Protesto nas Paredes

Projeção Borga

Luzes de projetores se unem aos protestos durante a pandemia

REPÓRTER
Giullia Piaia
giullia.cp@gmail.com

ILUSTRAÇÃO
Borga

Em uma noite de março de 2020, por volta das 20h , começa um panelaço em Porto Alegre. Uma manifestação contra o governo de Jair Bolsonaro. Entre gritos e batidas de panelas, coloco a cabeça para fora da janela do meu apartamento e vejo, provavelmente, a maior projeção que já havia visto. Ela ocupa grande parte da lateral do edifício Spot, na Rua General Lima e Silva, na Cidade Baixa, e reproduz uma imagem do presidente com letras grandes que pedem “Fora Bolsonaro”. A imagem ocupa cerca de dez andares do prédio. Depois de alguns minutos, o panelaço termina e a projeção desaparece.

Projeção no spot. Pauta Giullia Piaia
Projeção ocupou cerca de dez andares do edifício Spot | Foto: Luiza Castro / Sul21

O fenômeno das projeções urbanas durante protestos começou a ser observado nos maiores centros brasileiros no início da pandemia do coronavírus no país. Um dos responsáveis por dar visibilidade e por popularizar esse tipo de intervenção foi o recifense VJ Mozart. Os VJs – abreviação de vídeo jóqueis – são artistas que fazem performances visuais em tempo real. “Quando começou a pandemia, passamos a ficar dentro de casa e a ver o mundo pela janela. E, da minha janela, eu via as pessoas do meu bairro na rua quebrando a quarentena. Conversando com outro amigo VJ, tivemos a ideia de fazer um trabalho de conscientização com projeção. Nós não podemos sair, mas a luz dos nossos projetores pode e, com ela, a informação”, conta. 

Mozart, o colega VJ Spencer e a cientista política Bruna Rosa, os dois últimos, moradores de São Paulo, começaram a ligar para outros colegas e convidá-los a participar do projeto. “Se cada um cuidar do seu bairro, a conscientização vai ser maior”, diz Mozart sobre a importância de haver uma grande rede de projetistas. 

“Nós não podemos sair, mas a luz dos nossos projetores pode e, com ela, a informação”

VJ MOZART, artista

E assim surgiu o Projetemos, que é, provavelmente, a maior rede de projetistas do Brasil e uma das maiores do mundo. São cerca de 45 participantes, entre VJs profissionais e outros voluntários, em 15 cidades, que trabalham para levar ao público mensagens de conscientização, esperança e crítica, em meio a panelaços ou não. “O Projetemos sempre teve um cunho de protesto. Foi a falta de ação do Governo Federal que nos levou a agir”, adiciona Mozart.

Jana Castoldi também é VJ e faz parte da rede do Projetemos. Da janela de seu apartamento, no centro de Porto Alegre, reproduz as projeções da rede, além de suas próprias criações. Acostumada a usar as projeções para um cunho mais artístico, Jana foi convidada a participar da rede por meio de um grupo de Whatsapp com vários VJs, dentre eles Mozart e Spencer: “Nesse grupo, sempre discutíamos juntos as pautas do dia e dali definíamos o que iríamos projetar naquela noite”. 

Jana já era conhecida entre seus vizinhos por suas projeções artísticas, que ganhavam destaque nas redes sociais da VJ. As novas projeções, além de aparecerem nos perfis de Jana, aparecem também no perfil do Instagram do Projetemos, junto às imagens das projeções de outros VJs da rede.

Essas projeções estão, para mim, na mesma perspectiva de um pixo que é apagado no dia seguinte. O pixo deixa de existir, mas o pixador pode fotografar, filmar e colocar isso na internet, potencializando a existência daquela pixação”

GLÓRIA DIÓGENES, pesquisadora da área de antropologia urbana
Intervenções modernas

A professora da Universidade Federal do Ceará  (UFC), doutora em sociologia e pesquisadora da área de antropologia urbana Glória Diógenes observa que a documentação na internet das intervenções urbanas, sejam elas quais forem – projeções, pixos, graffiti, entre outras -, faz com que as questões do local e do tempo deixem de existir. “A projeção feita em um prédio qualquer é visível para as pessoas que estão ali no momento. Mas, à medida em que 10, 20 pessoas estão gravando, estão fotografando e sobem isso nas redes, a intervenção deixa de ser efêmera e deixa de ser localizada”, diz ela. Na opinião da professora, não se pode mais pensar as artes de rua de uma forma unicamente concreta, presencial, geográfica. “Essas projeções estão, para mim, na mesma perspectiva de um pixo que é apagado no dia seguinte. O pixo deixa de existir, mas o pixador pode fotografar, filmar e colocar isso na internet, potencializando a existência daquela pixação”, explica a professora.

