Atenção à saúde mental é imprescindível para aproveitamento no ERE

Prevenção| Formar de redes de apoio e cuidar com a autocobrança estão entre as recomendações para o retorno às aulas no ensino remoto
Por Anna Ortega / Jornal da Universidade
O retorno às aulas da Universidade em formato remoto emergencial (ERE), após um período de cinco meses de atividades de ensino suspensas, pode ser um momento de angústia e ansiedade para discentes. Além das adaptações já conhecidas pelos estudantes a cada semestre que se inicia – como a organização do tempo e das novas disciplinas -, os desafios agora incorporaram dimensões nunca vividas pela maioria de nós: as aulas acontecem nas telas, estamos isolados em nossas casas e atravessando a maior pandemia vivida pelo mundo nos últimos tempos. Apesar de discussões sobre as viabilidades técnicas dos alunos para o acesso às aulas serem de extrema importância para o atravessamento desse momento, entender como promover saúde mental também é. Essa tem sido, neste ano, a principal missão do GT de Saúde Mental Discente, instituído na UFRGS em agosto de 2018.
“Temos trabalhado muito para não esquecer que o ERE está sendo implementado em uma situação de pandemia e distanciamento social, não é um momento qualquer”, sinaliza a psicóloga e docente Patrícia Luz, integrante do grupo.
“Este é um momento muito atípico, que já favorece um sentimento de ansiedade. É fundamental que essa reflexão seja feita junto às Comgrads e aos Núcleos Acadêmicos, para que tanto os técnicos quanto os professores que estão na linha de frente com os alunos entendam que o momento é muito diferente. Para além das questões de acesso, de equipamento, que também são importantes, a relação com o estudo e ensino precisa ser pensada.”
Patrícia Luz
Cuidado com a sobrecarga
Entre as mudanças do cotidiano está a relação estabelecida com o tempo. Para a coordenadora do GT, Flavia Wagner, é importante atentar para a sobrecarga e a real possibilidade, por parte dos alunos, de dar conta de novas disciplinas ou até mesmo das disciplinas em que haviam se matriculado em março. A professora reforça a ideia de que, mesmo a maioria estando em casa integralmente, isso não significa que se terá mais tempo – muito pelo contrário. “No início da pandemia, algumas pessoas pensaram que iriam resolver todos os problemas da vida delas, como concluir os projetos que estavam parados. A mesma coisa acontece com as disciplinas. Muita gente tem pensado em aproveitar e fazer o máximo de matérias. E isso pode ser bastante ruim”, reflete.
“A gente, em geral, não está com cabeça. Poucas pessoas vão dar conta de produzir tanto. Estamos com a energia focada neste período, no ajustamento a um novo contexto. Não se cobrar tanto pode ser importante, assim como identificar e fazer apenas o que é possível.”
Flávia Wagner
Flávia lembra que a questão da organização do tempo deve ser percebida junto à crise sanitária e social em que se está inserido. Apesar de ‘invisível’, existe uma energia sendo colocada – e portanto um tempo sendo despendido – em lidar com a privação de não poder fazer coisas que antes eram possíveis, do medo constante e da percepção da covid-19 estar chegando a círculos de pessoas mais próximas. Todos esses elementos atravessam a experiência das aulas no Ensino Remoto Emergencial.
“Tudo isso vai causando um estremecimento, um medo mesmo de como vai ser daqui para frente. São questões muito importantes quando a gente pensa em saúde mental. Além disso, é sempre fundamental estar atento ao mecanismo de coisas que nos fazem bem. Esse não é um momento para se superexigir. É um momento para a gente se cuidar”, alerta.

Distanciamento não precisa ser afetivo
Assim como o olhar generoso para as próprias limitações e possibilidades pode ser vital nesse formato de ensino, o olhar atento aos colegas também merece lugar. Bruna Leal, técnica em assuntos educacionais das Comgrads de Biologia e Biotecnologia, conta que uma das estratégias que tem adotado com os alunos é o incentivo à formação e ao fortalecimento de grupos. “Quando a gente está no presencial, é muito mais visível o suporte social , o suporte da rede, dos amigos que o curso proporciona. Agora, com a distância, os estudantes tendem a se sentir mais isolados, mais sozinhos. A gente, na Comgrad da Bio, tem tentado estimular a troca entre os alunos, que estudem juntos, por exemplo”, relata.
A retomada da ideia de que se faz parte de um grupo, de uma turma, é importante, inclusive para o compartilhamento de dificuldades que podem aparecer durante o semestre virtual. Em um contexto de isolamento, pode ser que o estudante tenha a impressão de que apenas ele está enfrentando algum problema, seja de ordem técnica ou não. A visualização de uma rede de pessoas que podem estar apoiando ou vivendo situações similares é decisiva, inclusive para a continuidade do estudo de muitos.
“O importante agora é o contrário da competição, é auxiliar o outro. Se eu descobri como instalar o Teams e vejo que meu colega está tendo dificuldade, posso de repente auxiliar, compartilhar o modo como eu configurei meu computador. Cada dificuldade pequena dessas pode se transformar em um problema muito grande. A pessoa pode, inclusive, desistir do semestre porque não está conseguindo fazer um coisa pequena ou mesmo falar com alguém”, destaca Flávia.
Os grupos, de acordo com ela, têm essa função de acolher nossas dificuldades, mostrar que, se não estamos conseguindo resolver determinada situação, isso não diz respeito à nossa capacidade, mas, sim, evidencia que todos estão enfrentando desafios durante o ERE, inclusive os próprios professores e técnicos.
