Susana Kaingáng será a primeira doutora indígena da UFRGS

“História, luta e resistência impulsionam esta pesquisa, sobretudo pela urgência de demarcação desse território de produção e reprodução do saber institucionalizado e colonializado: a universidade”, explica Susana Kaingáng, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEDU). No dia 30 de junho, sexta-feira, às 14h, de forma híbrida na sala 701, ela defenderá a tese “Tra(n)çando caminhos: a história de vida de Andila Kaingáng” e será a primeira doutora indígena da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

 

Susana conta que nesse estudo, desenvolvido desde 2018, mostra que há carência de informações sobre o povo indígena Kaingang − que tradicionalmente vive nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo.  Por isso, o doutoramento aborda a educação escolar indígena a partir da voz e trajetória da mulher, educadora e liderança indígena Andila Kaingáng. “A história de sua vida é marcada pelo protagonismo no movimento indígena nacional desde os seus 17 anos, em prol da educação escolar do povo indígena Kaingáng”, resume, ao reafirmar que a trajetória de Andila pretende encorajar não apenas o universo acadêmico, mas todas as mulheres indígenas a superar práticas de silenciamento de segmentos da sociedade considerados historicamente marginalizados. “Andila é minha mãe, eu precisava registrar na academia a luta de uma mulher indígena, mulher do meu povo Kaingang. Em 1975 ela escreveu uma carta ao presidente da República, General Geisel, pedindo a retirada de posseiros da Terra Indígena Guarita, denunciando o arrendamento das terras indígenas. Naquela época quem arrendava era a FUNAI (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), hoje são as próprias lideranças Indígenas”.

 

Natural da Terra Indígena Carreteiro (RS), Susana atualmente reside em Chapecó, em Santa Catarina, pois, conforme conta a pesquisadora, ela e outras 30 famílias Kaingáng foram expulsas em um conflito que houve na Terra Indígena Serrinha (localizada na região Norte do Rio Grande do Sul e pertence aos municípios de Ronda Alta, Três Palmeiras, Constantino e Engenho Velho), em outubro de 2021, por denunciar o arrendamento em terra indígena. “A Justiça já determinou a reintegração, porém precisam providenciar a segurança para retorno. O Instituto Kaingáng tem o Ponto de Cultura Kanhgág Jãre, que é o primeiro ponto de cultura sediado em uma terra indígena no Brasil. Com a invasão no ponto de cultura perdemos equipamentos, nossas documentações, pesquisas, fruto de 21 anos de atuação. Só conseguimos as telas das nossas exposições e algumas publicações através de mandado de apreensão”.

Graduada em Direito pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), Susana tem mestrado em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e mestrado em Educação pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), ela também atua na prestação de Assessoria Jurídica à Organização Indígena Instituto Kaingáng (INKA) desde 2003. “Para os indígenas não se fala em educação, saúde, meio ambiente, sem falar em território. Andila participou da articulação pela implementação de ações afirmativas na UFRGS que possibilitassem o ingresso de estudantes indígenas, isso bem antes da criação da Lei de Cotas”, revela.

A defesa da tese de Susana também será transmitida no canal do youtube do Saberes Indígenas da UFRGS.  A banca examinadora será composta pela orientadora Magali Mendes de Menezes (UFRGS), a professora Maria Aparecida Bergamaschi (UFRGS), professor Bruno Ferreira (I.E.E.I. Ângelo Manhka Miguel), a professora Rita Gomes do Nascimento (Flacso)  também terá a participação da Chefe de Gabinete do Ministério dos Povos Indígenas, Joziléia Daniza Jagso Kaingang.

Legenda: Dona Iracema, Andila e Suzana kaingang na Ação Saberes Indígenas na Escola ( Crédito: Magali Menezes)
Legenda: Andila e Suzana kaingang, mãe e filha ( Crédito: Mari e Henrique Fotografias )