Atenção! Esta reportagem aborda um assunto delicado: o número dois. A ação que o “dois” representa é facilmente compreendida, por isso não seria necessário deixá-la explícita. Mesmo assim, vamos dizer com todas as letras: estamos falando de cocô. Fezes, excremento, bosta, titica, caca. São muitos os apelidos que usamos como um código secreto para falar de algo que todos nós fazemos, mas que, por algum motivo, a maioria das pessoas não gosta de discutir abertamente.
O tema é frequentemente ignorado, considerado desconfortável e embaraçoso. Isso explica a popularidade do eufemismo “número dois”, um dos nossos modos de suavizar um tema que, apesar de ser natural e inerente à vida de quase todos os seres vivos, parece precisar ser transformado em algo mais leve.
Acredite ou não, a história por trás desse termo aparentemente simples não é tão óbvia. Os termos “número um” e “número dois” para se referir ao uso do banheiro são antigos e amplamente conhecidos. A explicação mais comum é que “número dois” (number two) rima com “poo” (cocô) em inglês, tornando a associação divertida e fácil de lembrar. Há também uma lenda urbana que esses termos surgiram em escolas, onde crianças levantavam um ou dois dedos para indicar suas necessidades ou que o “número dois” estava relacionado ao número de descargas necessárias: uma para urinar e duas para defecar. A origem exata é incerta, mas a simplicidade e a sequência numérica ajudaram na popularização desses termos.
De onde vem a vergonha?
Especialistas de diferentes áreas apontam várias razões para o tabu, que vão desde questões culturais até aspectos psicológicos. Do ponto de vista cultural, a pureza espiritual está frequentemente associada à limpeza física. Para muitos povos, a imagem e o odor de fezes, assim como a própria menção ao assunto, podem simbolizar “sujeira e fedor” de energias e espíritos.
Quanto à parte psicológica, o estigma em torno das fezes pode ser rastreado até em aspectos fundamentais do desenvolvimento humano, conforme descrito pelo pai da psicanálise, Sigmund Freud. Bebês, que ainda não possuem capacidade de reconhecer tabus sociais, atendem às necessidades fisiológicas de forma natural e instintiva. Durante os primeiros anos, é comum que as crianças demonstrem curiosidade e até fascínio por suas próprias fezes, sem sentir vergonha ou constrangimento.

Mesmo assim, a aversão ao tema pode surgir ainda durante a infância. É o que explica a psicanalista gaúcha Juliana Marinho: “A maneira como os pais lidam com o desfralde pode criar estigmas em torno do cocô. Se os pais tratam as fezes como algo nojento, a criança pode internalizar essa percepção”. Segundo Juliana, isso acontece normalmente durante o desfralde, momento em que a naturalidade da criança com o tema pode entrar em conflito com as exigências sociais de higiene. Algumas crianças lidam bem com o processo, enquanto outras podem desenvolver nojo e dificuldades para realizar o ato. A abordagem tomada pelos pais tem um papel central no resultado.
“Se o desfralde for traumático, a criança pode desenvolver problemas na vida adulta”, alerta Juliana, que explica: “Se a criança cresce vendo o cocô como algo nojento, isso pode gerar sentimentos de raiva e agressividade. Esses sentimentos ficam no inconsciente e influenciam o comportamento na vida adulta”.
Seu cocô é amigo?
Para ajudar o filho Elvis, de três anos, durante o desfralde, a cartunista gaúcha Mauren Veras criou o livro Cocô Amigo. A artista percebeu uma escassez de recursos que abordassem o tema de forma leve e positiva.
“Os próprios pais, em tom de brincadeira, falam ‘ai, que cocô fedido’. Isso já vai colocando uma trava na criança desde muito cedo”, conta.
Por isso, Mauren decidiu produzir um material que pudesse apoiar não apenas seu filho, mas também outras famílias passando pela mesma fase. A história, compartilhada nas redes sociais, conquistou centenas de mães e pais com uma abordagem divertida.
“O caminho é ter essa naturalização do cocô”
MAUREN VERAS, autora de Cocô Amigo
Mauren enfatiza o papel dos pais como modelos de comportamento e a importância deles adotarem uma atitude positiva e descontraída em relação ao assunto do cocô. “O caminho é ter essa naturalização do cocô. O desafio está na mudança da mentalidade dos pais – aproveite que é uma coisa que a criança gosta, que acha engraçado, para lidar com o assunto de forma mais aberta”, explica a cartunista.
