Como estão hoje as pessoas despejadas da Vila Nazaré para ampliação da
pista do Aeroporto Internacional Salgado Filho?
No dia 1º de junho de 2009, segunda-feira, as maiores manchetes da imprensa
gaúcha foram dedicadas a um só acontecimento: o anúncio de Porto Alegre como
uma das 12 cidades-sede da Copa do Mundo 2014 de futebol masculino –
megaevento que, pela segunda vez, tomaria palco no Brasil. A expectativa (e
promessa) do poder público era de que o município, a partir dessa nomeação,
entraria em um período de franca expansão econômica e desenvolvimento urbano.
Na contramão do discurso oficial, as obras realizadas em razão da Copa
significaram, para muitas famílias, o despejo de casa. A situação foi denunciada, à
época, pelos Comitês Populares da Copa, entidades formadas nas capitais-sede do
megaevento para discutir os impactos ocasionados pelo Mundial nas dinâmicas da
cidade. O Comitê de Porto Alegre contabilizou 6.022 famílias removidas de seus
territórios para realização de obras de infraestrutura urbana. Desse total, 1.291
famílias residiam na Vila Nazaré, nos entornos do Aeroporto Internacional Salgado
Filho, no bairro São João.
O despejo da Vila Nazaré se deu em razão da ampliação da pista do aeroporto.
Apesar de ser uma das “obras da Copa”, a empreitada só foi concluída em 2021. A
primeira das famílias que moravam na área do sítio aeroportuário deixou o território
em junho de 2019; a última saiu em julho de 2021. Na ocasião, o prefeito Sebastião
Melo comemorou o feito: “é um marco social e de desenvolvimento”, disse.
Essas famílias foram reassentadas em dois loteamentos, construídos por meio do
programa federal Minha Casa, Minha Vida: o Senhor do Bom Fim, no bairro Sarandi; e o Irmãos Maristas, no Mário Quintana. A maior parte das famílias, cerca de 85%, foram para o segundo condomínio, construído em uma área de preservação
ambiental na fronteira de Porto Alegre com Viamão e Alvorada, distante da área
original de residência.
À época do reassentamento, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do
Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul moveu uma Ação Civil Pública
apontando uma série de violações de direitos no processo de remoção das famílias.
Um desses problemas diz respeito à posse dos imóveis, só liberada em nome do
morador após um período de dez anos. Além disso, os apartamentos, de 45 m², não
são compatíveis com as atividades profissionais de muitos antigos residentes da
Vila Nazaré, que sobreviviam da reciclagem de resíduos, atividade realizada nos
pátios de suas casas.
A partir desse cenário, a reportagem busca retratar a vida atual das pessoas
reassentadas da Vila Nazaré, especialmente as residentes no condomínio Irmãos
Maristas. Como foi o processo de remoção? Como é viver no novo local? Quais
foram as dificuldades de adaptação no processo? As promessas dos órgãos
públicos foram cumpridas? Quais foram os impactos nas escolas e nos comércios
locais? Essas são as perguntas que guiarão a reportagem.
Por fim, é crucial lembrar que moradia vai além do conceito estrito de habitação:
existem aspectos sociais e culturais intrínsecos a certas comunidades que precisam
ser respeitados. O despejo da Vila Nazaré impactou nos laços sociais das pessoas
que ali viviam; isso também é uma questão a ser abordada na reportagem.
Fontes:
- Moradores reassentados da Vila Nazaré
- Mônica Oliveira, ex-moradora da Nazaré e líder comunitária no loteamento Irmãos Maristas
- Claudia Favaro, integrante do Comitê Popular da Copa de Porto Alegre (CPC-POA)
- Enrico de Freitas, procurador titular da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (MPF/RS)
- Fernando Campos, integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST)
- Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB)
- Projeto técnico social da Vila Nazaré, feito em razão do despejo
Elementos multimídia:
- Fotografias do loteamento Irmãos Maristas, das fontes e do terreno da antiga Vila Nazaré.
- Acrescentar registros antigos da Nazaré, antes das remoções.
- Infográficos interativos com dados demográficos sobre a população da Nazaré (retirados do projeto técnico social).
Referências:
- Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Brasil — dossiê da Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa
- Resolução da ONU sobre megaeventos esportivos
- Site do Comitê Popular da Copa
Da pauta à reportagem
A partir da definição da temática dessa edição, buscamos, em nossos bancos de pauta pessoais, ideias que se encaixassem no escopo de lar. Resgatamos, então, a intenção de falar sobre despejos ocasionados em razão da nomeação de Porto Alegre como uma das cidades-sede da Copa do Mundo 2014 de futebol masculino. Há alguns casos igualmente relevantes: o da Vila Dique, o da Vila Nazaré e o da Avenida Tronco. Decidimos focar em apenas um deles devido ao tamanho da reportagem – uma questão aprofundada vale mais que três citadas. A Vila Nazaré foi nossa eleita por ser a menos contemplada nas matérias jornalísticas que encontramos na web.
Na produção da reportagem, durante as entrevistas, percebemos que o maior incômodo dos reassentados não era a nova moradia em si, mas tudo o que ficou para trás. O rompimento dos laços comunitários e a sensação de isolamento foram dois dos problemas citados.
Com base nesses relatos decidimos contar a história do despejo a partir da perspectiva de quem viveu essa mudança. Fizemos entrevistas com Claudia Favaro, que compôs o Comitê Popular da Copa de Porto Alegre, e Fernando Campos, integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) mas, embora eles tenham ampliado nosso conhecimento sobre o caso da Vila Nazaré, optamos por deixar essas fontes fora da reportagem. Os relatos dos reassentados sustentavam o texto por si só.
Ainda assim, enfrentamos desafios. A prefeitura recusou entrevista, restringindo-se ao envio de uma nota oficial, o que limitou o contraponto institucional a poucas linhas do texto final. Além disso, o limite de caracteres exigiu escolhas difíceis, como a exclusão de algumas informações importantes. Equilibrar os relatos dos reassentados com o contexto histórico e político dos despejos foi desafiador. Ao final do processo, entendemos que, para além do teto e das paredes, lar envolve pertencimento. Apesar das dificuldades, os reassentados continuam buscando formas de se adaptar à nova morada. Acreditamos que isso foi representado na reportagem.