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Sementes de Fé

Ibeji é a única divindade criança do batuque gaúcho cujo culto é direcionado às infâncias

REPORTAGEM
Fabiola Correa | Maryanna Lucas | Nico Kûara Costamilan
fabiolascorrea.ufrgs@gmail.com • maryannalferr@gmail.com • nicocostamilan@gmail.com

Arte: Robson Fontoura Consul da Silva Júnior, 13 anos (Júnior de Bará Agelu)

De acordo com a lenda, Ikú, a morte, estava assolando uma aldeia levando pessoas antes da hora. O oráculo Ifá disse que somente Ibeji, orixá-gêmeo que forma uma só divindade, poderia deter a entidade. Tocando tambores mágicos, os irmãos encantaram Ikú que, incapaz de resistir ao ritmo, dançou sem parar. Exausta, a morte implorou para que o ritmo cessasse. Ibeji concordou em parar, desde que Ikú deixasse a aldeia. 

“Eles são orixás crianças, mas não são infantilizados. Eles são pensados como grandes divindades, poderosíssimas”, explica o pai de santo e teólogo Hendrix da Silveira, que pesquisa afroteologia. “Esse poder é o que os coloca no mesmo nível das demais divindades, mesmo que essas sejam adultas ou mais velhas.” No batuque, religião de matriz africana cultuada no Rio Grande do Sul, cada terreiro tem um  orixá – divindade africana –, que é padroeiro e santo pessoal do pai ou da mãe de santo. Ibeji é representado por uma dupla de crianças, que são filhos de Xangô e Oxum, e se manifestam com características de um dos pais, sendo ou Xangô Ibeji ou Oxum Ibeji.  

Ibeji é o orixá da dualidade e da alegria nas religiosidades afro-brasileiras, cujo nome na língua Iorubá significa “nascer dois” | Foto: Nico Kûara Costamilan

Xangô Ibeji, como o nome indica, é o orixá do Ilê Afro de Xangô Ibeji, casa de matriz africana localizada em Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre. A mãe de santo, ou ialorixá, Claudia Cardinali dos Santos Fontoura conta que a decoração do local é pensada a partir de elementos da infância, com representações religiosas acompanhadas de brinquedos e doces. “É do nosso axé”, ela diz, enquanto arruma o altar, se referindo à energia sagrada de Ibeji.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Rio Grande do Sul é o estado que possui o maior número de praticantes de religiões de matriz africana, totalizando 3,2% da população. O Censo Demográfico de 2022 mostra que, a nível nacional, a proporção é de 1%. O batuque, também conhecido como Nação, é uma religião que começou a ser cultuada no estado gaúcho no século XIX. Assim como o candomblé e a umbanda, surgiu de uma fraternidade entre os povos negros trazidos da África para o Brasil no processo de escravização. 

Orixá-criança

Outra lenda sagrada, ou itã, diz que os gêmeos, um menino e uma menina, eram astutos e brincalhões. Um dia, brincando à beira do rio, o menino cai e se afoga. A irmã, desolada com a perda, diz que o mundo entristeceu e começaria a definhar. Olodumaré, orixá criador supremo, ao ver a situação, toma a irmã para o Orun, mundo espiritual, e, no lugar dela e do irmão, coloca duas estátuas de madeira. De acordo com o teólogo Hendrix, foi assim que o povo Iorubá começou a cultuar a imagem dos gêmeos, para que a alegria voltasse ao mundo.

A religiosidade Iorubá, um dos maiores grupos étnicos e linguísticos da África, estruturou-se em uma época de alta mortalidade infantil em que se acreditava que rituais sagrados ajudavam na sobrevivência das crianças. Segundo Hendrix, isso justifica o principal culto ao orixá gêmeo ser a Mesa de Ibeji. “É um ritual de nutrição, de alimento, em que a criança senta e tem toda uma complexidade ritualística para garantir um dos valores africanos, o Ubuntu.” Esse conceito defende que o coletivo é mais importante que o individual.

No culto da Mesa, as crianças não podem comer enquanto a última não for servida. Todas devem comer juntas. Para homenagear a divindade, deve-se assegurar a preservação da vida dos mais jovens.

Na Mesa de Ibeji são oferecidos alimentos como canja, doces, salgados, frutas e bebidas doces | Foto: Nico Kûara Costamilan

Sofia Peixoto, de 14 anos, conta que foi por causa da sua saúde que fez seu primeiro ritual de compromisso com o orixá, aos três anos. “Quando eu nasci, a minha avó jogou búzios pra mim. E eu sou um Abicu, uma criança fujona, que vem do Orun e não fica por muito tempo aqui na terra. E aí eu tive que ir pro chão [iniciação na religião]”, explica Sofia.