Essa perspectiva é reforçada pela compreensão de que as crianças aprendem mais com exemplos do que com palavras – não só em casa. A experiência pessoal de Mauren durante o desfralde de seu filho influenciou não apenas a elaboração do livro, mas também incentivou a criação de uma rede de apoio mútuo entre pais e escola, valorizando uma abordagem lúdica e positiva para aceitar esse aspecto natural do corpo humano.
Estigma que adoece
A relutância em falar sobre fezes entre os adultos vai além do desconforto que o assunto pode causar e tem consequências reais para a saúde e o bem-estar. Quando se trata de saúde intestinal, a vergonha e a necessidade de enfeitar a conversa podem acabar ocultando informações cruciais, e a falta de conhecimento sobre o tema pode levar sua saúde por água abaixo.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), doenças inflamatórias intestinais (DIIs) afetam 100 a cada 100 mil habitantes no Brasil. A doença de Crohn e a retocolite ulcerativa são as principais representantes das DIIs. Na região sul, a concentração dessas doenças é ainda maior. “O problema é agravado no contexto da sociedade gaúcha, que possui tradições machistas. É difícil para uma pessoa conservadora mostrar o ânus a um desconhecido e permitir ser examinado”, explica o professor Paulo de Carvalho Contu, chefe do Serviço de Coloproctologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA). De acordo com o médico, o problema é quase exclusivo dos adultos, que apresentam resistência maior ao tema.
“O paciente busca ajuda médica só quando o incômodo que os sintomas causam supera o constrangimento”
PAULO DE CARVALHO CONTU, chefe do Serviço de Coloproctologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Especialistas da SBCP estimam que cerca de 90% das pessoas afetadas não buscam orientação médica quando os primeiros sintomas surgem. A doença de Crohn habitualmente causa diarreia e cólica abdominal, sintomas que podem facilmente ser ignorados e negligenciados pelos pacientes que preferem lidar com o incômodo do que expor sua intimidade. Segundo o professor Contu, o pedido de ajuda costuma chegar apenas quando o quadro fica insustentável: “O paciente busca ajuda médica só quando o incômodo que os sintomas causam supera o constrangimento”.
Algumas pessoas com problemas intestinais, como a constipação, ficam vários dias sem evacuar, mas normalmente acham que o motivo não é suficiente para buscar ajuda médica. Entretanto, ignorar o problema pode ser um grande erro. “Essa constipação, se negligenciada, pode causar repercussões sérias no ânus e levar ao desenvolvimento de doenças”, diz o professor do HCPA.
De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o diagnóstico rápido é primordial para iniciar o tratamento adequado precocemente, evitando a piora do quadro e manifestações mais graves.
O tabu em torno do cocô pode não apenas impedir que a pessoa busque tratamento, mas também contribuir para o surgimento de problemas intestinais. Hoje, estima-se que uma em cada cinco pessoas no mundo sofra de distúrbios gastrointestinais (DGIs), impactando significativamente sua qualidade de vida.
O professor Contu afirma que a maioria das questões colo intestinais decorre de maus hábitos alimentares e de defecação — práticas que a pessoa pode não perceber como incorretas, especialmente porque não é comum trocar informações sobre hábitos de cocô entre amigos.
Por isso, é essencial consultar um médico para verificar se seu intestino está funcionando corretamente. A consistência do cocô, a frequência das evacuações e o tempo que ficamos no vaso são indicadores importantes para avaliar a saúde intestinal.
Para superar o constrangimento, a abordagem transparente e a disposição para discutir questões delicadas são passos importantes para garantir uma saúde intestinal ótima e um bem-estar geral. Um pouco de sinceridade e uma dose de bom humor podem transformar um desconforto em uma oportunidade para uma vida mais saudável.
LEIA MAIS
- A paciência da espera: Antes e depois de um transplante, o tempo é peça-chave para quem quer viver. Encontrar um doador é o ponto de partida para o transplantado se reencontrar após a doação
- Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar: Depois de conseguir sair do Mapa da Fome da ONU, o Brasil parece ter embarcado em um retrocesso sem fim, que faz com que a insegurança alimentar volte a bater recordes mesmo em um país que produz tantos alimentos