Grafia Drag, 3º ano: a herança das montações

Profª Luná Maldita (Douglas Ostruca)

São três anos desde a inauguração do Grafia Drag como projeto de extensão na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. De lá para cá, tornamo-nos um coletivo composto por pessoas de diferentes regiões do Brasil, um grupo atuante na produção escritural de ensaios e entrevistas em conexão com as cenas drag e transformistas. Além de publicar 68 textos, já realizamos três rodas de conversa sobre a arte da montação, incentivando a troca de saberes entre artistas de diferentes gerações.

Neste ano, nosso núcleo de produções foi integrado por: Anubis Blackwood, Bruno Arthur Voss Bernardy, Juana Profunda, Kam Middle Space, Lady Lazzarus, Marcos Moraes, Mia The Witch, Persephone Ephemera Pepper , Pietro Lamarca, Professora Luná Maldita eTiffany Plazza. Também tivemos contribuições de Dara Deon, Giselle, Christy Moon e Miss Dangerr.

Ao longo dos últimos 12 meses, foram 20 textos, dos quais 15 são ensaios e 5, entrevistas. Também realizamos, em parceria com o espaço Zona Cultural, a primeira exibição pública do registro do espetáculo “Mulheres do Pau Brasil” (1991), dirigido por Zé Adão Barbosa e Mário Maya, seguida por uma roda de conversa com Gloria Crystal, Everton Barreto e Lauro Ramalho.

Dandara Rangel Grafia Drag
Dandara Rangel no espetáculo “Mulheres do Pau Brasil” (Dir. Zé Adão Barbosa e Mario Maya A1991).
Recuperação de imagem com IA: Guilherme Bressan.

Entre as linhas escriturais dos textos publicados entre outubro de 2023 e outubro de 2024, além de seguirmos partilhando os trajetos e as trajetórias dos processos de montação, seguimos comprometidos com a abordagem das gongações críticas e com a consolidação coletiva das memórias da montação. Ademais, localizamos uma nova vertente com textos conectados às pesquisas acadêmicas, dando a ver traços de composição do que se mostra uma ciência drag. A seguir, desdobramos cada um desses tópicos.

Gongação crítica: “a biblioteca está aberta”

Uma das vertentes de escrita que continua presente é aquela que promove problematizações sobre as desigualdades e preconceitos reproduzidos nas próprias cenas drag e transformistas. Nomeamos essa perspectiva de gongação crítica, a qual torna evidentes aspectos que precisam ser transformados para que nossos territórios se tornem mais acolhedores e abertos às expressões artísticas heterogêneas. Por essa via, Lady Lazzarus analisa a primeira edição do reality show Drag Race Brasil, considerando que, embora seja importante para fomentar a cena local, o programa acaba por valorizar as estéticas de montação que tendem a se aproximar dos moldes norte-americanos. Já Lorde Lazzarus discute os desafios enfrentados pelos drag kings na cena drag, ressaltando que a reprodução do machismo nesses territórios é responsável pelo apagamento de tais montações.

Em seus escritos, Anubis Blackwood chama a atenção para a ascensão dos movimentos conservadores que tomam como alvo a censura da arte drag, partilhando a luta travada em sua própria cidade. Também tratando da cena local, Giselle aborda os desafios de se inserir na cena drag de Porto Alegre, afirmando a necessidade de mais espaço e oportunidades para novas artistas. Outro texto que apresenta um olhar crítico contundente é o de Miss Dangerr, que problematiza o consumismo exacerbado tão recorrente nos processos de montação drag. Em alternativa, a artista propõe práticas de reutilização de figurinos, destacando a necessidade de se quebrar com o decoro burguês que sugere não repetir looks.

Uma ciência drag: entre os palcos e a academia

Seguindo os passos da transformista Laura de Vison e da drag queen Rita Von Hunty, as drag professoras e pesquisadoras passam a ocupar cada vez mais espaço nas universidades. Com isso, os saberes drag e transformistas passam a ser produzidos pelas próprias artistas, que deixam de ser mero objeto de pesquisa para tornarem-se vozes ativas, levando para os espaços acadêmicos as potências da gongação crítica. Nesse grupo de textos voltados para o desdobramento de pesquisas, Kam Middle Space reflete sobre como a arte drag funciona como ferramenta de autoconhecimento e expressão corporal

Já Persephone Ephemera Pepper investiga o uso de terminologias de gênero na arte drag, buscando uma desconstrução crítica. Em outro texto, a artista trabalha o que chama de “pedagogias drag”, descrevendo suas oficinas e enfatizando a formação de novas artistas. Bruno Arthur Voss Bernardy retoma seu trabalho de conclusão de curso, em que estuda a trajetória da drag queen Cassandra Calabouço. Em sua contribuição, Douglas Ostruca apresenta o primeiro capítulo de sua tese, a qual investiga a cena transformista de Porto Alegre a partir de uma perspectiva micropolítica das montações.

