PRAZER!
Sou Kam Middle Space, uma criação de Lincoln Marques Cavalcante Santos. Permitam-me apresentar a pessoa por trás desse nome. Sou um homem cisgênero, homossexual, nascido em Aracaju, Sergipe, Brasil. Sou farmacêutico, embarcando em uma jornada como doutorando na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo, sempre em busca de aprofundar meus conhecimentos e contribuir para a ciência brasileira. Além disso, encontro inspiração nas artes e no design gráfico, explorando minha criatividade e expressão. Como um autêntico geminiano, abraço todas essas facetas com entusiasmo e curiosidade, sempre buscando desafiar as fronteiras do que posso conquistar. Nesta jornada, descobri uma das maiores fontes de alegria e realização ao me tornar uma drag queen, abraçando a beleza do meu eu autêntico. Através desta publicação, pretendo compartilhar minhas experiências e aprendizados com a Kam Middle na ocupação de espaços variados, transitando entre a ciência, a saúde e os palcos. Te convido a explorar esse mundo e auxiliar na construção de uma sociedade mais aberta e acolhedora onde todes podem brilhar em suas verdadeiras cores.

Fonte: Arquivo pessoal
A arte drag é uma forma de expressão artística que transcende as fronteiras tradicionais de gênero, empoderando indivíduos a explorar e celebrar sua identidade de forma criativa e sem restrições. No palco, a drag assume uma persona única, muitas vezes extravagante, que vai além das normas de gênero impostas pela sociedade. O cerne dessa arte está na desconstrução e reconstrução da identidade de gênero, desafiando as noções preestabelecidas sobre feminilidade e masculinidade, e redefinindo o que significa ser uma mulher e/ou um homem. Com a arte drag, celebramos a fluidez, a ambiguidade e a diversidade de gênero.
Devido suas multifaces de expressão, a drag possui um potencial de inserção em diversos ambientes. Nos palcos, encantamos audiências com performances que vão da dublagem, a dança até a atuação. Nas redes sociais, encontramos plataformas online para compartilhar tutoriais de maquiagem, moda e discursos de capacitação, alcançando uma audiência global. Para além disso, a arte drag tem se mostrado valiosa em ambientes acadêmicos, permitindo que drag queens como Rita von Hunty e eu, Kam Middle, levem assuntos mais sérios, a exemplo da representatividade LGBTQIAPN+, para as universidades e outros espaços de aprendizado. Essa capacidade de se adaptar e florescer em diferentes cenários é o que torna a arte drag transformadora, questionando a figura provedora da prática docente e possibilitando uma conexão genuína com públicos variados.
Apesar dos avanços recentes, o meio acadêmico permanece engessado em sua estrutura tradicional. As universidades tendem a ser conservadoras em relação à diversidade de gênero e sexualidade, criando um ambiente onde a representatividade LGBTQIAPN+ em cargos de destaque é escassa. Essa falta de inclusão pode ser desencorajadora para estudantes e profissionais LGBTQIAPN+, dificultando a identificação de mentores que sejam referências para eles. Tal realidade coloca em evidência a necessidade de mudanças, de maneira que as instituições acadêmicas se tornem mais inclusivas, acolhedoras e representativas, proporcionando um ambiente igualitário para todes.
No campo da saúde, a representatividade LGBTQIAPN+ é crucial para promover uma assistência mais sensível e inclusiva. Historicamente, essa comunidade enfrentou barreiras significativas no acesso a cuidados de saúde adequados, em sua maioria devido ao estigma e à discriminação. É fundamental que profissionais de saúde, no qual me incluo como farmacêutico, estejam cientes das especificidades das necessidades e desafios enfrentados por pessoas LGBTQIAPN+, sendo aliados na busca por uma assistência equitativa. O farmacêutico desempenha um papel social essencial, não apenas como fornecedor de medicamentos, mas também como educador e defensor da saúde. Ao criar um ambiente acolhedor e seguro para pacientes LGBTQIAPN+, o farmacêutico desempenha uma importante missão na prevenção, promoção e recuperação da saúde dessa comunidade. Essa atuação empática e inclusiva está profundamente ligada às habilidades de comunicação essenciais para a pulverização de práticas seguras em saúde e elucidação da função dos cientistas.

