Um trago, uma picada, uma cheirada. Agora é só esperar que o químico chegue à corrente sanguínea e a lisergia viciante tome conta de cada um dos seus cinco sentidos. O sistema de recompensas libera altas quantidades de dopamina, neurotransmissor responsável pelas sensações de prazer, e o êxtase elimina qualquer sentimento ruim, medo ou sofrimento. É uma euforia incrível, uma sensação fabulosa, como estar em um parque de diversões em que as cores cintilam em cada direção que a visão possa alcançar, e as notas musicais vibram dentro do lobo frontal. É assim que Joaquim, Márcio e João descrevem as primeiras experiências com suas drogas de uso, ou seja, aquelas das quais desenvolveram dependência. Esta foi a primeira vez que eles acenderam suas velas.
Ao lidar com uma desilusão amorosa no auge dos seus 20 anos, Joaquim Paulo da Cruz Oliveira, de Porto, Portugal, resolveu descobrir ‘qual era o barato’ da heroína. O decorador de eventos, atualmente com 50 anos, conta que o uso foi uma tentativa de abafar a dor que sentia na época – e funcionou. “Já que a dor era constante, o uso se tornou constante”, revela. Nos três meses seguintes, Joaquim percebeu que havia desenvolvido uma dependência física, que, no vocabulário popular, é chamada de “cold turkey”, quando há sintomas físicos da abstinência. As dores da ressaca o impediam de realizar tarefas básicas, por isso, a heroína já não era somente uma forma de se alienar da realidade, mas também de aliar-se à ela.
“Nos tornamos mentirosos compulsivos”, confessa o decorador, ao admitir que expandiu seu uso, passando a injetar a heroína, ao invés de fumá-la, e a usar crack. Joaquim não parava em um mesmo emprego por muito tempo, comumente faltava ou se atrasava, chegando a roubar dinheiro do guichê de atendimento ao público do seu local de trabalho para comprar heroína. Segundo ele, aos poucos as pessoas a sua volta passaram a tratá-lo como um “drogado”, o que fez com que se sentisse sozinho durante os últimos anos de uso. “Vivia com minha família, mas dormia em um quarto separado, enquanto minha esposa dormia em outro com meus dois filhos. Já não era aceito, era tolerado.” Sua relação com a esposa tornou-se algo formal, sem intimidades.
Para Márcio Luis Borges, de 53 anos, o parque de diversões não foi somente uma sensação, mas o lugar em que consumiu cocaína pela primeira vez, aos 11 anos. No segundo dia, já estava aplicando a droga com uma seringa e, dois meses depois, deixou sua família em Tramandaí, no litoral gaúcho, para peregrinar com a equipe do parque. Aos 15 anos, Márcio estava envolvido com o tráfico de drogas e morava com um traficante. Três anos depois, encarou uma pena de três anos e dois meses de cadeia ao traficar as ditas “maconhas da lata”, que se tornaram icônicas na cultura popular brasileira em 1987 como o “Verão da Lata”.
Ao todo, foram 14 internações e três encarceramentos, passando por detenções em Bagé, no Rio Grande do Sul, e Salvador, na Bahia. Assim como Joaquim, Márcio também passou a usar crack. “Meu pai era um homem bem quisto, com poder aquisitivo muito bom, e eu estava comendo lixo na rua”, conta. Não existia mais relação entre ele e sua família. Inclusive, para ele, a família não tinha mais valor, tudo que importava era estar na rua.
“Nosso consumo é como uma vela que arde, quando paras de consumir, a vela para naquele momento. Tu pode estar dez anos sem consumir, que, se voltares, não vai ser uma vela nova, é exatamente a mesma vela”
JOAQUIM OLIVEIRA, decorador

A cocaína também isolou o professor de Educação Física João Pedro Fraga, de 39 anos, daqueles que amava. Seu casamento acabou depois da quebra de confiança entre ele e a esposa. Mesmo após João cessar o uso da droga, em 2015, ela não acreditava na sua abstinência. “Qualquer coisa que eu fizesse ela achava que eu tava usando. Eu não tiro a razão dela”, reconhece o professor, que reside em Porto Alegre. João diz que a cocaína era seu ‘combustível’: “Ela virou meu almoço, meu jantar, minha noite de sono”.
Em certo momento, João chegou a ficar sete dias ininterruptos acordado. Para ele, o pó branco era sinônimo de libertar-se das preocupações com o futuro, mas admite que, em certo momento, a droga te domina e tudo que importa é sair em busca de mais uma brisa. “Eu já fui em festas onde tinha garçom de smoking e luva com uma bandeja de prata com um monte de linhas de cocaína feitas, o cara passava servindo pra todo mundo. Assim como já estive no boteco mais fudido da vila mais fudida de Porto Alegre. Tu vai do céu ao inferno muito fácil.”
São três histórias que não se conectam em espaço e tempo, mas sim na memória residual de cada um desses homens. “Nosso consumo é como uma vela que arde, quando paras de consumir, a vela para naquele momento. Tu pode estar dez anos sem consumir, que, se voltares, não vai ser uma vela nova, é exatamente a mesma vela”, compara Joaquim.
Uma bala na 38

