
Que será Faced?
Professora titular aposentada da Faculdade de Educação, Sandra Mara Corazza é docente convidada do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS. Em meio ao isolamento social, a filósofa se inspirou e escreveu um texto repleto de sentidos, reflexões e afetos sobre a Faced, que completa 50 anos em 2020.
> É o Prédio Azul, do qual somos todos detetives.
> É Terra Livre, cujo Parque é Redenção.
> É Esquina Democrática da UFRGS, em suas linhas perpendiculares e cruzadas.
> É o Panteão do Meio do Campus Central, transcriado em Cosmos pintalgado de estrelas.
> É Obelisco multifaceiro e bem-aventurado crítico.
> É montanha turquesa, composta por 234 olhos iluminados, que faíscam aos quatro cantos do mundo.
> É muro aconchegante, feito de veludo macio, que chama, acolhe e agrega, em vez de apartar e repelir.
> É fortaleza vertical, em cujo centro fica aquilo que não se conhece, não se diz, não se faz e que, por isso, é tão notável.
> É o corcel das estradas que cavalga rijo, em meio a secas, abalos e crises.
> É o Jaguadarte, rodeado de gramilvos, touvas e pintalouvas, momirratos que grilvam, ao se perderem da Educação.
> É o multum in parvo da UFRGS: no canto direito do décimo nono degrau da escadaria de concreto, indo de cima para baixo, numa noite chuvosa, ao final do terceiro turno, tropecei, caí e, em decúbito ventral, descobri o Aleph: esfera furta-cor, com diâmetro de dois a três centímetros, microcosmo de alquimistas e cabalistas, no qual vi, de uma vez só, todos os lugares do mundo de todos os ângulos. (E tornei a lá guardar.)
> É sempre a-traduzir Arquivo da Docência, do Currículo, da Didática, da Aula, da Pedagogia, das Licenciaturas.
> É o nosso bem e o nosso mal de dizer o que se quer, e diz, e não ficar só querendo dizer, e fim.
> É País da Leitura que implica o que passou e da Escritura que atualiza o que vai passando, para desmentir o fado do que passará.
> É composição heterogênea feita pelos três departamentos que, entrelaçados, implicam e transpiram múltiplas camadas de saberes e de humanidades.
> É Fantástico Tear onde, com os fios da Escrileitura, garatujamos, engruvinhamos, escrevinhamos, literaturamos.
> É a chegada de quem vem para realizar experimentações de si e a partida de quem vai, em carreira solo, transformado em Ou(t)ro.
> É a Barricada inexpugnável daquele que puxa aos seus e não degenera.
> É o Povo Facediano, que se reconhece como Dragão alado, realçado por sombras, ao se ver refletido nas íris de intraduzíveis janelas, que não foram feitas para abrir.
> É palavra de Gigantes, Elfos e Fadas Azuis, cujas vozes, há meio século, gritam, sussurram, tartamudeiam, rodam, cantam, dançam e batucam a Educação.
> É matilha de guerrilha de muitas gerações, que se deslumbram, se maravilham e se debulham de desejo por uma Docência digna.
> É sangue e ossatura das turbas da sala 101 (102?), em sua lava vermelha de combates.
> É o solo seguro dos perseguidos, o território dos despossuídos, a casa dos imigrantes, o transatlântico dos passantes, a areia movediça dos canalhas.
> É o uivo sempre doloroso da Polícia e um AMA portentoso lá para o lado do Túnel.
> É a Lua Lilás na luz branca da rua, para quem nunca é tarde demais e sempre é hora, ora.
> É pátio de recreio, vão do estacionamento, saguão das performances, terreno de danças circulares, caverna das distâncias mínimas, cena alegre dos encontros, cais rendilhado das caminhadas, linha para os protestos, margens da Reitoria, vertentes do Bar do Antonio, trilha certeira para o Centro.
> É o Bosque Encantado, salpicado de árvores que nos ensombrecem, afortunado por fumos e vapores d’água que formam carreirinhas de nuvens, bem alto, lá no céu.
> É afeto, dedicação e proteção, manifestos no Abraço ao prédio, repetido, no mínimo, 50 vezes.
