O relógio

“Silicon valley”, 1990 – Erró

Aquela latrina, no fundo do quintal, construída de tábuas velhas carcomidas pelo cupim, e que se sustenta desaprumada sobre a fossa, está infestada de aranhas. Estão escondidas nas juntas, debaixo dos sarrafos. Sua presença é evidente: pequenas patas despontam fora dos esconderijos e revelam o corpo redondo, mole e chato. Savino pensa que as aranhas possam, de improviso, sair das frestas e atacarem. Esta ideia o aterroriza. Dentro da latrina, a luz é coada: penetra pelas estreitas frestas de ventilação abertas em cima e embaixo da porta, e também pelos furos do telhado de zinco.
Acocorado sobre o assento, Savino apressa-se, acossado pelas aranhas e pelas moscas que, obstinadas, o molestam.
Ao descer do banco segurando as calças que lhe escorregam pernas abaixo – procura não pisar nas sujeiras espalhadas pelo chão –, ouve um baque abafado dentro da fossa. Volta-se e vê, através do buraco do assento, seu relógio desaparecer, lentamente, numa imundície espessa, escura, variegada de amarelo-laranja.
– Oh! Meu relógio – exclama Savino, contrafeito.
Aquele relógio antigo de prata cinzelada é a única herança que recebeu de sua avó. Não pode perdê-lo. Por isto, decide reavê-lo a qualquer custo.
Resoluto, mete dentro da fossa uma enxada que encontra no fundo do pátio. Ele a mergulha no lugar exato onde viu desaparecer o relógio. Na primeira tentativa, apanha-o. Quando o relógio já lhe está quase ao alcance da mão, escorrega da lâmina da enxada e recai na fossa.
Contrariado, Savino torna a introduzir a enxada no buraco, com a esperança de apanhá-lo uma outra vez. Inútil. Obstinado, rasteia a enxada em todas as direções da fossa, tateia com mão de pescador experiente, mexe e remexe a merda. De vez em quando, ergue-a com cuidado, devagar, devagar, com a esperança de trazê-lo à superfície. Não se desencoraja. Continua a sondar e a mexer e remexer. O fedor é insuportável. Para não senti-lo, cobre o nariz com um lenço. E continua a busca. As moscas zumbem dentro da fossa, batem-lhe no rosto, embarafustam-se nos seus cabelos. Embora fatigado, Savino não esmorece. Prolonga a inusitada busca até que a luz do dia se apague. Relutante, transfere-a para o dia seguinte. Excitado, não dorme. A procura continua na mente. Anseia que a noite acabe, mas esta se prolonga lenta, pesada, como jamais em toda a sua vida.
Savino vive cada fração de tempo fragmentado pelo tique-taque do relógio perdido. Os primeiros raios de sol iluminam sua figura esguia curvada sobre a fossa. Obstinado, continua a remexer na fossa que agora quase transborda, devido à chuva da noite. Para tocar o fundo, debruça-se sobre o assento, encosta o rosto no buraco, mergulha e agita enxada e braço dentro da merda, que redemunha. Savino, frustrado pelo insucesso da busca, irrita-se. Xinga céu e terra. Impaciente raspa aquele fundo escorregadio e bate-lhe com violência com o olho da enxada. As pancadas ressoam abafadas, sem eco. Às vezes, atola no fundo. Ele a libera com dificuldade. Irritado se exalta, se impacienta. Bate com redobrada violência o fundo da fossa.
