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Aurélia Correia (c.1810 – c.1875)

Comerciante, mercadora e senhora de escravos da Guiné. Nasceu provavelmente de pai cabo-verdiano e mãe de etnia bijagó, da ilha de Orango, a maior e mais importante ilha do arquipélago da costa da atual Guiné-Bissau. Tornou-se a mais famosa de todas as mulheres comerciantes que operaram na costa do que veio a se chamar  Guiné portuguesa durante o período colonial. Sua carreira comercial esteve indissociavelmente ligada ao comércio transatlântico e à introdução do comércio de amendoim.

Em 1830 Aurélia se mudou  com uma tia para a Ilha das Galinhas. Na metade daquela mesma década ela e seu parceiro,  Caetano José Nozolini (1800-1850), um comerciante de escravos cabo-verdiano, da ilha de Fogo, começaram a produzir amendoim enquanto usavam a ilha como entreposto do tráfico de escravos. As plantações de amendoim, arroz e milho eram mantidas por mão-de-obra-escrava. Os produtos agrícolas, sobretudo o amendoim, eram exportados para Marselha, na França, por intermédio de rede das companhias francesas que atuava nos portos de Gorée e Saint Louis, no Senegal, enquanto os cativos eram enviados para o Caribe.

Na década de 1840 ela aumentou suas propriedades rurais, e se tornou a maior plantadora da Ilha de Bolama, aí permanecendo até 1860, quando este local foi ocupado pelos britânicos instalados em Freetown, Serra Leoa.  Então, dirigiu os seus negócios para Bissau.

Aurélia Correia tinha um filho e três filhas, todas posteriormente casados com fazendeiros ou empresários como ela. Sua fama permaneceu na memória popular, em que é lembrada como o qualificativo de “Mãe Aurélia”.

BIBLIOGRAFIA

BROOKS, George E. A nhara of the Guinea-Bissau region: Mãe Aurelia Correia. In: ROBERTSON, Claire; KLEIN, Martin (Eds.).  The women and slavery in Africa. Madison: University of Wisconsin Press, 1983, p. 293-319.

HAVIK, Philip J. Silences and soundbytes: the gendered dynamics of trade and brokerage in the pre-colonial Guinea-Bissau region. Munster: LIT Verlag, 2004.

HAVIK, Philip J.. “Aurélia Correia”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 125-126.

Bibiana Vaz (c. 1620-1694)

Poderosa comerciante e liderança influente na antiga Guiné-Bissau. Nasceu e viveu nas primeiras décadas de existência da cidade de Cacheu, que era o porto de acesso aos negociantes portugueses e cabo-verdianos na Alta Guiné.

Filha de pai português ou cabo-verdiano e mãe de origem étnica papel ou banhun, era a mais velha de três irmã(o)s e cresceu em uma família de negociantes. Era conhecida como NháBibiana – forma de tratamento equivalente a “Sinhá”, “Senhora” ou Dona, correspondente ao designativo de “Signares” para as mulheres negociantes do Senegal desde aquela época.   

Bibiana fazia parte da comunidade Kriston, que venera o seu nome até os dias atuais, e negociava escravizados, cera de abelha, marfim, couro e noz-de-cola em troca de mercadorias como barras de ferro, armas de fogo, pólvora, conhaque e contas de vidro.

Seu marido foi um dos fundadores da empresa comercial conhecida como Companhia de Cacheu, fundada em 1676, e após a morte dele, Bibiana expandiu os negócios usando seus contatos com europeus, cabo-verdianos, dignitários papéis e banhuns. Apesar dos protestos de seu enteado, ela conseguiu obter direitos exclusivos de gerir os bens do marido, incluindo a sua parte na Companhia.

Quando em 1684 o governador português de Cacheu Gonçalves de Oliveira, proibiu o contato e o comércio com rivais europeus dos portugueses, Bibiana liderou uma rebelião que o depôs e o manteve aprisionado em uma de suas propriedades durante quatorze meses. Enquanto isso, três de seus aliados assumiram o poder na cidade, inclusive um seu irmão, que exigiu os bens da extinta Companhia e bloqueou aos portugueses o comércio direto com africanos.

