Claudia Lee Williams Fonseca
Políticas públicas no campo da proteção à infância: Formas e práticas de pluriparentalidade

Propomos neste projeto trazer aportes da investigação antropológica para o aprimoramento de políticas públicas no Brasil voltadas para o bem-estar familiar, fitando em particular o campo da proteção à infância e formas diversas de adoção. Seguindo adiante com nosso projeto de pesquisa CNPq anterior (do), tomamos como ponto de partida a premissa de que as políticas de proteção fazem parte de tecnologias de governo que são produto e produtor de circunstâncias morais e políticas. Tomamos discussões sobre adoção infantil e as tensões em torno da ideia de pluriparentalidade como foco, por excelência, da mescla entre moral e política. A partir destes pontos propomos investigar os valores morais e opções políticas que desembocam em determinadas leis, medidas protocolares e práticas profissionais objetivando o bem-estar de crianças vivendo em situações de vulnerabilidade.

Claudia Lee Williams Fonseca
Evidências, experiências e empiria nas políticas de governo

Concebendo nosso universo de estudo como um espaço político atravessado por diversas verdades morais e científicas, nos guiamos nesse projeto de pesquisa pela pergunta: como se constrói a evidência científica que embasa diferentes políticas públicas voltadas para o bem-estar da população no Brasil e no resto do mundo?   Inspirados pelos estudos de ciência e tecnologia, assim como pela antropologia de políticas sociais, nossos interesses convergem numa antropologia de infraestrutura.  Examinamos os efeitos provocados pelos diversos atores humanos e não-humanos, focando nos elementos “em andamento” (micro-organismos, corpos, famílias, comunidades, especialistas, nomenclaturas profissionais, metas e estatísticas, formulários e protocolos burocráticos, etc.), para explorar como, através de alianças políticas que se estendem de um lado a outro do globo, a ecologia de saberes se mexe, provocando uma redefinições inesperadas na hierarquias de evidências autorizadas.

Fabíola Rohden 
Novas formas de circulação de conhecimento e de acesso a tecnologias biomédicas: cenários contemporâneos para transformações corporais e subjetivas

Este projeto tem como ponto de partida a discussão pública mais geral acerca das percepções e dos usos de recursos biomédicos considerados inovadores e suas consequências em termos da ampliação no leque das transformações corporais e subjetivas possíveis contemporaneamente. Pretende-se refletir, especialmente, a respeito da busca por estas transformações em contextos nos quais, para além dos cuidados com a saúde, está em cena a procura pelo aprimoramento de si, principalmente no que se refere à performance física e aos contornos corporais. Nesse sentido, tratamentos hormonais e estéticos com esta finalidade tornam-se casos exemplares a serem investigados. Em termos de abordagem do problema, considera-se fundamental o foco nas interações e produção de discursos públicos em torno desses recursos. Sendo assim, pretende-se estudar as formas inovadoras de comunicação destinadas ao público por parte dos/as produtores/as de conhecimento biomédico bem como as redes de interação e circulação de informação, especialmente via internet, entre profissionais e público/pacientes. A questão do impacto das novas tecnologias será abordada não somente no que se refere ao desenvolvimento dos próprios artefatos biomédicos mas também no que diz respeito às tecnologias de comunicação científica e redes sociais que, cada vez mais, passam a ser centrais na procura por informações e tratamentos.

Fabíola Rohden 
Redes de Investigações Biotecnologias, Saúde Pública e Ciências na Vida