> É uma casa tão abraçada e tão comprometida, que está sempre ocupada, eternamente preocupada e permanentemente de mãos dadas.
> É a Faculdade de nossas paixões, discussões, circulações, bem-quereres, desafetos, poesias pálidas, liras nulas, piscares do espírito, enxames de diálogos, súmulas de equívocos, ementas de náufragos, planos de conquistas.
> É cada letra, cada frase, cada parágrafo de cada página do roteiro de grande parte das nossas vidas.
> É a Mansão Pública de Fantasmas Imortais, Anjos de Quatro Asas, que se dirigem, ora ao Oriente ora ao Ocidente, ora ao Norte ora ao Sul, que não se esfumaram e por cá ficaram, recitando trechos de livros, flanando pelos corredores, participando de reuniões e aulas, na conclamação infinda de luta por uma Docência justa.
> É a Bola de Cristal que, num sorriso abissal, vê passar a vida de professora e nos dá vontade de nela quedar.
> É Ilha Imaginária que se movimenta sem ser vista, paisagem para além das paragens, folhas batendo ao vento de outono, lâminas líquidas de ideias.
> É Corvo Falante, vindo de milhas longínquas e de eras esquecidas, que carrega mensagens tidas por esmaecidas e que, nos parapeitos, deixa metáforas, analogias, sátiras e alegorias.
> É Prole e é o que menos valeria, se fosse cisco, mas é OVNI de vidro, sol e capricho, flor e fera, o não-mesmo feito sem ser a esmo.
> É a morada desmedida, transviada e não corrompida de todos aqueles que o mundo não nos surrupiou.
> É conotação bizarra, força infantil, surpreendente fantasia, traduzibilidade da matéria, lavra da data e beleza da Aula.
> É trabalho que não se reduz à emoção ou ao sentimento, é ofício que não se atribui ao acaso ou ao extravio da razão, é tarefa possível de pensar o impossível do pensamento. > É tudo o que acontece, à sombra, entre a FACED, a Rádio e a Arquitetura, é o churrasco do final de ano, o slam, os namoros, as combinações, o sentar atônito, uma temporada, um carinho num átimo, um fim e um começo, um encontro com Mestre Yoda (sussurrando Do. Or do not. There is no try), a confissão finalmente feita (Eu não queria ter visto Jon Snow matar Daenerys).
> É o que não afunda nessa maré putrefata porque a sua existência de meio século transborda em palavras de protesto e atos de rebelião, que positivam o que passageiramente dura e que decorre do desencanto defluído da lógica.
> É a encarnação do arquétipo feminino, de nome Educação, da qual todos reclamam e xingam, amam e odeiam, mas é dela que surgem.
> É Arca, na qual o professor-pesquisador guarda a recolha da matéria do mundo (i)mundo e a compartilha, ao pesquisar a vivacidade do estranho, traduzir o mágico da ficção, expressar o irracional da pensação.
> É o Basilisco que ataca a crueldade das armas e dos preconceitos que humilham, o farol nacionalista e fascista suspenso por um fio, a câmara fechada e ensanguentada do Barba Azul, a lama repugnante da barbárie revisitada, o asqueroso bailado dos acordos na Feira das Vaidades, o ritornelo envenenado que só desafina e nunca anima, a doutrina louca em ziguezague até calcinar o inabitável Labirinto do Ódio do abominável Mitonaro.