Com a autoridade portuguesa restabelecida, Bibiana e seu irmão foram aprisionados e levados para a cidade de Ribeira Grande, a capital das ilhas do Cabo Verde, em 1687, seus bens ficaram bloqueados. As autoridades propuseram um acordo que a obrigava a financiar a reconstrução do forte de Cacheu, enquanto seu irmão ficava preso como garantia; Vaz, porém, alegou não estar em boas condições de saúde para ajudar o irmão e obteve o perdão real para ambos. Posteriormente, ela aceitou fazer um pagamento em espécie para tais construções, mas não se sabe se cumpriu com a promessa antes de sua morte.

BIBLIOGRARIA

HAVIK, Philip J. Silences and soundbytes: the gendered dynamics of trade and brokerage in the pre-colonial Guinea-Bissau region. Münster: LIT, 2004.

HAVIK, Philip J. La sorcellerie, l’acculturation et le genre: la persecution religieuse de l’Inquisition portugaise contre les femmes africaines converties en Haute Guinée (XVIIe siècle). Revista de Ciência das Religiões , v. 3, n. 5-6, p. 99-116, 2004.

HAVIK, Philip J.. Comerciantes e concubinas: sócios estratégicos no comércio atlântico da Costa da Guiné.  Revista Internacional de História da África, t. II,  pp. 161-179, 1996.

HAVIK, Philip. “Bibiana Vaz”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 119.

Mammy Skelton (1800-1855)

Nome pelo qual ficou conhecida Elisabeth Frazer Skelton, importante comerciante e chefe de família influente nos rios da Alta Guiné. Nasceu na cidade de Bengala no Rio Pongo, na Guiné-Conacri. Seu pai, John Frazer, era um escocês associado com empresas comerciais na Costa Windward. Casou-se em 1799 com Fenda, africana viúva de outro comerciante, com quem teve seis filhos. John mantinha residência no Pongo e na Carolina do Sul, mas mudou seu centro principal para Charleston e depois para a Flórida, onde morreu em 1813. Phenda ficou no Pongo para gerenciar a propriedade local. 

Elizabeth embarcou com a missão da Church Missionary Society (Sociedade da Igreja Missionária) no Pongo e depois viajou para Liverpool, onde viveu por quatro anos. Ela também estudou na França e falava fluentemente inglês e francês, além das línguas africanas usadas na costa. Em seu retorno para a África, casou-se com o euro-africano William Skelton Jr, comerciante no baixo Rio Pongo, em 1826. Tiveram duas filhas, Mary Anne e Emma, ambas fluentes na língua francesa.

Elizabeth e seu marido mantiveram uma empresa de negócios bem-sucedida em Victoria, perto da embocadura do rio Nunez, onde ficava o primeiro porto para embarcações que vinham do oceano. Ela usou seu conhecimento das línguas locais e práticas de negócio com os europeus que entravam no rio, atuando principalmente no “comércio lícito”, mas há relatos de que negociou escravos. Ela estabeleceu alianças com as principais famílias euro-africanas no Rio Pongo através dos casamentos de suas filhas. Após a morte do marido, casou-se com John Bicaise.

A vida de Elizabeth abrange importantes estágios da história da costa da Guiné. Nascida na era do comércio de escravos, foi fundamental para a afirmação dos britânicos e franceses na região. Recebeu uma herança significativa de seu pai nos EUA, tornando-se uma das mulheres mais ricas da costa da Guiné.

BIBLIOGRAFIA

MOUSER, Bruce L. Women slaveers of Guinea-Conacry. In: ROBERTSON, Claire; KLEIN, Martin (Ed.). Woman and slavery in Africa. Madison: University of Wisconsin Press, 1983, p. 320-339.

MOUSER, Bruce L.. “Elizabeth Frazer Skelton”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 409-410.

SCHAFER, Daniel. Family ties tha bind: anglo-african slave traders in Africa and Florida: John Fraser and his descndants. Slavery & Abolition, v. 20, n. 3, p. 01-21, 1999.