Trajetos e Trajetórias: os processos de montação 

Os textos que abordam questões sobre os processos de montação são recorrentes no Grafia Drag desde as primeiras publicações. Nessa linha, Christy Moon relata sua jornada na arte drag, destacando a evolução de sua persona e a inspiração que encontra nas fases da lua. Mia The Witch compartilha suas referências para a construção de sua expressão drag, destacando a influência de ícones do punk e do glam rock.

Tiffany Plazza fala de suas inspirações no grotesco para compor-se como uma drag monstra. Em seu ensaio, Dara Deon descreve a criação de sua peça “Eu, Chromática”, a qual apresenta seu início com a montação drag, incluindo as referências musicais e estéticas. Ainda nesse conjunto de textos, Juana Profunda discute a implementação do Registro Profissional (DRT) para artistas drag em Curitiba, sublinhando que esse movimento é um marco na valorização e regulamentação da profissão.

 Entrevistas: a herança das montações

Neste terceiro ciclo do Grafia Drag, houve aumento do número de entrevistas, as quais se mostram relevantes na partilha das trajetórias e experiências de artistas que compõem as cenas drag e transformistas. Essa é uma forma de recompor memórias, criando uma teia de narrativas que funciona como herança coletiva dos saberes da montação que são vivenciados nos corpos.

Entre as entrevistadas esteve Ikaro Kadoshi, que, em conversa com Pietro Lamarca, menciona os desafios e as oportunidades no mercado drag contemporâneo. Já nas respostas de Brigitte Liberté para Lady Lazzarus, a drag themônia de Belém do Pará fala de seu projeto artivista de vertente feminista, ressaltando a luta das mulheres por mais espaço na arte drag. Além disso, Liberté tensiona as cenas drag do Sul e Sudeste por reproduzirem em demasia os modelos norte-americanos.

A professora Maldita também trouxe a público duas entrevistas com artistas da cena drag e transformista gaúcha. A primeira foi com Cassandra Calabouço, na qual a artista trata de sua trajetória artística, considerando as transformações em sua trajetória pessoal a partir do encontro com a arte da montação. A segunda foi com Everton Barreto, que, além de contar como Lady Cibele aconteceu em sua vida, também ressalta a importância de se valorizar a história de artistas que vieram antes.

Por fim, incluímos no conjunto de textos publicados uma tradução da entrevista dada pelo coletivo Grafia Drag para a revista americana Canvas, onde abordamos a importância da coletividade na construção de conhecimento sobre a arte drag.

Um brinde aos porvires

Pelo trajeto realizado coletivamente até aqui, percebemos que se mantêm as propostas de pensar criticamente os contextos em que estamos inserides. A partir de nossas vivências, complexificamos as compreensões sobre o fenômeno drag e transformista. Evidenciamos que, mesmo em territórios majoritariamente compostos por grupos minoritários, ocorrem reproduções de relações de poder, as quais precisam ser tensionadas e transformadas. Além disso, com as partilhas sobre os processos de montação e as entrevistas, jogamos luz sobre as trajetórias artísticas e memórias provindas das experiências drag e transformistas.

Uma das novidades deste último ano é a consolidação de textos que apresentam conexão direta com pesquisas acadêmicas desenvolvidas nas universidades. Essa vertente demonstra a ocupação dos espaços de produção de conhecimento por saberes subalternos que carregam a potência de tensionar os regimes de verdade que imperam no meio acadêmico.

Para o futuro, além de seguir investindo nos olhares críticos e propositivos, desejamos dar continuidade à realização de rodas de conversa públicas, trazendo para o debate artistas de diferentes gerações. Gostaríamos também de estabelecer mais parcerias com drags e transformistas das regiões Norte e Nordeste, buscando pistas e inspirações para decolonizar as montações no Sul. Encerramos com um brinde à herança de nossas ancestrais e com a aposta em uma perspectiva abrangente sobre a arte da montação, aberta às expressões heterogêneas e às possibilidades de montação ainda desconhecidas que habitam o porvir.

