(Imagem: Les Oiseaux – Georges Braque, 1953)
“Naquela tarde, sem haver bulício pelos céus em lado nenhum, nenhum vento, sem ruído, nenhum som, eu e Nhanho vimos os flamingos passarem de novo. Mil vezes mil flamingos cor-de-rosa voando num silêncio absoluto, e a nossa estrela vazava aos poucos por tão espessa quantidade de aves que faziam um abrigo gigante sobre a ilha. O povo dos flamingos continuava a migrar. Eu disse a Nhanho que o povo daqueles migrava para terras melhores, mesmo que não fosse época nem estivéssemos na rota. Era uma coisa sem sentido de se ver. E ele respondia: estou a ver. Porque antes daquilo ninguém me acreditara. Dúvidas até eu tinha. Mas a certeza também. E, mesmo sendo um garoto tão certo e assíduo, os outros preferiram descuidar de me ouvir. Pelas dúvidas, não fiquei amuado. Mas fiquei triste que visse algo sozinho.
A solidão é sempre uma espécie de fim. O fim de um lugar. Como se não houvesse mais para onde caminhar. Caminhar daqui embora. Eu pensava. Quando sentia estar só, aquilo de ser por dentro do peito, onde se dizia mais doer, pelo coração, ou pelas veias que forneciam o sangue ao coração, eu pensava que o mais importante era caminhar dali embora. Não me deixava muito tempo a contemplar o desalento ou a sentir qualquer abandono. E Nhanho, como eu da primeira vez, por ser tão densa a multidão sobrevoando, atirou as mãos ao ar como se a pudesse agarrar.
Se lhes chegássemos com as mãos, como fazíamos aos papelinhos jogados nas estradas pelos carros de propaganda, poderíamos enriquecer de flamingos. Deitá-los a nadar nos charcos. Podíamos até fazer um charco maior, desviar da levada a melhor água e flutuá-los ali, parecidos a estrelícias com olhos e palavras de bico. As aves, tantas delas, eram iguais a flores estonteadas capazes de falar palavras de bico. Imagina que as nossas flores deitavam patas e se punham a discutir assuntos de bico, como os pássaros. Eu dizia. Nhanho estava de olhos no céu. Era atirado para cima. Nem escutava mais o que acontecia no chão. Como eu, pousaria nos próprios pés lentamente. Embasbacado e lerdo. Senti-me orgulhoso. A partilha de uma maravilha trazia mais maravilha ainda. E eu sentia-me orgulhoso de ter sabido daquilo primeiro. De ter merecido saber daquilo primeiro. “
(Deus na Escuridão, Valter Hugo Mãe, p. 112-113)
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Manifestações artísticas nas ocupações

As ocupações de escolas, institutos federais e universidades em 2016 – além de chamar atenção para os acontecimentos políticos, posicionando-se contra a PEC 55 (241), a MP 764 e o Projeto Escola sem Partido – mostraram novas possibilidades do uso de espaços destinados à educação, muitas delas voltadas para experiências ligadas às artes.
Na UFRGS, dezenas de institutos e faculdades foram ocupados e, além das aulas e debates sobre o contexto político, oficinas das mais diferentes manifestações artísticas aconteceram, assim como intervenções – temporárias ou não – foram realizadas nos prédios ocupados. O Instituto de Artes da UFRGS, especialmente, desenvolveu oficinas de técnicas que são trabalhadas nas disciplinas curriculares, porém, aconteceram de forma diferente, muitas vezes deixando os espaços abertos para os estudantes praticarem.
Atividades envolvendo saraus literários, prática de estêncil, produção de cartazes, intervenções poéticas, aulas de canto, apresentações musicais, entre muitas outras formas de manifestação artística estavam presentes nas mais diversas ocupações, independentemente de terem os cursos relação direta ou não com arte. Vale refletir de que forma a arte representa uma demanda dos estudantes dentro da universidade e de outros espaços de educação que é deixada de lado muitas vezes. E que formas de aprendizado político-estéticas tais manifestações proporcionam e expressam, visto que estiveram tão presentes nesses espaços também de educação.
Ao final das ocupações, foram deixadas marcas do movimento político por meio de intervenções, algumas efêmeras, outras nem tanto. No Prédio de Salas de Aula do Instituto de Letras, salas utilizadas na ocupação foram batizadas com nomes de “mulheres de luta” como Ângela Davis, na Faculdade de Educação, as mãos dos estudantes foram gravadas em uma das paredes do saguão, assim como diversas outras pinturas foram realizadas pelo prédio. Cada ocupação deixou suas marcas artísticas, muitas delas no espaço ocupado, outras em vídeos e cartazes publicados nas redes sociais, todas expressando a importância do movimento de ocupações de 2016.
Laís Webber, estudante de Letras
100 anos de samba e a origem negra da música latina

Se você vem do Brasil e algum estrangeiro desavisado lhe perguntar qual é o gênero musical mais autêntico do país, a sua resposta, rápida e precisa, com toda a certeza será “o samba” (por sinal, é capaz que o próprio forasteiro já saiba disso). Mas por que o samba parece nos representar assim tão bem? Façamos o exercício inverso.
Leia o texto completo de por Caio do Valle Souza aqui.
Movimento de palhaçaria está vivo em Porto Alegre

Em entrevistas com diferentes palhaços e palhaças de Porto Alegre, o Nonada e traz as visões sobre o ofício, além de contextualizar a origem da atividade, mostrar as mulheres palhaças e a formação de cada um. A reportagem trata da cena da cidade e das diferenças entre ser palhaço de picadeiro e palhaço de rua: “Segundo os artistas, a pessoa na rua está totalmente vulnerável ao que pode acontecer. ‘Ao mesmo tempo em que deve ser ingênuo e palhaço, tem que agir como artista de rua e manter-se atento ao seu equipamento e ao que está acontecendo ao redor’.”
Leia a reportagem aqui.

