
Jornal da Universidade | Mãe e filha podem pesquisar juntas?
Artigo | Taís Ferreira, docente da Faced, relata sua investigação por pátios de brincadeiras de Buenos Aires
*Ilustração: Dantara Stamado Ordovás/Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
Uma pesquisadora deixa de investigar quando está exercendo a maternagem? Como a maternidade atravessa nossas investigações e nossas constituições como profissionais da docência e da pesquisa? Nossos interesses e desejos de investigação podem estar relacionados a uma práxis da maternagem? Neste breve artigo, busco compartilhar algumas experiências de maternagem e pesquisa que estão em andamento.
Eu pesquiso infâncias e teatro, as relações de jogo, ludicidade, performatividade e as artes da cena para e com as infâncias há 25 anos. Sempre estive envolvida, de uma maneira ou de outra, com as crianças, suas práticas, suas culturas e seus espaços, como artista e como professora. Há sete anos me tornei mãe, em uma maternidade solo compulsória (isto é: não foi uma escolha e, sim, contingência adjetivar essa maternidade como solo). Sou a única cuidadora responsável por uma menina desde a gravidez e certamente gozei do privilégio de ter redes de apoio em diversos momentos, para além daqueles privilégios que me são conferidos por ser uma mulher cis branca. Contudo, neste ano de 2025, empreendemos a aventura de passar um ano trabalhando e vivendo no exterior sem redes de apoio, a não ser a escola pública de jornada completa (tempo integral) que a menina frequenta.
Sem romantizar a experiência, mas atravessada pela exaustão e a solidão que estão inexoravelmente implicadas em uma tarefa desta monta, encontramos juntas linhas de fuga que são atravessadas pelos meus interesses de pesquisa. Porque sim: uma mãe não deixa de ser pesquisadora quando está maternando, não deixa de ser uma pessoa autônoma e desejante, pelo menos não deveria, a despeito das conjunturas e das discursividades sobre maternidade que nos assolam. Afirmar o entrelaçamento entre vida acadêmica e vida pessoal é um ato político, essa dissociação que nos foi e é imposta cotidianamente pelo ethos acadêmico inexiste, e eu, como docente com mais de 20 anos de carreira universitária, aprendi isso a duras penas, experimentando na carne o peso das práticas e discursos patriarcais na universidade depois de me tornar mãe. Eu e tantas outras, sendo as estudantes certamente aquelas que são efetivamente mais prejudicadas, excluídas e alijadas de oportunidades acadêmicas por este ethos, ainda que paulatinamente estejamos assistindo a um movimento de modificação da exclusão, da opressão e do silenciamento maternos, amparadas em organizações horizontais como nosso Coletivo Mães na UFRGS.
Mas retomemos o foco destes escritos, que são a experiência de pesquisa associada à maternagem. Estou em Buenos Aires realizando pesquisa pós-doutoral sob supervisão do professor Carlos Skliar, com financiamento do CNPq, investigando o teatro na educação básica na Argentina, tecendo relações junto a uma rede horizontal de professores de teatro que está espalhada por toda a Argentina, a Red Dramatiza de Professores de Teatro. Sou e sempre serei, contudo, uma pesquisadora vinculada às infâncias: me sinto convocada a olhar e estar junto delas, mesmo quando não estou exercendo minhas funções maternas.
Como mãe, conforme o esperado, desde que chegamos à cidade, em janeiro de 2025, passei a frequentar praças e parques públicos, que abundam no território, com minha filha de seis anos. Iniciamos, então, de modo despretensioso e voluntário, uma jornada de pesquisa dupla, em que mãe pesquisadora e criança pesquisadora realizam um recorrido por parques e praças de diversas regiões da Cidade Autônoma de Buenos Aires (CABA), buscando as potencialidades presentes nas relações infantis com esses espaços, ou seja, lugares da cidade pensados para as infâncias, voltados ao direito de crianças e jovens de pertencimento e de apropriação do espaço coletivo, resultado de políticas públicas para as infâncias e juventudes.
Contextualizando: os pátios de brincadeira (patios de juegos), como são chamadas as pracinhas com brinquedos e estruturas voltadas para crianças de zero a 12 anos, em média, são bastante impressionantes do ponto de vista arquitetônico, estrutural, cultural e histórico. Cada pracinha costuma ser referencial ao território, ou seja, se está em um bairro ferroviário, vai fazer referência a questões culturais e históricas dos trilhos, das ferrovias, dos trens, dos meios de transporte, etc. Desde os brinquedos disponíveis até materiais adicionais informativos, como cartazes e orientações para as famílias e crianças (incluindo crianças neurodivergentes), há uma coerência na proposta do pátio, orquestrada esteticamente como em uma cenografia teatral a ser explorada pela ação/intenção e performance dos atores. As estruturas em geral são amplas e possuem brinquedos para crianças de diferentes faixas etárias, de bebês que ainda não caminham a pré-adolescentes.
