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Decididas a transformar

Creuza Maria Oliveira | Laudelina de Campos Mello | Benedita da Silva | Nair Jane de Castro Lima| Lenira Maria de Carvalho
Creuza Maria Oliveira, Laudelina de Campos Mello, Benedita da Silva, Nair Jane de Castro Lima e Lenira Maria de Carvalho, referências na luta por direitos das trabalhadoras domésticas | Arte: Laura Tonial

Mulheres negras e trabalho doméstico: como garantir a autonomia dessas mulheres em seus lares e na sociedade?

  • A histórica relação das mulheres negras com o trabalho doméstico no Brasil e a luta constante por direitos, incluindo jornadas e remuneração justas que propiciem fomento e usufruto do próprio lar
  • Valorização e construção de autonomia através do aquilombamento e sororidade

Proposta para reportagem: 

O trabalho doméstico no Brasil tem raízes profundas no período escravocrata, quando mulheres negras eram forçadas a servir nas casas dos senhores. A Pesquisa Nacional por Amostra por Domicílio (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em dezembro de 2023, apontou que cerca de 6,08 milhões de pessoas exercem trabalhos domésticos no país.  Hoje, mais de 130 anos após a abolição da escravidão 90% dessas pessoas são mulheres, em sua maioria negras, com idade média de 49 anos e  apenas um terço tem carteira assinada com remuneração média de um salário mínimo. O desafio da informalidade permeia esse mercado de trabalho, o que evidencia a necessidade de implementação efetiva dos direitos previstos nas leis e na Constituição Federal. 

A reportagem propõe uma análise das dinâmicas exploratórias e desiguais enfrentadas pelas mulheres negras no trabalho doméstico no Brasil, que refletem a persistência de um sistema historicamente racista e classista. Embora as trabalhadoras domésticas tenham conquistado direitos formais, como a PEC das Domésticas, ainda enfrentam precarização, baixos salários e longas jornadas. Esse trabalho, essencial para o funcionamento das famílias e da sociedade, é frequentemente desvalorizado e invisibilizado. Além disso, muitas dessas mulheres enfrentam desafios para dedicar tempo e cuidado às suas próprias famílias, ao passarem grande parte do dia cuidando dos lares alheios. Isso levanta uma discussão sobre a privação familiar e o direito ao próprio lar. 

A narrativa buscará expor as contradições entre a formalização de direitos e a realidade cotidiana das trabalhadoras, destacando as tensões entre as obrigações profissionais e pessoais. Contudo, o enfoque não será na sobrecarga dessas mulheres, que cuidam de lares alheios enquanto muitas vezes têm seus próprios lares e famílias negligenciados. A pauta também abordará o papel de projetos como o Laudelina: Plataforma de Direitos das Trabalhadoras Domésticas, como uma ferramenta essencial para lutar contra a invisibilidade e precarização desse trabalho, oferecendo suporte e informações sobre os direitos dessas profissionais. O trabalho de luta sindical de Creuza Oliveira, uma importante liderança que esteve presente e ativa na elaboração da PEC das Domésticas, sendo parabenizada por seu envolvimento no Congresso no dia da promulgação. Além disso, idealizou o Conjunto Residencial 27 de Abril, em Salvador, condomínio exclusivamente habitado por trabalhadoras domésticas. E o Projeto Casa Limpa, de Gabi Valente, que busca novas perspectivas sobre a profissão de diarista através da valorização e capacitação profissional. Confrontada com a realidade de que muitas vezes a faxina é vista como a última opção, Gabi tem buscado mudar a forma como essa profissão é vista. Fundou uma empresa de limpeza para trazer mais dignidade ao papel das diaristas.  Com o objetivo de desfazer preconceitos e melhorar a qualidade do serviço, ela oferece cursos gratuitos de capacitação, cobrindo desde educação financeira até saúde postural. 

A pauta buscará apontar como o trabalho doméstico precisa ser visto como algo digno, importante e que merece respeito e reconhecimento, ressaltando as mulheres negras que foram e são resistência, para que diversas outras possam seguir sendo também. Trazendo a contribuição destas trabalhadoras pela busca por cidadania e direitos como um compromisso com a memória e tencionando a forma como mulheres negras, especialmente as trabalhadoras domésticas, são retratadas nas mídias.   

Possibilidade de BOX: Apontar como a qualificação e o empoderamento de trabalhadoras domésticas periféricas é importante para o combate ao racismo diante das contratações. Desde o estabelecimento das horas de trabalho que compreende a uma diária até o que lhes compete durante a atividade laboral. Tabela comparativa com custo de diária de arrumadeira e cozinheira com  outros serviços domésticos como personal organizer ou home chef onde qualificação, informação, auto estima, origem sócio-econômica e cor de pele influenciam no respeito e nos valores pagos pela contratação desses profissionais. 

