Sextante

Para além do diagnóstico

A multidisciplinaridade como um caminho para o acompanhamento da jornada de crianças em longos tratamentos médicos

REPORTAGEM
Isabella Piana
isabellacopatti@gmail.com

Arte de paciente criança do Hospital de Clínicas. Foto: Isabella Piana

Felipe Azeredo do Nascimento é um adolescente de 13 anos que toca flauta na Orquestra Villa-Lobos, em Porto Alegre. Ele também pratica piano e violão e prefere as peças clássicas. Quando está tocando, diz que sente felicidade e calma. Mas, por um tempo, a descoberta de um tumor fez com que ele precisasse se afastar da  música.

Em 2018, aos quatro anos, Felipe apresentava um quadro de anemia constante. Naquela época, recebeu o diagnóstico de Doença de Plummer, que resulta em um quadro de hipertireoidismo. No entanto, a medicação indicada não surtiu efeito. Foi durante a pandemia que veio a descoberta: Felipe estava com câncer na tireoide. Em 2022, fez uma cirurgia para retirada do tumor. “Foi muito rápido, fiz a cirurgia e fui fazendo o que tinha que fazer”, conta o garoto, que na época tinha sete anos. 

Felipe convive bem com um tratamento médico há quase uma década e é exemplo para seu irmão, João Henrique
| Foto: Isabella Piana

O procedimento, no entanto, não foi suficiente, e Felipe precisou passar por mais duas cirurgias. Uma em abril de 2023 e outra em novembro do mesmo ano, para retirada total do tumor. O garoto correu o risco de perder as cordas vocais, mas o resultado foi excelente. “Ele se recuperou superbem. É o nosso milagre”, conta sua mãe, Francielle Azeredo, de 29 anos, que atribui o sucesso da recuperação ao fato de Felipe ser criança na época. 

De acordo com o Painel Oncologia Brasil do Ministério da Saúde, em 2025 foram feitos 11.984 novos diagnósticos de câncer em crianças e adolescentes de 0 a 19 anos no país. Um levantamento realizado pela Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente (Sobrasp) concluiu que, no Rio Grande do Sul, 837 residentes no estado dentro dessa faixa etária receberam o diagnóstico no ano passado. E a percepção de Fran – como a mãe de Felipe é conhecida – pode não estar errada, pois, diferentemente dos tumores em adultos, o câncer infantojuvenil é formado principalmente por células embrionárias, o que possibilita uma resposta mais eficaz aos tratamentos.

Rotina escolar

A tireoide, uma glândula localizada no pescoço, é vital para o corpo humano. É ela que controla o metabolismo e regula o funcionamento de órgãos como coração, cérebro e fígado, além de influenciar no peso, humor, crescimento, na memória e fertilidade. Consequentemente, quando ela não está funcionando bem, a pessoa se sente sem energia. Por isso, mesmo com as boas respostas às soluções terapêuticas,  os problemas de saúde não deixaram de atrapalhar a rotina escolar de Felipe. 

O colégio não conseguia, por exemplo, suprir a dieta necessária para a realização de exames. “Para fazer as cintilografias, ele tinha que seguir uma dieta de sete dias”, exemplifica Fran. Esse exame de imagem utiliza, mesmo que em doses seguras, substâncias radioativas para avaliar o funcionamento de órgãos e tecidos. Como consequência, o menino não podia, durante alguns dias depois da avaliação, estar perto de outras crianças, incluindo João Henrique, seu irmão mais novo. 

Toda essa logística impactou a presença de Felipe na escola, e acompanhar as aulas não era uma tarefa fácil. Além de ter que respeitar as restrições alimentares,  o garoto faltava muito, devido às cirurgias e consultas. Isso fez com que ele precisasse repetir o quinto ano do ensino fundamental. 

Apesar dos problemas de saúde ocuparem parte da sua vida, Felipe acredita que não teve uma infância muito diferente das outras crianças. As consultas médicas eram parte de seu cotidiano e provocavam a curiosidade dos amigos. Eles perguntavam sobre os curativos e as marcas deixadas pelos procedimentos cirúrgicos, fazendo com que Felipe pudesse falar com os amigos sobre o que estava passando. Para ele, os períodos pós-cirurgias foram os piores, mas até com isso ele se acostumou, o que ajudou na recuperação rápida. 

