
Luiza Prado de O. Martins é uma artista brasileira nascida no Rio de Janeiro no ano de 1985, data que ela descreve em sua bio como sendo 485 anos depois dos portugueses invadirem a terra hoje conhecida como Brasil. Ela trabalha com questões de colonialismo e práticas de controle de natalidade através da performance, vídeo, e instalação.
All Directions At Once é um “ensaio de gifs”, um trabalho de net art e instalação, realizado pela artista para o programa de residência online da ZKM (Center for Art and Media Karlsruhe) e Akademie Schloss Solitude. O trabalho discute as práticas de controle de natalidade com ervas medicinais e o uso desses conhecimentos ancestrais como atos de cuidado radical e de decolonização. A artista descreve no seu site, na página sobre o trabalho, que ela evoca a ayoowiri, uma planta nativa das Américas que foi usada como contraceptivo, na forma de infusão da planta, pelos indígenas e africanos escravizados pelos colonizadores europeus como uma estratégia de resistência. São conhecimentos que eram passados adiante, como forma de resistir. A planta é muito normal nas cidades brasileiras, mas que se perdeu um pouco o conhecimento sobre os seus possíveis usos.
Além disso, o trabalho dialoga com questões contemporâneas sobre controle de natalidade, de direito de escolha e de decisão sobre o próprio corpo. A artista comenta na entrevista que deu para o Schlosspost sobre estes problemas em nosso mundo digitalizado. Sobre os aplicativos de controle do uso de contraceptivos que têm se popularizado, ao mesmo passo que os dados de saúde e de menstruação tem sido coletados por essas empresas e vendidos para que as indústrias entendam melhor o nosso comportamento, perfil, dados em geral em relação ao corpo.
Luiza Prado criou uma narrativa, um conjunto de imagens e textos animados, que toda vez em que o site é carregado esse conjunto de elementos aparece de uma forma aleatória. Quando mexemos o mouse, os elementos desaparecem. É necessário parar de mexer, e esperar para as coisas acontecerem no site. E uma vez que movimentamos o cursor aquela articulação dos elementos desaparece e nunca se repetirá. De uma certa forma, questiona a nossa maneira de utilizar a internet em que temos que clicar e nos guiar dentro do espaço e sempre podemos voltar atrás (ver o nosso histórico). Neste trabalho precisamos parar por alguns segundos ou minutos para que uma narrativa se crie e que segundos depois desaparecerá quando mexermos de novo o mouse. Há sempre uma nova possibilidade, algo que não vimos ainda mas para isso temos que fazer uma escolha. Mas, há também uma efemeridade, o que vemos nunca mais veremos de novo dessa maneira nessa ordem.
Na entrevista que a artista deu sobre o seu trabalho e pesquisa artística, ao ser questionada sobre o porquê do formato de gifs ser o escolhido por ela para realizar o trabalho ela comenta que tinha o interesse de explorar esta ferramenta pela possibilidade de criar uma narrativa não-linear com eles. Ela comenta sobre a diferença de produzir um projeto para a web, que exigiu dela pensar na pessoa que estaria acessando o trabalho como um ator fundamental no processo de percepção.
Convidamos vocês a experienciar All Directions At Once da Luiza Prado de O. Martins, que dialoga com diversas questões muito atuais, nos fazendo questionar e repensar sobre como estamos lidando com a vigilância, a coleta de dados e como o corpo da mulher tem sido tratado online.
Acesse o site de Luiza Prado aqui.
Acesse a entrevista com a artista (em inglês) “Radical Care in the Space of Excess” aqui.