Palavras chave: sindicalismo, associativismo, altivez, insubmissão, luta, informação, capacitação, sororidade

Fontes: 

  • Trabalhadora doméstica com experiência em participação em movimentos sociais e ou associação, que possa relatar sua vivência e importância dos coletivos/associações de trabalhadoras domésticas para o fortalecimento de si (aquilombamento). Buscaremos uma personagem que tenha tido sua casa afetada pelas enchentes para que possamos saber se ela contou com ajuda de outras pessoas para limpar sua casa e como foi essa experiência de sororidade. 
  • Creuza Maria Oliveira – fundadora da Associação das Empregadas Domésticas da Bahia, presidenta de honra da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas e, a primeira trabalhadora doméstica brasileira a receber o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
  • Representante da ONG Themis para falar do App Laudelina, apontando a importância da trabalhadora que dá nome ao aplicativo e esclarecendo os impactos da plataforma na divulgação dos Direitos das Trabalhadoras Domésticas e os principais obstáculos enfrentados por elas para acessar seus direitos.
  • Gabi Valente – diarista por opção, palestrante, empreendedora social, criadora da Escola da Diarista, especialista em gestão da limpeza. Gabi teve a iniciativa de fomentar através do projeto CASA LIMPA após as enchentes um movimento de auxílio a diaristas para ajudar essas profissionais a recuperarem a independência econômica e reconstruírem suas vidas. 

Sugestão de perguntas: 

  • Quais são os maiores desafios enfrentados pelas trabalhadoras domésticas no Brasil atualmente, especialmente no que se refere às condições de trabalho e ao acesso a direitos?
  • Como o trabalho doméstico afeta a vida pessoal e familiar dessas mulheres, especialmente no que diz respeito à conciliação entre suas responsabilidades profissionais e o cuidado de suas próprias famílias?
  • Quais as principais barreiras sociais e econômicas que contribuem para a precarização desse tipo de trabalho?
  • De que forma plataformas como a Laudelina têm ajudado a conscientizar as trabalhadoras domésticas sobre seus direitos e a lutar por melhores condições de trabalho?
  • Quais as iniciativas para a (re)construção de autoestima, demonstrado que a profissão de diarista é digna, importante e merece respeito e reconhecimento?

Fotografias

  • Mosaico de fotos de arquivo pessoal

É comum as trabalhadoras domésticas serem representadas em suas atividades laborais, muitas vezes uniformizadas, sem nome, sem rosto, sem marcas identitárias quando ganham rosto e possibilidade de serem reconhecidas acabam por ser estigmatizadas. 

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Crédito da foto- Folha-UOL
http://sindomesticoba.org.br/wp-content/uploads/2024/06/449277893_869622968533569_8561974831562243448_n.jpg

Para a reportagem a ideia é que possamos criar um banco de imagens através de arquivos pessoais destas trabalhadoras em momentos fora do ambiente doméstico, como por exemplo: Creuza recebendo o título de doutora honoris causa, trabalhadoras em roda de reunião sindical, em uma viagem de férias, no carnaval, na formatura de um ente querido, no cabeleireiro, tomando um drink, numa praia… As fotos buscarão explorar este lado pessoal, de autoestima, mostrar as trabalhadoras em lugares onde exercem a individualidade, de maneira autônoma, com alegria, celebrando conquistas, humanizando-as com dignidade e apresentando outras possibilidades de representação dessas mulheres.

Sugestão de ilustração para Ilustraê: Mulher negra sorridente na Disney ou subindo as escadas de acesso a uma aeronave. Sugestão de trilha/atmosfera: Maria Maria, de Milton Nascimento

Propostas multimídia: 

  • Galeria de fotos de mulheres negras que perseguiram direitos: Laudelina de Campos Mello – Lenira Maria de Carvalho – Benedita da Silva – Nair Jane de Castro Lima – Creuza Maria Oliveira

Referência: https://radis.ensp.fiocruz.br/reportagem/linha-do-tempo/breve-historia-do-trabalho-domestico/

  • Série de vídeos para redes sociais: Depoimentos curtos de trabalhadoras domésticas compartilhando histórias pessoais ou pequenos relatos sobre como o trabalho afeta suas vidas e lares. Os vídeos podem ser legendados e acompanhados de dados sobre o tema.
  • Mapa interativo: Um mapa do Brasil que mostre a distribuição das trabalhadoras domésticas por estado, com dados demográficos, raça e classe social, fornecendo uma visão mais ampla da importância desse trabalho em diferentes regiões do país.