Estamos, no Brasil, acostumados com pracinhas que tenham brinquedos que possibilitem o jogo de exercício, ou seja, nas quais as estruturas lúdicas que desafiam e instigam as corporeidades e noções de força, equilíbrio, elasticidade, motricidade ampla, velocidades, entre outras, estejam presentes. Nos pátios de brincadeiras portenhos, vai-se além em termos de indutores de jogo, chegando ao jogo dramático em si, possivelmente: o que vemos também é uma contextualização cultural relacionada às culturas locais e aos territórios dos bairros.
Um exemplo aqui pode ser eloquente: há uma praça (Plaza Alférez Maria Sobral) que recebe o nome de um dos primeiros exploradores e pesquisadores argentinos da Antártida. A Argentina requer historicamente soberania sobre alguns territórios antárticos e possui bases em funcionamento contínuo no continente há diversas décadas. O pátio de brincadeiras, então, reproduz estruturas como um farol antártico e traz brinquedos interativos inspirados nos animais, no clima e na geografia antárticos, instigando as crianças a serem também pesquisadores do continente. Atravessando uma imensa baleia que possibilita inúmeras brincadeiras, pinguins giradores, placas de gelo móveis, peixes, jogos de memória, entre outros. Há cartazes explicando a história do continente, contextualizando seu ecossistema, seu clima e sua fauna, entre outras informações históricas sobre a exploração antártica.
A praça, assim, faz referências a algo caro à cultura argentina e possibilita que, além dos jogos e brincadeiras físico-corporais, haja uma contextualização histórica, geográfica e cultural que serve como indutor aos jogos simbólicos e de regras mais complexos. Como é viver e nascer na Antártida (sim, há oito argentinos que nasceram no continente entre os anos 70 e 80)? Como é ser uma baleia ou estar dentro de uma? Como é o caminhar dos pinguins e como chocam seus ovos nas patas? Podemos ser pinguins? Conseguimos atravessar uma geleira? Como? Quem são os exploradores que estão no farol e como é desbravar esse território branco e gelado? Os disparadores não cessam, e um olhar atento a cada detalhe e a cada dispositivo brincante da pracinha nos daria infinitas pistas. Certamente as estruturas e sua organização oferecem às crianças esses e muitos outros indutores de criação simbólica e concreta de jogo coletivo e individual.
Aqui cabe ressaltar que, além da observação empírica das horas de pracinha que como mãe eu vivenciei ao longo deste ano (e de todos os anos anteriores, cumpre notar), as brincadeiras e os estímulos lúdicos que chegam ao faz de conta estruturado, ao jogo coletivo de papéis e a diversas possibilidades diretamente enlaçadas ao ensino aprendizagem de teatro, das teatralidades e performatividades com crianças, se fez matéria e carne pelas experimentações da minha filha. Ela investigou com seu corpo e seus sentidos nesses territórios lúdicos que são os pátios de brincadeiras, ela incorporou sensações, personagens, criou gestualidade e movimentações significativas, experimentou, correu, escalou, se pendurou, lançou-se, gritou, confabulou e compartilhou com os companheiros de sua idade mundos de faz de conta estimulados pelos dispositivos brincantes, conheceu e se apropriou de culturas e conhecimentos que não faziam parte de seu repertório.
Ambas, juntas, constituímos uma pequena e andarilha equipe de pesquisa ao percorrer, experimentar, observar e registrar, até outubro de 2025, cerca de 30 pátios de jogos em distintos bairros da cidade, construídos a partir de temáticas que vão dos meios de comunicação e transporte ao futebol, à música, à ciência, às diversas imigrações, à flora e à fauna autóctones (com direito a animais como nutria, joão de barro, e a árvores gigantes), aos aparelhos públicos, como universidade e hospitais, sem deixar de fora a criança protagonista por excelência, não só do imaginário argentino como de toda a América Latina, a pequena e amada Mafalda, personagem de Quino que também tem um pátio de brincadeiras em sua homenagem.
E assim seguimos, nossa enxuta equipe de pesquisa formada por mãe e filha, pesquisando através de observação participante e de pesquisa-ação da brincadeira, jogando, explorando, conhecendo e ampliando horizontes de pertencimento, de troca, de ocupação dos espaços, físicos e simbólicos, dos territórios pelas crianças. Afirmando também que maternar e pesquisar se atravessam, indelevelmente, e que, ao assumir isso, não calaremos mais nossas maternidades na universidade.
Artigo publicado pelo Jornal da Universidade em 11 de dezembro de 2025 | Educação em Pauta. Link original da publicação: https://www.ufrgs.br/jornal/mae-e-filha-podem-pesquisar-juntas/