A Rede de Investigações Biotecnologias, Saúde Pública e Ciências na Vida articula pesquisadoras e pesquisadores dedicadas/os a investigar a produção e repercussões do conhecimento e práticas biotecnológicas em diversos cenários da vida contemporânea. Tem como eixo central as transformações e impactos do processo de biomedicalização da vida nas corporalidades, subjetividades e sociabilidades cotidianas que se expressam tanto na noção de aprimoramento individual quanto nos engajamentos e impactos coletivos. A Rede é formada por grupos e projetos de pesquisa de diferentes instituições: o Grupo Ciências na Vida e o projeto ?Novas formas de circulação de conhecimento e de acesso a tecnologias biomédicas: cenários contemporâneos para transformações corporais e subjetivas?, coordenado por Fabíola Rohden (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul); o conjunto dos membros do GI Identidades, Culturas, Vulnerabilidades que trabalham em Antropologia do corpo e da saúde e o projeto ?EXCEL: the pursuit of excellence. Biotechnologies, enhancement and body capital in Portugal? (PTDC/SOC-ANT/30572/2017), coordenado por Chiara Pussetti (Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa); e o projeto ?Tecnología identidad y política: de la intervención tecnológica en los cuerpos a las políticas públicas en Ciencia y Tecnología. Sujetos, instituciones y saberes? (Programa de Antropología y Salud, Instituto de Ciencias Antropológicas, FFYL; Universidad de Buenos Aires), coordenado por Alejandra Roca. Estas articulações vêm se constituindo, ao longo dos anos, em congressos como a Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM), a Reunião da Associação Portuguesa de Antropologia (APA), a Reunião Brasileira de Antropologia (RBA) e a Reunião de Antropologia da Ciência e da Tecnologia (REACT); e têm resultado em publicações conjuntas, realização de eventos acadêmicos e de divulgação científica, e interlocução nas pesquisas e na formação de estudantes de graduação e pós-graduação.

Beatriz Domingues Fachel Nunes
Autoajuda neurocientífica: uma análise de três canais brasileiros no Youtube

Existe no Youtube um nicho de canais que, com um discurso próximo da autoajuda, aborda o funcionamento do cérebro, relacionando isso a comportamentos nocivos e formas de autoaprimoramento. Tais canais tendem a fazer vídeos sobre vários tópicos – técnicas de estudo, vício em apostas, alcoolismo, uso de drogas – todos com discurso baseado em neurociência, embora nem sempre seus autores tenham formação na área. O objetivo desse trabalho é analisar como esse fenômeno específico de autoajuda se dá no meio digital, especificamente na plataforma Youtube.

Amandha Corrêa
Menopausa e grupos no Facebook: uma análise sobre as características biológicas e socioculturais destacadas pelas usuárias da rede social

Esta pesquisa tem o objetivo de investigar quais são as principais características biológicas e socioculturais acerca da menopausa de acordo com as participantes dos grupos no Facebook sobre esta temática. A menopausa acontece, principalmente, com mulheres entre 45 e 55 anos e o seu marco principal é o fim dos ciclos menstruais. Durante este período, ocorrem mudanças endócrinas e estéticas no corpo feminino. Este trabalho, portanto, busca estudar como as participantes destes ambientes virtuais enxergam e vivenciam a menopausa.

Camila Cavalheiro Pezzin
Corpos em disputa: a produção das "verdades hormonais" no Brasil

Esta tese investiga como substâncias de ação hormonal, sobretudo anabolizantes, participam da produção contemporânea da diferença sexual, tomando como foco as controvérsias em torno de seus usos no contexto brasileiro. Situada no campo da antropologia da ciência e em diálogo com os estudos feministas da tecnociência, a pesquisa parte da crítica à ideia de que essas substâncias revelam uma verdade biológica pré-existente sobre os corpos. Em seu lugar, propõe compreendê-las como elementos ativos em arranjos material-discursivos – em diálogo com a perspectiva de Karen Barad – nos quais matéria e significado não preexistem às relações, mas emergem por meio de intra-ações que articulam práticas clínicas, dispositivos regulatórios, tecnologias biomédicas e saberes experienciais. Sob esta ótica, a tese introduz a noção de “verdades hormonais” para analisar como determinadas interpretações sobre o corpo, o risco e a diferença sexual são produzidas, estabilizadas e disputadas. Metodologicamente, a investigação combina três frentes articuladas, planos que permitem acompanhar diferentes materializações do fenômeno: a análise de documentos institucionais e normativos, a etnografia em fórum online dedicado ao uso de esteroides anabolizantes e a realização de entrevistas com interlocutoras usuárias. A análise evidencia como regimes regulatórios e discursos biomédicos produzem enquadramentos normativos sobre o uso de hormônios, ao mesmo tempo em que práticas situadas reconfiguram, negociam e tensionam esses enunciados. Mostra, ainda, como o corpo feminino emerge como um terreno particularmente instável e regulado, no qual categorias como risco e controle assumem centralidade. Ao articular esses diferentes planos, a tese contribui para compreender como substâncias hormonais operam na produção de diferenças corporais e na delimitação de fronteiras de legitimidade, evidenciando os processos pelos quais as “verdades hormonais” são continuamente constituídas em práticas situadas. 

