Tag: Hutus e Tutsis

Agathe Habyarimana (1942)

Política e primeira-dama de Ruanda. Nasceu como Agathe, em Kanzinga, no norte de Ruanda, na região do Bushiru.  Pertence a uma família hutu politicamente influente integrada por latifundiários, adversária dos tutsis durante o período colonial.   

Em 1962, casou-se com Juvénal Habyarimana, futuro presidente do país, e veio a exercer grande influência em seu governo, com atuação no Mouvement Révolutionaire National pour la Democratie et le Développement – MRND (Movimento Republicano Nacional para a Democracia e o Desenvolvimento). Por isto, ficou conhecida como “Kanjogera”, o nome da notória mãe do rei ruandense, Musinga. Não era uma referência de respeito, pois segundo as tradições aquela governanta fazia de tudo para manter o poder e status de sua família, incluindo perpetrando assassinatos.

Na década de 1980 ela se cercou de um seleto grupo de poderosos que constituíam o azaku, o grupo precursor da organização extremista Hutu Power (poder Hutu) que foi responsável por promover a ideologia genocida que formou a base para os assassinatos em massa em 1994. O akazu permitiu a ela  uma posição de poder e influência sobre a administração de seu marido, dominando o desenvolvimento de políticas por meio de sua colaboração com oficiais militares de alto escalão e influentes políticos. Muitos de seus integrantes foram identificados como líderes e perpetradores do genocídio durante os julgamentos em curso no Tribunal Criminal Internacional para Ruanda, e Agathe Habyarimana aparece citada nominalmente durante todo o processo.

Segundo alguns, a posição de Juvénal Habyarimana em um acordo de compartilhamento de poder com os tutsis entrava em choque com a posição de Agathe em relação à supremacia hutu, portanto levando-a a facilitar o assassinato do marido.  Em 6 de abril de 1994, o avião que levava o presidente foi derrubado, sendo este o evento que desencadeou os cem dias de genocídio que definiram a história recente de Ruanda. 

Escoltada do país por tropas francesas, recebeu uma quantia de 40.000 dólares do governo francês de um fundo destinado a refugiados ruandeses.  Logo depois, em um programa na televisão belga, denunciou a Frente Patriótica Ruandesa, dominada pelos tutsis, por derrubar o avião de seu marido, dirigindo a atenção para a força rebelde de Uganda que era composta por Tutsis. Foi identificada por alguns como financiadora, organizadora e legitimadora dos assassinatos de tutsis.

Ela fundou a Radio-Télévision Libre des Mille Collines – RTLM, a estação de rádio cujos comentaristas e funcionários foram responsabilizados por incitar o ódio étnico e a violência entre os hutus e os tutsis.  Foi a transmissão retórica e odiosa na RTLM que incitou o genocídio, encorajando os perpetradores durante os assassinatos de abril de 1994.

Depois de deixar Ruanda, Habyarimana estabeleceu-se no Quênia, onde permaneceu até 1996, e estabeleceu ligações com  Mobutu Sese Seko, do Zaire (hoje República Democrática do Congo), e com Daniel Arap Moi, do Quênia, líderes de regimes corruptos, em regimes de governo autoritários. Passou também alguns anos na França na primeira década do século XXI, embora tenha sido movido contra ela um mandado internacional de extradição, para que fosse julgada em seu país por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

BIBLIOGRAFIA

BUTARE, Innocent. Une jeune femme sur un bateau ivre: Agathe Uwilingiyimana du Rwanda. African Books Collective, 2019. Project MUSE muse.jhu.edu/book/67120

RECKER, Sterling. “Agathe Habyarimana”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 525-527.

Inamujandi (+1934)

Líder espiritual hutu e ativista anticolonial do Burundi, então sob domínio belga e sob o governo da minoria étnica Tutsi.  Nasceu em uma região remota perto da montanha Ndora no nordeste do país, por volta da metade do século XIX, e nada se sabe sobre boa parte da sua vida. Veio a integrar uma longa tradição de videntes e profetisas que eram associadas a espíritos de reis falecidos.