Fonte: Arquivo pessoal
É nas habilidades de comunicação onde encontro a fusão da ciência, saúde e arte drag. Parafraseando a teoria da comunicação… a identidade, a credibilidade e a autenticidade do emissor desempenham um papel crucial na forma como a mensagem é recebida. Um cientista, por exemplo, traz consigo a autoridade e a expertise na sua área de pesquisa, o que pode conferir credibilidade e confiança à mensagem que está sendo comunicada. No entanto, é essencial que o cientista também possua a habilidade de traduzir termos complexos em linguagem acessível ao público, evitando linguagem técnica. Por outro lado, uma drag queen utiliza a arte e a performance para transmitir sua mensagem, conectando-se emocionalmente com o público e provocando reflexões sobre questões sociais e culturais. Já o profissional de saúde, busca a empatia e a sensibilidade para comunicar informações sobre tratamentos e cuidados em saúde. Em todos os casos, o processo de transmissão de mensagem se torna uma dança delicada entre o emissor e o público desejado, podendo inspirar uma mudança positiva em suas respectivas esferas de atuação.
Partindo de uma perspectiva pessoal, a arte drag tem conquistado novos espaços no meio acadêmico à medida que a comunicação efetiva se torna um veículo importante para a desconstrução de preconceitos e para a divulgação de conhecimento científico. Desde a criação da Kam Middle durante meu mestrado em maio de 2022, tenho recebido grande apoio e a aceitação de estudantes, professores e outros profissionais na Universidade de São Paulo. Apesar do engessamento mencionado, a comunidade acadêmica tem mostrado uma notável disposição em abraçar a diversidade e a autenticidade, reconhecendo a importância da arte drag como uma forma de expressão e ativismo.
Assumo que tal aceitação seja devido ao papel impulsionador significativo dos cientistas. A ciência, com sua busca contínua pelo respeito à evidência, tem inspirado uma mentalidade mais aberta e inclusiva, resultando em um ambiente universitário onde artistas drag podem ser vistos e celebrados como agentes de mudança social e cultural. Essa recepção calorosa tem me proporcionado a oportunidade de compartilhar minha história, minha arte e minhas perspectivas com um público mais amplo, fortalecendo a conexão entre a arte e a academia, e tornando a Universidade de São Paulo um espaço acolhedor e enriquecedor para todas as formas de expressão.
Apesar dos recentes progressos na comunidade acadêmica, é importante questionar como a arte drag é percebida pela sociedade brasileira como um todo. Ainda existem desafios significativos a serem enfrentados, uma vez que a sociedade, de maneira geral, possui visões preconceituosas e estereotipadas sobre a arte drag e a diversidade de expressão de gênero. Ainda há muito trabalho a ser feito para promover uma compreensão genuína sobre essa forma de arte, bem como para combater a discriminação que muitos artistas drag enfrentam.
Assim, finalizo esta publicação propondo a seguinte reflexão: será possível alcançar a aceitação da arte drag como parte valiosa e vibrante da nossa cultura?
Referências
LOURO, Guacira Lopes. Gênero e sexualidade: pedagogias contemporâneas. Proposições, v. 19, n. 2 (56), p. 17-23. 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pp/v19n2/a03v19n2.pdf
LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho – ensaios sobre sexualidade e teoria queer. 1 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
AGRELI, Milene Soares. A inclusão da diversidade sexual na Universidade. Tese de Doutorado (Especialização em Psicologia). Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2017, 176f.
CAMPANA, Nathalia Sato. O ato político por trás da drag queen: desmontando o essencialismo dos gêneros. Dissertação de Mestrado (Especialização em Psicologia Social). Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017, 118f.
Como citar este texto
SPACE, Kam Middle. Jaleco e batom: uma jornada de drag, ciência, saúde e autodescoberta. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/jaleco-e-batom/(abrir em uma nova aba)>. Acesso em: 04. Set. 2023.

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