“É bem a sensação de ter ela perto de novo. Tem algumas vezes que acontece uma coisa específica e eu tenho a mesma sensação de ‘sei que ela está por aqui’, e sempre que eu tô com as peças dela, ou vejo no armário, me dá essa sensação de novo. É um resgate dessa memória, da presença”, conta Luíza Britzke, 24 anos, head de comunicação e marketing da WK JobHub.
Geneci Nunes Cosme foi uma pessoa muito importante na vida de Luíza. Desde os anos iniciais da neta, Luíza e Geneci tiveram uma conexão inexplicável. A mãe de Luíza saía para trabalhar, e quem cuidava da pequena era a avó. E assim foi se fortalecendo o laço de amor e carinho entre as duas. Em momentos de tristeza, de acolhimento, de risada e de entrega, aquela dupla se entendia. Era encontro de barco pesqueiro com porto seguro. “Ela era muito aquela vó que a gente vê nos filmes, da comida, do carinho, do acolhimento, então, se eu estava triste, se eu estava bem ou se eu queria desabafar, era sempre com ela”, conta a neta.
Faz dois anos que Geneci, aos 75 anos, morreu e, para quem fica, às vezes não é fácil entender a partida. Para acalmar o peito e sentir por perto quem sempre esteve junto, Luíza resolveu guardar o que, para ela, tinha um significado muito especial. Escolheu duas peças de tricô que, entre tramas e fios, representam a amarra que as ligava.
“Eu queria ter algo dela que ela sempre usava, e esse conjuntinho de tricô ela usava em vários momentos especiais. Usou quando meus avós fizeram 50 anos de casados. Ela usava nos aniversários, era tipo o look oficial das comemorações.”
Para Luíza, um dos motivos que fazem as duas peças serem tão importantes é o fato das roupas terem sido usadas sempre em momentos positivos, materializando no conjunto memórias felizes. Quando Luíza usa as peças, o sentimento é sempre o de que a preservação vale a pena. Se desfazer dessas roupas da avó não é sequer uma opção para Luíza. Para ela, o significado desse tricô é imensurável e transcende o material da vestimenta.
E Luíza não é a única que tem esse sentimento. Combinar a funcionalidade de uma vestimenta com o significado afetuoso que ela transmite é um processo frequente no mundo da moda. Débora Elman, pesquisadora e professora do curso de Moda do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC), explica que as roupas podem ter um importante papel de preservação de memórias tanto no contexto individual de cada pessoa, quanto de uma sociedade como um todo.
A pesquisa da mestranda em Memória Social e Patrimônio Cultural pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Laiana Pereira da Silveira é um bom exemplo do que a professora Debora explica. Laiana, que é graduada em Design de Moda, fez uma análise sobre a relação existente entre o campo do vestuário e o da memória, tendo como objetos de estudo o pijama que o presidente Getúlio Vargas vestia no dia de sua morte e as roupas dos prisioneiros vítimas do Holocausto em Auschwitz-Birkenau. O estudo foi publicado na Revista de Ensino em Artes, Moda e Design.
Apesar de contarem histórias completamente diferentes, tanto a peça utilizada por Getúlio Vargas quanto as vestimentas dos prisioneiros viraram artifícios importantes para registro de memória. Enquanto o pijama do ex-presidente marca uma ação voluntária e individual de quem decidiu despedir-se da vida utilizando aquele traje, no seu lar, as peças de roupas encontradas após o término do regime do Holocausto marcam o pouco do que restou dos prisioneiros antes de serem despidos, enumerados e encaminhados, sem a possibilidade de consciência, para o fim de suas vidas. Tanto o pijama de Vargas quanto as peças de roupas e calçados dos prisioneiros estão expostas até hoje em museus, marcando a história e servindo como artifícios de memória. Afinal, não esquecer é fundamental.
Além das diferentes memórias que as peças preservam, elas têm outra condição em comum. Tanto o conjunto de tricô de Geneci, quanto o pijama de Vargas e as roupas e sapatos das pessoas aprisionadas na Segunda Guerra Mundial foram produzidos por alguém, pensados por alguém e vendidos por alguém. O significado de um bem do passado que no presente representa tamanha importância também existe no âmbito coletivo da indumentária. Se a peça de tricô mantém, para Luíza, a avó presente, as vestimentas do ex-presidente e dos prisioneiros deixam eternizados momentos históricos que não devem ser esquecidos. Mas o que mais as vestimentas são capazes de preservar?
Numa teia de tecidos, todos buscam o seu lugar
Stuart Hall, sociólogo jamaicano falecido em 2014, afirmava que uma representação está sempre ligada a outra para ser entendida. A diferença é essencial ao significado: uma pessoa é alta porque não é baixa, por exemplo. Ao pensar na vestimenta, essa premissa também é verdadeira, pois ela também marca singularidades e diferenças.
“Como eu quero ser percebida? Como eu quero ser inserida num determinado grupo? Eu ser como eu sou vai me afastar de alguns grupos e me aproximar de outros”
DÉBORA ELMAN, pesquisadora e professora de Moda.
Ao utilizar um adereço que remete à cultura punk, por exemplo, uma pessoa está comunicando que se identifica como parte desse grupo e, consequentemente, como contrária a grupos que divergem das ideias dessa tribo.
“Como eu quero ser percebida? Como eu quero ser inserida num determinado grupo? Eu ser como eu sou vai me afastar de alguns grupos e vai me aproximar de outros”, explica Débora. A moda, portanto, é importante também na construção e preservação das identidades dos indivíduos em uma sociedade.
