Sextante

Um respiro de vida

As doulas podem representar a humanização no período de gestação e no parto de mulheres negras

REPORTAGEM
Andressa Marques
andressamrqsoliveira@gmail.com

Arte: Alanis Mattes

Lislaine Amaral de Matos, de 28 anos, optou por ter sua gestação acompanhada por uma doula, no Hospital Universitário da Universidade Federal de Rio Grande (FURG). Mãe de Aganjú, de dois anos, ela diz que foi a partir de estudos da cultura Iorubá, de origem africana, que ela percebeu a importância da assistência à gestação e ao parto. “O processo foi ótimo, esclarecedor, me deixou segura e prevenida não só teoricamente como emocionalmente”, conta. As doulas são profissionais treinadas para oferecer apoio informacional, físico e emocional para a gestante e sua rede de apoio durante todo o processo de gestação. Mas ainda existem algumas barreiras para sua atuação.

Lisiane, seu ex-companheiro Ruan e Aganjú | Foto: Gabrielle Cury

O motivo de Lislaine procurar por essa profissional foi o fato de ter sido vítima de violência obstétrica do médico que iniciou seu pré-natal. A mãe conta que o médico perguntou do seu marido, que no dia estava trabalhando, e ele respondeu com deboche que era para a gestante se cuidar pois “estava gorda e onde ele trabalhava tinha vários filé”. Em outra consulta, o obstetra ao invés de atender as pacientes, começou a reclamar que ganhava pouco para “ficar vendo mulher de pernas abertas”. Após isso, Lislaine e seu marido procuraram outra obstetra. “Acredito que ter uma doula reduz muito os episódios de violência”, diz. Mas a sua doula não pôde acompanhá-la na sala de parto devido às restrições da covid-19. “Certamente se estivesse junto teria feito alguma intervenção. Além do fato dela conhecer a equipe, os procedimentos e estar ali para acompanhar a gestante”, afirma.

A pesquisa Nascer no Brasil, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), afirma que 30% das mulheres atendidas em hospitais privados no país sofreram violência obstétrica em 2012. No Sistema Único de Saúde (SUS), a taxa foi de 45%. O estudo detectou depressão materna em 26% das pacientes entre os seis e 18 meses após o nascimento de seu bebê, sendo mais frequente entre mulheres pretas, pardas e indígenas sem companheiros e de baixa condição social e econômica.

Os dados mostram o quanto é mais difícil ter uma gestação e um parto tranquilos quando se é uma mulher negra, ainda mais quando não se tem um companheiro. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 74 mil domicílios do país, em 2021, 37 mil são chefiados por mulheres, mil a mais do que os chefiados por homens. Com 52% da população sendo mulheres, o órgão também constatou que existem mais de 11 milhões de mães solo no Brasil. Além disso, o Portal de Transparência do Registro Civil indica que, de janeiro a junho de 2023, foram registrados aproximadamente 1,3 milhão de nascimentos no Brasil, sendo 89 mil ausentes de pai.

Esse não é o caso de Lislaine, que teve o apoio de seu ex-companheiro durante o parto, mas ela considera que os benefícios que as doulas trazem valem para qualquer situação, inclusive porque elas cuidam também do pai da criança, tirando dúvidas, o que, em sua opinião, faz toda a diferença na gestação. Lislaine destaca as conversas, as orientações, as massagens e os exercícios. Ressalta também que as profissionais facilitam o pagamento de seus serviços. Por essas razões, se sentiu muito acolhida durante toda a gravidez. “Gestar é mais leve com alguém que tenha o olhar mais atento”, afirma.

“Gestar é mais leve com alguém que tenha o olhar mais atento”

LISIANE AMARAL DE MATOS, mãe do Aganjú e Educadora Financeira

No Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2021, aproximadamente 55% dos partos realizados foram cesáreas. É a segunda maior taxa do mundo, atrás apenas da República Dominicana. A organização indica que a taxa ideal de cesáreas seria entre 10% e 15%. Considerando a realidade no sistema privado de saúde, a proporção pula para 86%, segundo dados da Fiocruz.

“A doula é a ponta da humanização do parto, principalmente nos hospitais”, afirma Valesca Rodrigues Soares, de 47 anos, que faz o curso de Doulas Comunitárias e atua no Hospital Universitário Dr. Miguel Riet Corrêa, em Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Para ela, como doula negra e periférica, que também é voluntária na rede pública, os impactos positivos da doulagem em famílias negras são ainda maiores: a segurança,  a autonomia e o empoderamento, que muitas vezes são negligenciados para as mulheres negras, se fortalecem. Entretanto, para Valesca, seu serviço ainda precisa alcançar mais mulheres negras que, por falta de informação, acabam não procurando serviços para um parto humanizado, às vezes sendo vítimas de violência obstétrica. “Eu não vejo minhas pares. É como se a mulher negra periférica não aparecesse. São muitas mulheres negras gestantes, e ainda não consegui acessar elas como gostaria, ainda mais em um estado majoritariamente racista”, desabafa.