Cristiane Miglioranza 
Ciência Aberta: Etnografia de uma mudança cultural

Projeto de doutorado em desenvolvimento no PPGAS/UFRGS, a pesquisa investiga o movimento da Ciência Aberta como uma proposta de mudança cultural. O objetivo é analisar como essa transformação se organiza a partir de discursos, valores democráticos e imaginações de futuro, concentrando o olhar no ambiente editorial acadêmico e nas dinâmicas entre suas comunidades e atores. Tendo o cenário brasileiro como vanguarda global e eixo central da investigação, o trabalho examina a vinculação da Ciência Aberta à Parceria para Governo Aberto (OGP) e sua articulação discursiva com as diretrizes da Unesco. Trabalho realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES).

Eduardo Zanella 
Mas afinal, por que a sífilis cresce? Etnografia de uma epidemia reemergente no Brasil

Essa pesquisa investiga o processo de reemergência da epidemia de sífilis no Brasil, fenômeno assim compreendido desde ao menos o ano de 2015. Trata-se de uma pesquisa orientada pelas propostas teórico-metodológicas de estudos empíricos sobre sistemas de classificações e categorias, um desdobramento do campo de Estudos Sociais em Ciência e da Tecnologia. Descrevo os processos de classificação e de dimensionamento da sífilis como epidemia no Brasil. Para isso, essa pesquisa detém-se na investigação etnográfica de sistemas de vigilância em saúde e produção de dados epidemiológicos, conduzida por meio de pesquisa documental e de entrevistas.

Emília Braz
Mundificações tóxicas: as práticas discursivas do campo da desregulação endócrina

A presente pesquisa investiga os emaranhamentos entre organismos e ambientes nas práticas discursivas do campo da desregulação endócrina. De acordo com pesquisas elaboradas nas décadas de 1980 e 1990, os desreguladores endócrinos (DEs) são substâncias exógenas que interferem no funcionamento do sistema endócrino. Partindo do pressuposto de que o aumento da produção e circulação de DEs produziu uma inflexão ético-onto-epistêmica na forma como pensamos os corpos, a pesquisa objetiva investigar como os conceitos de sexo e gênero, bem como as categorias de tóxico e puro, são reconfigurados pelas práticas discursivas desse campo. Amparada teórica e metodologicamente pelos estudos feministas da ciência e pelos estudos trans, analisa os processos de materialização ou mundificação dessas práticas discursivas nos registros científico, popular e artístico.

Fernanda de Carvalho Vecchi Alzuguir
Tecnologias do sêmen: o manejo da (In)fertilidade masculina na rede pública de saúde do Rio de Janeiro

