Camile Pasqualotto, de 45 anos, branca, loira de olhos claros, nunca havia se dado conta de que algumas situações vivenciadas ao lado de sua filha poderiam ser consideradas racismo. Tampouco as que presenciou ao longo do seu casamento de quase três décadas com o ex-jogador de futebol e atualmente técnico Roger Machado. Foi quando teve sua primogênita, Júlia Marques, hoje com 17 anos, autodeclarada negra, que o letramento racial passou a fazer parte de sua vida. A partir daquele momento, Camile, formada em Psicologia, se deu conta de que deveria estar atenta a questões culturais, raciais e étnicas para poder transmitir tais assuntos na educação da filha.
A maternidade inter-racial traz desafios e experiências únicas para as mães que se deparam com a questão de como reforçar sua própria identidade racial e cultural para seus filhos, enquanto também transmitem uma compreensão da herança histórica de seus pais, por exemplo. No entanto, a inter-racialidade também traz à tona estereótipos e preconceitos raciais que perpassam a vida dessas mães e, consequentemente, dos filhos. “Quando ela nasceu, as pessoas na rua achavam que era uma menina adotada, que não era minha filha biológica”, conta Camile. Até hoje ela se depara com olhares de surpresa para Júlia quando estão juntas. “Me olham com ar de admiração, como quem diz ‘nossa, pegou uma menina negra para criar’”, relata.
“Eu sempre elogiei muito os cabelos, o tom de pele, falava em como ela era linda. Sempre falei que ela tinha um jeitinho que era só dela”
CAMILE PASQUALOTTO, psicóloga
Ao longo do crescimento de Júlia, Camile foi se dando conta da falta de representatividade de personagens negros na infância da filha. O padrão conhecido por ela desde criança era o da maioria dos filmes e revistas na época: branco e loiro. Quando a menina nasceu, em 2005, a psicóloga precisou pensar em um ambiente inclusivo, onde a pequena pudesse se sentir acolhida, além de estar sempre afirmando como sua herança racial e étnica era importante também. Além disso, precisou aprender sobre como cuidar de um cabelo crespo, porque, até então, todos da sua família tinham cabelo liso. Tudo para construir a autoestima de Júlia. “Eu sempre elogiei muito os cabelos, o tom de pele, falava em como ela era linda. Sempre falei que tinha um jeitinho que era só dela”, diz Camile Pasqualotto.

Afeto que ultrapassa vínculos sanguíneos
O número de pessoas que desejam adotar filhos no Brasil é quase cinco vezes maior do que o de crianças e adolescentes disponíveis, de acordo com um levantamento feito pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). No entanto, os dados também mostram que pretos e pardos representam cerca de 70% dos abrigos do país, isso porque 30% dos pretendentes em adotar optam por um filho branco. Mesmo assim, a inter-racialidade também está presente em grupos familiares não-biológicos e faz com que o processo de adaptação tenha suas especificidades e particularidades.
Como o vínculo nem sempre se constrói desde o nascimento, a conexão dessa nova família se desenvolve praticamente do zero, algo que demanda tempo e paciência. A doutoranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisadora sobre adoção inter-racial Liziane Guedes diz que se um dos tutores for uma pessoa negra, a criança negra adotada provavelmente vai ter mais facilidade para se adaptar no contexto familiar. A psicóloga ainda complementa falando sobre a importância da construção da subjetividade dessa criança. “A função de uma mãe branca quando tem um filho negro, seja por adoção ou não, passa por ajudar essa criança a entender, por exemplo, que a história das pessoas negras no mundo é muito maior do que a história de escravidão africana”, afirma Liziane. Isso ultrapassa um processo de afirmação da identidade e passa a ser também um processo de proteção da violência que o racismo coloca na vida de pessoas negras desde muito cedo.
É importante que esses pais estejam sempre disponíveis para enfrentar qualquer contexto junto com a criança. Além disso, precisam traduzir essas situações para ela de maneira aberta, sem diminuir o fenômeno do racismo e da violência racial como se fossem casos a serem ignorados ou na sociedade.
Construção através de muito diálogo
As preocupações acerca de identidade, autoestima e medo do preconceito racial fazem com que as mães brancas que têm filhos negros ou pardos introduzam em suas conversas questões sociais e raciais logo na infância. Muitas vezes surgem dúvidas sobre a melhor maneira de conversar acerca de assuntos tão sensíveis. “Endereçar perguntas para o real que está posto e fazer uso de livros infantis que abordem o tema”, é o que sugere Maria Ribeiro, cientista social e professora no Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades na Universidade de São Paulo (USP). “Jamais tratando do assunto como se fosse coisa de adulto”, completa.
No caso de Maria, mulher negra, mãe de uma criança branca de oito anos, uma das lembranças mais marcantes com Antônio, foi quando o menino recebeu o famoso jogo “Cara a Cara”. Ao ser questionado se havia mais pessoas negras ou mais pessoas brancas representadas no jogo, ele, espontaneamente, pegou um papel, uma caneta, fez as contas e percebeu que a maior parte das representações eram brancas. “Eu lembro que ele respondeu: ‘acho que é por causa do racismo e porque as pessoas brancas é que decidem que figuras vão aparecer no jogo’”, relata Maria. Desnaturalizar as posições sociais e dar nome aos elementos que compõem nossa paisagem social é válido tanto para crianças brancas quanto para não brancas.