REDES SOCIAIS

  • Uma galeria de sons produzidos durante a execução de alguns trabalhos domésticos para ver se as pessoas reconhecem a que tipo de trabalho/espaço da casa se associa: vassora, aspirador de pó, chiado de panela de pressão, chaleira apitando, cebola fritando, louça batendo na pia, liquidificador, pano no vidro, escova esfregando o chão, tesoura de poda cortando galhos, balde enchendo d’água…
  • Carrossel com fotos e pequenos trechos de depoimentos das trabalhadoras
  • Cards que expliquem os direitos das trabalhadoras domésticas mostrando a diferença entre mensalista, diarista e MEI
  • Threads com links para artigos e estudos sobre a temática
  • Promoção do uso da Plataforma Laudelina
  • Indicação de livros, filmes, podcasts e vídeos que abordem a relação histórica e atual das mulheres com o trabalho doméstico.

Filmes: 

– Que Horas Ela Volta? – Anna Muylaert – Longa ficcional

– Recife Frio e Eletrodomésticas – Kleber Mendonça Filho – Curtas ficcionais

– Domésticas – Felipe Diniz – curta documental

Livros: 

  • Louças de família – de Eliana Marques – Editora Autêntica Contemporânea (2023)
  • A Doméstica Imaginária. Literatura, Testemunhos e Invenção da Empregada Doméstica no Brasil. 1889-1999 – Sônia Roncador – Editora  UNB (2008) 
  • Solitária – de Eliana Alves Cruz – Editora Companhia das Letras (2022)
  • Trabalho Doméstico – por Juliana Teixeira 11º volume da Coleção Feminismos Plurais Editora Jandaíra; (2021) 

Podcasts: 

  • “Os piores patrões”, episódio número 5 do Podcast Projeto Querino 
  • A mulher da Casa Abandonada 

Da Pauta a Reportagem

Ao adentrar em pautas com o tema lar, nossas reflexões pairaram sobre o trabalho doméstico e rapidamente tivemos os insights precisos para alcançar nossos objetivos. Começamos ouvindo alguns podcasts, assistindo documentários e ligando as narrativas com filmes e livros envolvendo a problemática do trabalho do cuidado exercido por mulheres, principalmente negras, nos lares brasileiros.   

Em seguida, fomos para as fontes, as principais mulheres que fariam uma reportagem única, envolvente e carregada de singularidades mas contendo experiências que de alguma forma se conectam. 

Nossa entrevista com Creuza Oliveira durou cerca de duas horas, foi uma figura mais do que significativa em nosso texto, encantando com seu conhecimento e sua trajetória na luta pelas trabalhadoras domésticas. Mesmo de forma remota, a emoção pôde preencher nossos olhos com uma onda de admiração ao ouvir quem era aquela mulher –  a dificuldade foi delimitar parte de sua história que merece um perfil inteiro. 

Entrevista com Creuza Maria Oliveira – 19/10/2024

No dia 19 de outubro, nos encontramos presencialmente com Gabi Valente no Instituto Caldeira, ela faria a mediação da mesa “Mulheres que reconstroem” durante o evento de empreendedorismo feminino Despertar a renovação”. Além de conseguir a entrevista e acompanhar a Gabi de perto, tivemos a oportunidade de assistir as outras palestras ouvindo outras trajetórias de luta dentro de contextos periféricos  e de como essas mulheres têm buscando valoração para suas atividades. 

Entrevista com Gabriela Valente – 19/10/2024

Em chamada de vídeo com nossa última – mas não menos importante – entrevistada, exploramos mais sobre a temática dos direitos e do aplicativo Themis. Jéssica Pinheiro falou sobre a importância do acesso à informação em uma realidade tão desigual. E, mais tarde, esse enfoque se tornou nossa prioridade para escrever a reportagem. 

Durante a escrita da reportagem o nosso maior desafio foi conseguir tornar tudo tão simples quando existia pontos de vistas que divergiam entre nossas fontes. Entretanto, era mais do que necessário trazer os dois lados, as duas possibilidades e realidades dentro do trabalho doméstico. Todas elas representaram grandes potências, representaram um sonho, além de muita resistência.

Nossa maior vontade era contar tudo nos mínimos detalhes, pois cada frase dita parecia extremamente importante e necessária. Porém, havia um limite e um consenso de que nem todos os detalhes não entrariam no texto, mas conseguimos aproveitar o suficiente para escrever uma reportagem que contivesse a essência do nosso planejamento inicial apontar como o trabalho doméstico precisa ser visto como algo digno, importante e que merece respeito e reconhecimento, ressaltando as mulheres que são resistência, para que diversas outras possam seguir sendo também. Além disso, trazer como o acesso a informação tem auxiliado na busca por cidadania e direitos.

Conseguir concluir um projeto tão bonito que irá fazer parte de algo maior ainda é gratificante.

Colaborar em dupla nos engrandeceu com mais conhecimento, opinião e parceria. Ficamos mais do que felizes em chegar até o fim com uma bagagem enorme de aprendizado depois de conversar com mulheres tão potentes.