Não apenas os projetistas colocam suas intervenções nas redes sociais, mas o público faz o mesmo, contribuindo ainda mais com a disseminação dos conteúdos. “Alguns vizinhos meus fotografam as projeções de ângulos diferentes e postam nos seus perfis do Instagram”, conta Jana.

No entanto, o fato do material ir às redes não retira totalmente a anonimidade do ato, caso assim deseje seu autor. A projeção é talvez mais anônima que as outras formas de arte urbana. Fisicamente, dura pouco tempo, e o projetor está resguardado pelas paredes de sua casa. Só se saberá sua identidade se ele assim desejar. Por esse motivo,o autor da projeção no edifício Spot naquela noite de março em Porto Alegre permanece desconhecido. Mas isso não diminui o impacto que sua intervenção teve na cidade e até no resto do Brasil.

Um breve histórico das projeções urbanas

O Projetemos foi precedido, internacionalmente, por outros grupos de projetistas, como o Proyectorazo – que atua, desde 2017, em diversos países da América Latina e já fez ações conjuntas com o Projetemos – e o The Illuminator, de Nova Iorque – em atividade desde 2011. O surgimento de novos coletivos de projetistas durante os últimos anos demonstra o crescimento dessa linguagem de intervenção urbana. “Vejo as projeções como a grande linguagem de protesto de 2020 no Brasil e no mundo”, opina Glória. 

Os três coletivos citados têm em comum o fato de trabalharem com ativismo, muitas vezes de cunho político. “O Projetemos não trabalha de forma comercial, trabalhamos apenas com militâncias”, frisa o co-fundador VJ Mozart. “Muitos movimentos sociais nos procuram para que a gente ajude a potencializar as suas lutas. Por exemplo, quando teve o breque dos apps, nós projetamos divulgando”, complementa Jana. O breque dos apps foi um movimento realizado em julho de 2020 por entregadores de aplicativos em todo o Brasil, reivindicando melhores condições de trabalho.

Se o uso de projeções quotidianas como forma de protesto é recente, não se pode dizer o mesmo das projeções artísticas em edifícios. A projeção mapeada – como é chamada a performance que projeta luz sobre diversos objetos, como prédios, carros, monumentos, entre outros -, também conhecida como video-mapping, foi utilizada pela primeira vez em 1969, nos Estados Unidos, em um parque da Disney. Desde então, já foi  utilizada por muitos artistas, alguns famosos – como Krzysztof Wodiczko e Jenny Holzer – e em campanhas publicitárias. “Eles mapeiam toda a fachada, dividindo-a em quadrantes. Depois cada quadrante é trabalhado isoladamente. Eles dão impressão de profundidade ou não, simplesmente fazendo algo menor, para parecer que está mais distante, ou maior, para parecer mais próximo. Mesmo que esteja na mesma superfície, a ilusão funciona”, explica o arquiteto e urbanista mineiro Sanso Garcia.

“A projeção mapeada em arquitetura está sempre vinculada a grandes empresas, com grande capital, pois é muito cara. Contudo, hoje, as pessoas têm acesso com mais facilidade a um projetor multimídia, pois já se fazem aparelhos mais baratos. Isso e um computador são o suficiente para fazer projeções mais simples, porém ainda dinâmicas”, diz Sanso.

Apesar de mais baratos, ainda não se pode dizer que o acesso aos projetores é democrático. “Um projetor dos mais básicos, com menos de 3000 lumens, custa mais de 2.500 reais. Então, com certeza, é uma intervenção urbana usada pela classe média hoje”, relata a VJ Jana. Além disso, mesmo que tenham o projetor, muitas pessoas não têm conhecimento de como criar as imagens que serão projetadas.

Sabendo dessas restrições, o Projetemos dá várias dicas para quem quer começar a projetar da janela da sua casa e participar do movimento. O próprio site do coletivo é uma ferramenta de video-mapping. Basta escrever o que se deseja projetar e ajustar à superfície de projeção, não é necessário nenhum conhecimento prévio de softwares ou mapeamento. “Basta ligar o projetor ao computador. Pode-se até mesmo usar o Power-Point para escrever o que se quer e projetar. O melhor é projetor com fundo preto e letras largas brancas, o contraste fica bom, e procurar uma superfície escura sobre a qual projetar”, recomenda Jana. Unindo duas formas de cidadania – a arte e os protestos – se amplifica a voz de indivíduos e coletivos em um contexto democrático. 

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