Mãe Claudia de Xangô Ibeji, de 42 anos, é a quarta geração de Ialorixás da sua Nação. Após ser diagnosticada com leucemia aos três anos, Claudia foi levada por sua avó a um terreiro, onde começou sua trajetória espiritual. Segundo a mãe de santo, a continuidade da tradição é garantida pela presença das crianças no território sagrado e pelo conhecimento dos fundamentos da fé.

“Esse ensinamento é necessário para que elas sejam guardiãs da ancestralidade. É necessário mantê-las com sabedoria e acolhimento, para que possam respeitar o amanhã”, afirma Claudia. “Essas crianças sempre serão reverenciadas e agraciadas, elas sempre serão nossa força e essência. Se não tiver criança, não tem axé.”

Sofia e a irmã Lívia Peixoto, de 11 anos, frequentam o Ilê Àṣẹ Òrìsà Wúre, do avô de sangue e pai de santo Hendrix. Para elas, crescer em meio à religião foi como crescer com uma grande família. “Quando eu tô fora, sinto saudade. Quando eu tô lá, o meu coração acelera, fico toda arrepiada”, conta Sofia, lembrando dos momentos no terreiro.

“Por mim, eu fazia o pai de santo ser eterno e seria filha de santo pra sempre”

LÍVIA PEIXOTO, de 11 anos, filha de santo 

Lívia ainda é uma criança, mas já vê diferenças em relação a como era antes de fazer o seu apronte, ou seja, sua iniciação na religião, aos oito anos. “Pra mim, era como uma brincadeira. Agora eu já levo mais a sério. E continua sendo incrível. Eu tenho paixão pela minha religião.” A iniciação foi o momento mais especial de Lívia no terreiro, e ela teve companhia – Sofia permaneceu com ela no quarto de santo durante a obrigação, momento de resguardo em que normalmente se passa sozinho. “Eu tinha medo de fazer alguma coisa errada. Mas aí, foi como se eu fosse abraçada pela mãe Oxum, como se ela me acalmasse.”, diz.

Para Sofia, os ensinamentos da fé são tratados com muita seriedade. Ela conta que pensa em seguir com a casa do avô Hendrix e ser mãe de santo um dia. “Se meu tio não quiser, quem continua com essa geração somos nós.” Já Lívia não tem a mesma vontade. “Acho que tem pessoas que nascem para ser mãe de santo, e eu não me sinto uma delas. Talvez no futuro. Por mim, eu fazia o pai de santo ser eterno e seria filha de santo pra sempre.”

Doce axé

A cozinha é o lugar em que os laços se estreitam e os filhos da casa se unem enquanto o terreiro, ou Ilê, não está pronto para o rito. Enquanto as crianças brincam, os adultos conversam e preparam os alimentos. Para Lívia, o seu espaço favorito no terreiro é a cozinha, onde ela tem bons momentos com a família desde a primeira infância. “Eu me sentava com meu chazinho branco, via minhas tias cozinhando, ficava conversando com elas e rindo”, conta.  

Iris Mannuela Lesxistão Rodrigues, de um ano, acompanha sempre a mãe Nicoly Franthesk Lesxistão, de 16 anos, no Ilê Afro Xangô Ibeji. Nicoly conta que começou a frequentar a casa da Mãe Claudia durante um período difícil em sua vida. “Eu amo estar aqui e presenciar tudo. A Claudia me ajudou muito. Eu entrei aqui e a Iris não tinha nem roupa, porque fui embora de casa. Agora ela tem tudo, graças a Deus.” 

Íris, de um ano, frequenta o Ilê desde o nascimento | Foto: Fabiola Correa

Com um sorriso no rosto, ela diz que procura estar no Ilê quase todas as semanas, mesmo morando longe. “A gente sempre vem para cá. Mesmo grávida eu continuei participando.” 

Após a autorização da mãe de santo, todos entram no Ilê para se organizar em volta da farta Mesa de Ibeji. O coro de vozes com o sino saúda os orixás à frente do altar, chamado de congá, iniciando o ritual daquela noite. O calor humano se mistura à forte vibração dos tambores, e as crianças, junto de seus pais, participam do momento que também é delas. 

Quando os orixás se fazem presentes, a fartura transborda e as crianças se tornam as protagonistas. A mesa é viva e reúne crianças, grávidas e mulheres que desejam gestar, um ciclo de cuidado que envolve quem está vivo, quem acaba de chegar e quem habita o desejo de nascer.

Ouça aqui a reza de Ibeji

As crianças do Ilê Afro Xangô Ibeji ajudam a conduzir as rezas tocando atabaque

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