Aos 40 anos, a engenheira eletricista Patrícia Centeno deu uma “virada de chave” em sua vida. Através da literatura de Djamila Ribeiro, ela deu os primeiros passos em uma jornada de autodescoberta, buscando entender sua identidade como mulher preta. Hoje, três anos depois, a porto-alegrense não apenas mergulha nas obras de pensadores e nos conteúdos de influenciadores negros nas redes sociais, como também se engaja na luta negra. Os cabelos, antes alisados, voltaram ao crespo natural, quando não estão trançados, reforçando sua identidade.
Ainda na primeira infância, ela se percebeu diferente não só pelo tom de sua pele, mas também devido ao racismo que sofreu na escola durante o Ensino Fundamental. “Foi uma experiência violenta, que muitas crianças pretas passam quando têm seu primeiro contato com crianças brancas. São brincadeiras, agressões verbais, às vezes físicas, recorrentes. O tratamento diferente dos professores, a conivência dos diretores, de não nos defender de situações de racismo na escola”, explica a engenheira formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2011, única mulher negra da sua turma.




Se enxergar negra é algo que vai além da cor, que, no caso de Patrícia, era reforçado pelo fato de seus pais dizerem que ela era parda. Isso por ela ser mais clara que sua irmã mais velha. Independentemente do tom de pele, o racismo que a levou a se identificar como preta e, posteriormente, buscar um maior entendimento sobre sua identidade, é o mesmo que causa dor e sofrimento para metade da população brasileira.
“No momento em que tu reconhece tudo isso, também reconhece a necessidade de se organizar para lutar e mudar a sociedade”
LUIZ FELIPE DE OLVEIRA TEIXEIRA, coordenador estadual do Movimento Negro Unificado
“É muito difícil e doloroso. Como o racismo é muito sofisticado, as agressões acabam também se sofisticando, as pessoas não vão te xingar ou cometer uma injúria racial, é mais raro, elas se confundem. Tu acha que é um problema teu, achando que não é bonita ou inteligente o suficiente, quando essa não aceitação da sociedade se resume a racismo”, relata Patrícia. “Foi muito difícil, mas libertador uma vez que eu entendi que o problema não era comigo”, diz a engenheira.
Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2021, 47% dos brasileiros se declaram como pardos e 9,1% como pretos. Os números apontam um aumento de 0,3% de pretos se comparados a 2020 e uma queda de 0,5% de pardos, indicando o crescimento do número de pessoas que passaram a se identificar como negras.
A autopercepção tem papel fundamental no combate ao racismo estrutural, pois reconhece e valoriza a diversidade racial na sociedade. Ela dá visibilidade e lugar de fala às comunidades negras, além de promover o empoderamento e reconhecimento.
Luiz Felipe de Oliveira Teixeira, coordenador estadual do Movimento Negro Unificado (MNU), reforça essa importância e diz que o aumento das autodeclarações é fundamental para impulsionar mudanças na sociedade. Comissário de polícia aposentado, ele observa que, ao se reconhecerem como negras, as pessoas entendem os diversos preconceitos enfrentados por essa parcela da população. Para ele, optar por se declarar como pardo pode ser encarado como um mecanismo de defesa, uma forma de negar a própria raça e fugir da realidade de ser visto como inferior, enfrentando preconceitos e desigualdades impostos pela sociedade.



