Sextante

Quando a casa é movimento

Pessoas que optam por não morar em um local definido relatam como é estar em constante encontro e desencontro com países, cidades, culturas, paisagens e pessoas

REPORTAGEM
Mariel Lahorgue
lahorgue.mariel@gmail.com

Arte: Rafaela Müller

A enfermeira Rebecca Alethéia, com as viagens que fez pelo Brasil e pelo exterior, abraçou a vocação de cidadã do mundo. O mesmo fez a desenvolvedora de softwares Tatieli Ramos, que se aventurou em um “mochilão”. Não muito diferente é o caso do casal Leonardo e Rachel Spencer, que já foram a 127 países e fizeram uma volta ao mundo de carro que durou 4 anos.

Muitos brasileiros seguem um estilo de vida como o de Rebecca, Tatieli, Leonardo e Rachel, sem uma residência fixa, explorando novos lugares. Esses “cidadãos do mundo” ganharam espaço nas redes sociais, compartilhando suas histórias e mostrando as vantagens de conhecer tantas riquezas culturais e sociais.

Sobre ultrapassar barreiras

Para Rebecca, o Brasil é um país de possibilidades turísticas, como a Casa do Olhar, em Santo André | Foto: Arquivo pessoal

“Quando a gente fala sobre viagem, falamos também sobre raça, gênero e classe”, diz Rebecca, de 37 anos, natural de Santo André, São Paulo. Ela se define como uma “negra viajante”. Segundo ela, é impossível não abordar esses fatores, pois o direito de viajar nunca foi algo dado a ela. No entanto, a educação que recebeu dos pais e na escola foi contra essa lógica injusta, mostrou que seria possível conhecer outros lugares e se descobrir pelo mundo. 

Em 2017, Rebecca morou um ano no Tajiquistão, país da Ásia Central. Ao regressar para o Brasil, virou uma referência como viajante e entendeu a necessidade de contar suas histórias e ouvir as experiências de outras mulheres negras que exploram o mundo como ela. Essa vontade de compartilhar essas trajetórias nas redes sociais foi o que a levou a formar o coletivo Bitonga Travel, que aspira democratizar o acesso a viagens. O coletivo conta com 230 parceiras em um conteúdo integralmente produzido por mulheres pretas de toda a América Latina. 

Rebecca também usa as redes sociais para desmistificar que viagem boa é só viagem internacional, buscando a riqueza natural e cultural que o Brasil proporciona. Mas o coração também tem espaço para outro destino: Moçambique, no sudeste do continente Africano. “É um país que eu amo muito”, conta Rebecca, que já levou toda a família para conhecer essa nação. No local, Rebecca vivenciou momentos inesquecíveis, mesmo os desafiadores, como o ciclone de 2019. 

A paulista não deseja parar. Com 32 países já explorados, além de cidades brasileiras, tem viagens marcadas para 2023 e 2024. Para a presidente da Associação Brasileira de Agência de Viagens do Rio Grande do Sul (Abav-RS), Lúcia Bentz, o desejo por planejar uma viagem e executá-la se torna cíclico: “O melhor de viajar é voltar com novas experiências e histórias, literalmente uma pessoa diferente, e logo depois já programar a próxima viagem”.

Arte: Kezia Mausolf

Muito ainda para ver

Quem também entende de aventurar-se  é a gaúcha Tatieli Ramos, de 34 anos. Assim como Rebecca, desde pequena Tatieli tinha vontade de  desbravar lugares, mas sempre ouvia dos adultos que era preciso ter um endereço fixo. Entretanto, algo dentro dela não concordava com essa ideia.

“Em 2019, eu vim trabalhar na empresa que eu estou e, logo em seguida, a gente teve a pandemia, então a empresa colocou todo mundo de home office”, conta Tatieli. Quando 2021 chegou, e a perspectiva das vacinas também, Tatieli, que tinha férias pendentes, decidiu passar um período em um chalé na cidade de Três Coroas, no Rio Grande do Sul, com três  amigos que também estavam isolados. 