“Quando tu olha a criança, além da doença, é importante pensar em quais são as necessidades dela enquanto sujeito de direitos”

Tatiana Dalmaso, chefe do Serviço de Educação Física e Terapia Ocupacional do Hospital de Clínicas

Tratar crianças com doenças raras ou que debilitam muito o corpo não é uma tarefa simples. Tatiana Dalmaso, chefe do Serviço de Educação Física e Terapia Ocupacional do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, atende crianças, adolescentes, adultos e idosos na atenção básica, nos ambulatórios e nas internações. A instituição conta com unidades pediátricas e cirúrgicas de internação e de oncologia, além de psiquiatria da infância e adolescência. Esses ambientes têm uma sala de recreação terapêutica, também conhecidas como brinquedotecas hospitalares. 

Esses espaços possuem equipes multidisciplinares. O atendimento inclui as áreas da enfermagem, serviço social, psicologia e medicina. Isso faz parte de um processo de humanização das crianças. “Quando tu olha a criança, além da doença, é importante pensar quais são as necessidades dela enquanto sujeito de direitos”, pontua Tatiana. 

A brinquedoteca do Hospital de Clínicas de Porto Alegre é um espaço lúdico para crianças internadas | Foto Isabella Piana

Segundo a especialista, a criança não costuma elaborar as suas experiências por meio da fala, como os adultos que fazem terapia. Ela aprende e demonstra os seus sentimentos através do brincar. “A criança vai reproduzindo as cenas do cotidiano, e esse jeito também é uma forma de elaborar toda essa experiência que ela está vivendo”, explica. “Então, muitas vezes, esse faz de conta faz com que a criança consiga passar por esse momento.”

O atendimento não tem resultados somente para os pacientes, mas também para os familiares, que testemunham o desenvolvimento das crianças, pois às vezes é preciso passar longos períodos no hospital. Assim, os adultos percebem aquele espaço como um local de acolhimento, em que a criança vai crescendo e aprendendo como qualquer outra, e não somente como um lugar de tratamento da doença. “Tem crianças que aprendem a caminhar aqui dentro, a engatinhar, a jogar. Elas seguem se desenvolvendo, porque a gente vai fazendo toda uma estimulação motora, cognitiva e social”, relata Tatiana.

Hospital é lugar de aprendizado

As pedagogas hospitalares Ana Hahn e Daniela Becker Miranda trabalham de forma conjunta no Hospital de Clínicas atendendo crianças e adolescentes de até 14 anos que estão afastados da escola devido às internações. Elas são responsáveis por aplicar, no hospital, conteúdos, provas e trabalhos da instituição de ensino em que os pacientes internados estão matriculados.

As profissionais começam realizando uma entrevista, a fim de entender o contexto em que a criança internada está inserida e, então, entram em contato com a escola para solicitar as atividades e também as provas. “Toda aula feita aqui é como se a criança estivesse presente lá. Então, por isso que eles mandam exatamente o que está sendo trabalhado na escola, e a gente trabalha aqui com eles”, explica Ana. O objetivo é evitar perdas pedagógicas durante o período de internação. O acompanhamento escolar traz um senso de normalidade para a rotina dos pacientes. “Tira um pouco o foco da doença. Eles conseguem sair do quarto e conversar sobre outras coisas”, pontua Daniela. 

De acordo com as especialistas, no início as crianças acham estranho ter aulas no hospital. “Umas fazem cara feia”, conta Ana. Mas, após começarem a participar, elas vão sozinhas para o local onde são realizadas as aulas. Ana conta que os reincidentes já chegam com a mochila e batem na porta. O diferencial desse acompanhamento é ser uma aula particular. Muitas vezes, as crianças conseguem tirar dúvidas que não perguntariam em sala de aula por vergonha. O trabalho das pedagogas ocorre em conjunto com as outras equipes do hospital. “Isso é muito bom para a criança, porque vai ter um olhar total nela. Então, é uma possibilidade de ajuda bem relevante”, destaca Ana.


 Os desenhos são formas de expressão das crianças hospitalizadas | Foto: Isabella Piana

A vida com música

Atualmente, Felipe realiza acompanhamento periódico com psicóloga, endocrinologista e neurologista, e os exames e medicamentos ainda fazem parte da sua rotina. O diagnóstico de Felipe foi também motivo para que todos os membros da família fossem investigados. A partir dessa investigação, ficou decidido que seu irmão mais novo, João Henrique, de seis anos, iniciasse um tratamento preventivo. 

Muitas crianças precisam conviver com doenças que atravessam abruptamente a infância. O diagnóstico atinge toda a família, mas, no caso de Felipe, os obstáculos têm sido enfrentados coletivamente, envolvendo familiares, amigos e profissionais da saúde. Em 2025, ele se reaproximou da música. Felipe, que antes estava apenas aprendendo os instrumentos, passou a fazer parte e a se apresentar com a Orquestra Villa-Lobos. Assim, a calma e a felicidade do flautista passaram a ser compartilhadas com todos.

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