“No momento em que tu reconheces tudo isso, também reconheces a necessidade de se organizar para lutar e mudar a sociedade. Tanto para valorizar e reconhecer a história daqueles que lutaram e resistiram pela abolição, quanto para assumir a sua responsabilidade de melhorar o mundo para si, de denunciar essas violências, mas especialmente de construir um caminho para uma sociedade melhor, com menos racismo, violência e inferiorização do negro”, explica Teixeira. Ainda segundo o líder do MNU, só com negros em posições de valor e poder, ocupando espaços de predominância branca, é que se tem força para enfrentar uma sociedade estruturalmente racista.
Políticas públicas
A discussão sobre a autoidentidade racial tem se alastrado nas redes sociais. O tema é sensível e complexo, mas reconhecer a capacidade de um indivíduo de determinar sua própria identidade racial também é essencial para respeitar a diversidade e a complexidade da experiência humana. Ao incentivar que as pessoas declarem sua raça, o Estado pode adotar medidas que promovam inclusão e representatividade.
Enquanto alguns argumentam que o processo pode ser utilizado de forma equivocada ou oportunista – como já registrado em tentativas de fraude em vagas de cotistas para universidades públicas ou concursos –, outros percebem que a declaração de raça é uma maneira de reafirmação da identidade negra e uma ferramenta de combate da marginalização e de enfrentamento do racismo. Além disso, a autoidentificação racial também é fundamental para o desenvolvimento e implementação de políticas públicas. Para Gerusa Bittencourt, enfermeira no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, ela serve de base para o estudo e entendimento das necessidades específicas de diferentes grupos raciais, permitindo a criação de estratégias eficazes para promover a igualdade.
“Existem várias questões que têm respostas diferentes quando se faz um recorte de cor. Então, para determinação e priorização de políticas públicas, quando se pensa em emprego e renda, moradia, distribuição de terras, políticas de segurança pública, sem fazer um recorte de raça, metade da população passa batido, que é negra, preta ou parda”, afirma a enfermeira de 34 anos, também filiada ao MNU. “A autodeclaração é muito importante como um elemento para produção de políticas públicas efetivas para públicos específicos.”
Começo na infância
“Na escola, as crianças não perdoam, e eu virei a ‘negrinha’. Ali eu tive a noção de que eu não era branca”, relata Daiane Pires Pereira, de 22 anos, sobre o primeiro contato com o racismo, ainda na pré-escola. A trancista diz que também sofreu bullying por conta dos traços negróides evidentes.
A história de Daiane se confunde com a de Patrícia, cuja experiência como mulher negra também começou na infância, quando percebeu que, além da cor de sua pele, o tratamento dos colegas e professores também era diferente. “Durante todo o período escolar do Ensino Fundamental, eu sofri agressões diárias. No Ensino Médio, isso diminuiu. As agressões não eram mais tão explícitas, eram mais discretas e veladas, mas continuou acontecendo”, explica a engenheira.

No caso de Gerusa, foi no ambiente escolar que ela descobriu a necessidade da luta negra e da militância. “Na 8ª série, quando eu ingressei no movimento estudantil, minha autoimagem mudou, especialmente no período da escola, de grêmio estudantil. Para mim, foi bem fundamental o movimento estudantil dentro dessa linha do tempo”, relembra a enfermeira. Para as três, a escola foi imprescindível na formação das suas autoimagens. O racismo experienciado no local que deveria ser acolhedor marcou os caminhos que tomariam mais tarde em suas vidas.
“Nos desumanizam, nos tiraram a humanidade em algum momento. Ser negro é se humanizar”
GERUSA BITTENCOURT, enfermeira no Grupo Hospitalar Conceição
Para Daiane, mãe de duas meninas, o processo da autoidentificação será muito mais fácil para suas filhas do que foi para ela. “Minha menina de quatro anos ama tranças, se sente muito empoderada, sabe que é negra e não suporta falar que seja alguma coisa além de uma menina negra. É diferente quando já se tem um empoderamento dentro de casa”, explica a trancista, que também busca no trabalho uma forma de empoderar mulheres negras. “Ser trancista me ajudou a me reconhecer. Me amar como mulher preta.”
Os dados das pesquisas sugerem que mais e mais brasileiros se identificarão como negros, sejam adultos, como Patrícia, que entendeu sua posição aos 40 anos; ou sendo da nova geração, como as filhas de Daiane. “Antes de tudo, ser negro é humanizar, ser humano. Nos desumanizam, nos tiraram a humanidade em algum momento. Ser negro é se humanizar, se permitir ser humano, ter dor e sofrer, mas, ao mesmo tempo, sorrir e vencer, isso é ser humano. Isso é ser negro”, afirma Gerusa.
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