Os resultados de uma pesquisa sobre a promoção de tecnologias envolvendo especialistas e usuárias de uma clínica privada de reprodução assistida evidenciaram um incremento de novas tecnologias para o rastreamento da infertilidade masculina nas últimas décadas (Alzuguir, 2022). Ao mesmo tempo, o corpo feminino permanece como objeto privilegiado de intervenção, o que se alinha a considerações sobre as diferenças da biologia reprodutiva de homens e mulheres, e à atribuição de convenções de gênero aos gametas sexuais. Nossa proposta surge do interesse em tensionar a naturalização da relação ‘mulheres-reprodução’ e ‘homens-sexualidade’, a partir da investigação sobre o manejo das tecnologias reprodutivas masculinas no setor público, por especialistas e usuário/as. Para tanto, propomos uma pesquisa etnográfica com observações de campo e entrevistas a profissionais e usuários/as em um ambulatório público de baixa complexidade. Além disso, planejamos uma análise complementar do material de divulgação de tecnologias não disponíveis no SUS para avaliar os efeitos de marcadores como classe na diferenciação da oferta e acesso à saúde reprodutiva. Esperamos que a pesquisa traga subsídios teórico-práticos no sentido do aprimoramento dos serviços de reprodução humana no âmbito do SUS na perspectiva da justiça reprodutiva.


Edital 10/2024 – Apoio às Cientistas Mães com vínculo em ICTs do Estado do RJ.

Filipe Boeira Schedler
Materializando a Fibromialgia: Uma análise qualitativa sob a ótica da Enação

Trata-se de uma pesquisa qualitativa em que se busca novos olhares para o entendimento da dor. O presente projeto mistura fundamentações teóricas distintas, incluindo teorias pós-cognitivistas, bem como estudos do sociomaterialismo e antropologia das ciências e tecnologia. A metodologia de pesquisa inclui a utilização dos mapas corporais em pessoas com fibromialgia, método este que busca, através de expressão gráfica, expandir possibilidades das narrativas das entrevistadas, tensionando as fronteiras entre corpo, mente e sociedade. 

Gabriel Mazur 
Quem fica e quem vai embora: habitar e ser parente nas enchentes de 2024

Este projeto de dissertação de mestrado trata das articulações entre casas e famílias em duas regiões diretamente atingidas pela enchente de 2024 no Rio Grande do Sul. Procuro compreender os efeitos das cheias do Rio Jacuí na Ilha da Pintada (Porto Alegre), com foco nas trajetórias de famílias afetadas, seus históricos de habitação e os processos técnicos, burocráticos e políticos desencadeados pela subida das águas sobre suas casas. Em diálogo com as literaturas antropológicas sobre desastre, compreendo que a enchente não se restringe a um evento temporalmente delimitado, mas a um processo contínuo que incide nas relacionalidades e materialidades constituídas em redes heterogêneas.

Glau Marques Xavier Casanova
Da formação à compreensão de estudantes: gênero e sexualidade nos cursos de Ciências Biológicas em universidade federais brasileiras

O projeto de pesquisa buscar investigar como as temáticas de gênero e sexualidade aparecem nos cursos de Ciências Biológicas em universidades federais brasileiras, e como a formação de biólogos/as e professores/as de Ciências e Biologia se relaciona com as formas como estudantes compreendem o gênero e a sexualidade. Para tanto, estão sendo analisados os PPC dos cursos, foram realizadas entrevistas com professores/as de disciplinas que abordam a temática ou temas adjacentes a ela, foi enviado um questionário para estudantes no final do curso e serão realizadas entrevistas com estudantes que se disponibilizarem. 

Júlia Ledur Curtinovi
Suplementos alimentares e os sentidos contemporâneos do cropo saudável no Brasil

Investiga como a regulação, comercialização e consumo se articulam e se tensionam na constituição dos suplementos alimentares, e o que esse campo de disputas revela sobre os modos contemporâneos de perceber o corpo, a saúde e a alimentação no Brasil.

