A caverna – José Saramago

…

Os preparativos ocuparam todo o dia. Vamos, perguntou Marçal. Vamos, disse Marta. Marçal ia pôr o carro em movimento, Cipriano Algor disse bruscamente, Espera!

Saiu da furgoneta e dirigiu passos para o forno. Quando saiu de aí a pouco, servia-se do casaco para transportar algo pesado, uns quantos bonecos. Cipriano Algor aproximou-se da porta da casa e começou a dispor as estatuetas no chão, de pé, firmes na terra molhada. Nessa altura já os outros viajantes tinham decido da furgoneta, um a um entraram no forno e trouxeram bonecos para fora. Então Cipriano Algor entrou na olaria e retirou com todo cuidado da prateleira as estatuetas defeituosas e reuniu-as às suas irmãs escorreitas e sãs. Com a chuva tornar-se-ão em lama, e depois em pó quando o sol a secar, mas esse é o destino de qualquer um de nós. Agora não é só diante da casa que as estatuetas estão de guarda, também defendem a entrada da olaria.

Agora podemos ir-nos. A furgoneta fez a manobra e desceu a ladeira. Alguns quilômetros andados, Marçal disse, havia um cartaz, daqueles grandes, na fachada do Centro. São capazes de adivinhar o que ele dizia, perguntou. Não temos ideia, responderam ambos, e então Marçal disse, como se recitasse, brevemente: abertura ao público A caverna de Platão, atração exclusiva, única no mundo, compre já a sua entrada.

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