Tag: Quilombolas

Aqualtune (séculos-XVI-XVII)

Personagem semi-lendária da história do Quilombo dos Palmares. Teria nascido no reino do Congo, de linhagem real, e liderado uma parte dos guerreiros na Batalha de Mbwuila (Ambuíla) (1665), o que resultou em sua escravização e deslocamento para a América Portuguesa, no atual Nordeste brasileiro. É lembrada como uma rainha guerreira, avó de Zumbi dos Palmares.

Sua identidade ancestral é difícil de ser demonstrada. Ela não aparece mencionada nas crônicas ou nos documentos escritos à época no Reino do Congo. Não poderia ser a esposa de Antônio I, o rei do Congo derrotado e decapitado em Mbwila porque de acordo com o cronista português António de Oliveira Cadornega ele mandara executar a rainha anos antes. Nem era tia deste rei, conforme se pensa, porque a tia dele, que detinha o título de Mwene Nlaza, era conhecida pelo nome cristão de Ana Afonso de Leão, ou Ana Manimulaza.

Aqualtune aparece mencionada nas fontes escritas pelos atacantes da comunidade palmarina  Em 1677, por ocasião dos ataques das tropas do capitão Fernão Carrilho contra o quilombo de Macaco, havia uma grande casa onde se reunia o Conselho de Chefes, entre os quais estavam Aqualtune e Ganazona, apresentados respectivamente como mãe e irmão do rei Ganga Zumba; Zumbi, apresentado como sobrinho dele; Pedro Capacaça,  Amaro, Osenga e Andalaquituche,  líderes de outras comunidades da confederação. Em documento do Conselho Ultramarino português datado de 1681, consta que, após a invasão do quilombo de Macaco em 1577 foram aprisionados cerca de 200 homens, dois filhos do rei e a rainha. Ela era, pois, tia-avó de Zumbi, que assumiria a liderança dos palmarinos até 1695.

Por sua capacidade de liderança e de resistência à escravidão, Aqualtune tornou-se um símbolo da luta das mulheres negras. Sua memória é preservada nas tradições orais, inspirou o tema de enredo da Escola de Samba Mangueira no Carnaval de 2019 e sua história é recontada em versos na obra de Jarid Arraes, Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis (2017).

BIBLIOGRAFIA

ANDERSON, Robert Nelson. The Quilombo of Palmares: a new overview of a maroon state in seventeenth-century Brazil. Journal of Latin American Studies, v. 28, n. 3, p. 545-566, 1996.

CARNEIRO, Edison. O quilombo dos Palmares. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1958.

THORTON, John K.. Elite women in the Kingdom of Kongo: historical perspectives on women’s political power. The Journal of African History, v. 47, n. 3, p. 437-460,  2006. 

THORTON, John K.. Les états de l’Angola et la formation de Palmares. Annales. Histoire, Sciences Sociales, ano 63, n. 4,  p. 769-797, 2008.

Nanny (1685-1741?)

Também referenciada como Rainha Nanny ou Granny Nanny, o seu nome provavelmente não é pessoal, mas deriva de Nana, um título de respeito e autoridade empregado em referência às rarinhas-mães nas sociedades akans da África ocidental. Ela nasceu em uma comunidade do povo Koromantee (Koromandê), na Costa do Ouro, atual República de Gana.

 Foi capturada ainda criança e vendida a traficantes ingleses que a transportaram em um navio negreiro até a Jamaica, no Caribe, América Central, onde durante algum tempo ela trabalhou em uma plantation (fazenda) de cana-de-açúcar situada em Saint Thomas Parish, nas circunvizinhanças de Port Royal. Junto com outros(as) cativos(as), envolveu-se em rebeliões lideradas por chefes de escravos marrons, como Cudjoe (Cuffy), Johny e Quao, que conduziram grupos de rebeldes fugitivos para o interior da ilha. 

Em 1720 Nanny fundou e liderou uma comunidade na região das Montanhas Azuis, perto do Rio Stony. Segundo a tradição oral, ali ela se casou com um guerreiro chamado Adou, e fixou as bases da vida comunitária e do sistema de defesa, com barricadas e armadilhas espalhadas na mata. Certa quantidade de guerreiros ficava de prontidão e transmitia mensagens de alarme através do toque de uma espécie de buzina denominada Abeng. Empregando táticas de guerrilha, os marrons atacavam plantations, o que levou ao abandono de 27 delas em 1734.

Além da autoridade política, Nanny era reverenciada e temida, acumulando carisma espiritual. Ela detinha conhecimento de plantas e ervas medicinais. Além disso, a ela era atribuída a capacidade de se comunicar com os espíritos ancestrais, e a capacidade de vidência, elementos que integravam o sistema de crenças africanas conhecidas como obeah ou myal, que posteriormente se difundiu entre os afro-jamaicanos.