“A Tati que saiu de Porto Alegre não foi a mesma Tati que voltou, porque primeiro eu tive que aprender a conviver comigo mais um pouco do que eu já sabia”

TATIELI RAMOS, desenvolvedora de softwares

  Um dia, numa conversa descontraída no chalé sobre a saudade que cada um sentia de seus lares, ela só prestava atenção na paisagem da Serra Gaúcha. “[Ficou] um silêncio na mesa e aí os três olharam para mim e perguntaram: “Tu tá sentindo falta do quê? E eu disse: de nada”, lembra Tatieli rindo. Ao voltar para Porto Alegre, seguiu com sua rotina normal, mas foi questionada por seu psicólogo: “Ele me perguntou: o que me prendia em Porto Alegre?”.

Tatieli contempla e explora as regiões montanhosas da Croácia | Foto: Arquivo pessoal

A partir dali, ela começou a pôr em prática seus planos de viagem. No início, iria passar um mês em Londres. “E esse um mês virou quatro. Comecei a planejar e conversar com a empresa para ficar mais três meses viajando”, lembra Tatiele. Resolveu realizar outros sonhos: conhecer a Irlanda, Portugal, Alemanha e Croácia. Ela entendeu que era isso que gostaria de fazer, conhecer lugares novos enquanto trabalhava a distância.  

A desenvolvedora recorda dos momentos vividos nas viagens, da intenção de querer passar mais tempo aproveitando a capital da Alemanha, Berlim, e da surpresa que teve ao conhecer a Croácia, um lugar que a cativou pela história e pelas belezas locais. “Eu fui muito aberta a conhecer os lugares, então, para mim, todos foram surpreendentes da forma que precisavam ser”, entende Tatieli.

As viagens acabaram sendo uma forma da gaúcha se encontrar com ela mesma: “A Tati que saiu daqui de Porto Alegre não foi a mesma Tati que voltou em novembro de 2022, porque primeiro eu tive que aprender a conviver comigo mais um pouco do que eu já sabia.”, conta.  

A vida segue seu rumo e as viagens também

A vida de Leonardo e Rachel Spencer  é desbravar o desconhecido e se conectar com pessoas muito diferentes. Juntos desde 2010, os dois começaram a viajar pelo mundo em 2013. Tantas viagens só foram possíveis porque eles conseguiram unir o trabalho ao desejo de conhecer diferentes lugares. “Na verdade, foi a somatória dessa vontade de querer ver mais o mundo e não ter tanto tempo”, explica o paulista de 38 anos.

Para Leonardo e Rachel, a paisagem da Serra da Canastra faz tudo valer a pena | Foto: Arquivo pessoal

Ao perceberem que era isso que queriam, se perguntaram: “E se nós tentássemos um projeto mais longo de viajar o mundo, mais ousado?”.  Só não esperavam que  o desejo  se transformaria em um trabalho que durou  10 anos. 

Com o “Viajo, Logo Existo”, Leo e Chel, como se chamam, começaram a criar conteúdo para as redes sociais para incentivar outras pessoas a perseguirem seus sonhos de viajar.  A dupla chegou a escrever livros e dar palestras, relatando as viagens para países como a Índia, em que comer foi um desafio, e para lugares no Brasil, como o Nordeste, um “paraíso” no nosso país. 

Mesmo tendo conhecido lugares de muita beleza, como a Grande Barreira de Coral na Austrália, Leonardo destaca  que o mais importante são as experiências de troca com os outros. Para ele, após anos de viagens pelo mundo, a pessoa fica mais sensível ao carinho e acolhimento daqueles que encontra na jornada.

Bella com a mãe, Rachel, explorando a Ilha da Madeira, em Portugal | Foto: Leonardo Spencer

Em 2022, para completar o time de viajantes,  a filha do casal chegou. Bella, a nova cidadã do mundo, que agora acompanha os pais nas aventuras. Mas o planejamento do casal mudou, já que agora pesquisam lugares que crianças também possam curtir. 

“A pessoa volta diferente de uma viagem até pela convivência com outros povos. Ela volta e também conta  as experiências gastronômicas e culturais”, conclui Lúcia, a presidente da Abav-RS.  Para aqueles que se consideram cidadãos do mundo, viajar é muito mais do que apenas visitar novos lugares –  é uma oportunidade de enxergar além dos limites e muros que nos cercam, de se aproximar de pessoas diferentes e vivenciar encontros e desencontros. 


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Um comentário em “Quando a casa é movimento”

  1. O mundo está bem menor , e realmente, viajar provoca dependência! Quantas experiências…

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