Líder espiritual hutu e ativista anticolonial do Burundi, então sob domínio belga e sob o governo da minoria étnica Tutsi. Nasceu em uma região remota perto da montanha Ndora no nordeste do país, por volta da metade do século XIX, e nada se sabe sobre boa parte da sua vida. Veio a integrar uma longa tradição de videntes e profetisas que eram associadas a espíritos de reis falecidos.
Em setembro de 1934 ela começou a anunciar as razões do fracasso de chefes tutsis indicados pelo rei Mwambutsa IV, e suas manifestações chamaram a atenção de muitos camponeses insatisfeitos que habitavam a região de Ndora.
De acordo com pessoas mais velhas, entrevistadas em 1968, Inamujandi teria prometido organizar os rituais necessários para que o filho de Kirima, antigo chefe da região de Ndora que afirmava ser descendente do rei Ntare II, pudesse governar. Outros(as) informantes afirmavam que ela não chegou a anunciar claramente o nome do novo rei que estava por vir. De qualquer modo, a promessa alimentou a frustração dos hutus em relação aos supostos usurpadores que haviam tomado o trono do Burundi.
Durante a década de 1920, a autonomia dos chefes hutus do nordeste do país estava ameaçada pela presença de novas chefias de origem Tutsi a quem o governo belga assegurava uma posição privilegiada, o que acirrou ressentimentos das linhagens e famílias que há muito controlavam a região. Inamujandi ganhou popularidade, recebendo grande quantidade de comida para alimentar os seus seguidores e guerreiros, e o grupo declarou guerra contra Mwambutsa IV e Bacinoni, os chefes leais aos belgas, colocando em risco a autoridade dos aliados dos colonialistas.
Rodeada de carisma e prestígio espiritual, era considerada detentora de poderes mágicos capazes de conferir invulnerabilidade aos seguidores, e a reduzir os inimigos. Sob seu comando, sucederam-se ataques a tutsis e belgas, com a destruição, em várias semanas, de mais de 300 casas e 10 escolas missionárias de catequistas, e logo vieram as represálias. As tropas africanas a serviço do governo belga invadiram Ndora e saquearam o acampamento dos rebeldes em 3 de outubro de 1934. Inamujandi fugiu, mas após ser denunciada, foi capturada e levada perante o tribunal colonial, que a sentenciou ao exílio interno na cidade de Ruyigi, no leste do país.
Ainda no início da década de 1980, muitos(as) anciã(o)s negavam que os belgas tivessem capturado a verdadeira profetisa, afirmando que aprisionaram a pessoa errada, o que indica a continuidade de seu legado junto ao povo. Nas décadas de 1950-1960 lideranças hutus evocavam o seu nome como heroína anti-colonial e anti-tutsi, enquanto o governo instituído após a independência não colocou acento em sua origem étnica ou regional. O certo é que ela permanece como exemplo de liderança espiritual feminina.
BIBLIOGRAFIA
CHRÉTIEN, Jean-Pierre. Une revolte au Burundi em 1934: les racines traditionalistes de l’hostilité a la colonization. Annales, E.S.C, v. 25, n. 6, p. 1678-1717, 1970.
GUILLET,Claude; Ndayishinguile, Pascal. Legendes historiques du Burundi. Paris: Karthala, 1987.
RICH, Jeremy. “Inamujandi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 156-157.
Última atualização em: 28/01/2021
































