Sextante

Transgredindo a idade

Visto como algo negativo, envelhecimento é privilégio entre pessoas trans e travestis. Para as que ultrapassam a expectativa de vida, a perspectiva é de um futuro gentil e afetuoso

REPORTAGEM
Mariana Alves
mbaptistalves@gmail.com

Arte: AZ

Abandono, solidão, negligência, esquecimento e exclusão são palavras associadas ao envelhecimento e parte da realidade de pessoas transsexuais e travestis. Assim como o simples ato de existir, o processo de ficar velho é influenciado por uma série de fatores como raça, gênero e sexualidade, que modificam a forma como cada pessoa vive a velhice, tornando essa experiência mais difícil ou até inalcançável. 

Não há estimativa oficial referente à expectativa de vida de pessoas transsexuais e travestis no Brasil. Contudo, dados coletados pela Rede Trans Brasil e pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), organização independente que realiza pesquisas sobre o perfil da população transsexual, indicam expectativa de 35 anos, 41 a menos do que a média da população geral, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

No Brasil, a violência é a principal responsável por privar esse grupo de viver a velhice: o país lidera o ranking mundial de assassinatos há treze anos consecutivos, conforme o relatório de 2021 da Transgender Europe (TGEU). A dificuldade de inclusão no mercado de trabalho e a rejeição familiar são outros fatores decisivos no declínio da qualidade de vida, colocando pessoas trans e travestis em situação de vulnerabilidade social, física e mental. 

“Idosos e idosas trans estão situados numa intersecção identitária que os invisibiliza quase que triplamente, devido ao etarismo, à heteronormatividade compulsória e à transfobia. Infelizmente, chegar à velhice entre a comunidade trans já parece ser, em si, um desafio”, explica a pesquisadora Sophia Starosta, mestre em Psicologia Social pela UFRGS que investigou questões ligadas ao envelhecimento e à memória entre travestis do Rio Grande do Sul. 

Segundo Sophia, há mulheres que precisaram recorrer a processos de masculinização para serem aceitas pela família e acessar serviços de saúde. Os sentimentos de isolamento e solidão se agravam nesse grupo, uma vez que a rede de apoio é menor do que a das pessoas cis. “A família por vezes se estabelece como a rede social e de apoio do idoso”, completa. 

Apesar do destaque que movimentos sociais LGBTQIA+ ganham na última década, pouco se fala sobre o envelhecimento dessa população. “Isso pode criar lacunas em termos de conhecimento dos profissionais geriátricos e de saúde a respeito das particularidades do envelhecimento de pessoas trans”, diz Sophia. Por conta disso, desestigmatizar a discussão sobre idade ajuda a viabilizar o desenvolvimento de políticas de atenção para pessoas trans e travestis idosas, garantindo seu direito à saúde e ao acolhimento do Estado. 

71 anos de conquistas

“O envelhecimento é um direito que todos deveriam ter” afirma a vice-presidente da Rede Trans Brasil, Marcelly Malta Lisboa, 71 anos. Nascida em Mato Leão, na região do Vale do Rio Pardo, Marcelly se identifica como mulher travesti. Aos 15 anos, se mudou para a Capital para buscar uma vida nova e iniciou na equipe de limpeza da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Com o tempo, formou-se como enfermeira e seguiu trabalhando no hospital. “A Santa Casa me abriu as portas para tudo, foi lá onde comecei a me transformar”, afirma. 

Pioneira na luta pelos direitos das pessoas trans e travestis no estado, Marcelly comemora a possibilidade de seguir atuando no movimento | Foto: Mariana Alves

Apesar do preconceito da época, Marcelly não sofria discriminação no ambiente de trabalho. Pelo contrário, encontrou colegas e amigos que a acolheram e apoiaram todo o processo de transição de gênero. Foi também através de colegas que “faziam a rua” que ela conheceu e começou a trabalhar paralelamente com prostituição.

Aos 30 anos e atuando como servidora na Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, Marcelly viveu uma das décadas mais difíceis na história do Brasil e do mundo. Doença com tratamento praticamente inexistente, a epidemia de HIV levou milhares de vidas nos anos 1980. “Nesses 10 anos, perdi muitas pessoas. Eram amigas minhas que eu via em um dia e, no dia seguinte, já não estavam mais aqui, porque não tinha medicação”, relembra. 

Na época, Marcelly já atuava nos movimentos sociais como profissional da saúde, auxiliando outras mulheres que trabalhavam com prostituição através da educação sexual no Grupo de Apoio à Prevenção da Aids (GAPA/RS). A expectativa de vida das pessoas LGBTQIA+ era um tópico em discussão, e o preconceito que cercava o HIV fez ela mesma não acreditar que viveria muitos anos. 