Lucas Besen 
Hormonizando a diferença: a produção da Síndrome do Ovário Policístico no Brasil e no Canadá

Com base na literatura dos Estudos de Ciência e Tecnologia (STS), Antropologia Médica, Estudos sobre a Branquitute e Estudos Feministas, analiso como a doença conhecida como Síndrome do Ovário Policístico (SOP) tem sido historicamente performada em diferentes cenários no Brasil e no canadá, e como as diferenças sexuais são materializadas através de tal diagnóstico. Por exemplo, em 2019, o Escritório de Pesquisa em Saúde da Mulher (Office of Research on Women’s Health), que faz parte dos Institutos Nacionais de Saúde (National Institutes of Health/NIH) dos Estados Unidos, lançou um folheto online intitulado “Síndrome do Ovário Policístico (SOP)”: Sub-reconhecida, subdiagnosticada e subdesenvolvida” (Polycystic Ovary/Ovarian Syndrome (SOP): Underrecognized, Underdiagnosed, and Understudied). Segundo o NIH, pelo menos 70% das mulheres com SOP permanecem sem diagnóstico na atenção primária. Entretanto, tais dados não parecem corresponder à realidade brasileira, onde a SOP parece afetar até 9 em cada 10 mulheres, de acordo com os relatos diretos dos médicos locais. Nessa pesquisa, discuto como tal diagnóstico é produzido/dispensado, e seus efeitos de poder, analisando estatísticas, artigos científicos e entrevistas com profissionais da saúde. Argumento que, para entender tal diagnóstico, é necessário examinar como diferentes políticas ontológicas nos campos médicos produzem a SOP – especificamente através de uma síndrome metabólica centrada em um desequilíbrio hormonal com implicações extremas de gênero. Acredito que essa pesquisa lançará alguma luz sobre essa importante e controversa condição, fornecendo insights que podem nos ajudar a compreender parte dos cenários culturais que permitem tais implementações extremas desta doença.

Luíza Moura Tavares Kroeff 
É só comer, injetar e repetir? A medicalização do emagrecimento a partir do uso dos agonistas do GLP-1

A difusão dos hormônios análogos ao GLP-1, como a semaglutida, popularizada principalmente pela marca Ozempic®, extrapola seu uso biomédico original no tratamento do diabetes tipo 2 e se consolida como um fenômeno social associado à medicalização do emagrecimento, por meio da supressão do apetite. A partir do uso off label, o medicamento se expande no mercado e passa a ser mobilizado como tecnologia de controle do peso, operando como instrumento de promoção da magreza e reforço da cultura lipofóbica. Paralelamente, seu uso é socialmente legitimado para determinados corpos, especialmente aqueles diagnosticados com diabetes, “pré-diabetes” ou obesidade. Esse processo se articula à farmaceuticalização da vida, na qual fármacos são mobilizados para produzir corpos considerados desejáveis, saudáveis e legítimos. Ensaios clínicos apontam perdas de peso moderadas, dependentes do uso contínuo, acompanhadas de efeitos colaterais frequentes e reganho significativo após a suspensão do medicamento. Nesse contexto, o “sucesso” das injeções não pode ser compreendido apenas por sua suposta eficácia farmacológica, mas por sua inserção em uma sociedade lipofóbica, na qual o corpo gordo é estigmatizado e o emagrecimento se torna um imperativo moral. Assim, os análogos do GLP-1 operam como tecnologias biomédicas que performam e reforçam a gordofobia estrutural, ao mesmo tempo em que reorganizam práticas de cuidado, consumo e controle do corpo, redefinindo sentidos de saúde, beleza e poder.

Marcelle Schimitt 
O caminho de volta: Um estudo antropológico sobre a medicalização do puerpério