Após dois dias de busca incessante, encontra elos da corrente. Estimulado, redobra os esforços e decide esvaziar a fossa. Começa a retirar da latrina seu conteúdo fedorento, pegajoso, que amontoa sobre folhas de zinco espalhadas pelo pátio. No seu vaivém deixa atrás um rastro imundo. Ajoelhado, revista minuciosamente cada monte com um graveto, espalhando e separando a merda em pequenas porções. Examina, apalpa cada fragmento. Na busca, reduz a merda a grúmulos. À medida que se demora e que se adentra na busca, a excitação aumenta. Apaixona-se. Não lhe importam mais as aranhas, o nojo e o fedor. Perde todo o escrúpulo: usa as próprias mãos. Com os dedos esmaga cada caroço que encontra. Desfaz, esmiúça ávido cada nó suspeito na avidez de encontrar os preciosos rubis. Às suas mãos enredam-se pedaços de panos apodrecidos. A merda gruda-se aos seus dedos. Seu rosto se umedece de um suor turvo que lhe escorre pelo pescoço. A camisa amarelece, uma pasta escura endurece a calça nos joelhos. A postura o cansa, sente as pernas entorpecidas. Para recuperar-se, muda de posição: ora de cócoras, ora de joelho, ou, então, apoia-se sobre o joelho direito, depois sobre o esquerdo. Circula em torno dos montes e inadvertidamente os pisa. Os pés enlameiam-se. Os fragmentos do relógio que encontra, os esconde num lenço que traz atado à cintura.
– Destroços, destroços – repete.
Ele tem a intenção de remontar o relógio. Dia e noite se alternam. Certo dia, encontra o mostrador, depois os ponteiros. “O tempo não para”, pensa. Ao esmiuçar a coleta diária, encontra a âncora e uma roda. Embevecido, demora-se a examinar aquelas peças, regirando-as entre os dedos. Com os olhos marejados, as envolve com ternura.
– Quero-o como antes, inteiro.
Sobre a enxada enrola-se estranha serpente: um suspensório.
Ele o desenlaça e com arte o estende por terra, desenhando um ipsilone. Encontra também um soldadinho de chumbo com a perna quebrada, uma cornetinha e carretéis. Savino comovido está a ponto de chorar.
– Poço encantado, transformas as coisas: estes são os meus brinquedos!
Também retira da fossa uma botina rota, desbeiçada, que sacode, que esvazia, que arranca o forro apodrecido. Enfia-lhe a mão no bico. Esta se emplasta. Recolhe pedaços de papel empapados que se desmancham entre suas mãos. Vasculha cada vinco, os mais miúdos se desfazem. Sobre a palma de sua mão, brilha uma medalhinha. Savino faz o sinal da cruz. A merda se estende pelo pátio em montículos que no decorrer da semana tornam-se grandes e pequenos, mudam de aspecto à medida que Savino os revista.
As galinhas atraídas pela imundície acorrem: brigam, pisoteiam, tropeçam e escorregam sobre a merda. Esgravatam e bicam. Savino, de cócoras, agitando os braços as enxota. As galinhas saltam, esvoaçam com cocoricós dissonantes. Ele grita: “Desgraçadas! Malditas!”. Teimosas retornam em bando. Afundam as patas na merda que agora se estende por toda a parte. Uma delas, fugindo, leva qualquer coisa que balança pendente do bico. As outras a perseguem, disputam para tirá-la. Algumas se avizinham cautelosas, desconfiadas, parando a cada passo: torcem o pescoço como uma mola emplumada que se move a impulsos e o espicham, avizinhando ao chão um olho redondo: este pisca, depois permanece fixo, aberto, e novamente pisca. Savino se enraivece. Persegue a mais teimosa, joga-lhe paus e pedras que encontra. Assustada a galinha corre gambeteando, salta contra a cerca. Procura escapar. O alarido das galinhas assanha o cão que, aos tirões, tenta se soltar da corrente. Late ameaçando. Savino ralha:
– Quieto, quieto, Açafrão! – O cão recalcitra em obedecer. Rosna e uiva.
Savino retorna ofegante, braços caídos, e de novo se põe de joelhos junto a um monte e continua a revistar. Ele defende sua coleta. Receia que as galinhas engulam os pedaços do relógio, misturados à imundície.
Está também preocupado com a ameaça da chuva. Um temporal, frequente no verão e sempre imprevisto, espalharia a merda e poria tudo a perder. Só Deus sabe onde iriam acabar as peças do relógio.
– Inimigos, inimigos por toda a parte – se diz pensativo. – Como proteger a coleta à noite? Talvez cobri-la com um plástico, dormir-lhe ao lado para vigiá-la.
Por cima da cerca, desponta uma cabeça: um guri, um moleque.
Junto, aparecem os companheiros, um pequeno bando, saído não se sabe de onde.
– Mãe, vem ver o que faz o vizinho – grita uma esganiçada voz de falsete. Aparece toda a família. Não compreendem o que acontece. Olham estarrecidos.
– Ei! Que faz? – pergunta um guri mais atrevido.
Savino nem sequer o olha: apenas levanta a mão no ar e faz um gesto vago. Insatisfeita, a pequena assistência desata numa risada zombeteira. Os guris assobiam. Algumas pedras voam e caem no pátio, perto de Savino. Ele não se importa. Está inteiramente absorto a remexer na merda. Fora isto, nada mais conta. Sente na pele a frigidez, a maciez pastosa daquela matéria sovada. Esta amolece, muda a forma, separa-se e aglutina-se ao toque. A cabeça de cabelo cor de cobre, o rosto salpicado de sardas, abrasado pelo sol, apoia-se sobre um joelho. As mãos trabalham dentro da merda. Savino fecha os olhos, dilata as narinas e aperta os lábios. Seu rosto ora reflete prazer anelante, ora sofrimento. Um suspiro lhe escapa do peito no instante em que encontra uma das peças do relógio. Ele as limpa na manga da camisa e as guarda no lenço: vísceras de aço do coração do tempo, perdidas e reencontradas na imundície.
– É preciso recolocá-lo em moto. O tempo não para. Atrás dele, as risadas continuam. – É louco, louco de atar.
– Eu sempre o achei estranho, diferente – acrescenta uma mulher.
Savino contrai o rosto num esgar. Os moleques não cessam de motejá-lo:
– Come merda! Co-me-mer-da! Sim, sim, é louco.
– Procura um tesouro escondido – acrescenta um outro. – Põe merda na balança – diz uma velha, gargalhando.
Uma pedrada atinge Savino na face. Ele não a sente. Está preso de um frenesi: contrai o rosto, acende o olhar, e, concentrado, ergue no ar a mão crispada como para agarrar qualquer coisa que lhe escapa da mente. E novamente afunda os braços na merda até os cotovelos: esta escapa em fitas entre seus dedos.
Não pode parar. Sujo, fedorento, exausto, arrasta-se de um a outro monte. Os dias se sucedem. A merda ensolarada enxuga-se e racha. Savino, exaurido, ardendo em febre, se obstina: com as mãos enrugadas pela umidade, dilaceradas, a pele gretada, queimada pela acidez da fermentação, continua a inusitada busca: investe contra os montes, desmancha-os, espalha a merda ao vento, com furor. Ora, a merda se esfarela, se transforma em pó entre suas mãos. As sombras se alongam e escurecem o pátio.
Agora, nem mesmo a noite o detém. Com os braços erguidos e a cabeça derrubada sobre o peito, repete desvairado:
– O tempo, o tempo…