“O distanciamento social não precisa significar um distanciamento ou isolamento afetivo. A gente pode estar junto neste momento. Podemos usar as tecnologias de informação e comunicação para nos aproximarmos e estarmos atentos aos colegas, às pessoas mais próximas, de maneira a fortalecer a rede, entendendo que assim se previnem muitos agravantes que envolvem a saúde mental.”
Patrícia Luz
Importância da comunicação
Embora a formação de redes de apoio seja uma das estratégias possíveis para este momento, ela não é – nem deve ser – a única. O papel institucional da Universidade também deve ser exercido para a garantia não só do ensino, mas também de um ambiente menos danoso à saúde mental dos discentes, em que se promova a saúde, e não mais o sofrimento. Por essa razão, o foco de atuação do GT é na promoção de ações que façam essa preocupação reverberar em todas as instâncias da comunidade acadêmica. Desde o início da pandemia, o grupo tem oferecido uma série de encontros com Comgrads e Núcleos Acadêmicos, buscando capacitar professores e servidores para acolher, orientar e também informar corretamente, quando necessário.
“O canal de comunicação é muito importante para que o estudante saiba a quem recorrer quando estiver com alguma dúvida, se estiver com dificuldade em relação aos estudos tanto na questão pedagógica como também em relação a questões práticas, como o trancamento de disciplinas. Saber a quem recorrer, com quem obter as informações podem ser efeitos que diminuem a ansiedade”, explica Patrícia.
Tanto Patrícia quanto Flávia trabalham diretamente nos encontros formativos e explicam ter encontrado ali um vínculo muito determinante de como será a experiência do aluno em ERE. “O estudante muitas vezes não sabe como funcionam algumas questões institucionais e organizacionais, qual setor buscar, por exemplo. Isso pode o levar, inclusive, a uma situação precária. Nas capacitações, temos trabalhado muito no sentido da comunicação”, conta Patrícia.
Para os docentes e técnicos que se interessarem em participar das capacitações oferecidas pelo GT, o próximo encontro formativo acontecerá em 18 de setembro, na Plataforma Mconf, das 10 às 12h. A intenção é promover um espaço de reflexão sobre saúde mental de discentes no período de ensino remoto e discutir as possibilidades e formas de acolhida neste momento. O curso, oferecido pela Escola de Desenvolvimento de Servidores da UFRGS, está com inscrições abertas até 13 de setembro na página da EDUFRGS.
Saber onde buscar ajuda
Com intuito de difundir conhecimento sobre saúde mental na UFRGS, o GT, junto ao Centro Interdisciplinar de Pesquisa e Atenção à Saúde (Cipas) e ao Departamento de Atenção à Saúde (DAS), criou um site sobre a temática. O portal, feito para auxiliar estudantes, técnicos e professores, conta com informações e conteúdos sobre as principais condições psicológicas, sobre conceitos importantes para se compreender a inclusão e a diversidade. Há também um ‘guia de busca de atendimento’ dentro e fora da Universidade. As orientações, pensadas por profissionais de áreas diversas, não só da psicologia, foram construídas para que todos possam aprender a como acolher e encaminhar pessoas que podem estar em algum tipo de sofrimento. O site, criado antes da pandemia, ganha ainda mais relevância no contexto de Ensino Remoto.
“É importante saber onde buscar esse tipo de informação, porque às vezes a gente sabe que precisa de ajuda e não sabe nem como começar. É um conhecimento que a gente quer difundir entre todas as pessoas que se sentem à vontade para ter uma escuta e para dar uma orientação, mesmo que pequena às vezes. Não somente para uma intervenção psicoterápica, mas acredito que esse conhecimento possa auxiliar a UFRGS a ser também uma rede de apoio.”
Flávia Wagner
Entre as informações trazidas pelo portal, está uma lista de locais que prestam assistência psicológica gratuita ou a baixo custo e que estão realizando atendimentos no período da pandemia. “Os serviços que existem dentro da Universidade são muito mais em uma perspectiva de acolhimento, orientação e também de encaminhamento para a rede pública de saúde, o SUS. A própria questão do encaminhamento para a rede pode acontecer pelos mais diversos setores, e o site orienta muito nesse sentido de como fazer, como identificar se alguém esta precisando de uma ajuda especializada e onde buscar, dentro e fora do ambiente da universidade”, aponta Patricia.
As docentes explicam que a missão principal do GT é estruturar a temática da saúde mental na UFRGS, para que seja trabalhada de forma contínua e ativa. Para além dos encaminhamentos – ação fundamental! -, Flávia e Patrícia reforçam a necessidade da promoção da saúde mental no espaço acadêmico.
“Como a gente pode promover? Que ações cotidianas podem ser feitas para cuidar de mim e do outro?”, questiona Patrícia. Se há uma face da Universidade que incentiva a competição e o desgaste, pode ser o momento de não naturalizar isso e pensar no estabelecimento de novas relações. “Para que a gente tenha um ambiente tranquilo de trabalho, de estudo, que nossas relações não sejam de sofrimento, é importante que a gente, enquanto universidade, não promova esse sofrimento. Que seja ao contrário. Assim como podemos pensar em ações cotidianas que promovam saúde, outras podem prejudicar a saúde. Aí está a importância de estarmos atentos às ações dentro do nosso trabalho, dentro da nossa vida na Universidade, enfim, estar atentos ao cuidado com o outro”, sintetiza Patricia.
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