Em setembro de 1934 ela começou a anunciar as razões do fracasso de chefes tutsis indicados pelo rei Mwambutsa IV, e suas manifestações chamaram a atenção de muitos camponeses insatisfeitos que habitavam a região de Ndora.  

De acordo com pessoas mais velhas, entrevistadas em 1968, Inamujandi teria prometido organizar os rituais necessários para que o filho de Kirima, antigo chefe da região de Ndora que afirmava ser descendente do rei Ntare II, pudesse governar. Outros(as)  informantes afirmavam que ela não chegou a anunciar claramente o nome do novo rei que estava por vir. De qualquer modo, a promessa alimentou a frustração dos hutus em relação aos supostos usurpadores que haviam tomado o trono do Burundi.

Durante a década de 1920, a autonomia dos chefes hutus do nordeste do país estava ameaçada pela presença de novas chefias de origem Tutsi a quem o governo belga assegurava uma posição privilegiada, o que acirrou ressentimentos das linhagens e famílias que há muito controlavam a região. Inamujandi ganhou popularidade, recebendo grande quantidade de comida para alimentar os seus seguidores e guerreiros, e o grupo declarou guerra contra Mwambutsa IV e Bacinoni, os chefes leais aos belgas, colocando em risco a autoridade dos aliados dos colonialistas.

Rodeada de carisma e prestígio espiritual, era considerada detentora de poderes mágicos capazes de conferir invulnerabilidade aos seguidores, e a reduzir os inimigos. Sob seu comando, sucederam-se ataques a tutsis e belgas, com a destruição, em várias semanas, de mais de 300 casas e 10 escolas missionárias de catequistas, e logo vieram as represálias. As tropas africanas a serviço do governo belga invadiram Ndora e saquearam o acampamento dos rebeldes em 3 de outubro de 1934. Inamujandi fugiu, mas após ser denunciada, foi capturada e levada perante o tribunal colonial, que a sentenciou ao exílio interno na cidade de Ruyigi, no leste do país.

Ainda no início da década de 1980, muitos(as) anciã(o)s negavam que os belgas  tivessem capturado a verdadeira profetisa, afirmando que aprisionaram a pessoa errada, o que indica a continuidade de seu legado junto ao povo. Nas décadas de 1950-1960 lideranças hutus evocavam o seu nome como heroína anti-colonial e anti-tutsi, enquanto o governo instituído após a independência não colocou acento em sua origem étnica ou regional. O certo é que ela permanece como exemplo de liderança espiritual feminina.

BIBLIOGRAFIA

CHRÉTIEN, Jean-Pierre. Une revolte au Burundi em 1934: les racines traditionalistes de l’hostilité a la colonization. Annales, E.S.C, v. 25, n. 6, p. 1678-1717, 1970.

GUILLET,Claude; Ndayishinguile, Pascal. Legendes historiques du Burundi. Paris: Karthala, 1987.

RICH, Jeremy. “Inamujandi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 156-157.

Marguerite Barankitse (1957)

Nascida entre o povo de Nyamutobo, na Província de Ruygi, no leste da República do Burundi, na África central, ela tem ascendência étnica tutsi. Formou-se como educadora e dedicou-se ao ensino nos anos 1979-1981. Em viagem à cidade de Lourdes, França, obteve formação em cursos da Igreja católica, e ao voltar ao país tornou-se secretária do Bispo de Ruyigi.  

No início da década de 1990, por se recusar a adotar a política de segregação determinada pelo governo, foi demitida.  Com a eclosão da crise humanitária que envolveu a guerra entre hutus e tutsis, passou a atuar, inicialmente junto com autoridades católicas locais, em atividades contra a discriminação e pela pacificação étnico-racial, e desde então adotou como foco preferencial de ação política a luta em defesa das crianças vítimas de ataques, perseguição e abandono.

Em 1993, no auge da guerra interétnica que eclodiu no Burundi e em Ruanda, ela liderou a criação de uma Organização Não Governamental de alcance internacional chamada Maison Shalom (A Casa da Paz), aberta ao abrigo  de crianças de quaisquer grupos étnicos e que além de proteção promove iniciativas educativas para que as crianças hutus, tutsis e twa possam conviver em harmonia. Durante os 26 anos em que operou no Burundi a Maison Shalom se transformou em uma grande rede de escolas, hospitais e serviços de saúde em todo o país. 