Para Valesca, a doulagem é um serviço essencial nos hospitais. “Só pelo fato de sermos mulheres entendemos a dor da outra”, afirma. “Não temos a mecanização da assistência, estamos ali como equipe multiprofissional, cada um executando a sua parte, sem invadir espaço dos outros profissionais”, completa. Ela explica que a atitude respeitosa com a gestante, as massagens, as luzes baixas, a música e a dança auxiliam na hora do parto. “Posso afirmar que esse acompanhamento reduz o tempo da duração do trabalho de parto, das taxas de cesáreas e aumenta as chances de parto vaginal espontâneo”, conta. Para Valesca, a experiência do parto fica mais positiva, além de reduzir a ansiedade e a depressão pós-parto.

A regulamentação do parto humanizado

Tramita na Câmara dos Deputados o projeto de lei (PL) 3.946/21, que procura garantir a presença de doulas nas salas de parto do Brasil. A proposta foi aprovada pelo Senado, em março de 2022, e agora aguarda a votação na Câmara dos Deputados. Pelo texto aprovado, a presença das doulas será assegurada em qualquer tipo de parto, podendo integrar equipes de atenção básica à saúde.

Valesca se orgulha de ver sua categoria alcançando visibilidade e sendo debatida. “A doula no SUS não é um luxo, é uma necessidade. Isso é ressignificar o modo de nascer e defender a gestante que é violada e violentada a vida toda achando que é normal”, diz. “Por isso e por anos de violência obstétrica no Brasil, a doula ajuda a garantir um parto satisfatório e respeitoso para as mulheres negras”, conta.

Doula Valesca fazendo o acompanhamento de um parto | Foto Gabrielle Cury

Ao olhar da obstetria 

Lorraine Farias, de 36 anos, é enfermeira obstetra e atua na Atenção Primária de Porto Alegre. Também tem uma empresa de atendimento da saúde da mulher e cuidado materno chamado Laços Materno Infantil, que funciona na Capital, Região Metropolitana e Serra atuando de forma domiciliar no auxílio do pré-natal, trabalho de parto, parto e pós-parto e na amamentação.

Ela afirma que o período de gravidez é muito singular para cada mulher, mesmo para aquelas que estão gestando pela segunda ou mais vezes, mas que os cuidados iniciais com alimentação, saúde física e mental são indispensáveis. “A gestação é um evento que traz tantas coisas pra gente. Coisas da nossa infância, convivência com os pais e família, o cuidado, o amor”, explica.

Lorraine também dá atenção aos cuidados no pré-natal, principalmente antes da 12ª semana de gestação, quando é necessário fazer mais exames e entender o histórico daquela mãe. “Quando a gente consegue chegar nessa mulher no início da gestação, o desfecho dela tem um resultado mais positivo do que de outras que chegam entre o meio e fim da gestação”, afirma.

Em relação a desigualdade racial, a enfermeira pontua que muitas mulheres negras, principalmente aquelas que já têm filhos, acabam não tendo tempo para iniciar o pré-natal na fase correta.  As demandas da casa são muitas, e os filhos muitas vezes não têm um lugar para ficar enquanto a mãe vai à consulta. “A falta de acesso se dá muito pelo contexto social em que essas mulheres estão inseridas”, diz.

Por outro lado, Lorraine também admite que muitos pontos negativos nos dados sobre natalidade se dão pelos profissionais despreparados. “Hoje se perdeu um pouco do trabalho real da Atenção Primária, da estratégia e cuidado da Saúde da Família. A gente está cada vez menos nas casas das pessoas e isso acaba atrapalhando o acesso”, afirma.

Pela sua experiência, as mulheres negras são as que mais sofrem com o atendimento precário nas unidades de saúde, com intervenções desnecessárias em seus corpos e partos realizados com desrespeito às mães. “As pessoas ainda enxergam as mulheres negras como ama de leite, e aí entramos em um paradigma que diz que mulheres negras nasceram para amamentar e parir e não é isso que a gente vê na realidade. O preparo desses profissionais para olhar para essas mulheres ajudaria muito na diminuição dessa desigualdade”, conta.

Segundo dados da Fiocruz, para a execução da episiotomia – corte feito em partos vaginais na região do períneo para ampliar a saída do bebê –, não foi aplicada a anestesia local em 10,7% das mulheres pretas, enquanto em mulheres brancas a taxa de não recebimento de anestesia foi de 8%.

Sobre a presença das doulas, a enfermeira considera que elas têm um papel fundamental nas salas de parto. Ela conta que, com essas profissionais no ambiente, é possível passar apoio e segurança para a mulher que está em um momento de vulnerabilidade. “É um outro olhar, é um outro trabalho onde ela empodera e deixa essas mulheres mais seguras”, diz. 

Para Lorraine, seus trabalhos se complementam justamente porque o olhar da obstetra é mais técnico e às vezes falta o apoio mais humanizado. “Às vezes o companheiro ou companheira não consegue dar esse apoio e é aí que entra o trabalho da doula”, reitera.

“No meu ponto de vista, se todas as mulheres pudessem ter uma doula, a gente teria um desfecho de parto mais positivo. A gente ainda tem esse cuidado médico centrado, onde o médico manda e diz a posição que eu vou ganhar o meu bebê e o que eu preciso fazer. E não é assim, porque sabemos que décadas atrás os bebês nasciam em casa, com parteiras e a gente tinha desfechos positivos. A doula veio resgatar isso, esse olhar fisiológico, esse cuidado, esse amor”, afirma Lorraine.

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