O Poder de vencer Barreiras

Capacitismo. Paula Schitz.
Capacitismo. Artista: Paula Schitz.

O que aconteceria se a sociedade inteira estivesse disposta a ser inclusiva? Entenda o que é o movimento anticapacitista pela perspectiva de três pessoas, de diferentes regiões do país, com deficiência 

REPORTAGEM
Kênia Fialho
kenia.r.fialho@gmail.com

ILUSTRAÇÃO
Paula Schitz

Em março de 2020, a população brasileira foi obrigada a aderir ao isolamento social. Quem tinha condições passou a trabalhar, se exercitar, fazer suas refeições e ter seus momentos de lazer todos em casa. As janelas passaram a ser o único espaço de relação com a rua. Nesse contexto, as pessoas aprenderam ainda mais a importância de cuidar da saúde mental e de valorizar as relações sociais.  Mas você já parou para pensar que esse isolamento social está presente na vida de uma parcela da população há muito mais tempo?Algumas pessoas precisam ficar reclusas por falta de um cuidador disponível para sair, pelas más condições de ruas e calçadas ou pela falta de casas e estabelecimentos adaptados. Essa é a realidade de muitas pessoas com deficiência (PCDs).

Mas o que vem a sua mente quando você pensa em pessoa com deficiência? Se as respostas forem: coitadinho, abençoado, anjo, presente de Deus, menos capaz, está na hora de você conhecer, identificar e eliminar o capacitismo da sua vida.

Segundo o  livro “O que é Deficiência?”, da pesquisadora Débora Diniz,  deficiência é um conceito complexo, que reconhece o corpo com lesão, mas que também denuncia a estrutura social que oprime a pessoa com deficiência. Assim como outras formas de opressão pelo corpo, como o sexismo ou o racismo, os estudos sobre deficiência descortinam uma das ideologias mais opressoras de nossa vida social: a que humilha e segrega o corpo não convencional. Capacitismo é justamente a discriminação praticada contra a pessoa com deficiência.

Fernanda Soares. Pauta Kenia Fialho
Fernanda Souza percebeu o quanto são inexistentes dados sobre a saúde mental de pessoas com deficiência | Foto: Acervo Pessoal

 A psicóloga Fernanda Souza, 26 anos, de Embu das Artes, em São Paulo,   nasceu com artrogripose congênita múltipla dos músculos, uma deficiência em que articulações não se desenvolvem.  Ela conta que o  capacitismo está enraizado na sociedade. “São pequenas coisas que as pessoas dizem que diminui a pessoa com deficiência. ‘Você é muito bonita, pena que você é deficiente’, ‘você é muito esforçada, pena que você anda em uma cadeira de rodas’.”  Nesses casos, geralmente as experiências, as características e os saberes são desconsiderados. Além de todas as consequências psicológicas e estruturais que o capacitismo causa, ele também pode ter consequências fatais, como a morte. Em 2014, um jovem negro surdo e com problemas mentais foi morto pela polícia em Mato Grosso sem ter cometido crime algum. 

Em uma contranarrativa,  nasceu o Movimento Anticapacitista. O termo é novo inclusive para quem sempre sofreu esse tipo de preconceito. Ele surge como uma resposta à opressão, à falta de direitos e de informação.

A luta pela efetivação de direitos fundamentais

Segundo o censo de 2010, cerca de  23,9% da população total brasileira têm algum tipo de deficiência – visual, auditiva, motora, mental ou intelectual. De acordo com a Lei 13.146, de 6 de julho de 2015, conhecida como Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), essa população tem acesso garantido à saúde, educação e lazer. Mas, na prática, esses direitos são pouco disseminados, e o acesso a essas informações varia muito de acordo com o grau de instrução e classe social. É o que conta a psicóloga Fernanda: “Nem tudo faz sentido, porque não contempla a diversidade das pessoas. Cada família se move de um jeito na sociedade. Recentemente, eu descobri que é obrigatório os pais de filhos com deficiência terem acompanhamento psicológico”. Fernanda está se referindo ao Artigo 18 da Lei de Inclusão, que, dentre os direitos à saúde, assegura para a pessoa com deficiência o atendimento psicológico inclusive para seus familiares e atendentes pessoais. Além da questão de falta de acesso à informação, ainda existe o fato de que algumas conquistas são muito recentes e acabam se tornando pouco efetivas. 

Romper silêncios

A democratização do acesso à internet permitiu que vozes antes silenciadas agora sejam ouvidas e disseminadas. Eduardo Victor, 20 anos, é carioca, criador de conteúdo na internet desde 2017 e nasceu com paralisia cerebral. Ele começou a produzir conteúdo porque não se identificava com os criadores que via no ambiente virtual. “Eu sou uma bixa, uso cropped, falo alto, bato palmas, sou do subúrbio do Rio de Janeiro, gosto de shortinho e sou PCD. Eu não via pessoas como eu. Hoje, quando eu vejo várias pessoas falando sobre elas mesmas, acho isso muito bonito. Eu sempre digo que o poder da fala me salvou. Eu não superei o capacitismo, mas eu escolhi dividir isso com outras pessoas. Eu estou ali para naturalizar esse processo, não somos anomalia.” Mas  Dudu, como gosta de ser chamado, tem consciência de que fala a partir da perspectiva de um homem branco. Segundo ele, é preciso sempre estar atento ao fato de que pessoas não brancas com deficiência lutam para não serem mortas no Brasil.