> É o que, por si só, nos choca e combina. Licenciatura em Filosofia. A Mestra fascinante. Especialização em Supervisão Escolar. Vila Jardim. Vila Bom Jesus. Vila Dique. Ilha Grande dos Marinheiros. Galpão das Mulheres Recicladoras. Alfabetização de Crianças, Jovens e Adultos. PUC. UNISINOS. Professora substituta. A dramática dos Estágios. Mimeógrafos. Polígrafos. Xerox. Livros. Celulares. As almas pater e mater do Pós, indo para espaços interestelares, cedo demais. O inigualável Amigo e insuperável Mestre. O grupo de tradução e de estudos Pós-Críticos. Estudos Culturais. Pua facediana nos PCNs. O DIF – artistagens, fabulações, variações, desde 2002. A sala 812. O Concurso. O Doutorado. O ingresso no multivaletudinário e pluripetálico Pós-Graduação em Educação. O BOP (Bando de Orientação e Pesquisa). Observatório da Educação: Escrileituras da diferença: um modo de ler-escrever em meio à vida. Projetos de Pesquisa e Extensão interinstitucionais. O DEC, sempre o DEC. A Didática, área preciosa e dadivosa. EIS AICE, o umbigo do sonho docente. A inesquecível primeira defesa da primeira orientanda. A doutoranda, brilhante herdeira. O pós-doutorando marcante. Enorme orgulho dos colegas de agora, ex-alunos e ex-orientandos. Uma comissão, duas comissões, três comissões. A COMPESQ. Corrupios em cargos administrativos. Delícia das campanhas eleitorais para Direção. Ave!!! A Portaria, sempre na sombra, na umidade e no frio. A Biblioteca, que queremos mais aberta. Cartazes em profusão. Sala para o DAFE. Caneta que o aluno pede emprestado, rói e devolve. No primeiro turno, com geada, palidez do estudante, de guitarra ao ombro, na banda até as 7. Alunos de Graduação, cobiçados para orientandos. Várias instalações, lançamentos, coquetéis, saraus, artistagens. Uma performance que choca e é censurada. Tantos seminários avançados e especiais, leituras dirigidas e práticas de pesquisa. Reuniões de orientação. Folhagens nos andares com patronos. Calçada da entrada, cujos desníveis e desvãos automatizamos, depois de n torções de tornozelo. O cheiro dos banheiros quando falta água no Prédio. Um salgado de gordura e amido, comido no elevador cheio, junto a um Capuccino cheiroso. O balcão da Secretaria para reclamar das salas de aula. Saudade dos dois elevadores velhos, que apreciavam nos deixar pendurados entre Cila e Caribde. A famosa cinquentenária e sempre operante Rádio Corredor. Hora da Comunidade. Quilométricas assembleias de Greve. Gabinetes de trabalho preferidos dos cupins. Um sapo enterrado debaixo do parquet. Incenso em alguns andares. Escaninhos adivinhos quase ao rés do chão. Formaturas e homenagens. Placas de prata. Brigas e amizades atravessadas. Móveis antigos, lindos, desmoronados, carunchados. Bolsinhas de tela azul, com chaves penduradas, que os trolls pegam e levam para casa. O crônico problema de wi-fi do oitavo andar. Uma memorável plenária de departamento, para disputa de vagas. Persiana despencada nas salas de aula e ar-condicionado pifado. Rede de Pesquisa Escrileituras da Diferença em Filosofia-Educação. Reuniões do Conselho da FACED. O espelho, os conceitos, o ritual, a torre dita de cristal, as listas, as chamadas, as viagens, os congressos, os relatórios, as prestações de contas, o nome do vento, a esperança do Departamento, o medo do sábio, o epitáfio: – A Vida é Van.
> É a instituição, na qual, após 47 anos, deixei de ser chamada Professora Ativa, para me tornar uma Arcanista.
> É o lugar que levo guardado no côncavo da mão e gravado no convexo da probidade, alegria e constância.
> É a chaminé de onde sairá o último sopro que dissolve o perigo da minha dissolvência de fio a pavio, do meu mais misterioso mistério, da mais difícil das minhas tarefas porque não pode não sê-la.
> É o Campanário dos meus Ares e Pesares, cheio de marcas, sinais, traços, ritmos, riscos, indícios, memórias, referências, eventos, sonhos, que durará para além da minha morte e que dará continuidade à minha vida, com a força da Sobrevida – que não deriva nem do viver nem do morrer, que é a vida mais intensa e, aliás, a única que existe.
> Ela é feita como o Amor: conhecemos, embora seja tão significativa, inventiva e esquiva, que não conseguimos prendê-la numa definição, que dirá num reles poemeto.
> É por isso que, para dela dizer Que será FACED?, não damos trégua nem à tinta nem ao papel, tampouco pousamos as penas.
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