Enquanto o secretário Danilo* arruma a sala para a reunião de quinta-feira em um dos grupos de Narcóticos Anônimos (NA), Vicente*, coordenador do Comitê Regional Rio Grande do Sul, explica que ninguém entra pelas portas do programa por acaso, cada recém-chegado tem grande valor. O mantra “estou limpo hoje e esse é o dia mais importante”, a salva de palmas após a partilha dos colegas e o choro até então entalado são símbolos de um espaço livre de estigmatização. Cada pessoa que senta nas cadeiras daquela sala pode respirar aliviada após compartilhar seus medos e se sentir compreendida. Para Danilo, que é um voluntário, assim como todos envolvidos no NA, o grupo é sobre isso: “Olhamos nossas semelhanças, não as diferenças”.
No momento da partilha, um dos frequentadores do grupo diz perceber que a droga é um risco diário: “É como colocar uma bala na 38, girar o tambor, apontar para a cabeça e apertar o gatilho”. Para o NA, são esses momentos que evidenciam o processo de autodescobrimento, simbólico no programa Doze Passos, que guia os métodos do NA na luta contra a dependência. O programa presenteia os participantes das reuniões com chaveiros coloridos, que simbolizam o tempo de sobriedade. O chaveiro branco, por exemplo, é dado para quem está limpo “só por hoje”, o preto, para quem está longe das drogas por “múltiplos anos”.
A busca pela sobriedade pode ser um processo solitário, por isso o NA tem seu programa inteiramente pensado com base no encontro e na identificação entre membros. Os resultados obtidos em pesquisas internas do NA revelam que a metodologia é bastante eficaz. Uma das tradições do grupo é o apadrinhamento, que consiste em escolher outro membro para ser seu padrinho ou madrinha, criando uma importante rede de apoio e oferecendo orientação neste percurso. “O padrinho ou madrinha não vai poder escolher por ti, mas vai aconselhar, o que é ainda mais íntimo”, explica Vicente.
O que ficou para trás
O psicólogo Marcelo Rossoni da Rocha, integrante do Grupo de Pesquisas em Álcool e Drogas do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, desmistifica a ideia de que as drogas são um caminho sem volta. Alcançar a sobriedade não deixa de ser um desafio, mas, para o psicólogo, é possível retomar habilidades sociais e restabelecer uma rotina de normalidade. Ficam para trás o desespero, a culpa e a solidão.

Joaquim perdeu as contas de quantas vezes adormeceu desejando não acordar no próximo dia, ele sabia que as drogas haviam lhe tornado um refém, mas, segundo ele, sempre “há algo que te diz que você pode experimentar mais vezes”. Após ter um princípio de overdose em uma zona de tráfico perto da casa de seus pais, o contato com sua família passou a ser inexistente e seus dois filhos, de 3 e 6 anos na época, passaram a ter medo do pai.
Ao pedir dinheiro para comprar heroína, Joaquim foi confrontado por sua esposa, ele teve de escolher entre sair de casa ou parar de usar drogas. Foi nesse momento que se internou em uma clínica de reabilitação. Joaquim confessa que se não fosse por este ultimato, não teria deixado as drogas. O decorador já está há 17 anos sóbrio e foi um dos fundadores do grupo de NA online “É Possível Recuperar”.
Já João não prega a abstinência total, ainda bebe socialmente e trata seu Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) com maconha medicinal, obtida conforme regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e participando de cerimônias de consagração do chá alucinógeno de ayahuasca. João também é co-fundador da Associação Canábica Anjos, que busca esclarecer a população sobre as propriedades medicinais da planta. No entanto, ele já está limpo da cocaína há oito anos. O momento da virada aconteceu ao passar em uma blitz com 60 gramas de cocaína. O medo de ser preso e perder o contato com seus dois filhos o fez buscar uma nova vida.

Aos 27 anos, Márcio também resolveu largar as drogas, tendo algumas recaídas, a última delas em 2007. Está há 16 anos sóbrio, se tornou pastor, realizou diversos trabalhos voltados à conscientização do uso de drogas e atualmente é consultor de dependência na comunidade terapêutica Bella Vitta, em São Leopoldo, Região Metropolitana de Porto Alegre. A instituição conta com cerca de 20 acolhidos, que permanecem, em média, três meses sob os cuidados da comunidade, realizando reuniões em grupo diárias, além de sessões terapêuticas semanais. Márcio usa das suas vivências para ajudar a outros. “Usar droga é sinal de liberdade? Não, é escravidão, é um cárcere voluntário. É isso que a gente faz, traz essa ideia.”

A linha entre liberdade e cárcere é tênue, mas, quando o barato passa, é só você consigo mesmo. O que você ganhou? Quem você perdeu? Valeu a pena? O isqueiro está em suas mãos e aquela mesma vela, sob a cabeceira. Você ainda vai acender?
*Os nomes foram alterados para preservar a identidade das fontes.
Sem palavras pra descrever o quanto isso é necessário. Não sou usuários de drogas, mas minha irmã é, e isso afeta muito a minha família. Ela é como um peso pra gente e pra ela mesma, mas ela não consegue enxergar isso. Ela sabe que está se matando aos poucos, mas não larga a maldita droga. Nós moramos juntos e nem se falamos. Já tivemos tantas brigas, até corporal. Eu sempre quis defender minha mãe e minha sobrinha ( filha dela ), então era uma alívio, mas eu sempre me arrependia depois. Esse texto é motivador para ajudar. Mas, as instituições de internação para mulheres, ainda são poucas. Espero que um dia ela enxergue que isso não é o melhor, só espero que não seja tarde demais. Parabéns para o Gregorie e seus amigos que fizeram isso, ficou incrível.
Sou usuária.. assumi pra minha família e tô na luta… mas não aguento mais
Não aguento mais essas abstinência
Me consome
Não durmo
Tenho medo de perder minha mulher e eu nak aguento mais machucar minha mae
Nunca tentei parar de usar droga , vou fazer esse teste a partir de hoje e volyo aqui daqui a 1 ano para relatar o resultado e se caso eu tiver uma recaída volto tbm ok !