Em 2015, devido aos protestos públicos contra as infrações do governo do presidente Nkurunziza aos direitos humanos, Marguerite Barankitse foi ameaçada em sua integridade física, sendo forçada a abandonar o país, passando a viver no exílio. Abriu uma filial da Maison Shalom em Ruanda, e deu continuidade ao trabalho com crianças refugiadas. O foco assistencial se alargou, e embora atenda preferencialmente as “crianças soldados”, crianças órfãs e mutiladas de guerra, os serviços passaram a estar disponíveis para pessoas de toda a comunidade.

Por seu trabalho incansável e determinante em defesa dos direitos humanos Maggie Barankitse tornou-se internacionalmente reconhecida, sendo agraciada com diversos prêmios na Europa e nos Estados Unidos, inclusive na UNESCO (2008).

BIBLIOGRAFIA

IULM, Fondazione. Diritti umani e dei bambini – Un progetto di comunicazione sociale e di solidarietà. Rivista italiana di Comunicazione Pubblica, n. 27, 2006.

BUSCAGLIA, Ilaria. Randell, Shirley. Legacy of colonialism in the empowerment of women in Rwanda. Cosmopolitan Civil Societies: an interdisciplinary journal, v. 4,n. 1, p. 69-85, 2012: . https://search.informit.com.au/documentSummary;dn=988607999806253;res=IELHSS

Marie Béatrice Umutesi (1959)

Escritora e socióloga de origem étnica hutu, nascida em Byumba, em Ruanda. Estudou economia em Kigali e ganhou o diploma pela Universidade Nacional de Ruanda. Tornou-se socióloga pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Ela trabalhou como funcionária pública e atuou no Ministério do Interior, no Banco Continental Africano e no Centro de Serviço para Cooperativas.

Em Ruanda, Umutesi presenciou muitos casos de violência entre hutus e tutsis e viu a sua família materna ser vítima de um grupo rebelde de Tutsis, a Frente Patriótica Ruandesa (RPF).  Ela se mudou com a mãe para Kigali e estava lá no início do genocídio de 1994, quando desenvolvia programas para uma associação de mulheres em Byumba.

Quando a Frente Patriótica Ruandesa assumiu o controle do país após o genocídio, Umutesi se juntou aos hutus que fugiram para a atual República Democrática do Congo, e lá morou em um campo de refugiados. Uma vez em Bukavu, na fronteira entre o Congo e Ruanda, ela aproveitou suas experiências trabalhando em Organizações Não Governamentais para dar assistência aos refugiados, até que a cidade foi tomada pelos rebeldes Banyamulenge em 1996 e todos foram forçados a fugir. Umutesi guiou um grupo de pessoas a pé durante um ano, até Kinshasa: neste meio tempo, foram atacados(as) por grupos armados das forças congolesas e do exército da RPF, e muitos não sobreviveram.

Já na Bélgica, publicou Fuir ou Mourir au Zaire (Fugir ou morrer no Zaire), com o registro de suas memórias sobre sua fuga. O livro a tornou conhecida no Ocidente nos anos 2000; a versão em inglês Surviving the slaughter: the ordeal of a rwandan refugee in Zaire (2004), chamou atenção para a condição dos milhares de hutus inocentes que precisaram fugir de seu país por serem perseguidos pela RPF e para o sofrimento que se seguiu devido ao fracasso da comunidade mundial ao intervir no genocídio e suas consequências.

BIBLIOGRAFIA

CANTRELL, Philip. “Marie Beatrice Umutesi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 101.

ELTRINGHAM, Nigel. Accounting for horror: Post-genocide debates in Rwanda. Londres: Pluto Press, 2004.

UMUTESI, Marie Béatrice. Surviving the slaughter: the ordeal of a rwandan refugee in Zaire.  Madison: University of Wisconsin Press, 2004.

Marie-Louise Sibazuri (1960)

Escritora, dramaturga e ativista nascida na província de Kayanza, no Norte do Burundi, de uma família de etnia hutu. Durante os estudos secundários em uma escola católica participou da encenação de uma comédia de Molière, o que a inspirou a escrever sua primeira peça teatral quando tinha quatorze anos. Começou a vida pública como professora e bibliotecária em seu país de origem. 