“O envelhecimento é um direito que todos deveriam ter”

MARCELLY MALTA, 71 anos, vice-presidente da Rede Trans Brasil
Aos 71 anos, Marcelly relembra os anos em que morou na Europa, onde conheceu novas frentes do movimento LGBTQIA+ | Foto: Mariana Alves

Os 70 anos de vida também são 70 anos de conquistas importantes para a população de pessoas trans e travestis: a troca do nome na certidão de nascimento, tirar a transsexualidade da lista de doenças mentais, projetos de empregabilidade, cotas em concursos públicos, uma ala especial no presídio central, entre muitas outras. 

Marcelly se aposentou como servidora pública aos 60, mas segue trabalhando pela garantia de direitos das mulheres travestis e transsexuais. “Acho que estou aqui para cumprir uma missão, e hoje é graças à minha idade que posso fazer isso. Ter um objetivo e trabalhar por isso me traz mais qualidade de vida.” Atualmente, ela coordena o desenvolvimento de um novo levantamento do perfil de pessoas trans e travestis junto à Rede Trans Brasil, com divulgação prevista para o próximo ano.

Casada há sete anos, Marcelly acredita que o afeto e o carinho são fundamentais para um envelhecimento saudável. Ela reforça a necessidade de superar a noção de que pessoas idosas não podem se relacionar. “Essa visão de envelhecimento de pensar que nós não podemos achar uma pessoa bonita, ou ficar com aquela pessoa, não podemos usar uma roupa bonita, sensual. Isso tudo é tão importante agora quanto na juventude, e eu sei aproveitar as coisas boas da vida”, afirma.  

Uma vida que começa aos 50

Também vinda de uma família conservadora, a professora de comunicação da UFRGS Alessandra Primo, de 52 anos, se permitiu viver sua versão mais autêntica aos 50 anos. Motivada pelas reflexões que teve durante o isolamento social na pandemia de covid-19, ainda em 2020, ela se reconheceu enquanto mulher trans e decidiu iniciar a transição de gênero. “Transicionar aos 50 anos foi o que foi possível para mim, não gosto de pensar como teria sido em outro momento. A minha vida recomeçou da melhor maneira”, afirma.

Professora de comunicação na UFRGS, Alessandra Primo acredita que transicionar aos 50 garantiu mais maturidade para encarar as diferentes pressões do envelhecimento que atingem as mulheres | Foto: Mariana Alves

Alessandra foi acolhida no ambiente de trabalho e reconhece o privilégio de poder ter seguido uma carreira acadêmica de sucesso, rumo incomum entre a população de pessoas trans e travestis, que muitas vezes encontram dificuldades de se inserir no mercado de trabalho e na academia. “Eu sou uma exceção porque até hoje não sofri violência. Sou uma exceção porque sou pós-doutora, mas gostaria que todas pudessem ter essa vida, essa oportunidade”, reforça. Além dos colegas, ela ainda conta com o carinho da filha de 11 anos, sua maior apoiadora, que aceitou a transformação com muita tranquilidade.

“O envelhecimento do corpo não necessariamente precisa acompanhar linearmente o envelhecimento da nossa mente”

ALESSANDRA PRIMO, 52 anos, professora universitária

Para Alessandra, a transição chegou no momento certo. “Passando dos 50, nós sentimos uma carga, um peso. Eu estava cada vez mais irritada e descontente, porque não me sentia bem na minha pele. Agora tenho vontade de descobrir tantas coisas, sinto que ainda tenho uma vida toda pela frente”, afirma. Além do gênero, ela acredita que também passou por uma transição de cabeça, porque passou a enxergar a vida sob uma perspectiva social completamente diferente. “Enquanto homem, branco, de classe média alta, em um emprego público, eu tinha muitos privilégios. Eu dei um salto dessa pirâmide e hoje sou minoria, então tenho outra visão de mundo”, completa.

Arte: Marthina Borghetti Silveira

Essa nova perspectiva de vida também facilitou muitos processos que ela considerava que seriam grandes desafios, como voltar a frequentar espaços públicos com seu novo visual. “Achei que uma ida à praia seria um momento muito tenso, mas foi algo muito natural, porque eu estava simplesmente feliz com meu corpo”, conta. Ela reflete que as questões do envelhecimento também mudam quando se é mulher, porque há uma preocupação maior com a vaidade e a autoestima devido às pressões da sociedade, mas a maturidade ajuda a transformar a pressão em uma forma de autocuidado.

Alessandra deseja envelhecer da maneira mais jovem possível, com um espírito aventureiro para seguir desbravando o mundo e a si mesma. “O envelhecimento do corpo não necessariamente precisa acompanhar linearmente o envelhecimento da nossa mente. Nós podemos até lutar contra o envelhecimento do corpo tendo uma vida sadia e uma vida feliz”, afirma. Para viver essas descobertas, ela também busca se reinventar afetivamente e encontrar um amor para dividir os anos que estão por vir. Carinho, afeto, amor, companhia, acolhimento – são essas as palavras que devemos associar ao envelhecimento trans.

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