas próprias dores”, afirma. Para ela, criar e se expressar a partir de sua própria história é um ato de confiança. 

“Isso é o que eu mais gosto no criar, é de silenciar ao redor e focar no que eu quero expressar, no que eu quero falar”

LEONARDO TALAYER,  diretor criativo

Talayer percebe que o principal sentido que direciona suas criações é expressar quem ele é, o que gosta e sua bagagem. Além disso, ressalta que, em relação à  marca e na hora de suas criações, são raros os momentos que realmente se escuta e se expressa sem ter alguém falando o que deve fazer. “Isso é o que eu mais gosto no criar, é de silenciar ao redor e focar no que eu quero expressar, no que eu quero falar”, reflete. Suas criações normalmente surgem de pensamentos e poemas que escreve. Depois disso, forma um esboço que mais tarde se tornará algo visual. Talayer afirma que existe um filtro para equilibrar o conceito em algo que seja comercial e se surpreende: “É interessante perceber que as pessoas se impactam com isso, com esse meu momento de refletir quem eu sou”. 

“Transformar a nossa vida com ela”, segundo Farias, esse é o poder da moda, uma ferramenta capaz de mudar vidas. E para ele foi isso. “Para mim, libertou, para mim trouxe essa procura por esse letramento, para me reconhecer na minha identidade.” Documentar a moda de Porto Alegre está entre os seus interesses, pois percebe que na cidade há uma identidade que não existe em outros lugares e é importante reconhecer isso. “O bom da moda é que ela é acessível ao ponto de eu ver várias pessoas quando eu vou numa Bronx, numa festa, extremamente estilosas”, reforça  Farias. 

A moda e a música

Bronx, citada pelo designer de imagem, é uma festa de Porto Alegre voltada para o público preto e LGBTQIAP+. Com muita música e representatividade, a festa celebra a cultura negra, e a cada edição é possível ver um verdadeiro desfile de moda – em que cada um expõe sua estética.  Historicamente, a relação de negros e negras com a moda surge no movimento musical hip-hop, com a criação dos estilos de rua – ou street style. “Não foi o branco que criou a moda de rua”, destaca Farias. Ele exemplifica que foi o estilista Dapper Dan que tornou as grandes grifes interessantes. Após colocar a visão dele sobre as peças, as marcas ganhavam um valor maior. “Hoje em dia, o que é o MD Chefe com a Lacoste? O que é a galera do funk, do trap com essas marcas?”, questiona.

Para Talayer, o despertar para a moda surgiu a partir dos artistas musicais que gostava. Uma das conquistas que percebe é a possibilidade de vestir quem ele sempre acompanhou, ou que ouviu falar. Em 2022, durante um período que estava cabisbaixo, viu o MC Kevinho vestindo sua marca. “A  moda e a cultura estão interligadas. A bagagem de música e de arte são fundamentais para as minhas criações”, ressalta. A cultura da juventude está muito relacionada às músicas. São os artistas a primeira influência. Farias pontua que não é possível separar a música da moda: “A maior inspiração de muitos jovens são artistas, são pessoas que cantam e têm relação com o vestir diferente do que essas pessoas às vezes conhecem.” Por mais que a primeira impressão seja de ser uma área restrita, a moda é uma ferramenta que emancipa e empodera os jovens designers. Por isso, tem um papel fundamental na construção da identidade e no desenvolvimento de novas vozes. 

LEIA MAIS

  • A moda além do vestir: Quatro profissionais do ramo da moda e da beleza contam como o estilo é símbolo de resistência e autoafirmação
  • Vestindo memória: As roupas são capazes de preservar momentos, reviver gerações e resguardar história

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.