O presente de Natal de Lucas

O ano de 2020 começa com chave de ouro para o estudante de Pedagogia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Lucas da Silva Andrades, de 25 anos. O aluno do terceiro semestre ganhou um triciclo motorizado, adaptado para deficientes, que foi construído pelos discentes do curso de Eletromecânica do Instituto Federal Sul-riograndense (IFSul) de Venâncio Aires.

Engenheiro Mecânico e Pedagogo, o docente do IFSul, Imar Junior, conta que a professora Simone Valdete, da Faculdade de Educação da UFRGS, viu uma reportagem sobre a proposta de inclusão e empreendedorismo e entrou em contato com o diretor do Instituto relatando as necessidades do Lucas. “Nós chamamos esta atividade de Projeto Integrador e ela envolve todas as disciplinas do 4° semestre do curso Técnico em Eletromecânica (Automação Industrial, SHP, Práticas de Manutenção Industrial, Gestão Industrial, Inglês). De forma resumida, nosso semestre é dividido em duas etapas. Na primeira, os alunos desenvolvem os projetos na teoria, utilizando softwares de desenho e estruturando parte do manual técnico do mesmo. Na segunda, após a aprovação dos professores, os alunos são liberados para a fabricação dos protótipos e nós, docentes, mediamos seus trabalhos”, ela relata, ressaltando que o projeto foi idealizado pelo professor Marcelo Barros, da disciplina de Automação Industrial, mas que, há cerca de 2 anos e meio, foi possível integrar todas as disciplinas e atingir resultados mais significativos.

Feliz com a mediação da professora Simone, que lecionou a cadeira de História da Educação em seu primeiro semestre na faculdade, Lucas esclarece que sua deficiência se deve a distúrbios que ocorreram durante o período de formação fetal, em que foi acometido por uma mielomeningocele e uma hidrocefalia. Ele comemora o fato de que o veículo trará mais independência nos deslocamentos do dia a a dia, sem precisar de alguém para empurrá-lo em aclives ou auxiliar a desviar de buracos nas calçadas. Lucas explica que o triciclo é de fácil manejo, silencioso, confortável e tem quase tudo que uma moto possui: faróis, pisca-alerta para ambas as direções, neon embaixo do assoalho, buzina, freio, acelerador suave e motor potente. “Com certeza, foi um belo presente de Natal. Jamais passou pela minha cabeça ter esse presente, pois foi inesperado. Fui para lá fazer as medidas e já voltei com a scooter”, ele celebra, enquanto lembra que foi para o Vale do Rio Pardo de carro juntamente com a mãe e o cunhado.

Contente com esta oportunidade concedida ao Lucas, Imar já planeja beneficiar outras pessoas. Afinal, segundo ele, o avanço tecnológico existente torna-se inútil se não for para melhorar a qualidade de vida dos seres humanos. O docente detalha que a escola possui alguns materiais de consumo que são disponibilizados aos alunos. No entanto, estes servem, basicamente, para construir os chassis das scooters; o restante dos recursos necessários saem do bolso dos professores envolvidos e dos alunos. “Por incrível que pareça, o investimento chega a ser substancial e não há grandes reclamações. Contudo, se as instituições de ensino tecnológicas fossem melhor valorizadas e não houvesse uma tentativa doentia em desacreditar nosso trabalho, poderíamos oferecer um serviço com uma qualidade muito maior”, lamenta.

 

Para dirigir o triciclo não é necessário possuir a Carteira Nacional de Habilitação. De acordo com os criadores, os protótipos possuem velocidade limitada a 10 km/h e o veículo não é indicado para deslocamento em vias urbanas, apenas em calçadas e terrenos pouco acidentados.