Para a obstetrícia, o puerpério é o período que os órgãos e o estado geral da mulher necessitam para voltar às condições anteriores à gestação. A literatura médica também indica a gravidez e o puerpério como fases de maior ocorrência de transtornos mentais nas mulheres em decorrência das importantes alterações físicas, hormonais, psíquicas e sociais pelas quais passam. Mas o que atualmente seria considerado patológico e passível de intervenção quando se trata do puerpério? Antes, é preciso discutir o que é esperado dessa mulher e desse corpo. Quais funções devem voltar a cumprir passado esse momento puerperal? O objetivo desta pesquisa é analisar as práticas atuais de medicalização do puerpério e como elas estão relacionadas não apenas às expectativas do que é ser uma boa mãe, profissional, esposa ou companheira, mas também às noções de autonomia e saúde integral da mulher. A grande carência de estudos sobre o tema se relaciona, muito provavelmente, ao que ainda hoje o puerpério representa: apenas um momento de passagem, no qual algumas das funcionalidades da mulher estariam em suspenso e que deve ter data para acabar. A ideia de ciclo associada à sexualidade feminina, contudo, nos fornece pistas para entender não somente a medicalização desse período, mas também como ele foi constituído enquanto um lugar de passagem. Quando o ciclo esperado não se cumpre, ou seja, quando a mulher permanece apresentando os desarranjos e a instabilidade que, de alguma forma, é permitida ao pós-parto, acende-se um sinal de alerta. O projeto adota uma abordagem etnográfica, baseada em observação participante e etnografia documental, bem como analisa dados quantitativos provenientes de questionários elaborados pela pesquisadora, aprofundando a análise das moralidades do cuidado e das fronteiras entre normalidade e patologia no ciclo reprodutivo.

Marcos Castro Carvalho 
Entre a ciência e a clínica: produção, circulação, usos e efeitos de imagens médicas

O presente projeto tem como mote principal compreender a produção e circulação de imagens médico-científicas e o modo isto vem atuando na atual etapa do processo de medicalização da gravidez, bem como sua intrínseca associação a modos contemporâneos de subjetivação e de construção da “pessoa fetal” como uma entidade autônoma produzindo novas formas de se relacionar com a gestação, novas modalidades de gestão do corpo materno e também transformações nas próprias noções de corporalidade, reprodução e gravidez. Além disso, trata-se de compreender as articulações entre diversas imagens técnicas relacionadas ao feto, aliando saberes-fazeres do design aos programas e tecnologias digitais tridimensionais, colocando em questão as possíveis relações entre interior e exterior corpóreo. Do feto como parte de um corpo grávido ao feto como imagens e também como futura materialização em bonecos de resina de gesso, um novo produto que já vem sendo consumido por mulheres grávidas e suas famílias.

Tifani Isabele de Fraga Medeiros
Recomendações e restrições ao DIU de cobre no Brasil

Essa pesquisa investiga as narrativas e discursos, tanto de recomendação quanto de restrição, ao uso do método contraceptivo dispositivo intrauterino (DIU) não hormonal (de cobre TCu e de cobre com prata TCu 380 Ag). Considera-se que quando essa tecnologia é elencada para usuárias, as narrativas ora enquadram o DIU não hormonal como potencializador de risco e desastres, ora em narrativas das quais o enquadram como libertador, quando comparado a outros métodos hormonais. Neste momento, a partir de evidências históricas e nacionalmente situadas, percebe-se que esse método contraceptivo tem uma certa má fama e, paralelamente, ele voltou a ser mobilizado por discursos tanto feministas quanto eugenistas. Pois enquanto mulheres brancas de classe média reivindicam o direito do acesso ao DIU, mulheres não-brancas e pobres denunciam a inserção desse método sem sua autorização.

Vitor Richter
A Covid Longa no Brasil: um estudo etnográfico sobre o reconhecimento e as políticas de cuidado de uma síndrome pós-viral

Esta pesquisa analisa a emergência, a estabilização, o negligenciamento e a luta pelo reconhecimento da Covid Longa no Brasil. A partir da produção científica, das experiências de profissionais de saúde e de pessoas afetadas pela doença, a pesquisa busca entender como as instabilidades na definição e no manejo das manifestações persistentes da Covid-19 e a falta de dados epidemiológicos precisos sobre os efeitos “pós-Covid” impactam a vida das pessoas acometidas pela doença. Temas como a convivência com sequelas e sintomas persistentes, o acesso ou prejuízo a lazer, trabalho, educação ou qualidade de vida então no foco de interesses da pesquisa. A pesquisa baseia-se em observação participante, entrevistas e narrativas adaptadas a situações híbridas e desenvolvidas por meios remotos e presenciais.