Iberê Camargo [1959]

Da rua dos cata-ventos…


Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Mário Quintana

O rio

…

Vou pensando no mar

que daqui ainda estou vendo;

em toda aquela gente

numa terra tão viva morrendo.

Através deste mar

vou chegando a São Lourenço,

que de longe é como ilha

no horizonte de cana aparecendo;

através deste mar,

como um barco na corrente,

mesmo sendo eu o rio,

que vou navegando parece.

Navegando Este mar,

até o Recife irei,

que as ondas deste mar

somente lá se detêm.

Ao entrar no Recife,

não pensem que entro só.

Entra comigo a gente

que comigo baixou

por essa velha estrada

que vem do interior;

entram comigo rios

a quem o mar chamou,

entra comigo a gente

que com o mar sonhou,

e também retirantes

em que só o suor não secou;

e entra essa gente triste,

a mais triste que já baixou,

a gente que a usina,

depois de mastigar, largou.

…

João Cabral de Melo Neto

Manifestações artísticas nas ocupações


As ocupações de escolas, institutos federais e universidades em 2016 – além de chamar atenção para os acontecimentos políticos, posicionando-se contra a PEC 55 (241), a MP 764 e o Projeto Escola sem Partido – mostraram novas possibilidades do uso de espaços destinados à educação, muitas delas voltadas para experiências ligadas às artes.

Na UFRGS, dezenas de institutos e faculdades foram ocupados e, além das aulas e debates sobre o contexto político, oficinas das mais diferentes manifestações artísticas aconteceram, assim como intervenções – temporárias ou não – foram realizadas nos prédios ocupados. O Instituto de Artes da UFRGS, especialmente, desenvolveu oficinas de técnicas que são trabalhadas nas disciplinas curriculares, porém, aconteceram de forma diferente, muitas vezes deixando os espaços abertos para os estudantes praticarem.

Atividades envolvendo saraus literários, prática de estêncil, produção de cartazes, intervenções poéticas, aulas de canto, apresentações musicais, entre muitas outras formas de manifestação artística estavam presentes nas mais diversas ocupações, independentemente de terem os cursos relação direta ou não com arte. Vale refletir de que forma a arte representa uma demanda dos estudantes dentro da universidade e de outros espaços de educação que é deixada de lado muitas vezes. E que formas de aprendizado político-estéticas tais manifestações proporcionam e expressam, visto que estiveram tão presentes nesses espaços também de educação.

Ao final das ocupações, foram deixadas marcas do movimento político por meio de intervenções, algumas efêmeras, outras nem tanto. No Prédio de Salas de Aula do Instituto de Letras, salas utilizadas na ocupação foram batizadas com nomes de “mulheres de luta” como Ângela Davis, na Faculdade de Educação, as mãos dos estudantes foram gravadas em uma das paredes do saguão, assim como diversas outras pinturas foram realizadas pelo prédio. Cada ocupação deixou suas marcas artísticas, muitas delas no espaço ocupado, outras em vídeos e cartazes publicados nas redes sociais, todas expressando a importância do movimento de ocupações de 2016.

Laís Webber, estudante de Letras

100 anos de samba e a origem negra da música latina


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Se você vem do Brasil e algum estrangeiro desavisado lhe perguntar qual é o gênero musical mais autêntico do país, a sua resposta, rápida e precisa, com toda a certeza será “o samba” (por sinal, é capaz que o próprio forasteiro já saiba disso). Mas por que o samba parece nos representar assim tão bem? Façamos o exercício inverso.

Leia o texto completo de por Caio do Valle Souza aqui.

 

Movimento de palhaçaria está vivo em Porto Alegre


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Em entrevistas com diferentes palhaços e palhaças de Porto Alegre, o Nonada e traz as visões sobre o ofício, além de contextualizar a origem da atividade, mostrar as mulheres palhaças e a formação de cada um. A reportagem trata da cena da cidade e das diferenças entre ser palhaço de picadeiro e palhaço de rua: “Segundo os artistas, a pessoa na rua está totalmente vulnerável ao que pode acontecer. ‘Ao mesmo tempo em que deve ser ingênuo e palhaço, tem que agir como artista de rua e manter-se atento ao seu equipamento e ao que está acontecendo ao redor’.”

Leia a reportagem aqui.

 

E agora, José?, por José Saramago


Drummond

Em crônica pouquíssimo conhecida no Brasil, o escritor português inspira-se em Drummond para refletir sobre “as horas em que o o desânimo se faz muralha” e a covardia dos homens.

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

Você pode ouvir a crônica aqui.