Ser drag sem ser queen

Wendell Cândido

O relato que estou a escrever é sobre a minha vivência enquanto drag king. No Rio de Janeiro, quando comecei a atuar em 2015, era difícil achar referências de maquiagens ou outras dicas de como transformar meu corpo com curvas, seios, em um corpo mais normativamente masculino, com mais pelos e barba. Foi quando me juntei ao coletivo Drag-se e seu canal no YouTube que começamos a criar tutoriais e conteúdos que também contemplavam os artistas drag kings, gerando maior visibilidade para tal prática artística.

Assim, fui entrando mais no ambiente drag e percebi o quanto precisávamos criar espaços habitados por kings. Os espetáculos eram majoritariamente feitos por drag queens, e eu, iniciante, não sentia que era capaz de me igualar a elas. Hoje em dia essa é uma ideia bastante atípica em minha mente, igualar-me a alguém.  Talvez a experiência tenha me feito notar que é pelas particularidades que ganhamos força. Ai…, a idade é uma dádiva, não é mesmo?

Neste espaço, quero partilhar histórias, a primeira delas é de quando me apresentei como drag king pela primeira vez. Fui convidado a fazer essa apresentação em uma das festas produzida pelo coletivo Drag-se, naquele momento, o grupo só tinha mais um king chamado Charlie Wayne, o encontro com ele foi importante para o meu despertar artístico, voltarei a esse ponto adiante.  

Minha persona é casada com a drag Tizi Nebulosa, artista e tatuadora fabulosa, convidei ela para se apresentar enquanto coadjuvante comigo na festa do Drag-se e ela aceitou. Dublamos “How can I go on” do cantor Fred Mercury, na versão onde ele canta juntamente com Montserrat Caballé, cantora lírica catalã. Foi realmente precioso, momento esse que recordarei até quando conseguir me lembrar (tenho costume de esquecer coisas). Temos uma química inegável, ambos com tendências ao drama, criamos uma conexão de tal forma que a boate nos olhava atentamente e apreciava de forma prazerosa o instante. Finalizamos a performance satisfeitos e felizes.

Wendell Cândido ser drag sem ser queen
Wendell Cândido e Tizi Nebulosa
Fonte: Arquivo Pessoal

O público aparentemente também estava contente com a atuação, começaram a parabenizar Tizi Nebulosa pelo trabalho, considerando que era ela a personagem principal da performance. Ninguém levou em conta que eu era o ator principal, afinal estão acostumados a verem Drag Queens em destaque na cena. Isso vai além do fato de quem era o principal ou coadjuvante, as pessoas nem chegaram a  falar comigo! Tizi ficou desconfortável, mas de forma gentil seguia repetindo que era a convidada e que o artista principal era eu, Wendell Cândido. Ela continuou me apresentando a todos que falavam com ela e, nesse instante, percebi que eu precisava atuar mais na cena drag.

As pessoas precisavam de mais referências drag kings na vida delas para terem outras perspectivas de atuação e performance.

Lembram-se que comentei do Charlie Wayne? Pronto! Chegou a hora de explicar como ele foi uma figura importante para o começo da minha carreira. Ele me despertou a vontade de atuar como drag king. Minha referência. Eu, assim como as pessoas presentes na minha primeira atuação só tinha referências de drag queens. Um dia assisti a performance do coletivo Drag-se, antes mesmo de pensar que poderia fazer parte do grupo. No palco estavam artistas maravilhosas em um show lindo, mas apenas um king, Charlie.

Aquela discrepância me fez pensar: por que apenas um King, o único King? Questionando sobre essa situação junto a um amigo, surgiu a colocação que me fez começar a atuar. A frase foi: “Bicha, ao invés da senhora ficar reclamando, vai lá e atua”. Bom… pensando bem, acho que foram duas pessoas que me fizeram começar a atuar: Charlie Wayne e esse meu amigo que foi ferozmente direto e desafiador!

Desde então, tive a oportunidade de performar em algumas boates internacionais e nesses seis anos que se passaram muitas coisas mudaram. Hoje, temos maior quantidade de artistas drag kings na ativa, criando projetos, coletivos, tutoriais, trocando experiências e ideias. Mas ainda assim, o espaço reservado nas boates para as nossas atuações é bem reduzido em relação às drag queens. Obviamente, dependendo do país em questão, o público consumidor de shows de drags tem maior conhecimento de quem são os drag kings, ou sabem o que eles representam para a comunidade LBTQIA+. Mas a caminhada ainda é longa e está para ser feita em conjunto.

Em vista do que eu disse até aqui, me parece que abrir espaços para além dos que nós mesmos habitamos, é de importância infinita. Acredito que é através dessa construção de espaços seguros, de afeto e crença nas coisas que saem do que já nos é conhecido que surgem grandes artistas, grandes propostas e grandes experiências.

É pensando nisso que  pretendo fazer desse espaço de expressão, um diário-afetivo-instrutivo de experiências e discussões sobre como nós podemos alimentar nossos artistas e nossas mentes de coisas novas, para além do já estabelecido.

No nosso próximo encontro, vou compartilhar com vocês um pouco da história do surgimento dos drag kings no mundo e indicar o trabalho de alguns deles. Dentre esses, tive o prazer de trabalhar com alguns e, com outros, sigo trabalhando até hoje.

Beijos de paixão e até já!

3 respostas para “Ser drag sem ser queen”

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