Como descobrir que a cidade se não encontra esvaziada de pessoas e atividades culturais neste período do ano? Procure por “Artemosfera”, que está dando um impulso nas artes visuais, desde que se inaugurou em novembro, com atividades de pintura do marco com o nome do projeto, que contou com a participação ativa do público, no Parque Farroupilha. O encerramento dessas atividade será em 31 de janeiro, contando com um evento, dia 7 de fevereiro, no Chalé da Praça XV, ocasião em que será apresentado o catálogo e o CD documental de todo o trabalho.
Com seu nome bastante sugestivo, este projeto foi gestado pelo marketing corporativo do Grupo RBS, e contou com a curadoria de Cezar Prestes. A proposta teve como marco conceitual a conscientização do patrimônio da cidade e sua preservação. Colocou-se o desafio de olhar, pensar, valorizar e cuidar desse patrimônio. A escolha dos participantes levou em consideração a ampliação e a diversificação dos segmentos criativos a serem envolvidos, indo além das artes visuais e abrangendo arquitetos e designers. Os critérios para seleção dos 51 participantes considerou serem todos moradores de Porto Alegre e estarem envolvidos com questões urbanas em seu trabalho pessoal.
A definição dos locais para instalação das obras foi gestada em conjunto pelo curador, pelos representantes do setor de eventos da RBS, e por setores da Prefeitura Municipal. Muitos condicionantes estiveram envolvidos, com o objetivo de atingir o maior raio possível dentro da malha urbana, respeitando as exigências da legislação vigente. Houve um mapeamento dos possíveis locais, que foi apresentados aos artistas para a definição final de onde cada um atuaria. Um aspecto importante do projeto é seu caráter profissional, pagando cachê aos artistas pela criação, e contratando empresas para a execução das obras com o acompanhamento de cada autor.
Na planilha acima é possível identificar todos os artistas participantes, os nomes das obras e os locais de implantação de cada uma delas. Os três marcados em vermelho ainda não tiveram seus trabalhos instalados. As quatro obras em destaque foram assumidas individualmente por cada um dos patrocinadores oficiais – Chevrolet, TIM, Zaffari e Braskem.
As informações do projeto se encontram no site da Zero Hora, ali podendo ser obtida a lista completa dos artistas participantes com um mini currículo de cada um, o Google Map com a localização das obras, notícias, fotos e vídeos referentes ao desenvolvimento do projeto em suas várias etapas. O site divulga, ainda, o regulamento de um concurso de fotos de pessoas junto às obras do projeto.
Uma primeira opção de visita é utilizar o mapa disponibilizado no site, indicando os locais onde se encontram as obras, e realizar trajetos individuais seguindo essas indicações. Encontrar todas as obras nesse processo não é uma tarefa fácil. Mais tranquilo é chegar todo sábado e domingo, um pouco antes das 15h, em frente à Prefeitura Velha de Porto Alegre e tomar um dos dois ônibus que fazem o percurso, Zona Sul ou Zona Norte, para conhecer, em três horas, todas as obras dispostas em cada uma das duas zonas da cidade. Os ônibus foram adesivados com um trabalho de Eduardo Vieira da Cunha que remete para as memórias dos bondes que circularam até a década de 70 em Porto Alegre. Um deles apresenta no seu interior uma espécie de galeria, com reproduções de trabalhos de jovens artistas. Eles quase sempre lotam, mostrando o interesse do público, considerando o calor desse horário, o que poderia desanimar um pouco. O problema é que, somente nos sábado e domingos há os ônibus, e que saem no mesmo horário, um para cada zona, impossibilitando uma visitação completa no mesmo dia.
Uma terceira possibilidade é ir descobrindo algumas obras de forma inesperada quando se circula pela cidade. Para isso é preciso se inteirar do projeto e ficar atento à presença das alterações propostas na visualidade normal da cidade. Em qualquer uma das formas o esforço para visitação vale a pena, pois algumas obras muito interessantes aguardam os transeuntes atentos e interessados. Através das interferências dispersas do Artemosfera podem ser percebidos novos sentidos no cotidiano. A arte transforma a paisagem urbana, fazendo dela mais do que uma visão em trânsito, criando fendas para mostrar sentidos ocultos ao primeiro olhar. Considerando que indivíduo vê o mundo a partir de suas vivências do espaço físico, e que o lugar constitui um fator de equilíbrio psíquico, vivenciá-lo de forma aberta e criativa é fundamental.
Nas artes visuais, a paisagem começa a aparecer no renascimento, e teve sua origem estreitamente ligada com a observação dos espaços geográficos. A palavra paysage, de origem francesa, deriva de pays, e pode significar tanto uma região como uma nação. Nessa origem etimológica, encontra-se evidente sua ligação com a noção de território, uma vez que qualquer país tem como premissa uma base geográfica. Na contemporaneidade, no contexto da globalização, a ordem estabelecida pelos Estados Nacionais foi posta em xeque. Novas dinâmicas econômicas, políticas e culturais se estabeleceram, tornando mais complexo o comportamento dos indivíduos em relação aos territórios. Perdeu-se aquela relação direta com um espaço específico, visto que muitos níveis espaciais se cruzam. O local sofre profundas interferências do nacional e do internacional, e de diferentes formas também neles passou a interferir. A mistura, a interferência e a hibridização passaram a ser as notas dominantes da relação dos indivíduos com o seu entorno. No “Artemosfera” alguns artistas buscaram explorar estas complexidades, desenvolvendo relações com as comunidades, e estimulando que os moradores do entorno passem a cuidar das obras instaladas, sentindo as como suas.
Alguns projetos congêneres, mais antigos e consolidados, como o “Skulptur Projekte” de Munster, na Alemanha, e o “Arte Cidade”, em São Paulo, envolvem intervenções urbanas provisórias, com a participação de consagrados artistas nacionais e internacionais. O primeiro é montado a cada dez anos, e teve em 2007 sua quarta edição. O segundo também apresentou quatro edições, em 1994, 1995, 1997, e 2002. Projetos de grande impacto, eles tiveram ampla repercussão no meio artístico, abrindo grandes debates. O “Artemosfera segue no bojo destas experiências, acrescentando novos aspectos. A ênfase no engajamento da população em diferentes atividades interativas, a diversidade dos segmentos criativos envolvidos e o fato de serem todos os artistas moradores de Porto Alegre, são alguns de seus fatores diferenciais. O projeto se propõe a ativar as relações dos habitantes com o patrimônio cultural da cidade, sem a implantação de obras permanentes. Consta nos contratos que os trabalhos devem ser desativados no final de janeiro, embora alguns deles pareçam ter caráter mais duradouro. O objetivo é criar dispositivos momentâneos para explorar os espaços urbanos, integrando as relações dos moradores com os seus territórios. Uma arte se esparramando pela cidade, modificando-a e dialogando com ela.










