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Além das estatísticas

Como homens negros driblam os estigmas, superam a violência e prosperam na afetividade

REPORTAGEM
Laíse Jergensen
laisejergensen@gmail.com

Arte: Gabriel Ferreira

O homem negro é impedido de ser. Em meio a expectativas de potência, ele representa a parcela da população com menor grau de escolaridade, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Em levantamento recente publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em parceria com o governo do estado do Rio Grande do Sul, constatou-se o que já se sabia: ser homem e ser negro é também estar na mira da polícia. Conforme apontado no estudo, as características estão entre as principais motivações para uma abordagem policial, segundo declarações dos próprios agentes de segurança pública.

Entre a violência e a desumanização, parece não haver espaço para a vulnerabilidade. Mas a construção de laços e a compreensão das emoções têm sido um caminho para muitos dos homens que não aceitam os papéis sociais impostos pela branquitude no Brasil.

Para Humberto Baltar, consultor de Diversidade e Inclusão, a resposta está na descolonização do pensamento. “É essencial a busca coletiva das pessoas pretas pelas próprias origens, o que a gente chama de aquilombamento. Sem isso, não há como sair da invisibilidade”, afirma o especialista.

Na música

Em uma rua pouco acolhedora do bairro Santana, em Porto Alegre, um prédio amarelo claro com grades brancas recebe, ao longo dos três turnos, adultos em busca de conhecimento. O Centro Municipal de Educação dos Trabalhadores (CMET) Paulo Freire abriga instrumentos musicais e discussões promovidas por Nilson Tòkunbò Araújo, professor de música da prefeitura de Porto Alegre, de 49 anos.

Consciente de que nos valores civilizatórios tradicionais africanos estão inseridas a musicalidade e a oralidade, Nilson leva-os como princípios para a sua própria vida. “Não consigo viver sem a música, vivo para a música, vivo através da música”, comenta. Por meio da relação com os alunos, o professor tem como fundamento a troca. O que se materializa, invariavelmente, a partir de uma roda. Muitas vezes com muito barulho e muito ritmo, como é o caso das reuniões do grupo Tambores de Freire.

Das dores de um corpo preto, o que mais machuca Nilson são as aniquilações do afeto. “A gente começa a não ser mais natural. Isso me dói mais do que eventualmente colocar alguma máscara da burguesia em um momento de conveniência. É um cerceamento da minha natureza”, lamenta.

Em roda, na companhia dos alunos, o professor Nilson Tòkunbọ̀ Araújo faz música e se transforma | Foto: Anna Ortega

Na Educação Infantil, ouviu de um pai de aluno às suas costas que deveria “pegar uma capina”, referindo-se a um homem negro como não pertencente àquela posição de sensibilidade para lidar com uma criança. “A gente tenta fugir disso, mas a gente não dá conta, porque depende do olhar da pessoa que nos olha”, constata.

Na relação com os alunos, achou sua realização. Ao falar das filhas, abre um sorriso e faz questão de dizer que elas têm um pai presente. As duas, ainda na infância, começaram a perceber o gênero na relação com o pai. “Poder se reinventar a partir das minhas filhas é lindo. Poder analisar a própria masculinidade, o próprio machismo, que foi estruturado na infância”, se emociona o músico.

Na comunhão

Morgan Santos, de 30 anos, é estudante de História prestes a pegar o canudo de graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Por muitos anos, passou por cada uma das estações da linha da Trensurb no retorno para casa. O destino era o último: Novo Hamburgo, a 43 quilômetros da capital. Hoje, finalmente, mora em Porto Alegre, no bairro Cidade Baixa. Perto de tudo. A família continua lá, mas os laços se mantêm por meio de mensagens e ligações.

“Até hoje eu não consigo chorar. Se eu chorei, dá pra contar nos dedos. Umas dez vezes no máximo”

MORGAN SANTOS, estudante

Para Morgan, poucas coisas têm mais significado atribuído do que um abraço. Fala dos que sempre dá nos amigos como se fossem presentes. Encontrou em outros homens negros o abraço que precisava – o da escuta. No MilTons, grupo de compartilhamento que discute as masculinidades negras, pôde se conectar. Nas rodas de conversa, teve a experiência de “botar pra fora”, mas também se encontrou no discurso dos parceiros. “Às vezes eu quase nem falava. Ia só pra escutar”, comenta.