Manas Menezes (século XVIII)

Em Moçambique, para a ocupação da Zambézia a coroa portuguesa incentivou a concessão de prazos, conferindo (à revelia dos africanos) direitos de exploração a pessoas que pudessem explorar por conta própria áreas consideradas ignotas. Assim surgiu o grupo das “Donas da Zambézia”, como ficaram conhecidas poderosas terratenentes, em geral mulatas ou negras associadas a europeus, assumiram gradualmente posições de liderança em âmbito local como “prazeiras da coroa”.

As primeiras “Donas da Zambézia” a ganhar notoriedade viveram no século XVIII, como Dona Ignez Gracia Cardoso, que em 1757 era senhora de terra em Luabo; Dona Catarina de Fama Leitão, que por volta de 1780 detinha vasta extensão de terras em Quelimane e cerca de 1000 escravos, ou Dona Sebastiana Fernandes de Moura, proprietária de terras em Macuze e em Quizungo, além de cerca de 300 escravos.

As três “donas” mais influentes entre as prazeiras da coroa são lembradas pelo sobrenome “Menezes”.  Na passagem do século XVIII para o XIX, sob a liderança de Francisca Josefa de Moura e Menezes, esse grupo familiar, teve sob seu controle quase toda a região de Tete. As outras duas irmãs (“manas”) chamavam-se Dona Felipa Antónia e Dona Catarina.

BIBLIOGRAFIA

CAPELA, José. Donas, senhoras e escravos. Porto: Edições Afrontamento, 1996.

Rosa de Carvalho Alvarenga (c. 1780 – c. 1865)

Também conhecida como Dona Rosa ou Nhá Rosa. Nasceu na cidade de Cacheu,  na costa da Alta Guiné,  atual Guiné-Bissau, em uma família de origem cabo-verdiana, vinculada ao cristianismo, que dominava o comércio ribeirinho ao longo dos rios de Cacheu e de Casamance, as principais saídas para exportação de escravizados, marfim, cera de abelha e couro cru.

Casou-se, efetivando uma vantajosa aliança comercial, com João Pereira Barreto, alto oficial da Capitania de Cacheu, e com isso lançou a base para empreendimentos comerciais prósperos, operando através de uma rede de negócios ligava costa senegambiana a Santiago de Cabo Verde, Lisboa e o Maranhão no Brasil.

Dona Rosa, como era conhecida, era muito habilidosa em manter relações comerciais e afinidade com, chefes, dignatários e intermediários papéis, banhus e felupes, tendo acesso a  fornecedores do interior dos rios. Com a morte do marido, em 1829, o filho de ambos, Honório Pereira Barreto, retornou de Portugal, onde estudava, para a Guiné, a fim de dar seguimento aos negócios da família com a mãe. A cooperação entre ambos expandiu suas transações comerciais, permitindo o domínio da região de Cacheu a Zinguinchor até o final de 1850. Contrariando as determinações da Inglaterra, davam continuidade ao tráfico de cativos para o Brasil e o Caribe. 

Na metade do século XIX, a casa comercial de Dona Rosa ganhou um monopólio virtual no que diz respeito as transações no norte da região, do que virou depois a Senegambia portuguesa. O censo de 1856 mostra que ela detinha a propriedade de fazendas onde se cultivavam arroz e algodão com base na exploração de mão-de-obra escrava, e que 15% dos(as) escravizados(as) de Cacheu pertenciam a ela e ao filho. A morte de Honório em 1859 –  na época ele era governador de Guiné – contribuiu para o declínio de suas operações. Ela morreu alguns anos depois, no início da década de 1860.

Sua trajetória exemplifica as possibilidades de mulher africana empreendedora e poderosa.  A família dos Barreto e Alvarenga continuou a integrar a elite guineense até os dias atuais.

BIBLIOGRAFIA

BROOKS, George E. Western Africa and Cabo Verde, 1790s-1830s: symbiosis of slave and legitimate trades. Bloomington: Author House, 2010.

HAVIK, Philip J. Silences and soundbytes: the gendered dynamics of trade and brokerage in the pre-colonial Guinea-Bissau region. Munster: LIT Verlag, 2004.

HAVIK, Philip. “Rosa de Carvalho Alvarenga”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 38-39.

MOTA, Avelino Teixeira da. Um luso-africano: Honório Pereira Barreto. Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa, 1959.

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