São muitas as coisas que distanciam Ilce e Sueli: 200 quilômetros, 20 anos e duas trajetórias completamente diferentes. Mas as suas histórias têm um ponto em comum: as palavras. Ou melhor, a vontade de compreendê-las.
Ilce Iara Leal Paz, de 57 anos, natural de Porto Alegre, e Sueli Magnante, de 76, moradora de Nova Prata, ambos municípios do Rio Grande do Sul, foram privadas da educação quando eram crianças. Não puderam frequentar escolas e nunca foram alfabetizadas. Suas histórias se aproximam das de outras 9,6 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler e escrever no Brasil. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), coletados no Censo Demográfico de 2022, mostram, ainda, que 5,2 milhões, cerca de 54,1% dessa população, têm 60 anos ou mais.
Viver em contato com uma sociedade letrada é uma das grandes dificuldades de pessoas não alfabetizadas. Seja em placas e letreiros do transporte público, seja em rótulos e medicamentos, as palavras estão por toda a parte.
Antes mesmo da alfabetização, já somos inseridos no mundo das letras e dos seus significados. Quem afirma isso é o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Evandro Alves, especialista na Educação de Jovens e Adultos (EJA). “A alfabetização é um processo mais individual, mas que está indissociavelmente ligado a um processo social que diz para que serve o ler e o escrever.” Em outras palavras, o letramento antecede a alfabetização.
Os dados do Censo Escolar de 2022 mostram que aproximadamente 900 mil adultos com mais de 40 anos estão na escola. Mas o retorno à sala de aula ou o início da vida escolar na idade adulta é, na maioria das vezes, um desafio. “A demanda potencial é imensa, mas parte dessas pessoas teve o seu processo de fracasso escolar tão bem produzido pela sociedade brasileira que não quer voltar para a escola”, explica Evandro. A vergonha e o receio de assumir que não sabe ler e escrever são fatores importantes na vida dessa população.
“Eu nunca falei pra ninguém que eu não sabia [ler e escrever], depois que eu comecei a vir na escola, sim, mas nem minhas irmãs sabiam”
ILCE IARA LEAL PAZ, estudante de anos iniciais
Quando criança, Ilce não frequentou a escola. Após a separação dos pais, ela e os irmãos foram afastados e deixados com os tios, que ficaram responsáveis pela escolarização dos sobrinhos. “Mas não foi [assim], a gente foi pra cuidar dos filhos dos meus tios, e hoje eles são formados”, relata. Por conta da vergonha que sentia por não saber ler e escrever, Ilce nunca contou isso aos familiares. “Eu nunca falei pra ninguém que eu não sabia, depois que eu comecei a vir na escola, sim, mas nem minhas irmãs sabiam”, relembra.
A busca pela alfabetização iniciou há cerca de 12 anos, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Nossa Senhora do Carmo, no bairro Restinga, em Porto Alegre, mas a trajetória nem sempre foi linear. Já com uma família constituída e a responsabilidade de cuidar do neto, além das demandas do trabalho em serviços gerais e outras ocupações para implementar a renda, Ilce teve dificuldades em dar sequência aos estudos.
Com o neto crescido, há aproximadamente seis anos Ilce retornou à escola. Porém, em 2020, por conta da pandemia de covid-19, ela foi afastada, mais uma vez, da sala de aula. Somente após a flexibilização das medidas preventivas ao vírus que Ilce voltou a ser aluna.
Perla Gonçalves, professora de anos iniciais da EJA na escola da Restinga, trabalha na instituição há cerca de seis anos e vem acompanhando Ilce na tentativa mais recente de alfabetização. “Quando cheguei, ela era uma aluna que a gente considera, na escrita, como pré-silábica”, explica. “Foi um processo lento, mas me parecia também um pouco de insegurança, receio de errar, então acho que primeiro foi um processo de confiança.”
Quando começou a aprender, Ilce sabia pouca coisa. Conhecia as letras, mas não conseguia juntar as palavras. “Eu até encho os olhos de água, porque eu não sabia e agora eu aprendi. E eu quero ir pro IF [Instituto Federal do Rio Grande do Sul], tirar a carteira, tem bastante coisa que eu quero fazer ainda.”