“A grande questão é o olhar do outro, me impactava demais a reação das pessoas que antes me viam caminhando. Fiquei muitos anos isolada, adoeci mentalmente. Tive síndrome do pânico, depressão, crises de ansiedade”

FERNANDA VICARI, assistente social que tem distrofia muscular

A assistente social Fernanda Vicari, 39 anos,  é moradora de Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, e tem distrofia muscular, uma doença neuromuscular degenerativa progressiva.  Ela foi diagnosticada  aos 21 anos e passou a usar cadeira de rodas em 2012. “A grande questão é o olhar do outro, me impactava demais a reação das pessoas que antes me viam caminhando. Fiquei muitos anos isolada, adoeci mentalmente. Tive síndrome do pânico, depressão, crises de ansiedade”, conta. Mas o medo e a solidão se transformaram em luta. Ainda em 2012, Fernanda começou a participar das reuniões do Conselho Municipal de Direitos da Pessoa com Deficiência de Canoas a convite do presidente da Associação Canoense de Deficientes Físicos (ACDF). A partir de então, ela  foi  se envolvendo cada vez mais com a causa das pessoas com deficiência em diferentes espaços. Hoje, ela participa do Coletivo Feminista Helen Keller, de mulheres com deficiência, e da Comissão da Saúde da Pessoa com Deficiência de Porto Alegre. 

Fernanda Vicari. Pauta Kenia Fialho.
Fernanda Vicari é assistente social e militante pelos direitos das pessoas com deficiência | Foto: Acervo Pessoal

Já para sua xará Fernanda Souza, para que fosse possível falar sobre suas experiências, foi preciso percorrer um longo caminho de autoconhecimento. A oportunidade de falar da questão psicológica de PCDs foi um diferencial. “Eu passei por uma desconstrução muito grande, porque eu sou mulher, sou negra, sou periférica e sou  PCD, tenho o combo todo.  Primeiro eu precisei me entender como mulher, depois mulher negra, depois mulher periférica e depois mulher com deficiência. Foram várias etapas que eu fui vivendo. Quando eu cheguei em mulher com deficiência, eu vi que eu poderia falar a partir da minha perspectiva”, explica a psicóloga. Além disso, por ser católica praticante, ela percebeu de cara a necessidade de falar sobre as multiplicidades de pessoas com deficiência dentro da Igreja. Na visão de Fernanda, algumas religiões têm a ideia de que o deficiente precisa ser curado. A melhor forma de combater essa noção equivocada, na opinião dela, é sendo presente nesse e em outros espaços. 

Uma das armas do capacitismo é fazer com que o próprio indivíduo desconfie das suas habilidades. Assim, o processo de autoconhecimento e fortalecimento da autoestima é essencial. Além disso, em um mundo criado para pessoas não deficientes, PCDs tendem a se sentir excluídos. A  psicóloga Fernanda Souza observa a falta de dados sobre PCDs em pesquisas sobre saúde mental. “Por exemplo,  em uma reportagem que fala do número de suicídios, vai ter porcentagem para mulher, para homem, para pessoas negras, para pessoas LGBTQIA+.  Mas não tem dados de quantas pessoas com deficiência tentam tirar a própria vida, ou têm depressão. E essas pessoas existem. Precisamos falar em saúde mental voltada para esse público.”

Como ser aliado na luta anticapacitista?
Eduardo Victor - Pauta Kenia Fialho
Eduardo Victor é criador de conteúdo na internet desde 2017 | Foto: Acervo Pessoal

A abertura para o diálogo sobre essas questões é um passo importante. Mas  não adianta, por exemplo,  chamar pessoas com deficiência para falar exclusivamente sobre isso.

Para o criador de conteúdo Eduardo, não existe um tutorial anticapacitista. “As pessoas na internet querem um diploma anticapacitista, antirracista, antimachista. Por que você quer isso? Você quer uma mudança de verdade ou quer só massagear seu ego?”, alerta. 

Fernanda Vicari acredita que o primeiro passo é ouvir o que as pessoas com deficiência têm a dizer. Depois, acolher o que é dito e validar a experiência e o conhecimento dos PCDs.

“As pessoas na internet querem um diploma anticapacitista, antirracista, antimachista. Por que você quer isso? Você quer uma mudança de verdade ou quer só massagear seu ego?”

EDUARDO VICTOR, criador de conteúdo

Já Fernanda Souza entende que é preciso estar atento. Em todo o lugar que você estiver se pergunte: existem PCDs nesse espaço?  Existem condições reais para que  um indivíduo usufrua dessa estrutura de forma plena? Além disso, se pergunte: quantos artistas PCDs você conhece? Quantos jornalistas PCDs você acompanha? O problema nunca vai ser só a rampa, ou só o elevador, existem ainda muitos obstáculos para fazer com que os PCDs deixem de ficar isolados, vendo o mundo apenas pela janela.

Fernanda Souza - Janela
Janela da psicóloga Fernanda Souza, que inspirou a reportagem | Foto: Acervo Pessoal
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