Supressão de campos e fragmentação
Todo ano são destruídos alguns milhares de hectares de campo nativo para se tornarem grandes extensões de monoculturas agrícolas (soja, milho e/ou arroz) ou silviculturas (pinus e/ou eucalipto). Essas culturas são responsáveis por reduzir a biodiversidade local e enfraquecer o solo, além de homogeneizar a paisagem. Com a diminuição das áreas campestres, também diminuem as áreas disponíveis de hábitats para as espécies que ali vivem, reduzindo o tamanho de suas populações e podendo causar extinções locais. Extinções locais são preocupantes, porque existem espécies que se desenvolvem apenas em condições muito específicas e acabam restritas a áreas muito pequenas, correndo o risco de desaparecerem com a supressão de campos. Nos Campos Sulinos há pelo menos 500 espécies catalogadas nessas condições.

Além da conversão dos campos nativos, outro problema que ameaça sua conservação é a fragmentação da sua vegetação, que ocorre quando há pequenas manchas de vegetação preservadas mas não conectadas entre si. Essas porções separadas de vegetação são desvantajosas para a manutenção da biodiversidade, pois geram muitas áreas de contato com o meio externo da área preservada. Por isso, as “bordas” das manchas de vegetação estão suscetíveis a diversos tipos de perturbações, como diferenças de temperatura, diferenças na umidade do solo e do ar, contaminação por agrotóxicos e a entrada de espécies invasoras. Além disso, também há o risco de isolamento geográfico de algumas espécies, visto que a dispersão de sementes entre uma mancha e outra pode ser irrealizável ou ocorrer de forma reduzida, levando populações ao declínio e/ou à extinção local.

Unidades de conservação
Os campos são poucos protegidos por Unidades de Conservação no Sul do Brasil, sendo a maioria das UCs destinada à preservação de florestas e banhados. Entre as poucas áreas campestres protegidas existentes estão a APA do Ibirapuitã, no RS, que abrange 224 mil hectares de áreas de campo, e o Parque Nacional dos Campos Gerais, no PR, que abrange 4,5 mil hectares de campos.
No estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, cerca de 2,58% das áreas de campos naturais existentes estão protegidas por unidades de conservação, um número muito irrisório que não é capaz de proteger a riqueza ecológica e genética desses ecossistemas.

Conservar para prover serviços ecossistêmicos
A preservação dos campos possibilita o bom funcionamento dos serviços ambientais. Mas o que isso quer dizer?
Os ecossistemas funcionam em equilíbrio. Para ilustrar, podemos pensar no seguinte exemplo: plantas campestres propiciam um hábitat favorável para a existência de insetos, que polinizam plantas cultivadas utilizadas na alimentação de seres humanos. Caso o degrau inicial desse ecossistema não estivesse presente, ocorreria um desequilíbrio que afetaria todo o ecossistema. Esse é um exemplo pontual, mas os serviços ambientais são tão grandiosos que é difícil precisar seu valor monetariamente. Sem eles, é impossível imaginar a vida na Terra.

Alguns exemplos de serviços ambientais prestados pelos campos são: a manutenção da qualidade hídrica, a produção de plantas forrageiras usadas como fonte de alimentação na pecuária, o controle da erosão do solo, a recarga do aquífero Guarani, a captação do carbono atmosférico por parte da vegetação, a redução das emissões de gases de efeito estufa, a ciclagem de nutrientes, a regulação do clima e o turismo ecológico.
Pecuária como aliada na conservação do campo nativo
O uso dos campos para a pecuária extensiva, realizada em grandes extensões de terra e com os animais pastando livremente no terreno, proporciona um aproveitamento harmonioso e sustentável das áreas nativas. Essa prática colabora com a preservação dos campos, desde que não haja excesso de carga animal pastejando no local e se realize um manejo adequado. O campo sem o manejo cresce de forma homogênea, o que diminui a diversidade de espécies de plantas.
Além disso, a atividade possui valor econômico por gerar renda e não necessitar de insumos externos, já que o gado pode se alimentar das gramíneas forrageiras campestres nativas. Veja mais sobre o tema em nossa página de distúrbios.

Referências:
[1] Unidades de Conservação e os Campos do Rio Grande do Sul. Thais Brandão1 , Rafael Trevisan2 e Rogério Both
[2] Pillar, V. D. P., & Lange, O. (Eds.). (2015). Os campos do sul. Porto Alegre/RS: Rede Campos Sulinos-UFRGS.