Com doutorado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Débora explica que o processo de identificação por meio da moda sempre existiu. É um movimento que acontece conforme as demandas internas e externas dos indivíduos. A professora também explica que a identidade e o estilo estão interligados. A identidade seria o self, o processo de consciência de alguém, e o estilo é a exportação desse self, ou seja, é como a pessoa se relaciona com o mundo. Isso dialoga diretamente com o senso de pertencimento do ser humano a determinados grupos e ideias.
“A moda também faz com que as pessoas sejam reconhecidas, sejam inseridas, e faz com que as pessoas também sejam afastadas. Tem uma frase que diz que a moda pode agir como pontes ou como cercas, ou ela pode alcançar ou ela pode cercear, e a gente tá falando de moda num sentido mais global”, aponta a pesquisadora. Pensar a moda num sentido mais amplo ajuda a entender também como funcionam as tendências e porque elas vêm e voltam no tempo.
Espiral de tendências: o futuro de ontem, o passado de amanhã
A mestre em história Flavia Jakemiu Araújo Bortolon publicou uma pesquisa intitulada A moda e a morte: ciclos de tendências que trata sobre como as tendências surgem e vão embora, em um movimento constante. “O objeto permanece na moda somente até o instante em que o desejo ainda não foi realizado, pois, ao alcançá-lo, este já foi substituído por um outro”, diz Flavia em seu texto.
Numa temporalidade difícil de acompanhar, vemos, no mundo das tendências, o passado voltando à tona e os anos indo e vindo nas vestes das pessoas. Calças de cintura baixa, por exemplo, que eram moda nos anos 2000, passaram a ser abominadas por volta de 2015 e hoje, em 2022, voltam a ser desejadas pelos jovens.
O mesmo acontece com as maquiagens coloridas, as transparências e recortes e demais tendências que voltam tanto para as passarelas quanto para as ruas depois de anos fora de relevância. No desfile de verão de 2022 da italiana Blumarine, em Milão, a marca foi uma das referências que trouxe de volta a tendência dos anos 2000 nas passarelas, apresentando as calças de cintura baixa.

Para a professora Débora, o “vai e volta” de tendências não é cíclico, e sim espiral, pois, na sua visão, a moda nunca volta igual, sempre existe algo diferente. Às vezes é o tecido, às vezes é a forma de combinar. O passado é revivido, sim, mas com o pé já no futuro. A preocupação com uma indústria da moda mais consciente é, por exemplo, uma pauta que vem ganhando força. E, nesse espiral de tendências, por que parece existir a necessidade de reviver o que acontecia anos atrás? Débora acredita que isso ocorre pela dinâmica nostálgica do ser humano, junto com a esperança do agora.
Mas como é possível ter nostalgia de algo que não foi vivido? No artigo A História inventando Moda: A influência da memória na criação de coleções de moda com referência no passado, a especialista em Propaganda e Marketing Rochelle Cristina dos Santos reflete sobre o fato de as pessoas se vestirem com estilos usados num tempo que não viveram e que nunca voltarão a acontecer. Esse resgate, de acordo com o texto da pesquisadora, pode ser justificado por um processo de conforto: o ontem é sempre certo, o amanhã é desconhecido.
“A história interfere no mundo da moda através da memória que se mantém sobre determinados períodos, o que traz recordações. O uso de roupas que trazem elementos retrô ou vintage representa uma parte da identidade do sujeito. Ou seja, o sujeito se reconhece, pelo menos no momento em que utiliza aquela vestimenta, como pertencente a uma realidade não-vivida por ele, mas que ele compartilha através de sua memória ou da memória coletiva”, escreve Rochelle. E nesse jogo entre passado, presente e futuro é que as peças de roupa atuam como vetores de histórias e memórias.
Histórias, peças e pessoas: a possibilidade de reviver memórias
Paula Silberfarb Costa é formada em relações públicas e há seis anos e possui o The Vintage Closet, brechó online e físico, com sede no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. O trabalho de Paula lida a todo momento com moda e diferentes peças de roupa, desde o garimpo das peças, a escolha do que será exposto e a revenda de cada roupa para um novo lar, onde aquele bem material antigo pode começar uma vida nova.
Paula conta que a memória afetiva que clientes têm com peças antigas é algo quase cotidiano na sua rotina de trabalho, às vezes acontece com pessoas que já tiveram peças parecidas com as que encontram no The Vintage Closet e que se sentem transportadas para o passado. Outras vezes, o que desperta a lembrança é a marca da roupa, que remete a um momento ou uma pessoa.
“Às vezes vem aqui algumas clientes de 50 anos, por exemplo, que olham as calças mom jeans, que antigamente eram calças baggy, e daí falam ‘nossa, eu usei isso na minha infância e adolescência!’ Ou chegam meninas mais novas e falam ‘minha mãe usava essas calças, ela ainda tem’”, conta Paula.
Um dos motivos que faz com que Paula escute esse tipo de relato quando recebe visitas em seu brechó é que parte da curadoria das peças que são vendidas é feita a partir de instituições beneficentes, igrejas, asilos ou demais espaços que estejam se desfazendo de roupas antigas. Assim, as peças são garimpadas em diferentes ambientes e, na maioria das vezes, pertenceram a pessoas e tendências de décadas passadas.
Para quem gosta de fazer do antigo novo de novo, frequentar o The Vintage Closet, assim como vários outros brechós, é mergulhar na possibilidade de se deparar com uma memória, um momento ou um alguém que é revivido pela vestimenta. É encontrar histórias nas peças de outra pessoa que, a qualquer momento, podem começar outras histórias em um novo corpo. Da mesma forma que as tendências são espirais, vêm e voltam no tempo, assim são as peças de roupa que nos acompanham no dia a dia: vêm e voltam por diferentes pessoas, preservando histórias e criando novas memórias.









Muito lindo minha querida. Muita verdade no texto,lembrei da moda de tempos atrás. Saudades daquele tempo.