Na contramão do isolamento

“O coletivo é um grupo com o qual me identifico, e isso faz toda a diferença”, resume a jornalista Mariana Baierle, servidora do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) da UFRGS, ao falar sobre o Coletivo de Pessoas com Deficiência Adriana Thoma. Mariana foi diagnosticada com retinose pigmentar, uma rara doença ocular degenerativa, e hoje tem apenas 5% da visão. Ela é a única pessoa com deficiência (PcD) no setor onde trabalha. “A possibilidade de as PcDs se encontrarem dentro da UFRGS, discutirem suas demandas e perceberem que outros passam por dificuldades semelhantes gera uma rede de apoio que, muitas vezes, institucionalmente, a gente não tem”, desabafa.

O coletivo, que se propõe a debater questões relacionadas à acessibilidade e inclusão de PcDs, reúne mensalmente estudantes e servidores da Universidade, além de pesquisadores e interessados no assunto. O nome presta homenagem à professora Adriana Thoma, que faleceu em 2018 e era referência não só no campo da Educação Especial, mas na trajetória pessoal de Mariana. A servidora conta que, às vezes, pessoas que possuem alguma limitação podem se sentir constrangidas em pedir auxílio, pois acham que os outros não têm a obrigação de atendê-las. “A Adriana me mostrou que não era uma questão de favor, mas uma questão legal, que a UFRGS tinha de adaptar materiais didáticos para mim, que, se eu era aluna e tinha passado [na seleção] como qualquer outro, eu deveria ser atendida. Aquilo me abriu os olhos para tantas coisas!”, relembra. Para Mariana, as instituições tendem a individualizar demandas que, na verdade, são de todos – por exemplo, se um funcionário cadeirante precisa de uma rampa de acessibilidade para entrar em uma sala, outros cadeirantes também precisam.

Na visão da professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social Simone Paulon, há uma “subjetivação individualista” na qual se fundamenta o estágio avançado do capitalismo que vivemos hoje. Ela argumenta que o que se veicula em nossa sociedade é um ideal hegemônico, único, “como se houvesse um só jeito de se viver”. E a formação de coletivos, segundo ela, está na contramão dessa lógica de um modo de vida único, dominante, que é também competitivo. “Há pouco espaço para uma ética de construção de um mundo mais solidário, de relações mais próximas que se acolham e deem espaço social para que as diferenças possam ser vividas e utilizadas a favor dos sujeitos, que não pensam, não desejam nem sentem tudo do mesmo jeito”, esclarece. Para Simone, ambientes de escuta que facilitam vivências mais solidárias contrariam a experiência de solidão que o neoliberalismo constrói.

Raízes comuns

Marcos Vezolosquzki Kaingang, estudante de Direito, é integrante de um coletivo de estudantes indígenas. Ele acredita que a lógica e os princípios do grupo são os mesmos que norteiam as comunidades indígenas há séculos. “Nós somos sujeitos advindos de espaços coletivos; precisamos estar sempre juntos. O movimento estudantil indígena e o coletivo de estudantes indígenas da UFRGS estão estritamente  ligados aos movimentos de base da luta indígena, e isso é fundamental.” Marcos explica que o coletivo não é desvinculado das comunidades e tampouco restringe sua atuação às demandas de dentro do ambiente universitário.

Segundo a Coordenadoria de Acompanhamento do Programa de Ações Afirmativas (CAF), estão regularmente matriculados na UFRGS 65 alunos indígenas – que ingressam por processo seletivo específico –, muitos dos quais buscam levar o conhecimento que nela adquirem de volta às suas aldeias. “As vagas são usadas para suprir uma necessidade comum, e essa lógica está no coletivo. Dar um retorno às nossas comunidades é primordial, porque elas lutaram para que a gente estivesse aqui”, acrescenta o discente.

Simone afirma que, quando as pessoas se reúnem e conversam, elas se ajudam a refletir, tornando-se menos suscetíveis à exploração e à competição. A tendência, então, é de que se tornem mais sensíveis à diferença do outro. Segundo a pesquisadora, a consolidação de coletivos fortalece a noção de um bem comum – o que não significa que todos desejem ou devam desejar o mesmo, mas que as diferenças devem ser reunidas e negociadas.

Além de funcionar como uma rede de apoio, os coletivos também buscam dar visibilidade a seus integrantes e combater o preconceito, promovendo a conscientização da comunidade. Desde 2008, quando foi implementado o Processo Seletivo Específico para Ingresso de Estudantes Indígenas (PSI) no vestibular da UFRGS, foram relatados diversos casos de hostilidade contra os novos alunos. O mais grave deles aconteceu em 2016, quando Nerlei Kaingang, aluno do curso de Medicina Veterinária, foi violentamente agredido por um grupo de homens, na Avenida João Pessoa, em frente à Casa do Estudante. Da mesma forma, estudantes e servidores com deficiência frequentemente se deparam não só com a discriminação, mas também com o despreparo de colegas para lidar com suas necessidades. Ainda recente, a reserva de vagas para PcDs no ingresso em Instituições de Ensino Superior foi instituída em 2017, atendendo à Lei n.º 13.409/2016, que alterava a Lei de Cotas e passava a incluir PcDs na cota de egressos de escola pública, junto aos autodeclarados pretos, pardos e indígenas.

Mobilização

Segundo Marinez Lorenz, servidora do Incluir – Núcleo de Acessibilidade e Inclusão da UFRGS, o Coletivo de PcDs já vem se articulando desde 2017.“Tivemos dois encontros, depois algumas reuniões esporádicas, e então começou a surgir a forma do coletivo. Discutimos internamente pautas e formatos e, no ano passado, começamos a fazer os encontros”, explica.

Já o coletivo de estudantes indígenas se consolidou em 2010, com o ingresso dos primeiros alunos pelo PSI. Marcos relata que a criação do grupo se deu de maneira autônoma, motivada principalmente pelos episódios de discriminação. “A partir dessas dificuldades, todo mundo vai se reunindo e buscando formas de fazer um enfrentamento, porque a dificuldade que eu enfrento no curso de Direito é a mesma que um aluno da Educação ou da História enfrenta. Dentro da UFRGS, a gente faz essa luta de resistência para permanecer aqui, e é importante estar articulado para poder fazer isso e tentar mudar um pouco essa estrutura.” O coletivo se encontra no mínimo uma vez por mês na Casa de Estudante (CEU) da UFRGS para discutir demandas internas e externas à Universidade, além de organizar seminários, formações, rodas de conversa, oficinas de artesanato e aulas de língua kaingang.

 

Matéria publicada na Edição 224 do Jornal da UFRGS

Foto: Flávio Dutra/JU