Na década de 1980, atuou em defesa das mulheres, tornando-se vice-secretária geral da Union des Femmes Burundaises (União das Mulheres do Burundi). Isso a aproximou do governo de Pierre Buyoya, que a nomeou para integrar a comissão de unidade nacional em 1988. Na década de 1990 era dramaturga reconhecida por mais de setenta peças teatrais escritas e encenadas em seu país, França e Bélgica, onde tratava de temas importantes e difíceis, como guerra civil que devastou o Burundi no início daquela década, a disseminação da epidemia de HIV/AIDS e a violência contra as mulheres.

 Decidida a ajudar na promoção da paz entre hutus e tutsis, participou da Organização Não-Governamental  Search for Common Ground,  quando escreveu a novela Umumbanyi Niwe Muryango (Onde os vizinhos são nossa família), transmitida pela rádio nacional, que atraiu uma audiência de milhões de pessoas em todo o país. Contava a história das relações entre duas famílias vizinhas cujos laços de amizade e respeito eram mais fortes do que as diferenças culturais e tornava impossível sua identificação étnica.

Entretanto, ela e sua família passaram a ser hostilizadas por opositores políticos, o que a forçou a se mudar para a Bélgica em 1998, onde aprofundou os estudos na Université Catolique de Louvain.  A pedido do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Marie-Louise Sibaruzi escreveu uma outra novela de rádio, desta vez sobre as relações entre ruandeses e burundianos nos campos de refugiados da Tanzânia. 

Em 2013 escreveu o seu primeiro romance, Les seins nus (Os seios nus), e no ano seguinte foi eleita embaixatriz da francofonia. Nos últimos anos vive na Austrália com o seu segundo marido, Hilaire Bucumi, e publicou em 2019 a coleção de contos folclóricos do Burundi chamada La femme sur le sentier des interdits (A mulher no canteiro dos interditos).

BIBLIOGRAFIA

RICH, Jeremy. Marie-Louise Sibazuri”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 370-371.

ZACHARY, G. Pascal. The diversity advantage: multicultural identity in the New World Economy. Boulder: Westview, 2003. 

Sylvie Kinigi (1953)

Primeira-ministra do Burundi de junho de 1993 a fevereiro de 1994. Nasceu com o nome de Sylvie Ntigashira, em Mugoyi, na província de Bujumbura. Depois dos estudos do primário e secundário com as irmãs da paróquia Ijenda, estudou e se formou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Burundi (1979), com graduação direcionada a crédito bancário. A seguir, obteve DES (Diplôme d’etudes supérieures) em atividade bancária e finanças no Centro Internacional de Formação da Profissão Bancária em Paris (1990).

No mesmo ano, ao retornar ao seu país, foi contratada pelo Banco Central da República do Burundi (BRB), vinculado ao FMI, onde foi diretora do Departamento de Pesquisa e Estatísticas (1990 – 1991), o que lhe permitiu manter um programa de ajustamento estrutural ligado ao Primeiro Ministro (1991-1993).  Com a vitória da Frente pela Democracia no Burundi (Frodebu) nas eleições gerais em junho de 1993, Sylvie foi escolhida como Primeira Ministra pelo novo presidente, Melchior Ndadaye.

Como líder do governo, ela logo reconheceu as divisões que prejudicavam o partido vencedor. A escolha de uma Tutsi para liderar o governo foi, sem dúvida, parte de uma estratégia do novo presidente para construir unidade entre os dois principais constituintes do Burundi (Tutsis e Hutus). Este modelo foi inspirado em Ruanda, onde também uma mulher, Agathe Uwilingiyimana, tinha sido indicada como líder do governo de transição.

Porém, o assassinato do presidente quatro meses depois da posse, a morte do presidente em exercício da Assembléia Nacional e a escalada de violência que tomou conta do país inviabilizou sua possibilidade de governar. A reconciliação entre os grupos étnicos Hutu e Tutsi foi anunciado como prioridade antes do desenvolvimento de um plano econômico para um Burundi moderno. Seus esforços em mudar o país tiveram sucesso no início de 1994 – uma aparente ordem foi restaurada e planos foram estabelecidos para uma nova eleição presidencial.