Das emoções proporcionadas pela experiência, ele marca uma: a de ver outros homens pretos chorarem. “Até hoje eu não consigo chorar. Se eu chorei, dá pra contar nos dedos. Umas dez vezes no máximo”, desabafa.

Airan Albino, idealizador do MilTons, afirma a importância do projeto para os homens que ele conheceu: “O fato de, por exemplo, dez caras pretos se reunirem. Daqui a pouco eles estão falando de um tema, como agressividade, e eles começam a ver paralelos, semelhanças, pontos em comum na fala um do outro. Começam a se enxergar por uma experiência que não necessariamente foi vivida, mas que poderia ter sido, ou algo muito parecido que foi vivido. Usando uma palavra da moda: é uma coisa bem potente. Daqui a pouco a gente se dá conta que a gente não está sozinho no mundo.”

O que Morgan fez nessa experiência e faz em tantos outros coletivos dos quais participa é tentar descolonizar o “cistema”. “Cistema com ‘C’, de cisgênero”, ele explica. Como homem trans, ele já experienciou as violências de uma mulher, em momentos da vida nos quais foi visto como uma. Por isso, a masculinidade dele é construída de diferentes perspectivas, mas a busca pela saúde emocional e das relações não acaba. “Minha formação de masculinidade parte de outra vertente, de outro contexto. Isso me ajuda na construção de uma masculinidade menos tóxica”, afirma o estudante.

Na rua

Caminhando à noite pelo bairro, Bruno Xavier Silveira deixa os alunos em casa. Na volta escuta “boa noite, professor”, das senhoras que passam por ele. Tenta se dar conta do trabalho que vem fazendo e da imagem que vem construindo na comunidade. Bruno, de 39 anos, é professor da Escola de Ensino Fundamental Nossa Senhora de Fátima, na vila Bom Jesus, na capital gaúcha.

Egresso do sistema público de educação, se vê nos alunos. Junto com eles, criou o projeto “Quilombonja”, que propõe o olhar para a cidade a partir de uma perspectiva da educação das relações étnico-raciais. “A vida não triunfa na materialidade do bairro, mas a gente vê no convívio, nas pessoas, que há muita vida ali”, comenta Bruno. Nos diálogos com as crianças, sente que singulariza as vontades, angústias e medos e que compartilham muitas alegrias. É um afeto mútuo. 

Da rua à sala de aula, o projeto Quilombonja une os alunos da escola Nossa Senhora de Fátima ao professor Bruno Xavier Silveira na construção de masculinidades saudáveis | Foto: arquivo pessoal

Não é coincidência que por muitas vezes os alunos o confundem. Em vez de chamar “professor”, chamam-no de “pai”. Muitos conversam com ele sobre como sentem a falta da figura paterna, que por vezes não está presente, ou que até está, mas sem saber expressar afeto e exercer o cuidado.

“Ao desfazer em mim esses estereótipos, estou conseguindo produzir um processo educativo pros meninos se perceberem também”

BRUNO SILVEIRA, professor

Bruno tinha vergonha de dizer que era sensível. Hoje se orgulha de compartilhar o que sente com os alunos. Conhecido como um cara emotivo, os alunos até brincam: “A gente só não fez o tema, não chora”, imita Bruno aos risos.

Na juventude, ele foi aconselhado a trabalhar em vez de estudar. E sofreu com as expectativas do que é ser um homem negro. Hoje, pensa em outras possibilidades para a sua masculinidade.

O homem negro pode ser impedido de ser, mas existem aqueles que, na coletividade, encontram forças para mudar essa história. “Ao desfazer em mim esses estereótipos, estou conseguindo produzir um processo educativo pros meninos se perceberem também. E a gente se percebe junto. A gente vai se vendo, se construindo e se refletindo sempre um pouco mais”, conta o professor, que espera que seus alunos sejam muito mais do que números.

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