A comunidade desenvolveu uma agricultura de subsistência e parte de seus ocupantes se miscigenou com populações indígenas aruaques. O excedente era trocado em mercados próximos por vestimentas e armas.   Em 1739, após diversos ataques o governo britânico firmou um tratado de paz, reservando cerca de 2.500 hectares para a comunidade maroon na área em que estão localizadas na atualidade as cidades de Accompong, Treelawny, Mountain Top e Nanny Town.  Sua morte ocorreu em data incerta, após o ano de 1741.

A Rainha Nanny foi declarada heroína nacional pelo governo da Jamaica em 1976.  Ela tem sua memória preservada por diversos meios, nas tradições orais e também em símbolos e monumentos nacionais. Seu retrato idealizado aparece nas notas de 500 dólares jamaicano, que é popularmente conhecida como “Nanny”. Um monumento em sua homenagem foi edificado na cidade de Moore Town.

BIBLIOGRAFIA

ZIPS, Werner. Nanny: Nana ofthe marrons? Some comparativethoughtsof Queen Mothers in akanandjamaicanmaroonsocieties. In: NIEWAAL, Emile A. B. R.;DIJK,  Rijk van (Eds.). AfricanChieftaincy in a New Socio-politicalLandscape. Hamburg: LitVerlag, 1998, p. 191-227.

RISNER, lacy. Archaeology of memory: a case study of Queen Nanny. In: Scholars week – Programpanel, 2019:

https://digitalcommons.murraystate.edu/scholarsweek/Fall2019/LBA/2/

AIKINS, Joshua Kwesi. Queen Nanny and maroon resistance. In: NESSE, Immanuel (Ed). The internationalencyclopediaofrevolutionand protest. Londres: John Wiley& Sons, 2009: https://doi.org/10.1002/9781405198073.wbierp1227

Tereza de Benguela (+ 1770)

Nascida, como o nome indica, na região de Benguela, na região da África central da atual República de Angola, foi líder de uma comunidade quilombola na região do Rio Guaporé, atual estado do Mato Grosso, o Quilombo de Quaritêrere, por vezes também chamado de Quilombo do Quariterê ou Quilombo do Piolho – nesse último caso,   devido ao nome do companheiro dela com que dividia o governo da comunidade, conhecido como José Piolho.

Segundo parece, José Piolho teria governado a comunidade até o fim da década de 1740, e depois de sua morte a liderança coube a Tereza de Benguela da década de 1750 a 1770. O quilombo era constituído por cativos de origem africana e por indígenas. Tereza, que o governou por cerca de vinte anos,  aparece qualificada como rainha, e tomava as decisões mediante a consulta a um conselho.  A comunidade dispunha de um sistema de defesa, com armas trocadas com os brancos ou levadas em saques praticados nas vilas e povoados das redondezas. Sustentava-se do plantio de alimentos e de algodão, dispunha de tendas de ferreiro e teares de tecido.

Nos Anais de Vila Bela consta o relato detalhado do ataque contra a comunidade feito pelas tropas de Luís Pinto de Souza Coutinho no ano de 1770. O quilombo era integrado por 79 pessoas, homens e mulheres originárias da costa ocidental africana (gentio da Guiné), nove das quais foram mortas em combate e tiveram as orelhas cortadas, várias foram aprisionadas e acorrentadas, e trinta e sete fugiram através da mata.

Tereza de Benguela, que também foi aprisionada e levada. Segundo o sociólogo Clóvis Moura, teria ingerido ervas venenosas e, talvez pela ação do veneno, morreu. De acordo com o relato da expedição, então “se lhe cortou  a cabeça e se pôs no meio da praça daquele quilombo, em um alto poste, onde ficou para memória e exemplo dos que a vissem”.

Por sua capacidade de liderança e de resistência à escravidão, tornou-se um símbolo da luta das mulheres negras, e a data de sua morte, 25 de julho, foi instituída pela Lei Federal n° 12.987 como o Dia Nacional de Teresa de Benguela e da Mulher Negra. Ela também inspirou obras acadêmicas, literárias e artísticas, como o tema de enredo da Escola de Samba Viradouro, que tinha por título Tereza de Benguela – uma rainha negra do Pantanal (1994), e o  livro de Jarid Arraes, Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis (2017). 

BIBLIOGRAFIA

FARIAS JUNIOR, Emmanuel de   Almeida. “Negros do Guaporé: o sistema escravista e as territorialidades específicas”. Ruris, vol. 5 nº 2, p. 89-91, 2011.

LACERDA, Thais de Campos. Tereza de Benguela: identidade e representividade negra. Revista de Estudos Acadêmicos de Letras, UNEMAT, v. 12, n. 2, 2019: https://periodicos.unemat.br/index.php/reacl/article/view/4113

Theme: Overlay by Kaira.