Cabe ao tutor propor o debate racial desde cedo, respeitando o grau de entendimento do pequeno. Endereçar perguntas do mundo real, nomear todos os elementos, motivar a curiosidade e convidar essas crianças a respondê-las são boas medidas. Às vezes a construção da forma de educar um filho fruto de um relacionamento inter-racial começa antes mesmo da gravidez. Foi o caso de Camila Silva, de 27 anos, jornalista e mãe do Joaquim de um ano, seu primeiro filho. Quando conheceu Benhur, pai do menino, já começou a refletir sobre como seria formar essa relação familiar inter-racial com um homem branco.
“Eu acho que meu papel é fazer com que ele seja um cidadão melhor, um aliado dessas pautas”
CAMILA SILVA, jornalista
Ao longo de sua vida, Camila foi, mesmo que involuntariamente, influenciada através das pessoas que convivia, a criar uma criança negra e, com isso, introduzir mecanismos de defesa para ela enfrentar uma sociedade racista. “Só que eu não estou nesse lugar porque eu tenho um filho branco”, pondera. “Eu acho que meu papel é fazer com que ele seja um cidadão melhor, um aliado dessas pautas.” Mesmo que hoje se considere uma mulher muito consciente racialmente, Camila conta que nem sempre foi assim. Apesar de ter vindo de uma família majoritariamente negra, a jornalista foi construindo essa consciência com o passar dos anos, porque o assunto não era discutido na sua família. “Com o Joaquim já é diferente, desde antes dele nascer isso é discutido no seio da nossa casa, da nossa família, no lar que ele está inserido”, relata.
Os pais de Benhur, esposo de Camila, também são um casal inter-racial, o que faz Joaquim ser uma criança ainda mais exposta a questões da educação antirracista, além de conviver com as identidades dos dois lados da família. Uma das formas de Camila transmitir um pouco de si para o pequeno é através da fé, algo muito presente na vida da jornalista desde a infância. Joaquim é uma criança de terreiro, ou seja, frequenta o ambiente praticamente desde o nascimento, o que Camila considera muito simbólico, porque fortalece ainda mais a conexão entre eles.
Vivências de um amor incondicional
Independente das diferenças de cor e raça, os laços de afeto e cuidado de mães e filhos são incomensuráveis. Os constantes aprendizados, a troca de experiências, a evolução dos dois lados dia após dia, o levantamento de diálogos e a construção de um vínculo único são apenas alguns dos momentos mais bonitos da maternidade. Ao longo do crescimento dos pequenos, cada mãe guarda com carinho algum ponto marcante da criação de seus filhos.
Para Camile, esse momento aconteceu quando ela e sua filha mais velha, Júlia, conversavam sobre o sistema de cotas pela primeira vez. “Ela sabe da importância para o processo de reparação histórica, por ela ter toda essa consciência”, diz. O acesso precoce de Júlia aos debates sobre questões como raça, gênero e cor evidencia a importância dos pequenos dialogarem acerca de tais temas logo na infância. Isso mostra que a maternidade inter-racial é uma oportunidade para o enriquecimento cultural e o aprendizado mútuo entre mãe e filho.
Não existe nenhuma fórmula exata de como exercer a maternidade, cada mulher vai aprendendo a cada dia a melhor forma de construir essa relação com seu filho. É o que acontece com Camila, que está descobrindo ao lado do pequeno Joaquim como criar um cidadão melhor para o mundo. Para ela, para que ele tenha essa compreensão da história, as relações de convivência e de entender que ele é uma pessoa branca em um lugar de privilégio precisam estar muito elucidadas. “Ele vem de uma família majoritariamente negra do meu lado, uma família matriarcal, onde as mulheres negras têm um papel crucial na estrutura dessa família, uma família de terreiro, uma família de Carnaval, uma família de samba”, pontua. “Isso já vai fazer com que ele entenda essa história.”

Camila também guarda com muito carinho o momento mais simbólico que vivenciou ao lado de Joaquim, quando realizou uma obrigação religiosa e recebeu seus axés de ifá e de obé. A jornalista faz parte da nação Oyó e Ijexá e procura passar para ele essa paixão, essa fé e esses valores tão importantes para o filho. “O Joaquim foi para o chão comigo [ritual iniciação]. Ele ficou todo o período que eu estava resguardada do meu lado, ele participou de todos os processos, ‘se sujou’ de axorô [sangue de animais], foi abençoado pelos orixás e foi muito simbólico para mim”, conclui.
LEIA MAIS
- Um respiro de vida – Como o acompanhamento de doulas para mães negras pode impactar para uma maternidade saudável
- Não se escolhe amar – O sonho de construir uma família leva mães e pais à fila da adoção.