Em sua trajetória como assessora de imprensa, Drica Martorano fez chegar a mais pessoas o trabalho de diversos projetos e de instituições icônicas do Rio Grande do Sul, como a Bienal do Mercosul, a Fundação Iberê Camargo, a Feira do Livro e o Instituto Ling. Apesar de ter nascido e crescido em Santa Catarina, foi em Porto Alegre, onde vive há quase 20 anos, que a jornalista realizou seu grande objetivo profissional: ser ponte de acesso à cultura. 

Adriana se mudou para a capital gaúcha em 2001. “Eu me apaixonei por Porto Alegre, porque a cidade nessa época era uma utopia. Tudo que se via acontecer enchia o coração de esperança.” Logo de chegada, foi indicada para trabalhar como freelancer na revista Porto & Vírgula, que lhe encarregou de cobrir as duas primeiras edições do Fórum Social Mundial. Em seguida, surgiu a oportunidade de fazer assessoria de imprensa para o lançamento do filme “Houve uma vez dois verões”, dirigido por seu ídolo Jorge Furtado. Poucos anos depois, conquistou o passaporte porto-alegrense definitivo ao iniciar o namoro com seu atual companheiro, o também jornalista Roger Lerina, em meio aos ipês e jacarandás floridos da Praça da Alfândega em uma Feira do Livro.

Adriana Martorano trabalhou na assessoria de imprensa da Feira do Livro de Porto Alegre em 2004 e 2005. Foto: Eduardo Seidl

Infância gaúcha em Santa Catarina

A relação de Drica com Porto Alegre vinha sendo construída muito antes de ela se estabelecer por aqui. Natural de São Joaquim, na região dos Campos de Cima da Serra, próximo à divisa entre os dois estados, ela foi introduzida a uma parte da cultura do Rio Grande do Sul frequentando bailes e CTGs. Chegou a conhecer a capital gaúcha antes de colocar os pés em Florianópolis. Mesmo sendo mais distante, era a Porto Alegre que seus pais viajavam para comprar artigos menos acessíveis no interior de Santa Catarina. Entre eles, um destaque: “Meu pai sempre me levava discos”, lembra Adriana. Assim, ela pôde acompanhar todas as edições da famosa Califórnia da Canção Nativa, algo marcante na formação de seu gosto musical. 

Famosa por suas baixas temperaturas, que ganham destaque nos telejornais e também propiciam o ambiente ideal para o cultivo das melhores maçãs, São Joaquim é uma cidade pequena e isolada no alto na serra. Nesse contexto, Adriana teve o privilégio de crescer em uma família abastada, que investia em lhe proporcionar acesso aos bens culturais, e possibilitou que a adolescente embarcasse para a capital para seguir seus estudos no Ensino Médio. 

Em Florianópolis, Adriana chegou a concluir a formação em música, com a flauta doce, no conservatório da cidade, e integrou um quarteto de música barroca. Mas não sentia que esse era seu caminho profissional. Também nunca tinha sonhado em ser jornalista. A escolha do curso se deu por eliminação. “Foi por acaso, mas super acertado, porque eu me encontrei no Jornalismo.” 

A curiosidade acompanhava Adriana Martorano desde criança. “Eu sempre estava procurando o que tinha de diferente, de novidade.” Esse faro foi bem recebido no Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que, no início da década de 1990, segundo Adriana, era um espaço estimulante para novas descobertas. O currículo oferecia um espectro amplo de disciplinas, que abriam portas para universos como os do cinema e da antropologia. Como trabalho de conclusão, Adriana realizou um documentário, com ficção, sobre Meyer Filho (1919-1991), irreverente artista visual catarinense. A combinação entre jornalismo e cultura ainda a levou a integrar a primeira turma da especialização em Estudos Culturais da UFSC.

Set de filmagem do longa Meu Tio matou Um Cara, de Jorge Furtado. Na foto aparecem Caetano Veloso, Adriana Martorano, Luli Tomasi (atrás) e o ator Darlan Cunha (Cidade de Deus). Foto: Divulgação

Ponte de acesso à cultura

De sua formação na área dos Estudos Culturais, Drica Martorano herdou a compreensão de que “a cultura faz parte de tudo, que não existe política, educação ou esporte sem cultura”. “Relegar a cultura para um espaço mínimo e não acessível às pessoas é o que nos levou a esse momento terrível”, comenta, referindo-se aos tempos atuais, em que esse campo passa por uma aguda desvalorização no Brasil. 

Em anos de intensa atuação como assessora de imprensa na área, a jornalista catarinense entende ter contribuído para aproximar as pessoas dos bens culturais. “Por exemplo, na Bienal, quando eu conseguia emplacar uma matéria bacana no Diário Gaúcho eu ficava muito mais feliz do que quando saía na Folha de São Paulo. Eu sabia que a matéria do Diário ia chegar em quem talvez nunca tivesse acesso às artes visuais, e minha missão era fazer com que as pessoas entendessem que podiam usufruir daquilo.”

Adriana percebe que esse seu trabalho coincidiu com um período mais pujante do jornalismo cultural em nosso cenário. “Hoje assessores enfrentam grandes dificuldades, porque os espaços estão cada vez mais restritos.” Nos últimos anos, as páginas dos segundos cadernos nos impressos diminuíram, revistas se extinguiram, e os programas de rádio e TV dedicados ao tema se tornaram rarefeitos. Parte significativa da comunicação cultural migrou para o ambiente digital. “São outras linguagens, outros formatos de conteúdo que tu tens que aprender a usar”, pondera a jornalista. “Chegou em um esgotamento para mim. Eu não estava mais feliz fazendo assessoria de imprensa. Estava sendo frustrante.”

Ao lado de Roger Lerina, em 2018, Adriana Martorano lançou o site de jornalismo cultural que leva o nome dele. Além da essencial divulgação das informações sobre a agenda cultural de Porto Alegre e região metropolitana, o projeto prevê espaço para algo que há mais tempo o casal sentia falta nos veículos tradicionais: reflexão, reportagem e crítica. Sem as restrições de limite de páginas ou duração dos programas, o exercício do jornalismo cultural na internet ganha mais possibilidades. Adriana destaca, por exemplo, as discussões que eles têm conseguido abrigar sobre o impacto da cultura na economia da cidade.

Desde o ano passado, o site rogerlerina.com.br integra o Grupo Matinal Jornalismo, ao lado da Matinal News e da revista digital Parêntese. Adriana participou da concepção do projeto, na elaboração de estratégias de criação e execução dos veículos e produtos, com seus sócios Filipe Speck, Roger Lerina, Luís Augusto Fischer e Ângelo Chemello. O trabalho do grupo é focado no jornalismo local independente e investigativo, tendo como ferramenta principal o envio de newsletters com curadoria de conteúdos para assinantes. “As pessoas estão soterradas por informação, sem conseguir dar conta de absorver”, avalia a jornalista, que hoje atua como conselheira administrativa. “A news leva informação com uma linha de raciocínio, reunindo o que tem de melhor no jornalismo, com agilidade.” 

Como um dos apoiadores do festival Forrobodó do Unimúsica 2020, o grupo reafirmou a missão profissional de Adriana, realizando entrevistas com as instrumentistas convidadas, de modo a estimular o contato do público com esses trabalhos. “Eu conheço o Unimúsica desde que vim morar aqui, e, como espectadora, conheci artistas que eu jamais imaginei que existiam no Brasil”, conta. E assegura: “É um dos projetos mais bacanas e relevantes em Porto Alegre.”

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