
Matéria no Jornal da Universidade sobre o projeto Docência Colaborativa: Observação, Reflexão e Partilha Pedagógica
A pandemia de coronavírus impôs aos professores da UFRGS uma nova realidade – agora já não tão nova assim – à qual tiveram de se adaptar: as aulas e o contato com os estudantes migraram completamente para o ambiente virtual para evitar aglomerações. O Ensino Remoto Emergencial (ERE) levou muitos deles a se preocupar com novas pedagogias de ensino para enfrentar a situação. A busca por uma docência mais atraente, no entanto, é um movimento que se manifestava já em 2019 com o início do projeto Docência Colaborativa: Observação, Reflexão e Partilha Pedagógica, promovido pela Escola de Desenvolvimento de Servidores da UFRGS (Edufrgs) em parceria com a Faculdade de Educação (Faced). O objetivo é promover a troca de experiências entre os professores, ampliando as possibilidades de entendimento acerca de estratégias educacionais e pedagógicas.
A iniciativa, que teve inspiração em dois projetos de universidades portuguesas – De par em par, da Universidade do Porto, e Observar e Aprender, da Universidade de Lisboa –, contou com a participação, em sua primeira edição, de 35 professores. Em 2020, no modelo virtual, foram mais 30 inscritos. No total, dezessete unidades e 26 departamentos da UFRGS estiveram envolvidos nas duas edições. Conforme explica o coordenador do projeto, Rafael Arenhaldt, docente da Faced, são formados grupos em trio ou em quarteto para as atividades. Esses professores precisam assistir às aulas uns dos outros e refletir em conjunto formas de melhorar as práticas pedagógicas. “Adaptamos o programa à realidade da nossa instituição, mas a ideia é semelhante à das universidades portuguesas, é um convite ao aprimoramento da docência”, afirma.
A professora da Faced Silvana Corbellini já tinha como tema de pesquisa a cooperação entre docentes e discentes quando conheceu o projeto no ano passado. “Além de ter a ver com a minha linha de pesquisa, a possibilidade de um espaço que propiciasse o convívio com outros colegas que também compartilham indagações sobre as práticas pedagógicas me motivou a participar”, relembra. Depois de vivenciar a primeira edição, ela passou a integrar a comissão organizadora do projeto ainda em 2020, composta por dez professores de múltiplas unidades da Universidade, além da Faced, como a Faculdade de Ciências Econômicas, Escola de Engenharia e Instituto de Física.
Na primeira edição, ainda enquanto participante, Silvana atuou junto a professores da Química, da Medicina e da Arquitetura. “A experiência diversa é um desafio e uma potência ao mesmo tempo, pois você aprende a escutar e contribuir com a sua expertise sem desconsiderar os outros contextos. É um desafio, porque não é fácil pensar em aulas e conteúdos tão diferentes do que estamos habituados”, resume. Os encontros possuem três etapas: a integração entre os pares, trabalho colaborativo e acompanhamento avaliativo e o compartilhamento final do aprendizado. Silvana conta que, no início, “abrir a porta e ser observada” pelos colegas foi difícil.
Mas foi também um momento de oportunidades. Outro ponto a se destacar é que os discentes se sentem valorizados, sabendo que a professora está buscando qualificar a aula. E, na etapa final do programa, quando compartilhamos nossos conhecimentos, fortalecemos e planejamos ações contando com um grupo que está engajado em mudar nossas salas de aulas.
Silvana Corbellini
Quando foi convidada para ser embaixadora do projeto em 2020, a docente se sentiu “honrada”. “Principalmente por ser um momento tão desafiador como o que estamos vivendo com a pandemia”, pondera.
Um projeto que se pensa
A professora do Departamento de Engenharia de Produção e Transporte da UFRGS Ângela de Moura Danilevicz faz parte da comissão do projeto e é a responsável por pensar arquiteturas pedagógicas tanto para as aulas quanto para as atividades do programa Docência Colaborativa. “A gente não está lá para julgar a aula do professor, queremos aprender com ele”, enfatiza. Ela conta que tudo é pensado em grupo. “Com a pandemia, tivemos que mudar o formato do programa. Sugeri que fizéssemos uma conversa sobre fragilidades e oportunidades do Ensino Emergencial Remoto, mas dei outros nomes para essa atividade. A comissão não achou adequado o nome que sugeri e optamos, então, por “fragilidades e oportunidades do ERE”, exemplifica. Tudo precisa ser organizado e refletido com carinho para que os encontros não sejam triviais. “Nós, da comissão, nos reunimos toda semana. Usamos tudo que gostaríamos que os professores usassem nas aulas nos encontros. Nós somos monitores também, auxiliamos na organização, mas não interferimos no momento de escuta e retorno dos participantes”.
Ângela recorda que foi da união de um professor da Física e de um ligado às Ciências Básicas da Saúde que nasceu a experiência de uma crítica não violenta às aulas apresentadas. “A partir dessa necessidade, oferecemos palestras e capacitamos os professores para que eles possam se expressar sem receios.” Para ela, todo o esforço é justificado, porque a preocupação é a interação com os alunos.
Os estudantes têm celular e computador, eles são multitarefas, precisamos tornar a aula interessante a ponto de o aluno ser protagonista e não apenas espectador.
Ângela de Moura Danilevicz
A professora sempre teve curiosidade na área de inovação pedagógica e o projeto Docência Colaborativa foi um espaço para aperfeiçoar e praticar esses interesses. “O docente da Engenharia, por exemplo, não é preparado para ministrar aulas, mas para construir prédios, de maneira geral. Muitos, no entanto, procuram essas iniciativas porque querem fazer uma aula diferente, é uma mudança de pensamento. O professor quer uma aula que ele sinta gosto por dar e que instigue o aluno”, reflete. Com o Ensino Remoto Emergencial, repensar se tornou ainda mais essencial. “Alguns professores estão dando a mesma aula que davam no modelo presencial, porém, agora, eles gravam. Isso é o contrário do que queremos, por isso é tão importante pensar em formatos atrativos para ambientes virtuais”, explica.
Conforme Ângela, outro saldo positivo do projeto, além do aprendizado, são as amizades. “Os professores se transformam. Eles chegam, às vezes, e acham que não é possível fazer uma aula interessante na área deles. Esses, às vezes, são os que mais avançam, então é muito bonito! Mas o mais incrível é que estamos formando uma rede de colaboração entre os docentes, viramos amigos”, conclui.
Fonte: Jornal da Universidade –
Foto: Flávio Dutra/JU
Confira a matéria em: https://www.ufrgs.br/jornal/projeto-da-ufrgs-propoe-colaboracao-entre-docentes-para-refletir-sobre-praticas-pedagogicas/