Jaleco e batom: uma jornada de drag, ciência, saúde e autodescoberta

Kam Middle Space

PRAZER!

Sou Kam Middle Space, uma criação de Lincoln Marques Cavalcante Santos. Permitam-me apresentar a pessoa por trás desse nome. Sou um homem cisgênero, homossexual, nascido em Aracaju, Sergipe, Brasil. Sou farmacêutico, embarcando em uma jornada como doutorando na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo, sempre em busca de aprofundar meus conhecimentos e contribuir para a ciência brasileira. Além disso, encontro inspiração nas artes e no design gráfico, explorando minha criatividade e expressão. Como um autêntico geminiano, abraço todas essas facetas com entusiasmo e curiosidade, sempre buscando desafiar as fronteiras do que posso conquistar. Nesta jornada, descobri uma das maiores fontes de alegria e realização ao me tornar uma drag queen, abraçando a beleza do meu eu autêntico. Através desta publicação, pretendo compartilhar minhas experiências e aprendizados com a Kam Middle na ocupação de espaços variados, transitando entre a ciência, a saúde e os palcos. Te convido a explorar esse mundo e auxiliar na construção de uma sociedade mais aberta e acolhedora onde todes podem brilhar em suas verdadeiras cores.

Kam Middle Space jaleco e batom
Kam Middle Space
Fonte: Arquivo pessoal

A arte drag é uma forma de expressão artística que transcende as fronteiras tradicionais de gênero, empoderando indivíduos a explorar e celebrar sua identidade de forma criativa e sem restrições. No palco, a drag assume uma persona única, muitas vezes extravagante, que vai além das normas de gênero impostas pela sociedade. O cerne dessa arte está na desconstrução e reconstrução da identidade de gênero, desafiando as noções preestabelecidas sobre feminilidade e masculinidade, e redefinindo o que significa ser uma mulher e/ou um homem. Com a arte drag, celebramos a fluidez, a ambiguidade e a diversidade de gênero.

Devido suas multifaces de expressão, a drag possui um potencial de inserção em diversos ambientes. Nos palcos, encantamos audiências com performances que vão da dublagem, a dança até a atuação. Nas redes sociais, encontramos plataformas online para compartilhar tutoriais de maquiagem, moda e discursos de capacitação, alcançando uma audiência global. Para além disso, a arte drag tem se mostrado valiosa em ambientes acadêmicos, permitindo que drag queens como Rita von Hunty e eu, Kam Middle, levem assuntos mais sérios, a exemplo da representatividade LGBTQIAPN+, para as universidades e outros espaços de aprendizado. Essa capacidade de se adaptar e florescer em diferentes cenários é o que torna a arte drag transformadora, questionando a figura provedora da prática docente e possibilitando uma conexão genuína com públicos variados.

Apesar dos avanços recentes, o meio acadêmico permanece engessado em sua estrutura tradicional. As universidades tendem a ser conservadoras em relação à diversidade de gênero e sexualidade, criando um ambiente onde a representatividade LGBTQIAPN+ em cargos de destaque é escassa. Essa falta de inclusão pode ser desencorajadora para estudantes e profissionais LGBTQIAPN+, dificultando a identificação de mentores que sejam referências para eles. Tal realidade coloca em evidência a necessidade de mudanças, de maneira que as instituições acadêmicas se tornem mais inclusivas, acolhedoras e representativas, proporcionando um ambiente igualitário para todes.

No campo da saúde, a representatividade LGBTQIAPN+ é crucial para promover uma assistência mais sensível e inclusiva. Historicamente, essa comunidade enfrentou barreiras significativas no acesso a cuidados de saúde adequados, em sua maioria devido ao estigma e à discriminação. É fundamental que profissionais de saúde, no qual me incluo como farmacêutico, estejam cientes das especificidades das necessidades e desafios enfrentados por pessoas LGBTQIAPN+, sendo aliados na busca por uma assistência equitativa. O farmacêutico desempenha um papel social essencial, não apenas como fornecedor de medicamentos, mas também como educador e defensor da saúde. Ao criar um ambiente acolhedor e seguro para pacientes LGBTQIAPN+, o farmacêutico desempenha uma importante missão na prevenção, promoção e recuperação da saúde dessa comunidade. Essa atuação empática e inclusiva está profundamente ligada às habilidades de comunicação essenciais para a pulverização de práticas seguras em saúde e elucidação da função dos cientistas.