 Passada a crise e restabelecida a normalidade, Kinigi voltou para administração bancária, dessa vez como a número 2 do Banco Comercial do Burundi (Bancobu). Ela então assumiu uma carreira internacional que a levou à UNESCO. Depois, trabalhou como representante especial da Secretaria Geral das Nações Unidas para os Grandes Lagos. Ao voltar ao Burundi em 2008, ela trabalhou como consultora independente do setor econômico e afirmou sua vontade em auxiliar mulheres do Burundi na luta pelo acesso à propriedade de terra e bens.

Sylvie se casou em 1973 com acadêmico Firmin Kinigi, falecido em 1993, com quem teve cinco filhos.

BIBLIOGRAFIA

HATUNGIMANA, Alexandre. “Sylvie Kinigi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 387-389.

KINIGI, Sylvie, Women and conflict management in Africa: an experiential perspective. In: ADERINWALE, Ayodele (Ed.). Empowering women for the 21st century: the challenges of politics, business, development and leadership. Accra: African Leadership Forum Publications, 1997.

Victoire Ingabire Umuhoza (1968)

Ativista dos direitos humanos e política ruandesa de origem Hutu. Fez parte do Ministério da Economia do país e atualmente realiza estudos na cidade de Roterdam, na Holanda.

Em 1994, no início do genocídio dos povos tutsis, ela estava em Haia quando soube que seu irmão e vizinhos haviam sido mortos por milícias e que seu marido havia conseguido escapar e se refugiado em Goma (República Democrática do Congo),  de onde o ajudou a, junto com sua família, a encontrarem abrigo no sul da Holanda.

Lá, o casal tornou público o genocídio, deu assistência as vítimas e refugiados, e fundaram a Association of Charitable Contact, Dialogue, and Actions – CODAC (Associação de Caridade, Contato e Diálogo), para envio de suprimentos a esses.  Ela também fundou a Uraho, uma instituição de ajuda às refugiadas nos Países Baixos, e a Harambe, organização para coordenar as ações das mulheres africanas que moravam na Holanda, cuja denominação, na língua swahili, quer dizer “todos juntos, como se fosse um”; além de compor o PRO-JUSTITIA-Rwanda, grupo de pressão por justiça para todas as vítimas do genocídio.

Umuhoza fez oposição ao regime de Paul Kagame e a Frente Patriótica Ruandesa – RPF, que controla Ruanda.  Ela se uniu ao Republican Rally for Democracy in Rwanda – RDR (Ajuntamento pela Democracia em Ruanda) e, em 2000, tornou-se a presidente do partido; entre 2003 e 2006, liderou a aliança entre a oposição, as Forças Democráticas Unidas – FDU, e formou uma coalizão de Organizações Não Governamentais, enquanto supervisionava filiais de uma multinacional e publicava textos sobre política em Ruanda e na região dos  Grandes Lagos.

De retorno à Ruanda em 2008, criticou os julgamentos gacaca que, organizados pela RPF nas cortes locais, tinham caráter fraudulento. Ela concorreu às eleições presidenciais de 2010, mas foi presa e condenada a 15 anos de reclusão, sendo libertada por indulto presidencial apenas em 2018.  Contra ela pesou a acusação de que tramava com a Frente Democrática pela Libertação de Ruanda – FDLR, liderada por Hutus envolvidos no genocídio, e cometia discurso de ódio por evocar a memória também de Hutus vítimas da guerra civil.

Sua trajetória demonstra o papel determinante de lideranças femininas em movimentos democráticos na África do início do século XXI.

BIBLIOGRAFIA

MBORI, H. Ingabire Victoire v. Republic of  Rwanda. American Journal of International Law, v. 112, n. 4, p. 713-719, 2018. 

MWAMBARI, David. Leadership emergence in post-genocide Rwanda: the role of women in peacebuilding. African Leadership Centre, v. 2, n. 1, 2017: http://leadershipandsocieties.com/index.php/lds/article/view/65

RICH, Jeremy. “Victoire Ingabire Umuhoza”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 100-101.


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