Outra forma de aprender
Segundo o professor Evandro, a Educação de Jovens e Adultos não se restringe somente à escolarização. Todas as ações que acontecem fora do espaço escolar também são objeto da EJA. “Os movimentos de alfabetização que acontecem, por exemplo, em associações de educadores populares, em terreiros, em igrejas, em organizações do movimento social, tudo isso é de atenção da EJA”, explica.
A alfabetização fora da escola diferencia-se de uma educação informal em razão da intencionalidade do educador ou do grupo em organizar e sistematizar tal processo. “Do ponto de vista da legislação educacional, o primeiro segmento da escolaridade inicial para a EJA pode ser realizado fora do ambiente escolar, o que reforça a caracterização dos processos educativos não escolares como manifestação, não além nem aquém, da Educação de Jovens e Adultos”, complementa.
Diferentemente de Ilce, Sueli não foi alfabetizada em uma escola, mas por uma professora particular, contratada pelos filhos para que ela pudesse realizar esse desejo antigo. “Eu queria muito aprender, porque não é fácil sem ler e escrever”, conta.
Na juventude, a trajetória educativa de Sueli foi interrompida pela dificuldade de acesso à escola e pela necessidade de trabalhar com a família na agricultura. “Eram seis quilômetros pra ir pra aula, então eu só estudei as primeiras letras e aprendi o meu nome, e aí depois comecei a trabalhar pra sustentar os filhos, não era fácil.”
Quando decidiu voltar a estudar, Sueli queria frequentar o ambiente escolar, mas o trabalho doméstico e a rotina de cuidados com os netos impossibilitaram essa tentativa. Então, há cerca de quatro anos, incentivada pelos filhos, ela iniciou o processo de alfabetização. Em um ano, com aula uma vez por semana com a professora particular, Sueli aprendeu a ler e a escrever. Ainda enfrenta dificuldades, mas em nenhum momento deixou de praticar.


Para a professora de Sueli, Jaqueline Modelski, os maiores obstáculos da aluna eram a leitura e a escrita espontânea. “Dona Sueli lia pausadamente, juntando as sílabas vagarosamente e, na escrita, gostava muito de copiar parágrafos e textos prontos, mas tinha dificuldade de escrever frases por conta própria.” Orgulhosa com o seu avanço, Sueli ainda guarda os cadernos repletos de textos copiados de livros e jornais, utilizados para praticar a leitura e a escrita.
“Uma criança e um adolescente escrevendo ‘fábrica’ é muito diferente de um adulto com uma história de fábrica”
EVANDRO ALVES, professor da Faculdade de Educação da UFRGS
Segundo Jaqueline, uma das dificuldades como professora foi encontrar materiais disponíveis para trabalhar com essa faixa etária, uma vez que os livros de alfabetização abordam assuntos mais relacionados às crianças. Esse relato vai ao encontro do que o especialista em EJA expõe como fator de afastamento de adultos da educação em anos iniciais. “Ele volta para escola, e aquela escola fala de coisas que não fecham com a vida dele”, pontua Evandro.
Para o professor, a principal diferença entre a alfabetização de crianças e de adultos é a história de vida de cada um. “Uma criança ou um adolescente escrevendo ‘fábrica’ é muito diferente de um adulto com uma história de fábrica”, ressalta. Além disso, há uma idade correta para a alfabetização infantil, que, de acordo com o Ministério da Educação (MEC), deve ser finalizada, no máximo, aos oito anos.
Ainda, as dificuldades apresentadas por cada indivíduo são ultrapassadas por outros fatores. “É também uma questão de gênero. Para os homens, decidir voltar a estudar é quase uma decisão individual, enquanto, para as mulheres, a rotina de cuidado com a casa e com os familiares dificulta o retorno”, complementa Evandro.

O aprendizado nunca para
Tanto Ilce quanto Sueli estão em um processo constante de aprendizado e aprimoramento da alfabetização. A busca inicial pela educação tinha como meta saber ler e escrever, mas os sonhos não param por aí. Ambas almejam aprender cada vez mais.
Ilce conta que, antes, dependia de outras pessoas para entender rótulos, letreiros de ônibus e placas, mas que hoje já consegue compreender por conta própria. “E, agora, minha meta ainda é ler um livro para a professora na frente da turma, para todo mundo, sem gaguejar”, explica.
A professora Jaqueline destaca que o apoio da família é imprescindível, assim como a celebração de cada conquista. “Cada palavra aprendida, cada frase escrita corretamente são vitórias”, reforça.
A Educação de Jovens e Adultos é um direito gratuito assegurado por lei e pode ser acessado por pessoas com no mínimo 15 anos para o Ensino Fundamental e 18 para o Médio, em escolas municipais e estaduais. “A dica é buscar, deixar o medo de lado e vir para a escola”, acrescenta a professora Perla.
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