Kam Middle Space Jaleco e Batom
Kam Middle Space
Fonte: Arquivo pessoal

É nas habilidades de comunicação onde encontro a fusão da ciência, saúde e arte drag. Parafraseando a teoria da comunicação… a identidade, a credibilidade e a autenticidade do emissor desempenham um papel crucial na forma como a mensagem é recebida. Um cientista, por exemplo, traz consigo a autoridade e a expertise na sua área de pesquisa, o que pode conferir credibilidade e confiança à mensagem que está sendo comunicada. No entanto, é essencial que o cientista também possua a habilidade de traduzir termos complexos em linguagem acessível ao público, evitando linguagem técnica. Por outro lado, uma drag queen utiliza a arte e a performance para transmitir sua mensagem, conectando-se emocionalmente com o público e provocando reflexões sobre questões sociais e culturais. Já o profissional de saúde, busca a empatia e a sensibilidade para comunicar informações sobre tratamentos e cuidados em saúde. Em todos os casos, o processo de transmissão de mensagem se torna uma dança delicada entre o emissor e o público desejado, podendo inspirar uma mudança positiva em suas respectivas esferas de atuação. 

Partindo de uma perspectiva pessoal, a arte drag tem conquistado novos espaços no meio acadêmico à medida que a comunicação efetiva se torna um veículo importante para a desconstrução de preconceitos e para a divulgação de conhecimento científico. Desde a criação da Kam Middle durante meu mestrado em maio de 2022, tenho recebido grande apoio e a aceitação de estudantes, professores e outros profissionais na Universidade de São Paulo. Apesar do engessamento mencionado, a comunidade acadêmica tem mostrado uma notável disposição em abraçar a diversidade e a autenticidade, reconhecendo a importância da arte drag como uma forma de expressão e ativismo. 

Assumo que tal aceitação seja devido ao papel impulsionador significativo dos cientistas. A ciência, com sua busca contínua pelo respeito à evidência, tem inspirado uma mentalidade mais aberta e inclusiva, resultando em um ambiente universitário onde artistas drag podem ser vistos e celebrados como agentes de mudança social e cultural. Essa recepção calorosa tem me proporcionado a oportunidade de compartilhar minha história, minha arte e minhas perspectivas com um público mais amplo, fortalecendo a conexão entre a arte e a academia, e tornando a Universidade de São Paulo um espaço acolhedor e enriquecedor para todas as formas de expressão.

Apesar dos recentes progressos na comunidade acadêmica, é importante questionar como a arte drag é percebida pela sociedade brasileira como um todo. Ainda existem desafios significativos a serem enfrentados, uma vez que a sociedade, de maneira geral, possui visões preconceituosas e estereotipadas sobre a arte drag e a diversidade de expressão de gênero. Ainda há muito trabalho a ser feito para promover uma compreensão genuína sobre essa forma de arte, bem como para combater a discriminação que muitos artistas drag enfrentam.

Assim, finalizo esta publicação propondo a seguinte reflexão: será possível alcançar a aceitação da arte drag como parte valiosa e vibrante da nossa cultura?

Referências

LOURO, Guacira Lopes. Gênero e sexualidade: pedagogias contemporâneas. Proposições, v. 19, n. 2 (56), p. 17-23. 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pp/v19n2/a03v19n2.pdf 

LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho – ensaios sobre sexualidade e teoria queer. 1 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

AGRELI, Milene Soares. A inclusão da diversidade sexual na Universidade. Tese de Doutorado (Especialização em Psicologia). Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2017, 176f.

CAMPANA, Nathalia Sato. O ato político por trás da drag queen: desmontando o essencialismo dos gêneros. Dissertação de Mestrado (Especialização em Psicologia Social). Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017, 118f.

Como citar este texto

SPACE, Kam Middle. Jaleco e batom: uma jornada de drag, ciência, saúde e autodescoberta. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/jaleco-e-batom/(abrir em uma nova aba)>. Acesso em: 04. Set. 2023.